Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Capítulo I: O Demiurgo
A narrativa gnóstica sobre a criação do mundo envolve um Demiurgo ou Criador que se proclama Deus, mas que na realidade é uma potência inferior que não conhece o Deus verdadeiro.
Os gnósticos contam uma história que começa no princípio dos tempos, segundo a qual o mundo foi criado por poderes que não conheciam Deus e não permitiam que a humanidade adorasse ninguém além deles mesmos.
Deus desejou salvar as pessoas da adoração desses poderes e revelou-se a elas por meio de um mensageiro que rompeu as barreiras que cercavam o mundo.
As personagens principais incluem o Deus verdadeiro, chamado “o
Pai”, e seu
Filho, o Mensageiro Salvador (geralmente Cristo), além do próprio Demiurgo e dos Arcontes (“governantes” ou “poderes”).
A Mãe é descrita ora como uma emanação divina muito elevada e pura, ora como uma “Sabedoria” que se extraviou em sua busca por Deus e deu à luz o Demiurgo.
Os céus visíveis são compostos por esferas ou abóbadas que funcionam como barreiras, encerrando o mundo e contendo as almas que desejariam escapar.
Tais barreiras só podem ser rompidas por almas que conhecem o Deus verdadeiro e têm fé em seu reino, revelado pelo Salvador que dele desceu.
O Demiurgo dos gnósticos é simplesmente o Deus do Antigo Testamento, que passou a ser distinguido do Deus verdadeiro, ensinando a separação fundamental entre Deus e o mundo e entre a religião cristã e a Lei do Antigo Testamento.
A narrativa gnóstica sobre o Demiurgo visa demonstrar a novidade, a superioridade e a verdade absoluta da revelação trazida pelo Salvador, uma realidade desconhecida pela Lei do Antigo Testamento.
A divisão do tempo em duas partes (antes e depois do Salvador) explica a divisão aparentemente espacial de dois mundos sobrepostos: o mundo inferior (que contém a terra e o céu do Demiurgo) é a soma do que era conhecido antes da vinda do Salvador, enquanto o mundo superior é aquele cuja existência é conhecida pelos crentes depois dessa vinda.
O mito da separação dos dois mundos é o mito da separação dos dois tempos, ou de uma dupla revelação: uma antiga, imperfeita e enganosa, e uma nova, completa e perfeitamente verdadeira.
O nome “
Pai desconhecido”, dado pelos gnósticos ao Deus verdadeiro, pode significar inicialmente que o Deus verdadeiro não era conhecido antes da vinda do Salvador, e não necessariamente que ele é incognoscível.
Simão, Menandro, Saturnilo e Cerinto especificam que o
Pai não era conhecido pelos poderes criadores, e os hereges das epístolas pastorais afirmavam “conhecer a Deus”, distinguindo-se pelo conhecimento do Deus verdadeiro até então desconhecido.
A expressão “Deus desconhecido” (Theos agnostos) não é encontrada na literatura grega pura, aparecendo apenas nos gnósticos e posteriormente nos platônicos tardios.
É possível que os primeiros a chamar Deus de “Desconhecido” tenham retomado a expressão usada por Paulo no Areópago (Atos 17,23), mas dando a ela um sentido completamente diferente, significando que o Deus ensinado por
Jesus Cristo era desconhecido até mesmo dos judeus e do
Antigo Testamento.
O Salvador gnóstico, que trouxe o conhecimento do Deus verdadeiro, é necessariamente uma figura histórica de importância excepcional, e essa figura só pode ser Cristo, cuja imagem da cruz foi revolucionária.
A ideia de que o Salvador trouxe algo inteiramente novo na história, cortando o tempo em dois, implica que ele foi concebido como histórico, mesmo que não o seja de fato.
A única figura histórica conhecida na época que poderia ter causado tamanha transformação é Cristo, cujo nome, desde o reinado de Cláudio, causou tumultos entre os judeus em Roma.
A imagem da cruz — a imagem do divino perseguido e punido pelo mundo — foi o elemento verdadeiramente revolucionário que Paulo tornou o ensinamento primordial de Cristo e o fundamento do cristianismo.
Na maioria das doutrinas gnósticas conhecidas, Cristo é o Salvador, e as gnoses pagãs, que parecem não estar entre as mais antigas, apresentam um pensamento gnóstico enfraquecido, como se fossem imitações.
Hilgenfeld (Ketzergeschichte, 1884) argumentou que a gnose é um fenômeno externo ao cristianismo, mas não independente dele, tendo Simão Mago elaborado sua doutrina após encontrar o cristianismo e sob sua influência.
Hilgenfeld viu na distinção fundamental entre o Deus do
Antigo Testamento e o Deus do cristianismo a expressão metafísica do caráter novo e absoluto da religião cristã.
A Tensão entre Judaísmo e Cristianismo no Final do Primeiro Século
No final do primeiro século, o fosso entre cristianismo e judaísmo se aprofundou, levando a exclusões mútuas e ao endurecimento das posições de ambos os lados.
