SETE ANJOS CRIADORES

Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.

Capítulo II: Os Sete Anjos Criadores

O mito dos sete anjos criadores, que os gnósticos também chamavam de Arcontes e frequentemente associavam aos sete planetas, tem conexões essenciais com a história do cristianismo, sendo sua ligação com a astrologia acidental e secundária.

1. Os “Poderes” no Novo Testamento

Segundo os autores do Novo Testamento, particularmente Paulo, o mundo é dominado por “poderes” que são representados como maus ou, pelo menos, ignorantes, e que foram vencidos pela crucificação de Cristo.

A concepção de que o mundo é dominado por forças visíveis e invisíveis mais más do que boas está presente nos escritores do Novo Testamento, e sua importância e vínculo essencial com a teologia de Paulo e João são frequentemente subestimados.

2. A Origem desta Concepção

O judaísmo basta para explicar a ideia dos poderes ou anjos governando as coisas do mundo, e o cristianismo basta para explicar como esses poderes ou anjos puderam ser considerados maus ou, pelo menos, ignorantes.

O judaísmo, no entanto, não pode explicar o caráter mau ou a cegueira dos anjos, pois mesmo na apocalíptica judaica não se encontram geralmente anjos maus governando o mundo, e os demônios não dominam o mundo inteiro.

Para Paulo, os governantes são ignorantes porque não conheceram a sabedoria de Deus, e é a crucificação que demonstra a cegueira dos governantes, pois se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória.

3. Transição para o Mito dos Anjos Criadores

O que não se encontra em Paulo, em João ou no cristianismo não herético é a ideia de que os anjos criaram o mundo, pois os anjos governam o mundo desde o princípio, mas não o criaram.

Na Epístola aos Colossenses, quando Paulo (ou pseudo-Paulo) se opõe a um culto dos anjos, não se pode tratar de uma forma de gnosticismo, mas sim da prática da Lei.

Embora Paulo nunca tenha considerado o Deus do Gênesis um anjo, a crítica da Lei como dada por anjos preparou o terreno para colocar o Deus da Lei e, consequentemente, o Deus do Gênesis no mesmo nível que os anjos.

4. Transição para o Mito dos Sete

O mito gnóstico dos sete anjos criadores pode ser explicado, em grande medida, pela oposição ao judaísmo, pois o número sete era o número sagrado no judaísmo por causa dos dias da criação e do shabat.

É possível que Saturnilo já tivesse ligado seus sete criadores aos planetas, e isso se explica porque os poderes que representavam os sete dias da criação (e depois da semana) puderam ser facilmente assimilados aos planetas cujos nomes os sete dias então passaram a ter.

Os Arcontes gnósticos não eram primariamente os planetas, mas correspondiam a eles porque representavam os sete dias da criação, que eram também os da semana, e, simbolizando a Criação, simbolizavam o mundo que Cristo venceu.

Apêndice: Possíveis Objeções

Várias objeções à hipótese da origem cristã do mito dos sete anjos criadores podem ser antecipadas e respondidas com base nas evidências textuais e históricas disponíveis.