Ireneu dedica linhas breves e incidentais à parábola do bom samaritano em sua obra escrita.
O autor desenvolve considerações sobre a pomba do Jordão como figura do
Espírito Santo e analisa diversas imagens do
Pneuma.
O orvalho anunciado para toda a terra representa o mesmo Espírito que o Salvador derramou como dom para a Igreja.
O
pneuma diabólico colocaria a criação em perigo de destruição pelo fogo se não ocorresse a intervenção do Paráclito sob a forma de orvalho.
O ofício de advogado próprio do
Espírito Santo opõe-se de maneira direta à atividade de acusador característica do espírito maligno.
O texto de
Ireneu estabelece o contraste necessário entre a atuação benéfica do Paráclito e as acusações formuladas pelo
diabo.
A oposição entre as duas realidades espirituais repete-se sob formas igualmente antitéticas na análise da parábola do samaritano.
O Senhor confiou o homem ferido ao cuidado do
Espírito Santo após ter exercido a misericórdia e ligado as chagas.
O Senhor encomendou ao
Espírito Santo o seu homem que caíra nas mãos de ladrões, de quem se compadeceu e atou as feridas, dando dois denários reais para que, recebendo a imagem e inscrição do
Pai e do
Filho, frutifiquemos o denário creditado.
O propósito de
Ireneu consiste em destacar a eficácia do
Espírito Santo tanto na ação antidiabólica quanto no estímulo à frutificação dos dons.
A síntese de
Ireneu congrega elementos da videira, do bom samaritano, dos talentos e da moeda do tributo de César.
A exegese do bom samaritano inicia-se diretamente a partir de uma construção de caráter alegórico.
O hospedeiro representa o
Espírito Santo na proposta do bispo de Lyon.
Ireneo dispensa a necessidade de provar a identificação do hospedeiro com o Espírito porque exclui a atuação de
anjos na economia humana.
O
Pai não necessita do concurso de
anjos para realizar a criação ou estruturar a dispensação que diz respeito ao ser humano.
O
Filho e o
Espírito Santo constituem a progênie e a figuração do
Pai que ministram em todas as coisas e a quem os
anjos estão sujeitos.
Deus realiza, governa e dispõe todas as coisas através de seu Verbo e de seu Espírito, concedendo a subsistência a todas as criaturas.
Apenas as duas pessoas divinas atuam como ministros diretos do
Pai na criação e na salvação do homem.
A repartição de funções na parábola reserva ao samaritano a representação universal do Verbo encarnado.
A atribuição do papel de samaritano ao Senhor deixa o cargo de hospedeiro livre para a identificação com o
Espírito Santo.
Um dado paralelo é encontrado na parábola dos operários da vinha, onde a figura do mordomo é encarregada de efetuar o pagamento.
O mordomo ou ecônomo representa o
Espírito Santo como a entidade que tudo dispõe em ambos os Testamentos.
A Sabedoria pessoal que é o
Espírito Santo assume a responsabilidade de cuidar do homem após a libertação operada pelo samaritano.
O
Filho e o Espírito operam conjuntamente como as duas mãos divinas envolvidas na regeneração da humanidade.
A atividade do Redentor e a do Santificador complementam-se e realizam-se no ambiente histórico deste mundo.
Ireneu emprega expressões semelhantes para descrever o ato de entrega do homem realizado pelo
Filho em direção ao
Pai após a ressurreição.
O Emanuel desceu às regiões inferiores da terra em busca da ovelha perdida e subiu às alturas oferecendo e recomendando o homem ao
Pai.
O mesmo Senhor que confiou o caído ao
Espírito Santo realizou a busca da ovelha perdida para oferecê-la ao
Pai celestial.
Os textos demonstram a correlação entre o ato de confiar o homem ao
Espírito Santo e o ato de recomendá-lo ao
Pai.
Em uma perspectiva o homem é entregue ao Santificador e na outra é apresentado ao
Pai.
O
Espírito Santo é encarregado de conduzir a termo a obra de salvação que teve início com a redenção operada por Cristo.
O intervalo temporal situado entre a ascensão e o segundo advento constitui o período de atuação do
Espírito Santo no cuidado do homem.
O
Pai é responsável por selar a obra realizada através da concessão da ressurreição final e da glória na carne humana.
