Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Introdução — Hipóteses que serão desenvolvidas e sustentadas por muitas razões no que se segue
I. O gnosticismo não apareceu pela primeira vez nem na Samaria nem no vale do Licos, e nem o Mago Samaritano dos Atos nem os missionários combatidos na Epístola aos Colossenses são retratados como gnósticos.
Simão — figura dos Atos dos Apóstolos; é improvável que tenha afirmado ser Deus, muito improvável que tenha se apresentado como o próprio Salvador, e muito duvidoso que tenha distinguido o verdadeiro Deus do Deus do Antigo Testamento.
Vale do Licos — região da Ásia Menor onde se localizava Colossos, destinatária da epístola paulina em questão.
II. A narrativa dos Atos 8:9-24 pode indicar que Simão desejava ser o chefe de uma comunidade cristã samaritana dotada de certa autonomia em relação à comunidade de Jerusalém, querendo administrar aos seus concidadãos o sacramento que permitia aos cristãos receber o Espírito.
A oferta de dinheiro feita por Simão pode ter significado uma proposta de contribuição à Igreja-mãe, semelhante ao acordo que Paulo concluiria com Jerusalém — Gálatas 2:10.
Ebionim — nome dado à primeira comunidade cristã de Jerusalém, significando “os pobres”; Paulo comprometeu-se a não esquecê-los, enviando contribuições em dinheiro.
A rejeição de Simão pode ter sido motivada pela hostilidade dos judeus da Judeia e da Galileia à heresia samaritana, pela proximidade geográfica de Samaria em relação a Jerusalém, ou pela prematuridade de concessões que só viriam mais tarde.
O cisma resultante pode ter levado à heresia por desenvolvimento separado; é na escola simoniana de Antioquia que o gnosticismo propriamente dito parece surgir pela primeira vez.
III. Os primeiros indícios de uma tendência em direção às ideias gnósticas encontram-se entre os cristãos de Corinto a quem se dirigem duas das epístolas de Paulo, e parecem estar ligados sobretudo aos seguidores de Apolo.
Apolo — personagem mencionado nas cartas paulinas, cujos seguidores em Corinto manifestam tendências paralelas às de Paulo, indo porém um pouco além.
IV. O segundo estágio, e de longe o mais importante na evolução em direção ao gnosticismo, é constituído pelo Quarto Evangelho — não que seja gnóstico propriamente dito, mas porque seu modo de expressão permite deduzir princípios gnósticos, com uma atitude anticósmica muito forte e uma crítica ao judaísmo frequentemente muito violenta.
A linguagem do Quarto Evangelho difere muito da linguagem paulina e se aproxima frequentemente do gnosticismo, razão pela qual alguns exegetas o consideram já gnóstico ou semignóstico, enquanto outros contestam isso — cada qual com boas razões.
V. Excursus: os dois primeiros movimentos em direção ao gnosticismo — o dos coríntios e o do autor joanino — podem não ser independentes, pois o mesmo homem poderia ser responsável tanto pelas tendências gnósticas dos coríntios quanto pela linguagem gnóstica do Quarto Evangelista.
Apolo — figura de gênio que os coríntios colocavam no mesmo nível de Pedro e Paulo; é o candidato mais provável à autoria do Quarto Evangelho ou, ao menos, à inspiração do círculo do qual ele emergiu.
B. W. Bacon — estudioso que considerou a hipótese de Apolo como inspiração principal do círculo joanino.
Apolo era proveniente de Alexandria, o que remete ao platonismo judaico alexandrino como possível fonte do tipo de expressão que o autor chamado João utiliza.
VI. Não é João quem utiliza o gnosticismo ou foi por ele influenciado; é o gnosticismo que em grande parte procede de João — e também de Paulo, mas mais diretamente de João, sendo que quase todos os gnósticos desenvolvem temas joaninos.
Marcion — o único gnóstico que parece evitar o uso de João, querendo ater-se a Paulo; mas o próprio Marcion adere a uma corrente de pensamento cuja fonte parece ser a atitude anticósmica e o antijudaísmo de João.
VII. O primeiro ensinamento heterodoxo em que se podem ver os começos do gnosticismo é o docetismo — elemento que pode ser encontrado também entre cristãos não gnósticos, e que provavelmente é combatido nas epístolas joaninas, podendo ter surgido no círculo imediato do Quarto Evangelista.
