Art.1 (Adv. haer. II 34,1)
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As
parábolas ocupam muito pouco espaço na obra literária de São Irineu, sendo praticamente nulas na “Epideixis”, e a pesquisa as tem negligenciado em favor de temas de maior volume.
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A parábola, como gênero, pouco interessou ao santo, que a tratava exegeticamente de modo muito semelhante a um fragmento histórico, como no caso de Lázaro e o rico epulão.
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Irineu faz uso das
parábolas invocando-as globalmente ou atribuindo valor autônomo a suas partes, versículos e hemistíquios, independentemente do contexto, procedimento comum entre seus contemporâneos.
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As referências textuais são abundantes, mas interessam menos pela parábola em si do que pela doutrina comum aos “testemunhos” de que fazem parte, sendo raros os desenvolvimentos expressos.
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O estudo da exegese ireneana das
parábolas permite decantar os elementos vinculados ao texto sacro, medir a riqueza quantitativa do material exegético e deduzir as linhas características.
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A exegese de Irineu revela-se sistemática e coerente, não obstante a simplicidade aparente do estilo, escondendo uma teologia densa e nunca improvisada, que muitas vezes aborda versículos pela primeira vez.
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O autor do “Adversus haereses” é difícil porque sua simplicidade encobre teologia distante da nossa, e a antiguidade de sua exegese, anterior a
Tertuliano e aos alexandrinos, denuncia uma tradição anterior vinda dos “presbíteros”.
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Irineu omite o estudo de alguns símiles, como o do semeador (Mt 13,3b-9), cuja única menção figura em Adv. haer. V 36,2, abordando a retribuição segundo merecimentos, um ponto capital da luta antignóstica.
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A parábola das dez virgens (Mt 25,1-13) é referida por Irineu para condenar a exegese gnóstica, onde o Esposo e o tálamo são substituídos pela “manifesta predicação” da Igreja em contraste com a tradição secreta.
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Sobre a parábola dos dois devedores (Lc 7,41-43), Irineu aplica o dito “a quem mais se perdoa, mais ama” à economia dos homens pecadores em Adão, simbolizando a mulher pecadora a Igreja ou a natureza humana.
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O tesouro escondido (Mt 13,44) é interpretado por Irineu como Cristo, Verbo do
Pai, disseminado nas Escrituras, sendo a primeira vinda a manifestação do tesouro escondido na Lei e nos Profetas.
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A parábola do que tira do tesouro coisas novas e velhas (Mt 13,51-52) simboliza o Novo e o
Antigo Testamento, com Cristo como o pai de família que tira o tesouro, e serve para combater Marção e os gnósticos.
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O Senhor administra a casa do Pae, a Igreja, conforme a disposição dos membros: a lei mosaica do temor para os servos indisciplinados; preceitos congruentes para os homens livres; e a herança do Reino para os filhos adotivos.
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A parábola dos servos em vela (Lc 12,35-38) é citada por Irineu em florilégios sobre a vigilância diante da segunda vinda, respeitando as três vigílias (vespertina, segunda e terceira) contra a mutilação de Marção.
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O grão de mostarda (Mt 13,31-32) teve sua história entre os gnósticos (naassenos, basilidianos), que o usaram para designar a natureza espiritual e fecunda do
Logos, mas Irineu jamais mencionou a parábola por sua conta.
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O fermento (Mt 13,33; Lc 13,20-21) foi interpretado por Tolomeu como o Salvador, e por Teódoto como a simiente de eleição que aúna os povos na fé, impugnação que Irineu teve de enfrentar por infravalorar a economia da salus carnis.
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A expressão “luz do mundo” (Mt 5,14-16) é usada por Irineu para caracterizar a Igreja dos gentios, os crentes que se tornam luz mediante a fé em Cristo, em prêmio à liberdade e mérito, em oposição aos gnósticos que a atribuíam por privilégio de raça.
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Outros símiles como “sal da terra”, “a árvore e seus frutos” e “a dracma perdida” são conhecidos por Irineu, mas sem que se detenha a refutá-los ou os exponha por conta própria.
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O método de Irineu é homogêneo e dogmático, dando pouca cabida a considerações morais, e visa descobrir nos símiles o motivo teológico que declare todas as circunstâncias, superando o significado óbvio.
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A exegese de Marção sobre as
parábolas serve para fundamentar suas teses dogmáticas, como a eliminação de “o filho pródigo” e “a figueira infrutífera”, por não se coadunarem com sua antítese entre as duas economias.
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Os discípulos de Valentim explicam “a contrario” a exegese ireneana, adotando o texto claro das Escrituras e buscando o sentido espiritual último da doutrina da salvação, oculto nas
parábolas e acessível somente pela gnosis.
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A literatura apócrifa, como o
Evangelho segundo Tomás e os Atos de João e Tomás, confirma exegeses gnósticas e encratitas que se opõem à tradição harmônica de São Irineu.
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A exegese de Irineu sobre as
parábolas é dominada pela “salus carnis” como centro da economia comum aos dois Testamentos, com a ressurreição e glorificação carnal de Cristo como ideal e primícias da ressurreição humana.
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Em contraste com os
valentinianos (homem = espírito), os alexandrinos (homem = alma) e Marção (condenação do corpo), Irineu contrapõe a saúde “per se” da carne, afetando primariamente a “caro” em todas as fases da dispensação.
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O esquema exegético para a parábola do bom samaritano exemplifica as diferenças: para os
valentinianos, o malferido é o homem espiritual; para os alexandrinos, o “nous” decaído; para Irineu, o homem de barro transgredido em Adão.
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A exegese de Irineu distingue-se por sua concisão, variedade de matizes, aplomo e novidades de conteúdo, como a conjugação da
Trindade com a escatologia final e a eficácia complementar do
Logos humano e do
Espírito Santo.