Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo V: “Dualismo” gnóstico
1. Em que sentido o gnosticismo é dualista
O termo “dualismo” nasceu para designar tanto uma oposição religiosa entre Deus e o
diabo quanto uma distinção filosófica entre alma e corpo, mas o gnosticismo comum não coincide plenamente com nenhuma dessas duas formas.
Hyde cunhou o termo dualistae para caracterizar pensadores religiosos que concebiam Deus e o
diabo como dois princípios coeternos.
Christian Wolff introduziu o termo na filosofia para designar doutrinas que consideravam alma e corpo como duas substâncias distintas.
Na história das religiões, “dualismo” costuma referir-se aos maniqueus ou ao mazdeísmo do Avesta pós-gático e dos escritos pehlevi.
Na filosofia, “dualismo” aplica-se a doutrinas como o cartesianismo.
O gnosticismo não pertence propriamente a nenhum desses dois tipos.
O maniqueísmo é um ramo do gnosticismo, mas sua doutrina propriamente dualista resulta de uma transformação em relação a outros sistemas gnósticos.
2. Sobre a origem dessa forma de dualismo
Mesmo no maniqueísmo, a combinação de platonismo e mazdeísmo não basta para explicar a doutrina de
Mani, pois permanece dominante um dualismo propriamente gnóstico.
Mani parece unir duas formas de dualismo.
Ainda assim, platonismo e mazdeísmo não explicam integralmente sua doutrina.
No fundo, é o dualismo gnóstico propriamente dito que permanece em
Mani e domina sua doutrina da salvação.
O “Príncipe das trevas” continua sendo para
Mani o Príncipe do mundo.
Esse Príncipe pode ser descrito como filho da Matéria ou como seu representante.
Ele é criador e substância de todos os corpos.
Ele reina sobre todas as criaturas terrestres que não recebem luz da revelação divina.
Ele reina até sobre os seres celestes, com exceção do sol e da lua.
Esse dualismo não é platônico nem mazdeísta, mas gnóstico.
Bousset não explica esse dualismo propriamente gnóstico.
A oposição entre Deus e o mundo, tão característica do gnosticismo, já aparece no
Evangelho de João com força quase gnóstica.
A fonte do “dualismo” gnóstico não se encontra no Irã nem na Grécia.
No
Evangelho de João, a oposição entre Deus e o mundo já está presente de modo quase tão forte quanto entre os gnósticos.
Para João, o mundo é o polo oposto a Deus na maioria dos textos em que o mundo é mencionado.
O mundo foi criado por Deus mediante o Verbo.
Em relação aos seres humanos, Deus e o mundo aparecem como princípios de duas naturezas distintas e opostas.
Os seres humanos são “de Deus” ou “do mundo”.
Não parece haver caminho da natureza inferior para a natureza superior.
Em
João 3:3 e 3,13, somente aquele que desceu do céu é capaz de subir ao céu.
Em João, ser do mundo e ser do
diabo quase se equivalem.
De um lado, estão aqueles que são de Deus, do Espírito, da verdade ou do alto.
De outro lado, estão aqueles que não são de Deus.
Esses podem ser chamados indiferentemente de filhos do
diabo, da carne, da terra ou de baixo.
Em
João 8:47, a origem parece determinar a ação humana, e não simplesmente resultar dela.
A passagem afirma: “Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; a razão pela qual não as ouvis é que não sois de Deus”.
Essa formulação parece indicar que a origem de uma pessoa causa suas ações.
Não parece indicar apenas que as ações ligam a pessoa a certa origem.
3. Sobre a origem do dualismo joanino
4. Sobre o dualismo simplista ou intolerante, chamado hoje de “maniqueu” na França
Essa visão pode ser chamada de dualismo guerreiro, simplista ou intolerante, e corresponde ao uso francês moderno, embora inadequado, da palavra “maniqueísmo”.
Considerar certas coisas como criações de
Ahriman equivale a considerá-las absolutamente más.
Considerar algumas pessoas como “filhos da criação do Mal”, nas Gathas, ou “filhos das trevas”, em Qumran, equivale a chamá-las absolutamente más.
Nas últimas décadas, na França, esse tipo de dualismo tem sido frequentemente chamado de maniqueísmo.
Escritores e jornalistas franceses chamam de maniqueu tudo que é intolerante, fanático e simplista.
Também chamam de maniqueia toda ideia que divide os seres em inteiramente bons e inteiramente maus, totalmente negros ou totalmente brancos.
Esse uso da palavra “maniqueu” é novo e não parece legítimo.
Para os maniqueus, tudo no mundo era misturado, e somente os princípios originais eram puros.
Nos
Kephalaia maniqueus, lê-se: “O bem e o mal habitam em cada homem”.
Os maniqueus eram não violentos.
Mesmo no campo das ideias, eles não eram particularmente intolerantes.
Ensinavam que há algo de bom em quase todas as religiões.
Procuravam conformar sua linguagem à de religiões e tradições muito diversas.
A identificação da mentalidade maniqueia com a mentalidade de um inquisidor inverte a história.
Os maniqueus não inventaram a Inquisição.
Eles foram vítimas dela, na medida em que podem ser identificados com os cátaros.
A tendência a oposições extremas também aparece no
Antigo Testamento, aproximando-o em certa medida do espírito da religião persa.