VIII. A escola simoniana de Antioquia — Menandro e Saturnilo — parece ter conhecido muito rapidamente o Quarto Evangelho, seja porque o Evangelista tinha algum vínculo com ela, seja porque essa escola, como talvez também o círculo joanino, estava fora da comunhão das igrejas.
Menandro — discípulo de Simão ou membro da Igreja Samaritana cismática que o reivindicava como fundador; sua doutrina parece trazer a marca da influência joanina.
João 3:3; 5,24; 1 João 3:14 — passagens em que se encontra a ideia de que a conversão é uma ressurreição.
João 6:48-51; 8,51; 10,27-28; 11,25-26 — passagens que afirmam que os assim ressuscitados não morrem novamente.
Saturnilo — discípulo de Menandro que claramente conhecia o Quarto Evangelho; a luz que descreve como aparecida aos anjos-demiurgos e que eles não puderam dominar é a luz do Prólogo joanino: “a luz brilha nas trevas e as trevas não a venceram.”
IX. Se Menandro depende do Evangelho joanino, é necessário pressupor um intervalo de tempo entre seu ensinamento e o de Simão; R. M. Grant situa o magistério de Menandro provavelmente durante o reinado de Trajano (98-117), tornando improvável que seu encontro com Simão remonte antes do ano 70.
Hegesipo — escritor cristão do século II cujas listas de heresias sugerem esse intervalo cronológico.
Hilgenfeld — estudioso que analisou as listas de heresias de Hegesipo na obra Ketzergeschichte.
R. M. Grant — estudioso que data o magistério de Menandro e analisa sua relação com Simão na obra Gnosticism.
X. Não é muito provável que Menandro tenha se apresentado como o Salvador, apesar do que diz Irineu; Justino não afirma isso, e os dois discípulos conhecidos de Menandro — Saturnilo e Basilides — eram ambos cristãos, o que tornaria estranho um abandono tão fundamental da doutrina do mestre.
Justino — apologista cristão que coloca Menandro entre os que “disseram ser deuses”, mas faz o mesmo com Marcion, o que enfraquece o valor de seu relato.
Hegesipo — escritor que, como Justino, menciona Menandro entre aqueles cujos discípulos eram considerados cristãos.
Saturnilo e Basilides — os dois discípulos conhecidos de Menandro, ambos cristãos.
XI. Além de ideias que evocam o Quarto Evangelho, Irineu atribui a Menandro ideias que havia anteriormente atribuído a Simão; como essas ideias pressupõem conhecimento dos Evangelhos de Mateus e Lucas, parecem ter sido formadas pela primeira vez por Menandro ou pela escola simoniana em sua época.
O mito do “Pensamento” divino que emite os anjos, os quais depois o escravizam, data provavelmente da época de Menandro e pode ser obra sua.
Para Paulo, os anjos não “criaram” o mundo, apenas o governam; Irineu pode ter assimilado os anjos de Simão e Menandro aos das doutrinas gnósticas posteriores.
Menandro parece ter ensinado que, embora os poderes do mundo procedam da Sabedoria divina — que para ele equivale ao Espírito Santo —, eles perseguiram esse mesmo Espírito em Cristo e nos cristãos, e que a conversão é uma ressurreição que dá a vida eterna; sua doutrina foi principalmente uma mistura de pensamento paulino e joanino.
XII. A heresia que Inácio, bispo de Antioquia no tempo em que Menandro ali ensinava, combate é o docetismo — o que sugere alguma probabilidade de que Menandro fosse docetista ou aparecesse como tal, embora Irineu não o afirme explicitamente.
Inácio de Antioquia — bispo que parece combater duas formas de docetismo: a distinção cerintiana entre as duas pessoas do Salvador, uma divina e outra humana, e a que é atribuída aos discípulos de Menandro, segundo a qual a pessoa humana de Cristo era simplesmente uma aparência.
Saturnilo e Basilides — discípulos de Menandro que podem ambos ser considerados docetistas, embora Basilides o seja apenas em certo sentido.
XIII. A Ascensão de Isaías, de tendência docetista, pode ter sido escrita nas partes cristãs no seio da escola simoniana de Antioquia, por volta da época de Menandro, e Inácio parece conhecer essa obra.
Ascensão de Isaías — obra cujo tema central cristão — a descida do Salvador pelos céus assumindo formas diferentes para não ser reconhecido pelos anjos — é, segundo Irineu, um tema simoniano (Adversus Haereses I, 23, 3).