Os cristãos judeus de Jerusalém, que tentavam permanecer fiéis judeus mesmo sendo cristãos, foram vítimas do crescimento do sentimento nacional que precedeu a revolta contra Roma, com seu líder Tiago sendo morto e muitos tendo que fugir.
Por volta do ano 80, os cristãos eram excluídos das sinagogas e maldições eram pronunciadas contra eles, alusão feita pelo autor do Quarto
Evangelho (João 16,2).
O autor do Quarto
Evangelho se endureceu contra o judaísmo, chamando os inimigos de Cristo de “os judeus” como um bloco único, e fazendo Cristo dizer repetidamente que os judeus não conhecem a Deus (João 5,37-38; 7,28; 8,19.54-55; 15,21; 16,3).
De Paulo a João, há um crescimento indubitável da tensão entre judaísmo e cristianismo, e essa tensão permaneceria forte durante as primeiras décadas do segundo século, precisamente quando as doutrinas gnósticas aparecem de modo mais definido e claro.
O Vínculo entre essa Tensão e o Aparecimento do Demiurgo
A teologia paulina da cruz, ao separar Deus do mundo e ensinar que as potências não conhecem o bem, liberta os seres humanos da servidão espiritual imposta pelo espírito do Antigo Testamento e das religiões antigas em geral.
A fé na cruz torna ingênuo o otimismo que geralmente reina nos escritos do
Antigo Testamento, onde os bons são recompensados e os maus punidos nesta vida, que dificilmente conhece outra vida.
A cruz é o sinal mais marcante de que o julgamento pelo que acontece no mundo não é o verdadeiro julgamento, e que a glória e o poder não justificam nem a desgraça condena.
A teologia da cruz implica o “anticomismo” que se encontra em certa medida em Paulo, sendo mais profundo que o dos escritores apocalípticos.
Paulo preservou a ideia apocalíptica do fim iminente do mundo, mas pensou que, a partir do presente, o mundo havia perdido seu domínio sobre as almas daqueles que tinham fé na cruz, os quais já estavam como que mortos para o mundo e ressuscitados para outra vida.
No
Antigo Testamento, o mundo dependia de Deus de modo tão estreito e direto que o próprio Deus (na maneira como era representado) ficava quase atado e acorrentado ao mundo, levando à tentação de submeter inteiramente a vontade divina ao poder bruto.
A imagem da cruz é uma imagem que liberta, mostrando que os poderes não conheciam o bem, separando Deus do mundo e ensinando que Deus está acima dos poderes e não é manifestado por eles.
Os gnósticos, especialmente Marcion e
Valentino, insistiram na bondade absoluta de Deus, que é concebido como poderoso, mas separado do curso ordinário dos eventos e fundamentalmente separado dos poderes materiais e sociais.
Possíveis Objeções a essa Explicação
Embora os gnósticos fossem docetistas e parecessem dizer que o corpo de Cristo e sua crucificação não passaram de aparências, isso não significa que tenham renunciado a uma teologia da cruz, pois essa derrota foi uma vitória.
Se o evento da crucificação foi tratado como aparência, isso se deve ao fato de que, para os gnósticos, o que acontece no mundo não é uma revelação da verdade; essa derrota foi uma vitória, a libertação da humanidade e o fim do reinado incontestado dos “poderes”.
Paulo e João, que atribuíram significância decisiva à cruz, também apresentaram um Cristo divino preexistente, o
Filho de Deus descido do céu, o que podia facilmente levar ao docetismo, pois o desejo de acentuar a divindade de Cristo é a raiz do docetismo.
No pensamento de Paulo, Cristo (ou Deus por meio de Cristo) armou uma armadilha para os poderes: se eles soubessem quem Cristo era, não o teriam crucificado, e esse engano foi o início de sua queda, contendo elementos que poderiam levar a uma interpretação docética da cruz.
A novidade da mensagem cristã não teve a mesma importância fundamental para todos os gnósticos, pois
Valentino e outros atribuíam valor a certas partes do
Antigo Testamento e acreditavam que revelações do Deus verdadeiro haviam sido feitas desde o início da história ao primeiro homem, Adão, ou a seu filho Sete.
Valentino parece ter se preocupado em reabilitar certas partes do
Antigo Testamento e atenuar a divisão excessiva que os primeiros gnósticos fizeram entre a revelação antiga e a nova, herdando a figura do Demiurgo, mas relacionando-a ao Deus verdadeiro.
O entusiasmo pelo Salvador levou a uma ênfase na novidade e singularidade absoluta de sua mensagem, mas alguém como
Valentino, que conhecia bem o judaísmo e o helenismo, pensou que mesmo antes de Cristo certas ideias cristãs poderiam ter sido concebidas.
Outras Explicações que Foram Propostas
A concepção gnóstica do Demiurgo não pode ser explicada pelo judaísmo pré-cristão nem pelo paganismo, pois nada no judaísmo levaria a postular tal distância entre Deus e o Criador do Antigo Testamento, representando-o como ignorante do Deus verdadeiro.
