XXI. Carpocrates, tal como Saturnilo e Basilides, sustentava a existência de
anjos criadores e colocava o Deus do
Antigo Testamento entre eles — identificável no “primeiro dos
anjos criadores,” o “arconte,” o “juiz” de
Irineu (I, 25, 4); seu antijudaísmo é mais pronunciado que o de Basilides e próximo do de Saturnilo.
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Carpocrates — gnóstico que transforma o cristianismo em filosofia grega tanto quanto possível; seus discípulos associaram a imagem de Cristo às de Pitágoras, Platão e Aristóteles; parece admitir a preexistência das almas, sendo mais platonista ou pitagórico que aristotélico.
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Para Carpocrates, a salvação se dá pela fé à qual se une a caridade; há vínculos suficientes com os dois discípulos de Menandro para supor que depende da escola deles, provavelmente por intermediação de Basilides.
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XXII.
Valentino, impregnado de platonismo, continua a linha de Basilides mais do que a de Carpocrates, atenuando ainda mais a tendência antijudaica de Saturnilo e constituindo uma reação contra o antinomismo excessivo de Saturnilo, Carpocrates,
Marcion e mesmo de Basilides.
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XXIII. O motivo mais importante da reação valentiniana contra os excessos do antijudaísmo e da atitude anticósmica foi provavelmente o desejo de um acordo mais amplo com o Novo Testamento como um todo, e os gnósticos a partir de
Marcion e
Valentino podiam ser conscientes da necessidade de escolher entre suprimir certas passagens do Novo Testamento ou fazer uma separação menor entre Deus e o Demiurgo.
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Marcion — optou por suprimir passagens, julgando que eram obra de discípulos que não compreenderam bem
Jesus ou Paulo e que reforçaram os elementos judaicos no cristianismo.
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Valentino — optou por atenuar a separação desenvolvendo a teoria das emanações e o mito de Sophia, já presente em Basilides.
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Primeira Carta aos Coríntios 1-4 — texto em que Paulo fala da “Sabedoria humana” ou “Sabedoria do mundo”;
Valentino assimila Sophia a essa sabedoria, diferentemente de Basilides que a assimilava à Sabedoria-Cristo de 1 Cor 1,24.
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Para
Valentino, Sophia, ao desejar conhecer Deus diretamente sem mediador, deu origem a uma falsa imagem de Deus — o Demiurgo, que é essa falsa imagem mas ainda assim uma imagem de Deus; e o verdadeiro Deus só pode ser compreendido pelo Mediador, ou seja, pela separação que é a cruz.
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XXIV. As doutrinas chamadas barbelognóstica, setiana,
ofita e outras semelhantes são pós-valentinianas e não a fonte do valentinianismo — posição contrária à de
Irineu,
Hipólito no Syntagma, Hilgenfeld, Bousset e outros.
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XXV. O Apócrifo de João — possivelmente a mais antiga obra barbelognóstica ou setiana conhecida — é posterior ao primeiro discípulo de
Valentino, como demonstra um estudo cuidadoso do tema dos “quatro iluminadores,” que pode ser quase inteiramente explicado a partir de uma teoria encontrada entre os primeiros discípulos de
Valentino.
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Heracleon e Ptolemeu — primeiros discípulos de
Valentino em cuja doutrina se encontra a teoria que permite explicar o tema dos quatro iluminadores do Apócrifo de João.
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XXVI. Se o autor do Apócrifo de João usa uma teoria valentiniana, tanto mais tiraria do valentinianismo o mito de Sophia e quase todo o resto de sua doutrina, o que permite concluir que o cristianismo nessa obra não é “secundário” mas original; o mesmo vale para as outras obras sethianas e
ofitas que dependem do Apócrifo de João.
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XXVII. As obras herméticas que podem ser consideradas gnósticas também não são desprovidas de traços que poderiam derivar do gnosticismo cristão, e particularmente do valentinianismo, o que sugere que as chamadas gnoses pagãs poderiam depender da gnose cristã e não o contrário.
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Poimandres — possivelmente a mais antiga das obras herméticas de inspiração gnóstica; provavelmente não é anterior ao aparecimento do gnosticismo cristão.
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Corpus Hermeticum, tratado XIII — onde os traços de influência cristã são ainda mais facilmente identificáveis.
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A Ogdóade e a Enéada — tratado hermético que revela que a religião de alguns hermetistas não era puramente especulativa, podendo incluir um culto com características próximas ao cristianismo.