A ressurreição constitui uma operação conjunta do
Pai com o Verbo e o Espírito.
O Senhor glorificado na carne ascende ao
Pai como primícia e cabeça de todo o corpo da humanidade que foi resgatada.
O
Espírito Santo efetuará a devolução da humanidade ao Senhor por ocasião do segundo advento.
O
Filho apresentará o homem definitivamente salvo ao
Pai de acordo com o ordenamento dos salvos.
Ireneu fundamenta suas afirmações na paradosis recebida dos presbíteros que foram discípulos diretos dos apóstolos.
Os discípulos dos apóstolos ensinam o avanço progressivo através dos graus que conduzem ao
Pai por meio do Espírito e do
Filho.
O encargo confiado ao Espírito durante a ausência histórica de
Jesus harmoniza-se com a posterior recomendação do homem ao
Pai.
A cabeça do corpo que é Cristo subiu ao
Pai, enquanto os membros permanecem sob a guarda do Espírito na hospedaria terrena.
O corpo da humanidade compartilhará o destino que já foi inaugurado pela cabeça.
O
Espírito Santo atua para conceder aos membros a capacidade de realizar os movimentos divinos adequados ao corpo de Cristo.
A missão confiada ao hospedeiro projeta uma perspectiva de caráter escatológico para a Igreja.
O
Espírito Santo trabalha na estruturação e consolidação do corpo total de Cristo.
O formador da carne de
Jesus no seio de Maria atua na organização do Cristo total a partir de indivíduos que foram curados pelo
Filho.
A análise dos dois denários liga-se de forma direta ao texto da parábola e situa-se antes das considerações de ordem escatológica.
O comentário de
Ireneu define os dois denários como regais e associados às figuras divinas do
Pai e do
Filho.
O samaritano efetuou o pagamento ao hospedeiro para cobrir as despesas ligadas ao tratamento e alojamento do ferido.
A hipótese de uma gratificação paga ao
Espírito Santo pelos seus serviços apresenta contornos problemáticos.
Ireneu afasta-se da literalidade do texto e desenvolve a exegese como se os dois denários fossem concedidos ao próprio homem ferido.
O raciocínio do autor simplifica o processo unindo o ato de confiar o enfermo ao Espírito e o benefício das moedas dado ao homem.
O enfermo recebe os denários em caráter de crédito e passa a negociar sua própria cura sob a ação do
Espírito Santo.
A recompensa decorrente da multiplicação dos recursos destina-se ao homem ferido e não ao Espírito que atua como hospedeiro.
O
Espírito Santo funciona como a chuva necessária para que o lenho árido produza frutos.
O
Espírito Santo não recebe recursos com o objetivo de frutificar em benefício de si mesmo.
A segunda mão do
Pai executa a complementação das tarefas que foram legadas pela atuação da primeira mão.
Os homens recebem a imagem e a inscrição do
Pai e do
Filho por meio do Espírito para frutificar o denário que lhes foi confiado.
O Senhor depositou as moedas em crédito para que a humanidade as fizesse render através do auxílio do
Espírito Santo.
O processo de negociação do ferido com os dois denários apresenta dois perfis definidos na escrita de
Ireneu.
A oscilação entre o plural dos denários e o singular do denário indica uma referência a uma moeda única de valor bivalente.
O enfermo recebe por meio do Espírito a moeda que traz gravada a efigie e a inscrição do
Pai e do
Filho.
A análise da parábola dos operários apresenta o denário real sob a perspectiva de seu valor de retribuição e recompensa.
A mudança de foco altera o sentido do componente monetário de acordo com a parábola que está sob análise.
É necessário estabelecer a distinção entre a moeda que serve como prêmio e aquela que atua como meio de frutificação.
A imagem gravada na moeda representa o
Filho encarnado como a única efigie visível e a medida do Deus invisível.
Não há dualidade de reis entre as pessoas divinas do
Pai e do
Filho.
A moeda única que premia os operários da vinha atua de igual modo como o meio utilizado para fazer frutificar a vida eterna.
O ferido obtém através do Espírito um meio verdadeiro de conhecimento que lhe faculta o acesso à gnose do
Filho e do
Pai.