Tertuliano, De Anima 34 e Epifânio, Panarion 21, 2, 6 — fontes que corroboram essa atribuição simoniana.
R. M. Grant — estudioso que observou que o texto que serviu de fonte a Irineu devia referir-se a Cristo e não a Simão (Gnosticism, 86-87).
Inácio, Epístola aos Efésios 19:1 — passagem que sugere o conhecimento da Ascensão de Isaías por parte de Inácio.
Os docetistas de Inácio que “judaízam” não são judeus — Filadelfos 6,1; Esmirnienses 5,1-2 — mas cristãos — Efésios 7:1; Tralianos 6,2; Magnésios 10,3; Esmirnienses 6,2.
XIV. O exemplo da Ascensão de Isaías mostra que o docetismo combatido por Inácio não precisava ter raízes judaicas; lendas judaicas podiam ser utilizadas enquanto se aderia à teologia paulina e joanina, e Menandro poderia ser docetista à maneira dessa obra — próximo do gnosticismo sem ser gnóstico propriamente dito.
Tertuliano, De Resurrectione Carnis 5 — atribui a Menandro a ideia de que o corpo humano foi criado pelos anjos e não diretamente por Deus.
Filon de Alexandria — filósofo judeu que ensina que o corpo não foi criado diretamente por Deus, seguindo Platão no Fédon; sua posição mostra que não se deve deduzir a criação do mundo pelos anjos a partir da criação do corpo humano pelos anjos — Filon não é gnóstico.
Na Ascensão de Isaías, os sete céus são mencionados, mas o verdadeiro Deus reina no sétimo céu — onde os gnósticos colocavam o Demiurge —, o que mostra que esse Deus ainda é o Deus dos sete dias, o Deus do Antigo Testamento; os anjos governam o mundo, mas não o criaram.
XV. Inácio não parece conhecer a doutrina que ensina expressamente que o mundo foi feito pelos anjos nem que foi feito por um Demiurgo distinto de Deus e que o desconhecia; mas de suas afirmações pode-se concluir que já havia discussões sobre se o Deus do Antigo Testamento era o mesmo que o Deus dos cristãos.
Inácio, Magnésios 8,2; Filadelfos 8,1; 9,1-2 — passagens em que Inácio insiste na unidade de Deus, entendendo por isso às vezes a unidade do Deus do Antigo Testamento e do Deus de Jesus Cristo.
XVI. Do relato de Irineu sobre Cerinto poder-se-ia inferir que a ideia do Demiurgo — o Deus do Antigo Testamento como mero “poder” inferior ao verdadeiro Deus — surgiu pela primeira vez com Cerinto; mas as informações de outros heresiologistas, especialmente Epifânio, são tão contraditórias que o valor do relato de Irineu é questionável, chegando-se mesmo a questionar se Cerinto existiu.
Cerinto — figura cujo nome pode ser resultado de alguma confusão, pois as ideias dos cerintistas parecem ter sido confundidas com as dos coríntios; ainda assim, é possível que tenha existido e sido o primeiro gnóstico propriamente dito conhecido.
Epifânio — heresiologista cujas informações sobre Cerinto diferem frequentemente de Irineu.
XVII. A ideia de que o Deus do Antigo Testamento é apenas um anjo — e portanto não o verdadeiro Deus — é claramente expressa pela primeira vez em Saturnilo, que parece ser um dos primeiros gnósticos estritamente falando, talvez o primeiro, ao desviar-se claramente do cristianismo do Novo Testamento pela teoria da criação.
Saturnilo — gnóstico da escola simoniana de Antioquia; seu mito dos sete anjos criadores vincula-se ao relato do Gênesis, e seu ensinamento inclui a ideia de que o Pai de Cristo quis destruir o Deus dos judeus junto com os outros Poderes, enviando Cristo ao mundo para a salvação dos que creram nele.
Foerster — estudioso que, na obra Gnosis (tr. inglesa, vol. 1, p. 36), contesta a identificação do Deus do Antigo Testamento em Saturnilo com o Demiurgo; essa identificação é, no entanto, defendida no texto.
O ascetismo pregado por Saturnilo manifesta uma postura anticósmica forte e confirma sua crítica à ideia de criação do mundo por Deus; ao mesmo tempo, ele parece ter querido permanecer fiel ao Novo Testamento em outros pontos, desenvolvendo as declarações anticósmicas e antijudaicas de João e a crítica paulina do mundo e da Lei.