Cullmann citou um texto talmúdico sobre os minim (hereges) que leva a um rebaixamento do Deus criador, mas o texto é vago demais para afirmar que se tratava de judeus gnósticos e não de cristãos ou cristãos gnósticos.
Os elementos do judaísmo que permitem assimilar Javé a um
anjo nunca foram suficientes para construir a concepção de Javé como um mero
anjo ignorante do Deus verdadeiro, mesmo em seitas judaicas mais ou menos heterodoxas.
A ideia de que Deus criou com a ajuda de
anjos não era herética no judaísmo; era defendida pelos rabinos com base em Gênesis 1,26, mas Filon, que era mais ou menos considerado herege, ainda está muito longe de ser um gnóstico.
A doutrina dos Magharia (seita judaica possivelmente pós-cristã) sobre o
anjo criador não é gnóstica, pois o
anjo é meramente o “tenente” de Deus, que permanece o verdadeiro criador, e o mito gnóstico desvaloriza Javé, o que os Magharia nunca fizeram.
Bousset sugeriu que Ialdabaoth (nome dado ao Demiurgo pelos
ofitas ou
setianos) seria Saturno ou uma divindade oriental identificada com este deus, mas os gnósticos mais antigos já desvalorizam o Deus do
Antigo Testamento e não parecem conhecer Ialdabaoth.
O nome Ialdabaoth está ligado a Iao Sabaoth (o Deus bíblico), sendo provavelmente derivado de Ia-El-Sabaoth, uma vez que os mágicos acreditavam que os nomes do Deus judeu tinham grande poder.
“Não Amaldiçoe Ptahil”
Os gnósticos, embora negassem o título de Deus ao Criador bíblico, preservaram essa figura e muitos elementos do texto do Gênesis, mostrando que desejavam reter o Antigo Testamento, mas atribuindo-lhe um lugar subordinado.
Uma atitude anticósmica é uma condição necessária, mas não suficiente, para o aparecimento do gnosticismo, pois os sistemas gnósticos sempre implicam dois níveis: o nível do Demiurgo (que deve ser transcendido) e um nível superior de onde veio o Salvador.
A estrutura do mito gnóstico corresponde à estrutura do cristianismo no início do segundo século, quando o cristianismo, definitivamente condenado pela sinagoga, se levantou contra ela e afirmou sua novidade, diferença e superioridade.
A distinção entre Deus e o Demiurgo não significa um pessimismo absoluto em relação ao mundo, mas sim uma distância; o Demiurgo é um
anjo, criatura do Deus verdadeiro, ou filho de Sophia, e o mundo não é mau, mas “deficiente”.
Para Saturnilo, por exemplo, o Demiurgo não é o
diabo, permanecendo seu inimigo; o que há de mau no Demiurgo é que ele pensa poder julgar o bem e o mal e quer impor seus julgamentos aos seres humanos.
Os gnósticos não dão uma imagem idêntica do Demiurgo: enquanto Saturnilo e Marcion o veem como mais afastado do Deus verdadeiro, em
Valentino ele é o instrumento inconsciente de Deus, o mundo sensível é uma cópia do mundo eterno e o Espírito divino falou através dos profetas do
Antigo Testamento.
No basilidiano descrito por
Hipólito (Elenchos VII, 13-27), o Grande Arconte (criador das estrelas, na Ogdóade) é de uma beleza, grandeza e poder inexprimíveis, confessando seu erro e convertendo-se com alegria ao Deus verdadeiro quando lhe é revelado.
Ápeles, discípulo de Marcion influenciado pelo valentinismo, distinguiu duas figuras no Deus do
Antigo Testamento: o Criador (que se assemelha ao Demiurgo
valentiniano) e o Deus da Lei.
A distinção entre Ialdabaoth e Sabaoth na Hipóstase dos Arcontes e na Origem do Mundo mostra duas figuras do Deus da
Bíblia, sendo a primeira rejeitada e a segunda (Sabaoth) submetendo-se à Sabedoria.
Nos escritos
valentinianos, Deus se retirou, escondeu-se, desejando permanecer inacessível a toda abordagem direta, e no
Ginza Mandeu, o Salvador aconselha Adão a suportar sua condição e não amaldiçoar Ptahil, o Criador:
“Meu
Pai, se reina uma ordem justa, Por que Ptahil saiu do seu lugar? … Por que ele semeou sementes más?” (voz de Adão)
“Fique tranquilo e cale-se, Adão, E a calma dos homens bons o cercará. Vigie, quando estiver doente ou com medo, Cuidado para não amaldiçoar Ptahil.” (voz do grande salvador)
“Quando o mundo perecer E o firmamento angélico for enrolado … A vestimenta de Ptahil será preparada. Pois Ptahil, sua vestimenta será preparada E ele será batizado aqui no Jordão.” (voz do salvador)
“Então Ptahil e você, Mana, Vocês brilharão na mesma morada. Então ele será chamado, ó Mana, seu rei.” (voz do salvador)