O
Espírito Santo atua como o veículo que transmite o conhecimento simultâneo do
Pai como princípio invisível e do
Filho como imagem visível.
O conhecimento consumado identifica-se com a própria vida eterna e com a visão direta do
Pai celestial.
Ambas as formas de conhecimento possuem o
Espírito Santo como mediador e o
Pai e o
Filho como objetos de contemplação.
O
Filho atua como o enarrador do
Pai e o
Pai constitui o elemento inefável do
Filho.
O homem ferido recebe através do Espírito a efigie monetária que representa as pessoas do
Pai e do
Filho.
O indivíduo reconhece e confessa o
Filho como seu legítimo Rei e o
Pai como a origem do Unigénito.
O exercício do
Espírito Santo constitui o único meio pelo qual o homem é capaz de desenvolver um conhecimento salvífico e uma fé meritoria.
Os demônios detinham o conhecimento racional sobre a filiação de
Jesus e a paternidade do Criador, mas careciam do Espírito.
O conhecimento das realidades divinas só atinge a eficácia salvífica quando é recebido por meio do Espírito na estrutura da Igreja.
-
A multiplicação da ciência divina não ocorre por alteração de seu objeto, mas sim pelos graus de posse demonstrados pelos fiéis.
Os graus de frutificação correspondem às medidas de trinta, sessenta e cem por um descritas no
Evangelho.
Os sistemas gnósticos de Marcos correlacionavam o conhecimento multiplicado ao crescimento do grão de mostarda na terra boa.
Os pensadores gnósticos associaram precocemente a multiplicação do conhecimento interno aos ritmos de frutificação da semente.
Ireneu utiliza as medidas de frutificação de Mateus 13 para combater o ensinamento gnóstico sobre a igualdade da saúde.
A fé única multiplica-se de forma variada de acordo com as disposições e capacidades demonstradas pelos crentes.
Cada indivíduo frutifica em medidas distintas no seio da Igreja única sob a ação do mesmo
Espírito Santo.
A diversidade de posições no corpo reflete a existência de muitas moradas junto ao
Pai.
Cada ser humano apresentará ao Senhor os frutos que logrou multiplicar através do auxílio do
Espírito Santo.
O Senhor creditará os gastos adicionais ao ser humano e não à pessoa do
Espírito Santo.
A resposta pessoal do indivíduo introduz o elemento de supererogação que se converterá nos diferentes graus de beatitude.
Manter-se estritamente com o duplo denário representaria o patamar imprescindível para a conquista de uma fé meritoria.
O
Espírito Santo ocupa a posição central e o ponto focal na estrutura interpretativa desenvolvida por
Ireneu.
O ser humano atinge a capacidade de frutificar para a vida eterna através da mediação exercida pelo
Espírito Santo.
Ireneu destaca a eficácia do Espírito na salvação humana como uma realidade profetizada no
Antigo Testamento e cumprida em Pentecostes.
O Espírito enviado após a ascensão do Senhor inaugura de forma plena a economia do Novo Testamento.
David solicitou a confirmação pelo Espírito principal, e Lucas relata a descida do
Pneuma sobre os discípulos com poder sobre todas as nações.
A economia do hospedeiro inicia-se com a partida de
Jesus e a consequente assunção do cuidado do homem pelo Espírito.
O bispo de Lyon deixa em segundo plano diversos componentes secundários da parábola para fixar-se no papel do Espírito.
O homem que caiu em poder dos salteadores pertencia legitimamente ao Senhor por direito de criação.
O ferido era propriedade do Salvador e não um ser estranho proveniente de um deus alheio como pretendia
Marcion.
João Evangelista afirma que o mundo foi feito por meio dele e que o Verbo veio para o que era seu.
A visão de
Marcion sustentava erroneamente que o Salvador ingressou em mundo alheio e sem vínculos de criação.
O samaritano assemelha-se ao bom pastor que empreende a busca de sua própria ovelha para restaurar o homem que lhe pertence.
O ferido era propriedade do Salvador em virtude do ato de plasmação original descrito no Gênesis.
A dispensação de Deus
Pai sobre a humanidade decaída encontra seus fundamentos na benignidade e no amor incomensuráveis.
O homem experimenta as limitações da mortalidade para compreender a imensidão do poder de Deus em conceder a eternidade.