XVIII. Saturnilo parece ser o primeiro a falar dos sete anjos criadores e a usar a metáfora da “centelha de vida” — que para ele não equivale à alma, mas à graça ou ao Espírito que dá e sustenta a fé, e que se encontra nos crentes, não em todos os seres humanos.
Primeira Epístola de João 3:9 — a centelha de Saturnilo corresponde à semente que se encontra nos “nascidos de Deus” e que não pode ser perdida.
João 3:3-5 — “nascido de Deus” provavelmente significa “renascido”, ressuscitado por um novo nascimento; o mesmo poderia valer para Saturnilo, que pensaria na centelha como uma nova natureza suscitada na alma por uma espécie de ressurreição.
O mito atribuído aos gnósticos parece já estar esboçado em linhas gerais com Saturnilo.
XIX. A partir de Saturnilo podem-se seguir duas linhas de desenvolvimento: uma leva a Valentino passando por Basilides e Carpocrates; a outra leva a Marcion passando por Cerdo.
Marcion — gnóstico que não utiliza os mitos e metáforas de Saturnilo, quer permanecer o mais próximo possível de Paulo, e adota o Evangelho de Lucas — discípulo de Paulo — em vez do Quarto Evangelho; conserva, porém, a ideia de que o Deus do Antigo Testamento é outro e inferior ao do Evangelho, bem como a atitude anticósmica manifesta em ascetismo rigoroso.
Cerdo — gnóstico sírio a quem os heresiologistas atribuem a ideia que Marcion adota sobre os dois deuses.
XX. O Basilides histórico é o de Irineu, não o do Elenchos de Hipólito — que é um basilidiano do fim do segundo século ou início do terceiro —, mas as informações de Irineu devem ser corrigidas pelos fragmentos citados por Clemente de Alexandria.
Basilides — gnóstico que concorda com Saturnilo em vários pontos: criação do mundo pelos anjos, antijudaísmo e postura anticósmica, possível docetismo em certo sentido, negação da ressurreição do corpo, salvação pela fé, influência do Quarto Evangelho; mas é menos mitólogo e mais filósofo, impregnado de platonismo.
Basilides introduz a teoria das emanações divinas — seres eternos e perfeitos, análogos às Ideias platônicas — e já fala de Sophia (Sabedoria) e Dynamis (Poder) como par de emanações divinas, sendo as duas últimas derivadas dos anjos.
Hipólito — heresiologista cujo Elenchos descreve um basilidiano tardio, não o Basilides histórico.
Hilgenfeld e B. Aland — estudiosos que discutem a questão da identidade do Basilides histórico.
Primeira Carta aos Coríntios 1,24 — Sophia e Dynamis como nomes de Cristo.
XXI. Carpocrates, tal como Saturnilo e Basilides, sustentava a existência de anjos criadores e colocava o Deus do Antigo Testamento entre eles — identificável no “primeiro dos anjos criadores,” o “arconte,” o “juiz” de Irineu (I, 25, 4); seu antijudaísmo é mais pronunciado que o de Basilides e próximo do de Saturnilo.
Carpocrates — gnóstico que transforma o cristianismo em filosofia grega tanto quanto possível; seus discípulos associaram a imagem de Cristo às de Pitágoras, Platão e Aristóteles; parece admitir a preexistência das almas, sendo mais platonista ou pitagórico que aristotélico.
Para Carpocrates, a salvação se dá pela fé à qual se une a caridade; há vínculos suficientes com os dois discípulos de Menandro para supor que depende da escola deles, provavelmente por intermediação de Basilides.
XXII. Valentino, impregnado de platonismo, continua a linha de Basilides mais do que a de Carpocrates, atenuando ainda mais a tendência antijudaica de Saturnilo e constituindo uma reação contra o antinomismo excessivo de Saturnilo, Carpocrates, Marcion e mesmo de Basilides.
Valentino — gnóstico conciliador que usa a linguagem judaica e a dos mitos gregos como linguagem simbólica para exprimir verdades cristãs; parece ter desejado reunir todos os ramos do cristianismo, e talvez até aqueles muito próximos do judaísmo e do paganismo.
Odes de Salomão — imitações cristãs dos salmos bíblicos, possivelmente de origem valentiniana; os paralelos com o Evangelho da Verdade foram recentemente listados por Schenke.
