Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo IV: Escatologia realizada
1. Escatologia no Antigo Testamento
A ideia de ressurreição no
Antigo Testamento aparece raramente e muitas vezes se refere mais à restauração da nação do que à ressurreição individual.
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Em 2 Macabeus 7,9 e 7,14, assim como em Daniel, já se espera claramente uma ressurreição individual.
O mundo dos ressuscitados, quer espiritual, quer ainda material e temporal, tende a ser concebido como profundamente novo.
A transformação das estruturas de poder dentro do mundo acaba unindo-se à ideia de que o mundo conhecido chegará ao fim.
A escatologia judaica oscila entre uma interpretação imanente do futuro prometido aos justos e uma interpretação mais ou menos transcendente.
No
Antigo Testamento e nas obras apocalípticas pré-cristãs, a interpretação imanente parece predominar sobre a transcendente.
2. A chamada escatologia “futura” nos Evangelhos Sinóticos
Nos Sinóticos há uma escatologia orientada para o futuro, inspirada pelo
Antigo Testamento e especialmente por Daniel, mas com esperança nacional enfraquecida e transcendência acentuada.
Essa escatologia pode ser chamada, de modo abreviado, escatologia futurista.
O caráter nacionalista da esperança aparece atenuado.
O caráter transcendente do novo mundo aparece intensificado.
3. Escatologia realizada nos gnósticos
4. “Escatologia realizada” no Quarto Evangelho
O Quarto
Evangelho substitui em grande medida a linguagem sinótica do Reino pela linguagem da vida eterna já presente nos que recebem a verdade.
Nos Sinóticos, a salvação escatológica é a vinda do Reino ou do Reinado.
João fala raramente do Reino ou do Reinado.
João fala antes de “vida eterna”.
Em João, a vida eterna já está presente naqueles que recebem a verdade.
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Em
João 6:47, afirma-se igualmente a vida eterna daquele que crê.
Em
João 5:24, lê-se: “Quem ouve minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna; não entra em juízo, mas passou da morte para a vida”.
Em
João 6:54, lê-se: “Quem come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna”.
Em
João 10:27—28, Cristo diz: “Minhas ovelhas ouvem minha voz… eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão”.
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Em
1 João 5:11—13, lê-se: “Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em seu
Filho. Quem tem o
Filho tem a vida; quem não tem o
Filho de Deus não tem a vida. Escrevo isto a vós que credes no nome do
Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna”.
No Quarto
Evangelho, a ressurreição final permanece, mas é pensada como antecipada para aqueles que creem ou conhecem.
As doutrinas de Himeneu, Fileto e Menandro tornam-se compreensíveis quando comparadas ao Quarto
Evangelho.
Himeneu e Fileto afirmavam que “a ressurreição já aconteceu”.
Menandro, considerado pelos heresiólogos o segundo dos grandes gnósticos, ensinaria que a ressurreição ocorre nesta vida.
Essa ressurreição seria obtida pelo batismo.
Aqueles que assim ressuscitam não morreriam mais.
Os heresiólogos interpretaram essas ideias como ligadas à magia, como se ignorassem o Quarto
Evangelho.
Justino talvez não tivesse lido o Quarto
Evangelho, embora isso seja pouco provável.
A hipótese de que discípulos de Menandro esperavam não morrer por confiança em sua magia atribui-lhes ingenuidade excessiva.
É preferível entender que eles interpretavam a promessa de não morrer no mesmo sentido dos cristãos que liam o
Evangelho de João.
A doutrina de Menandro sobre a vida eterna pode derivar do Quarto
Evangelho ou de um ensinamento oral anterior à sua redação.
João, Nicolau, Menandro, Himeneu e Fileto podem pertencer a um mesmo ambiente de ideias ligado à Samaria, a Éfeso e aos nicolaítas.
Estudos recentes destacaram vínculos entre o Quarto
Evangelho e a Samaria.
Algumas ideias atribuídas a Nicolau talvez pertençam não a ele próprio, mas a uma seita que o invocava: os nicolaítas.
A presença dos nicolaítas em Éfeso e na região de Éfeso é atestada pelo
Apocalipse 2:6 e 2,15.
Os nicolaítas poderiam ter sido influenciados pelo autor chamado João.
Segundo a tradição, João teria atuado em Éfeso.
Nesse caso, João poderia ser a fonte comum dos nicolaítas, de Menandro, de Himeneu e de Fileto.
5. “Escatologia realizada” em Paulo
A ideia de que a ressurreição já ocorreu não se limita a João, Nicolau, Menandro ou aos hereges das epístolas pastorais, pois aparece também em Paulo.
6. “Escatologia realizada” nos Sinóticos
7. O destino do indivíduo depois da morte
O
Evangelho de Lucas apresenta imagens de destino pós-morte que pressupõem separação imediata entre os justos e os maus.
O pobre Lázaro é separado do rico mau por “um grande abismo” em
Lucas 16:26.
Essa separação não faria sentido se Lázaro não estivesse no céu.
Lázaro é levado pelos
anjos ao seio de Abraão.
O rico é sepultado e vai ao lugar dos mortos.
O rico é atormentado, como se já tivesse sido julgado.
Para ver Lázaro, o rico precisa erguer os olhos, segundo
Lucas 16:22—23.
Em
Lucas 23:43, Cristo diz ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no Paraíso”.
Mais uma vez, a formulação é “comigo”, não “mais perto de mim”.