O samaritano moveu-se de compaixão para com o seu homem que havia caído em decorrência da sedução exercida pelo inimigo.
Ireneu não desenvolve uma justificativa explícita para o símbolo do samaritano por considerá-lo evidente.
O ato de compaixão liga-se à natureza divina do Salvador e à virtude de sua benignidade como princípio de salvação.
Ambrósio destaca que Cristo tornou-se nosso vizinho pela concessão da misericórdia e próximo pela assunção de nossa compaixão.
A ação de ligar as feridas sintetiza a primeira intervenção do Salvador na libertação do homem contra a morte definitiva.
A primeira necessidade consistia em estancar a hemorragia originada pela desobediência do protoplasto Adão.
Ireneu prioriza a iniciativa salvadora do samaritano em detrimento da atitude passiva do ferido.
A narrativa apresenta o ser humano em condição de passividade e incapacidade de operar a própria salvação de forma autônoma.
Não há evidências documentais de que
Ireneu tenha sido o inventor dos componentes exegéticos que apresenta em sua obra.
A identificação do hospedeiro com o
Espírito Santo constitui uma exclusividade do bispo de Lyon na literatura preservada.
Os escritores da antiguidade cristã anteriores e posteriores a
Ireneu não adotaram o
Espírito Santo como o significado do hospedeiro.
Os fragmentos de Cirilo de Alexandria sobre Lucas não confirmam a tese de Jean
Daniélou sobre a sobrevivência desse símbolo.
A exegese patrística tradicional seguiu caminhos diversos da proposta ireneana ao tratar da identidade do hospedeiro.
O mesmo fenômeno ocorre na interpretação do mordomo da vinha, onde apenas
Ireneu identifica o personagem com o
Espírito Santo.
O caráter fragmentário e incidental da exegese de
Ireneu explica as razões pelas quais ela passou despercebida na história.
As três fontes da tradição alexandrina demonstram uniformidade na aplicação do simbolismo do hospedeiro.
Clemente, o presbítero e
Orígenes coincidem na linha explicativa fundamental.
Clemente atribui uma dimensão coletiva ao personagem do hospedeiro em seu tratado sobre a salvação do rico.
O Salvador ordenou aos
anjos, principados e potestades que exercessem o ministério de assistência ao homem ferido.
O presbítero anterior a
Orígenes definiu o hospedeiro de forma taxativa como o dirigente encarregado da Igreja.
O contexto do presbítero exige um personagem qualificado responsável pela administração global da Igreja.
A expressão remete ao
anjo preposto à comunidade cristã na terra de acordo com a literatura antiga.
Orígenes preserva o número singular e remove as ambiguidades do termo dirigente ao identificar claramente o hospedeiro.
O mestre de Alexandria honra o hospedeiro como o
anjo da Igreja encarregado da cura diligente.
O alexandrino identifica de forma categórica o hospedeiro como o
anjo e afasta a possibilidade de associação com o
Espírito Santo.
A promessa de retribuição e prêmio elimina a viabilidade de aplicar o papel ao
Espírito Santo.
A uniformidade da tradição levanta questões sobre sua abrangência geográfica e antiguidade pré-ireneana.
Jean
Daniélou sugere a vinculação do presbítero anônimo às tradições primitivas de Papias e dos anciãos da Ásia.
As duas linhas interpretativas de
Orígenes e
Ireneu encontrar-se-iam vinculadas à atmosfera dos antigos presbíteros.
A proposta do presbítero representaria um estágio interpretativo anterior ao próprio
Ireneu.
O exame detalhado das propostas não confirma a tese de dependência em relação aos anciãos da Ásia.
O termo presbítero orienta-se para a designação de um personagem plenamente eclesiástico e difere do título de mestre hebreu.
Orígenes diferencia as fontes de suas informações exegéticas em seus escritos.
O mestre de Alexandria relata ter aprendido argumentos contra os
valentinianos a partir das lições de um presbítero eclesiástico.
O presbítero defendia a unidade das Escrituras demonstrando que os preceitos evangélicos já constavam no
Antigo Testamento.
-
A distinção entre as fontes exegéticas fica evidente nas análises do tratado Sobre os princípios de
Orígenes.
