A questão essencial sobre o verdadeiro Basilides histórico — fundador da Escola basilidiana — é se ele corresponde ao retrato de Irineu ou ao de Hipólito, pois as duas doutrinas são irreconciliáveis entre si.
Hilgenfeld — estudioso que sustentou ser o Basilides de Irineu o mais autêntico dos dois (Ketzergeschichte, 1884, pp. 195-230), argumento fundado nas fontes e não refutado pelos estudos posteriores que sustentam a tese oposta.
Hipólito — heresiologista cujo Elenchos (VII, 13-27) descreve uma doutrina basilidiana irreconciliável com a de Irineu.
Os fragmentos de Basilides citados por Clemente de Alexandria contradizem em vários pontos o retrato de Irineu: para Clemente, os sofrimentos do Salvador eram reais e Basilides e seu discípulo Isidoro eram moralistas rigorosos, ao contrário do que Irineu sugere.
Irineu atribui a Basilides uma teoria docetista extrema — Simão de Cirene teria sido crucificado no lugar de Cristo —, enquanto Clemente cita passagens em que Basilides afirma que o Salvador tinha inclinação natural ao pecado como todos os seres humanos (Stromata IV, 83, 1).
Irineu acusa os basilidianos de considerar a licenciosidade indiferente e de estar prontos a negar a fé em tempo de perseguição; os fragmentos mostram o contrário: Basilides e Isidoro eram moralistas estritos (Stromata II, 113, 4 — 114, 1; III, 3, 3; IV, 81, 1 — 83, 1; IV, 153, 3; IV, 81, 1 — 83, 2).
Clemente chama Basilides de dualista por dizer que ele não acredita mais no único Deus (Stromata V, 74, 3) e que diviniza o diabo (Stromata IV, 85, 1) — afirmações provavelmente imprecisas e injustas.
Hilgenfeld explica as acusações de Clemente pelas visões conflitantes de Basilides e Clemente sobre o martírio — para Clemente causado pelo diabo, para Basilides querido por Deus (Ketzergeschichte, pp. 220-21).
O Basilides dos fragmentos citados por Clemente pressupõe uma divisão profunda na alma humana — as paixões são como corpos estranhos que se fixam à alma (prosartemata), formando uma segunda alma “adventícia” ou “parasita” (prosphyes psyche) —, divisão análoga à oposição cósmica que Irineu pressupõe em Basilides, mas que não se encontra no Basilides de Hipólito.
O Basilides de Clemente é um moralista preocupado com o pecado; o de Hipólito mal fala em pecado — a palavra hamartia aparece apenas duas vezes em seu relato, referindo-se à ignorância natural do Grande Archon.
No sistema de Hipólito não há tendência à queda nem conceito de diabo — ao contrário do sistema de Irineu, onde o diabo é concebível.
Foerster — estudioso que admite que o que constitui transgressão e merece punição permanece obscuro no sistema basilidiano atribuído por Hipólito.
A semelhança entre o sistema que Hipólito atribui a Basilides e os demais sistemas descritos no Elenchos cria a impressão de que todas essas doutrinas são da mesma época — não muito anterior ao próprio Elenchos —, com ideias gnósticas enfraquecidas, sincretismo desenvolvido e mistura com filosofias pagãs.
Hipólito, apesar do que normalmente se diz, não estava errado ao relacionar Basilides e Aristóteles: a teoria do desenvolvimento de todos os seres a partir de uma semente neles contida é caracteristicamente aristotélica.
Amônio Sacas — filósofo do início do terceiro século que tentou a síntese de platonismo e aristotelismo.
Panteno — teólogo cristão do final do segundo século que parece unir platonismo e aristotelismo em sua interpretação da teologia cristã.
Agrippa Castor — autor cujo Basilides, segundo Eusébio (História Eclesiástica IV, 7, 7), é mais claramente platônico e pitagórico, diferente do Basilides aristotelizante de Hipólito.
Barbara Aland — estudiosa que identificou na Apophasis Megale uma tentativa de integrar uma obra filosófica não gnóstica a uma doutrina gnóstica, considerando isso marca de um gnosticismo tardio.
O sistema de Hipólito contém ideias audaciosas que sugerem a obra de uma mente original: a descrição de Deus como “o Deus que não é” como expressão de teologia negativa, e a ideia da “grande ignorância” que cairá sobre o mundo ao fim dos tempos para que nenhum ser busque abandonar sua natureza — em vez da destruição do mundo, a sobrevivência indefinida de um mundo ignorante mas inocente.
No Basilides de Hipólito, o “Deus que não é” é a origem de tudo que é; nada que está acima desce ao mundo — o que está acima apenas atrai ou ilumina de longe, como a nafta em chamas pode acender um fogo à distância.
A ideia da “grande ignorância” como bem e salvação é contrária ao gnosticismo, assim como a do “Deus que não é” deve ter sido chocante para muitos gnósticos.
O autor desse sistema é chamado “o grande basilidiano” e não pode ser o Basilides que viveu no tempo de Adriano.
As contradições do sistema de Hipólito derivam do fato de que seu autor quis preservar ideias de um gnosticismo anterior ao mesmo tempo que adotava a filosofia de Aristóteles, com a qual essas ideias dificilmente concordavam.
Apeles — discípulo de Marcion que distinguia o Criador do Deus da Lei, ambos inferiores ao verdadeiro Deus mas em graus diferentes — distinção análoga à dos dois Archons em Hipólito.
2. Basilides e Saturnilo
O Basilides de Irineu, corrigido pelos fragmentos preservados principalmente por Clemente de Alexandria, apresenta notáveis semelhanças com a doutrina de Saturnilo, confirmando que ambos tiveram o mesmo mestre.