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Numênio — filósofo médio-platônico cujo médio-platonismo e o neoplatonismo podem também ter recebido algo do gnosticismo e especialmente do valentinianismo.
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Oráculos Caldeus — mencionados por M.
Tardieu na conferência de Yale como possível exemplo de dependência em relação ao valentinianismo.
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XXVIII. O maniqueísmo derivou fundamentalmente do gnosticismo cristão, embora
Mani quisesse unir o mazdeísmo e o budismo ao seu cristianismo, construindo sua doutrina principalmente sob a inspiração de Paulo e de
Marcion.
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Mani — fundador do maniqueísmo, criado numa seita judeu-cristã à qual se opôs recorrendo a textos cristãos.
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XXIX. O mandeísmo assemelha-se a uma mistura de judeo-cristianismo e gnosticismo, e embora os mandeus considerem o cristianismo um inimigo, parecem ter herdado simultaneamente os dois principais ramos da heterodoxia cristã primitiva: o judeo-cristianismo em seus ritos batismais e certos pontos de sua moral; o gnosticismo cristão em seus mitos e em sua atitude em relação ao mundo.
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Elkesaítas — seita judeo-cristã estabelecida no início do século III nos mesmos lugares em que os mandeus aparecem mais tarde; seus ritos batismais eram em grande parte os mesmos dos mandeus, e suas regras de casamento coincidem com a moral mandeia.
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Quispel — estudioso que sustenta a origem judeo-cristã dos ritos mandeanos.
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Cullmann e Rudolph — estudiosos que sustentam uma gnose judaica pré-cristã como origem do mandeísmo, hipótese considerada menos provável.
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Pedersen — estudioso com quem se partilha a suposição de que os mandeus foram originariamente uma seita cristã.
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Puech — estudioso que demonstrou que os audianos de Edessa conheciam o Apócrifo de João no século IV.
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S. Pines — estudioso que descobriu um documento judeo-cristão num manuscrito árabe mostrando que, após deixar Jerusalém por volta do tempo do cerco, os judeo-cristãos passaram por Haran.
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Lidzbarski e Rudolph — estudiosos que derivam o mandeísmo do judaísmo; a hipótese de uma origem cristã é considerada igualmente defensável e mais provável.
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O “Cristo Romano” — isto é, o Cristo pregado pelo Império Bizantino — aparece nos textos mandeanos como um opressor, o que poderia explicar por que os mandeus se distanciaram do cristianismo a ponto de o retratarem como inimigo.
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XXX. Segundo excursus: Dositeu, venerado pela seita dositeana — entre quem, segundo Teodoro bar Konai, estavam os mandeus — pode não ter sido um herético samaritano como normalmente se supõe, mas sim um nome dado a Cristo por certos cristãos samaritanos.
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Dositeu — nome que significa “dom de Deus” (dosis theou), possivelmente dado a Cristo por cristãos samaritanos que aguardavam o profeta prometido em
Deuteronômio 18:15.
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Teodoro bar Konai — escritor sírio cujas informações vinculam os mandeus à seita dositeana.
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Epifânio,
Orígenes e Eusébio — fontes que atestam que, para os samaritanos, Dositeu era Cristo.
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Pseudo-Clementinas — obra judeo-cristã em que Dositeu é apresentado como discípulo de João Batista e seu sucessor, antes de ser suplantado por Simão — frequentemente retratado como Paulo nas Pseudo-Clementinas.
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Hegesipo — escritor que parece colocar os dositeanos entre os hereges cristãos, na transição entre as heresias judaicas e as cristãs.
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Kippenburg e Isser — estudiosos cujas pesquisas recentes indicam que Dositeu deve ter sido quase contemporâneo de Cristo.
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Três Estelas de Seth — obra de Nag Hammadi que menciona um Dositeu descrito como revelador vindo nos últimos tempos, que compreendeu a antiga revelação de Seth e a ensinou aos eleitos; se a obra é de proveniência cristã, esse revelador poderia ser
Jesus.
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João 4:10 e
Atos 8:20 — as duas únicas passagens do Novo Testamento em que se menciona especificamente um “dom de Deus”; ambas estão ligadas à Samaria, o que sugere que a expressão tinha ali um sentido específico.
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Kerygmata de Pedro — obra judeo-cristã escrita em grego, provavelmente na Síria, que é uma das fontes das Pseudo-Clementinas; seu exemplo mostra que grupos de língua aramaica podiam conservar expressões provenientes de obras escritas em grego por alguns de seus membros.