Os antecessores eclesiásticos limitavam certas regras ao Novo Testamento, enquanto
Orígenes as estendia ao
Antigo Testamento.
O mestre hebreu apresentava leituras cristãs sobre os serafins que diferiam das opções do próprio
Orígenes.
A designação de um antecessor ou predecessor em
Orígenes oculta por vezes uma referência direta às obras de Filon de Alexandria.
Orígenes reconhece o filósofo judeu como um predecessor em virtude de sua condição de intelectual e exégeta de Alexandria.
A multiplicidade de fontes e influências cronologicamente indiscriminadas impede a identificação do presbítero apenas pelo título.
A uniformidade dos três documentos fundamentais confirma a pertença de todos à mesma matriz teológica de Alexandria.
Clemente, o presbítero e
Orígenes partilham a estrutura que define o hospedeiro como a dignidade angélica da Igreja.
As notícias preservadas na obra de
Ireneu movem-se em uma direção teológica irredutível e oposta à linha alexandrina.
A identificação do hospedeiro com o
anjo choca-se com a teologia antignóstica defendida pelo bispo de Lyon.
Ireneu considera inadmissível confiar a cura do ser humano e a preparação para o segundo advento a uma dignidade angélica.
A interpretação dos dois denários apresenta idêntico contraste entre as duas escolas teológicas da antiguidade.
O presbítero e
Orígenes definem as moedas como o conhecimento mútuo que existe entre o
Pai e o
Filho.
Os denários significam a gnose das relações divinas e o mistério oculto que o Salvador revela aos pequeninos.
A divergência em relação a
Ireneu manifesta-se no destinatário e na função do conhecimento dos denários.
Na linha alexandrina o conhecimento atua como a retribuição concedida ao
anjo pelos seus serviços salvíficos.
Na teologia de
Ireneu o conhecimento dos denários destina-se ao homem ferido como o meio de cura operado pelo Espírito.
O
Espírito Santo atua como o veículo pessoal que comunica a gnose ao ser humano em sua integridade de corpo e alma.
A alteração do destinatário altera a perspectiva teológica global da parábola.
O hospedeiro é o Espírito superior a qualquer prêmio em
Ireneu, e o
anjo passível de receber galardão na escola alexandrina.
As duas propostas interpretativas constituíam sistemas estruturados que operavam em linhas teológicas irredutíveis.
Ireneu vincula-se à soteriologia de Justino e Teófilo que recusa a mediação de
anjos na salvação, enquanto Alexandria adota a mediação angélica.
Orígenes apresenta duas explicações distintas ao analisar o texto de Romanos sobre as primícias do Espírito.
As primícias podem significar o espírito mais excelente entre muitos ou referir-se especificamente ao
Espírito Santo.
O
Espírito Santo atua como o autor do espírito de adoção em oposição às potências angélicas que geram o espírito de servidão.
O mestre de Alexandria opta pela leitura que define as primícias como o
Espírito Santo em distinção às potências ministeriais.
Os
anjos ministram aos fiéis sob a condição de tutores até que a alma atinja a maioridade e a perfeição.
-
O espírito de servidão e o de adoção não apresentam divisões de essência como ocorria nos sistemas
valentinianos.
Os
anjos infundem o espírito de servidão nos crentes imperfeitos, e o
Espírito Santo transmite o espírito de filiação aos perfeitos.
A continuidade de funções permite a convivência entre a figura do
anjo e a do Espírito na cura promovida pelo hospedeiro.
O hospedeiro iniciaria sua atuação como
anjo e consumaria o processo como
Espírito Santo na mente alexandrina.
Ireneu rejeitaria a proposta por condenar a premissa de que criaturas angélicas possuem a capacidade de infundir o espírito divino de servidão.
As fronteiras entre as duas escolas situam-se na aceitação ou rejeição da mediação de criaturas na dispensação da salvação.
As conjecturas sobre as fontes do século segundo ganham relevo quando se examina o entusiasmo que Paulo despertava nas heresias.
Orígenes relata as interpretações ousadas e inauditas que circulavam em ambientes heterodoxos a respeito do apóstolo.
A exegese que posicionava Paulo e
Marcion junto ao Salvador provinha especificamente de ambientes marcionitas.