Preuschen — estudioso que desde 1910 apontou para a possível relação das Odes de Salomão com o valentinianismo.
Filon de Alexandria — filósofo judeu com cujo platonismo judaico alexandrino os valentinianos buscavam vínculos.
Valentino distinguiu entre gnose e fé — provavelmente quando percebeu que não estava em acordo com a Igreja de Roma — mas pensava que se podia ser salvo em certa medida pela fé acompanhada de obras, isto é, pela doutrina da Igreja.
XXIII. O motivo mais importante da reação valentiniana contra os excessos do antijudaísmo e da atitude anticósmica foi provavelmente o desejo de um acordo mais amplo com o Novo Testamento como um todo, e os gnósticos a partir de Marcion e Valentino podiam ser conscientes da necessidade de escolher entre suprimir certas passagens do Novo Testamento ou fazer uma separação menor entre Deus e o Demiurgo.
Marcion — optou por suprimir passagens, julgando que eram obra de discípulos que não compreenderam bem Jesus ou Paulo e que reforçaram os elementos judaicos no cristianismo.
Valentino — optou por atenuar a separação desenvolvendo a teoria das emanações e o mito de Sophia, já presente em Basilides.
Primeira Carta aos Coríntios 1-4 — texto em que Paulo fala da “Sabedoria humana” ou “Sabedoria do mundo”; Valentino assimila Sophia a essa sabedoria, diferentemente de Basilides que a assimilava à Sabedoria-Cristo de 1 Cor 1,24.
Para Valentino, Sophia, ao desejar conhecer Deus diretamente sem mediador, deu origem a uma falsa imagem de Deus — o Demiurgo, que é essa falsa imagem mas ainda assim uma imagem de Deus; e o verdadeiro Deus só pode ser compreendido pelo Mediador, ou seja, pela separação que é a cruz.
XXIV. As doutrinas chamadas barbelognóstica, setiana, ofita e outras semelhantes são pós-valentinianas e não a fonte do valentinianismo — posição contrária à de Irineu, Hipólito no Syntagma, Hilgenfeld, Bousset e outros.
Irineu — heresiologista cuja opinião de que essas doutrinas seriam a fonte do valentinianismo é questionada; a única prova que apresenta é a semelhança entre essas doutrinas e o valentinianismo, mas semelhança não indica a direção da dependência.
Hipólito — heresiologista que sistematizou Irineu no Syntagma.
Hilgenfeld e Bousset — estudiosos que sustentaram a anterioridade dessas doutrinas em relação ao valentinianismo.
Celso e Irineu — ao que parece, ninguém conhecia essas doutrinas antes deles; muitos dos documentos de Nag Hammadi se vinculam a elas.
XXV. O Apócrifo de João — possivelmente a mais antiga obra barbelognóstica ou setiana conhecida — é posterior ao primeiro discípulo de Valentino, como demonstra um estudo cuidadoso do tema dos “quatro iluminadores,” que pode ser quase inteiramente explicado a partir de uma teoria encontrada entre os primeiros discípulos de Valentino.
Heracleon e Ptolemeu — primeiros discípulos de Valentino em cuja doutrina se encontra a teoria que permite explicar o tema dos quatro iluminadores do Apócrifo de João.
XXVI. Se o autor do Apócrifo de João usa uma teoria valentiniana, tanto mais tiraria do valentinianismo o mito de Sophia e quase todo o resto de sua doutrina, o que permite concluir que o cristianismo nessa obra não é “secundário” mas original; o mesmo vale para as outras obras sethianas e ofitas que dependem do Apócrifo de João.
Traços cristãos podem ser encontrados mesmo nas obras de Nag Hammadi geralmente tidas como absolutamente “não cristãs.”
XXVII. As obras herméticas que podem ser consideradas gnósticas também não são desprovidas de traços que poderiam derivar do gnosticismo cristão, e particularmente do valentinianismo, o que sugere que as chamadas gnoses pagãs poderiam depender da gnose cristã e não o contrário.
Poimandres — possivelmente a mais antiga das obras herméticas de inspiração gnóstica; provavelmente não é anterior ao aparecimento do gnosticismo cristão.
Corpus Hermeticum, tratado XIII — onde os traços de influência cristã são ainda mais facilmente identificáveis.
A Ogdóade e a Enéada — tratado hermético que revela que a religião de alguns hermetistas não era puramente especulativa, podendo incluir um culto com características próximas ao cristianismo.