Semelhança 1 — para Basilides como para Saturnilo, o mundo foi criado por anjos, o primeiro dos quais é o Deus do Antigo Testamento; o número dos anjos criadores em Basilides pode ter sido setenta ou setenta e dois — dividindo a terra entre si, o que evoca as teorias judaicas sobre os anjos das nações (Epifânio, Panarion 23, 1; Filastro, XXXI).
Semelhança 2 — para Saturnilo, o Pai de Cristo enviou seu Filho para destruir os anjos criadores; para Basilides, para destruir as obras dos criadores; o verbo latino dissolvere (provavelmente katalysai em grego) é o mesmo nos dois casos; Basilides descreve o “Deus dos judeus” como “um anjo mais indócil que os demais” (Pseudo-Tertuliano, 1, 5).
Semelhança 3 — para Basilides como para Saturnilo, só a alma pode ser salva; não há ressurreição do corpo.
Semelhança 4 — para Basilides como para Saturnilo, salva-se pela fé; Clemente de Alexandria (Stromata II, 10, 11) confirma que para os basilidianos a fé era o quinhão dos eleitos; tanto a fé ligada à centelha em Saturnilo quanto a que vem da eleição em Basilides parecem estabelecer-se na alma de modo estável, como se a fé fosse uma espécie de substância.
Semelhança 5 — Irineu atribui a Basilides o mesmo docetismo que atribui a Saturnilo; porém, Clemente de Alexandria corrige esse ponto; a teoria de Simão de Cirene, improvável como invenção de Irineu, sugere que algumas palavras de Basilides podiam ser interpretadas docetiamente sem negar a humanidade ou a Paixão do Salvador de modo absoluto.
Semelhança 6 — o mito que Basilides atribui aos “bárbaros” parece fundado no mesmo versículo joanino que está na base do mito de Saturnilo (João 1:5): para Saturnilo, os anjos-demiurgos não venceram a imagem luminosa; para Basilides, a escuridão, ao perseguir a luz, não a venceu mas pôde captar um reflexo dela; o mito é gnóstico, não mazdeu — muito mais próximo do mito de Saturnilo do que do mazdaísmo pré-cristão.
Mazdeísmo — religião iraniana dualista; em Basilides, ao contrário do mazdaísmo onde é Ahriman que penetra o mundo luminoso de Ohrmazd, é um reflexo da luz que desce ao mundo das trevas.
Isidoro — filho ou discípulo de Basilides, que comentou um profeta chamado Parchôr, aparentemente persa; Agrippa Castor menciona que Basilides venerava profetas chamados Barkabbas e Barkôph — nomes de possível origem semítica.
Glaucias — intérprete de Pedro, por quem Basilides afirmava ter recebido as tradições do cristianismo mais primitivo.
Além das semelhanças com Saturnilo, o pensamento de Basilides é mais rico, complexo e alimentado pela filosofia — especialmente pelo platonismo, pelo pitagorismo e, em menor grau, pelo aristotelismo.
Basilides dá o nome de Nous (“Intelecto”) à primeira emanação de Deus, adotando linguagem platônica; a Phronesis (“Pensamento Sábio”) aparece imediatamente depois, evocando o Filebo de Platão, onde phronesis é frequentemente associada a nous.
Platão, República — obra cujas expressões são pressupostas por algumas ideias basilidianas.
Platão, Fedro (69a-b) — a phronesis é descrita como o único valor pelo qual todo o resto deve ser sacrificado.
Platão, Timeu (31b) — fonte da palavra monogenes usada por Basilides para qualificar o mundo sensível (Clemente de Alexandria, Stromata V, 74, 3).
A noção de “mistura,” importante para os basilidianos (Clemente de Alexandria, Stromata II, 112, 1), é característica dos diálogos Fedro, Filebo e Timeu.
Basilides adere à metempsicose, recomenda o “silêncio,” e os basilidianos têm gosto pela astronomia matemática — Irineu os compara aos mathematici.
Bousset — estudioso que julgou a doutrina de Basilides essencialmente derivada do “dualismo iraniano e da mitologia oriental” (Hauptprobleme, Göttingen, 1907, pp. 92-96) — conclusão considerada excessiva.
Basilides é antes de tudo um teólogo cristão, descendente da escola de Menandro e Saturnilo, independente da Igreja organizada, que diverge do cristianismo de Paulo e João ao distinguir o Deus do Antigo Testamento do verdadeiro Deus — divergência que ele próprio provavelmente considerava aprofundar e confirmar a intenção real de seus mestres.
Paulo era para Basilides absolutamente “o Apóstolo” — ele usa o artigo definido como se houvesse apenas um —, e compreende sua teologia da salvação pela eleição e pela fé talvez melhor do que qualquer outro em sua época na Grande Igreja.
Basilides aderiu ao Evangelho de João num momento em que a Grande Igreja ainda não parecia tê-lo reconhecido.
Com Basilides começa o desenvolvimento do gnosticismo em direção à filosofia — ele abre o caminho para Valentino e, por Valentino, para o gnosticismo tardio e o neoplatonismo, dois modos de pensamento que contribuíram para a formação da teologia de Agostinho.
A questão de anterioridade entre Saturnilo e Basilides na introdução da separação entre o Demiurgo e o verdadeiro Deus tende a ser resolvida em favor de Saturnilo, dado que nele se encontra a oposição mais intensa à religião do Antigo Testamento; Basilides a atenua em vários aspectos, inclusive na ética — seu ascetismo era rigoroso mas não encratita como o de Saturnilo.