Os marcionitas rejeitavam o
Evangelho de João e não poderiam ter formulado o argumento baseado no texto do Paráclito.
A interpretação que identificava o Paráclito com o apóstolo Paulo originava-se das correntes do pensamento
valentiniano.
Os
valentinianos costumavam associar a figura do apóstolo à imagem do próprio Paráclito.
Os escritos de Teódoto confirmam que os
valentinianos aplicavam o título de Paráclito tanto a
Jesus quanto ao apóstolo Paulo.
O pensamento
valentiniano professava a existência de dois Paráclitos que atuavam na história da salvação.
O Primogênito atuou como consolador da Sabedoria exterior, e Paulo foi enviado para auxílio das igrejas terrenas.
O apóstolo pregava o Cristo crucificado para os psíquicos e anunciava o Salvador espiritual e impassível para os pneumáticos.
O corpo espiritual de
Jesus era apresentado como isento de paixão e morte para os homens espirituais.
Ptolomeu manifestava clareza ao tratar das funções do Cristo superior e do Paráclito na formação da ovelha perdida.
A ovelha perdida representa a figura de
Achamoth decaída nas regiões de trevas.
O Cristo superior conferiu a forma substancial a
Achamoth, e o Paráclito transmitiu-lhe a gnose e a purificação das paixões.
As duas atividades distribuídas entre o Cristo e o Paráclito na mitologia reproduzem-se posteriormente na história da Igreja terrena.
Jesus opera na Igreja exercendo a dupla função de Cristo e de Paráclito.
Jesus atua como Cristo ao curar as chagas substanciais da Igreja e opera como Paráclito ao derramar o Espírito para conceder a iluminação.
O intervalo entre as duas ações é marcado pelo retorno ao
Pai e pela ascensão de
Jesus.
O paralelismo mítico permitia aos
valentinianos correlacionar os personagens da parábola com as duas eficácias de
Jesus.
A atividade terrena do samaritano não consumou a salvação definitiva dos discípulos durante o período da vida pública.
A consumação exigia a manifestação de
Jesus na condição de Paráclito após a ascensão.
A efusão do Espírito realizada pelo Paráclito celestial efetuou a consumação da salvação do homem ferido.
Os
valentinianos inseriam a figura de Paulo nesse cenário a partir das premissas do duplo mito.
Os heresiarcas não confundiam a pessoa de Paulo com o
Espírito Santo efundido em Pentecostes.
Os
valentinianos transformaram o apóstolo Paulo na representação sensível e no tipo do Salvador Paráclito na terra.
O silêncio sobre o Espírito nos Excertos não significa a rejeição da terceira pessoa como o Paráclito santificante pelos
valentinianos.
A exaltação de Paulo como tipo do Paráclito fundamentava-se em sua eficácia na consumação da Igreja espiritual através do bautismo de perfeição.
O apóstolo operava na terra de forma análoga à ação do
Filho sobre
Achamoth.
O
Filho consolou a Sabedoria transgressora, e Paulo assistiu as congregações de esquerda e de direita no mundo.
A transição justifica a notícia de
Orígenes sobre os grupos que viam o apóstolo Paulo nas promessas joaninas a respeito do Advogado.
Os
valentinianos posicionavam o Paráclito exemplar na atividade celeste e faziam de Paulo o segundo Paráclito na terra.
O espírito de profecia habitava os profetas antigos, e o Espírito Paráclito estabeleceu sua inmanência singular em Paulo.
-
A entidade ocupa a posição correspondente ao Espírito no contraste com
o Logos e o
Pai.
A Sabedoria informe era denominada aborto pelos pensadores gnósticos antes de receber a iluminação substancial.
Os
valentinianos inspiravam-se nas declarações de Paulo sobre sua própria condição de abortivo em Coríntios.
A experiência de Paulo como abortivo fornecia a representação terrena da iluminação de Sofia pelo Salvador.
O apóstolo convertia-se em símbolo e figura da própria trajetória do
Espírito Santo decaído.
A literatura dos discípulos de Basilides apresenta uma associação semelhante entre a amorfia e a condição de aborto.
As correntes heréticas operaram a transição simbólica da Sofia aborto para o apóstolo Paulo aborto com base nesses textos.
Os discípulos das escolas gnósticas mantinham a distinção entre a pessoa histórica de Paulo e a entidade de Sofia.