Numênio — filósofo médio-platônico cujo médio-platonismo e o neoplatonismo podem também ter recebido algo do gnosticismo e especialmente do valentinianismo.
Oráculos Caldeus — mencionados por M. Tardieu na conferência de Yale como possível exemplo de dependência em relação ao valentinianismo.
XXVIII. O maniqueísmo derivou fundamentalmente do gnosticismo cristão, embora Mani quisesse unir o mazdeísmo e o budismo ao seu cristianismo, construindo sua doutrina principalmente sob a inspiração de Paulo e de Marcion.
Mani — fundador do maniqueísmo, criado numa seita judeu-cristã à qual se opôs recorrendo a textos cristãos.
XXIX. O mandeísmo assemelha-se a uma mistura de judeo-cristianismo e gnosticismo, e embora os mandeus considerem o cristianismo um inimigo, parecem ter herdado simultaneamente os dois principais ramos da heterodoxia cristã primitiva: o judeo-cristianismo em seus ritos batismais e certos pontos de sua moral; o gnosticismo cristão em seus mitos e em sua atitude em relação ao mundo.
Elkesaítas — seita judeo-cristã estabelecida no início do século III nos mesmos lugares em que os mandeus aparecem mais tarde; seus ritos batismais eram em grande parte os mesmos dos mandeus, e suas regras de casamento coincidem com a moral mandeia.
Quispel — estudioso que sustenta a origem judeo-cristã dos ritos mandeanos.
Cullmann e Rudolph — estudiosos que sustentam uma gnose judaica pré-cristã como origem do mandeísmo, hipótese considerada menos provável.
Pedersen — estudioso com quem se partilha a suposição de que os mandeus foram originariamente uma seita cristã.
Puech — estudioso que demonstrou que os audianos de Edessa conheciam o Apócrifo de João no século IV.
S. Pines — estudioso que descobriu um documento judeo-cristão num manuscrito árabe mostrando que, após deixar Jerusalém por volta do tempo do cerco, os judeo-cristãos passaram por Haran.
Lidzbarski e Rudolph — estudiosos que derivam o mandeísmo do judaísmo; a hipótese de uma origem cristã é considerada igualmente defensável e mais provável.
O “Cristo Romano” — isto é, o Cristo pregado pelo Império Bizantino — aparece nos textos mandeanos como um opressor, o que poderia explicar por que os mandeus se distanciaram do cristianismo a ponto de o retratarem como inimigo.
XXX. Segundo excursus: Dositeu, venerado pela seita dositeana — entre quem, segundo Teodoro bar Konai, estavam os mandeus — pode não ter sido um herético samaritano como normalmente se supõe, mas sim um nome dado a Cristo por certos cristãos samaritanos.
Dositeu — nome que significa “dom de Deus” (dosis theou), possivelmente dado a Cristo por cristãos samaritanos que aguardavam o profeta prometido em Deuteronômio 18:15.
Teodoro bar Konai — escritor sírio cujas informações vinculam os mandeus à seita dositeana.
Epifânio, Orígenes e Eusébio — fontes que atestam que, para os samaritanos, Dositeu era Cristo.
Pseudo-Clementinas — obra judeo-cristã em que Dositeu é apresentado como discípulo de João Batista e seu sucessor, antes de ser suplantado por Simão — frequentemente retratado como Paulo nas Pseudo-Clementinas.
Hegesipo — escritor que parece colocar os dositeanos entre os hereges cristãos, na transição entre as heresias judaicas e as cristãs.
Kippenburg e Isser — estudiosos cujas pesquisas recentes indicam que Dositeu deve ter sido quase contemporâneo de Cristo.
Três Estelas de Seth — obra de Nag Hammadi que menciona um Dositeu descrito como revelador vindo nos últimos tempos, que compreendeu a antiga revelação de Seth e a ensinou aos eleitos; se a obra é de proveniência cristã, esse revelador poderia ser Jesus.
João 4:10 e Atos 8:20 — as duas únicas passagens do Novo Testamento em que se menciona especificamente um “dom de Deus”; ambas estão ligadas à Samaria, o que sugere que a expressão tinha ali um sentido específico.
Kerygmata de Pedro — obra judeo-cristã escrita em grego, provavelmente na Síria, que é uma das fontes das Pseudo-Clementinas; seu exemplo mostra que grupos de língua aramaica podiam conservar expressões provenientes de obras escritas em grego por alguns de seus membros.