Sofia representa o Espírito formado pelo Unigénito, e Paulo figura o homem iluminado no caminho de Damasco.
O apóstolo representava o
Espírito Santo em sua fase abortiva e em seu estágio de recepção da revelação.
O verdadeiro Paráclito exerce a soteriologia sobre a Sabedoria, e Paulo atua como a sua representação ou tipo na terra.
O apóstolo evangeliza o Pleroma do Salvador assim como o Unigénito atua em relação ao
Pai.
Paulo desempenha o papel de Paráclito das duas igrejas inmanentes ao mundo dentro da dispensação terrena.
As formulações de
Tertuliano no período montanista apresentam semelhanças ao tratar da posse do Espírito por Paulo.
O gnosticismo dispunha de motivos estruturados para associar o
Espírito Santo e o Paráclito à figura do apóstolo Paulo.
O Espírito da Verdade prometido por
Jesus repousaria sobre o apóstolo como o tipo visível do Paráclito.
Os maniqueus operaram uma transição semelhante ao identificar
Mani como a encarnação do Paráclito.
O Salvador atuava como corpo em
Mani e como Espírito no Paráclito para conceder a remissão dos pecados na fé maniqueia.
Os
valentinianos anteciparam o modelo de inmanência do Espírito na figura do apóstolo.
A preferência dos
valentinianos por Paulo em detrimento de Pedro respondia à necessidade de legitimar a sucessão secreta do grupo.
-
Fazer de Paulo o sucessor de
Jesus e o segundo Paráclito conferia autoridade divina à tradição privativa da escola.
O termo Paráclito revelava-se superior ao título de sucessor por ter sido anunciado diretamente por
Jesus no texto sagrado.
O apóstolo era considerado o único capaz de transmitir as verdades esotéricas da gnose
valentiniana à Igreja dos eleitos.
O cenário propiciava a circulação da exegese que igualava o hospedeiro à figura de Paulo
Espírito Santo.
O hospedeiro da parábola concentrava a representação simultânea do
Espírito Santo e do apóstolo Paulo.
Paulo atua como o Paráclito substituto em posse dos segredos de santificação recebidos de
Jesus.
Não existem provas documentais de que
Ireneu tenha conhecido de forma direta o simbolismo que unia o hospedeiro a Paulo.
A interpretação que via o hospedeiro na figura de Paulo perdeu o caráter herético original e tendeu a fixar-se na tradição.
Orígenes combateu a tese no texto de Lucas, mas a leitura reaparece em traduções de seus comentários a Romanos.
A equiparação do hospedeiro a Paulo ou ao dirigente eclesial é registrada em comentários de Rufino sobre
Orígenes.
O Pseudo-
Atanásio, Optato de Milevi, Zenão de Verona,
Ambrósio e
Agostinho testemunham a permanência da leitura de Paulo hospedeiro.
A transição entre o
anjo invisível e o dirigente visível da comunidade revela-se simples na história da interpretação.
A mudança do
Espírito Santo para o bispo apoiava-se na função eclesial de conferir o próprio Espírito.
O ambiente heterodoxo dispunha de elementos para associar Sofia a Paulo antes das formulações escritas de
Ireneu.
A teologia ortodoxa anterior a
Ireneu não registrava construções interpretativas semelhantes para a figura do hospedeiro.
A identificação entre o
Espírito Santo e o hospedeiro em
Ireneu recusa qualquer noção de fase abortiva para a pessoa divina.
O
Espírito Santo possui a missão exclusiva de santificar e não partilha de necessidades de cura ou aperfeiçoamento.
É considerado absurdo confiar a Paulo ou a outro apóstolo a tarefa de remover pecados dos quais eles próprios necessitavam de libertação.
Ireneu recusa conceder a um homem ferido pela queda a missão de curar a chaga da humanidade.
O bispo de Lyon combate a ideologia que professa a existência de um
Espírito Santo ou de um apóstolo primeiramente transgressores.
O
Espírito Santo permanece sempre santo como a mão soberana do
Pai encarregada da santificação humana.
As criaturas angélicas ou humanas não possuem as prerrogativas necessárias para suplantar a ação do
Espírito Santo.
Ireneu e os presbíteros eclesiásticos recusam a viabilidade do simbolismo que associa o hospedeiro a Paulo.
A identificação entre o hospedeiro e o
Espírito Santo formulou-se por exclusão de qualquer criatura na plasmação e regeneração do homem.
O silêncio dos primeiros escritores contrasta com a maturidade exegética que a parábola manifesta na tradição alexandrina e asiática.
A corrente de Alexandria é integrada pelos testemunhos de Clemente, do presbítero anônimo e pelas exposições de
Orígenes.
A paradosis da Ásia representada em
Ireneu surge de forma indireta e pressupõe uma estrutura interpretativa preexistente.
O patrimônio comum define o ferido como Adão, o samaritano como Cristo, os ladrões como o
diabo e os ministros como a Antiga Lei.
A parábola funciona como um compêndio da história da salvação desde a queda de Adão até o retorno ao Criador.
As mesmas expressões textuais assumem significações distintas de acordo com o sistema antropológico que serve de base.
A escola de
Orígenes interpreta o homem como o nous que realiza uma descida culpável do mundo noético para o corpo material.
Ireneu define o homem da parábola como o plasma corporal moldado por Deus e isento de preexistência noética.
A diversidade nas premissas antropológicas determina caminhos diferentes para explicar o significado de cair em mãos de ladrões.
Alexandria interpreta a queda como o descenso das inteligências ao mundo material marcado pela cegueira e pela ignorância.
Ireneu situa o evento no Edén histórico como a agressão do
diabo contra Adão e sua posteridade.
A mudança de orientação atinge os componentes centrais do hospedeiro e da distribuição dos dois denários.
Orígenes concede às dignidades angélicas uma verdadeira eficácia soteriológica na estrutura da hospedaria da Igreja.
O contraste entre as propostas revela um abismo teológico a respeito da dispensação da saúde.
As chagas de Adão não recebem curas diretas da ação de
anjos por carecerem essas potências de capacidades curativas.
Orígenes insere os
anjos em cargos administrativos no seio da Igreja de Cristo.
Ireneu reserva o governo eclesial ao
Espírito Santo como o único depositário legítimo das riquezas do Logos.
Os denários funcionam como a retribuição dada ao
anjo pelo seu serviço na hospedaria origeniana.
O plasma humano beneficia-se com o conhecimento do
Pai e do
Filho para atingir a dupla gnose de Deus.
Orígenes emprega elementos interpretativos impessoais sem delimitar as fronteiras entre antropologia e angelologia.
O sistema alexandrino não esclarece as razões pelas quais o nous recuperado deve permanecer na condição de plasma após a cura.
Ireneu organiza os dados da tradição para adaptá-los aos seus objetivos de combate contra os sistemas gnósticos.
Os pressupostos de
Orígenes seriam ineficazes para a polêmica promovida pelo bispo de Lyon.
O modelo de
Ireneu faculta a reconstrução a contrario da leitura
valentiniana da parábola.
O ferido representava o homem pneumático decaído como semente de Sofia na exegese dos sistemas
valentinianos.
A cooperação entre o Soter e o Paráclito aplicava-se ao homem espiritual e conferia eficácia soteriológica a figuras humanas como Paulo.
A linha de sucessão
valentiniana unia o Salvador a Valentino passando pelas figuras históricas de Paulo e Teodas.
A tradição de Paulo visava garantir a autoridade doutrinal dos grupos
valentinianos.
Paulo era apresentado como o depositário dos segredos esotéricos ocultados dos demais membros do colégio apostólico.
Os
valentinianos utilizavam o simbolismo do hospedeiro para afirmar a necessidade da intervenção de Paulo como Paráclito.
O papel de Paulo combinava as funções de mestre e santificador na transmissão da gnose aos eleitos.
A autoridade do hospedeiro era transferida para os sucessores oficiais que lideravam as escolas
valentinianas.
Tolomeo,
Heracleon e Teódoto assumiam a condição de Paráclitos e hospedeiros na sucessão iniciada pelo apóstolo.
-
Os apóstolos Pedro e Paulo não constituem o hospedeiro encarregado do governo da Igreja de Cristo.
O
Espírito Santo exerce a função de hospedeiro operando através dos apóstolos e da manifestação pública dos bispos.
-