A parábola do bom samaritano não é registrada nas informações deixadas pelos heresiólogos antigos.
Um autor desconhecido apresenta dados após mencionar
Marcion,
Mani e Bardesanes.
Um autor anônimo relata, após fazer menção a
Marcion,
Mani e Bardesanes, uma versão peculiar sobre as ações do Salvador.
Os heresiólogos indicam, contrariamente ao relato anônimo, que o
Jesus marcionita teria descido diretamente do céu para Cafarnaum no décimo quinto ano de Tibério César.
Ireneu ensina que
Jesus veio do
Pai que está acima do deus criador do mundo e entrou na Judeia nos tempos do governador Pôncio Pilatos.
Adolf von Harnack reúne notícias adicionais sobre
Marcion na literatura antiga.
A origem da informação do autor anônimo sobre a aparição de
Jesus entre Jerusalém e Jericó permanece incerta.
O fragmento preservado, possuindo caráter mais doutrinal do que histórico, expressa por via simbólica uma exegese semelhante à que os
valentinianos aplicavam ao texto de João 2,12.
A descida do Salvador a Cafarnaum representava o início de uma nova economia espiritual.
E. Corsini adverte que o evento evoca a doutrina de
Marcion sobre o início de seu
evangelho com a descida de Cristo à Galileia.
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Um simbolismo semelhante é apontado por
Heracleon na cura do filho do régulo, ocorrida também na cidade de Cafarnaum.
O filho do régulo é entendido como quem está situado na parte inferior da Mesotes, em direção ao mar e fronteiriço à matéria.
O homem que vive nessa região inferior acha-se enfermo, em uma condição desconforme à natureza, na ignorância e em pecados.
Orígenes transmite esses fragmentos em seus comentários joaninos.
O Apócrifo de Tiago menciona o ensinamento sobre a cura da doença para que os homens se tornem reis.
O filho enfermo do régulo em Cafarnaum e o homem ferido da parábola no caminho de Jericó servem à mesma construção alegórica.
O régulo solicitou a descida de
Jesus a Cafarnaum antes da morte do filho.
O
milagre do régulo ocorreu quando
Jesus vinha da Judeia para a Galileia.
O régulo solicitou o descenso de
Jesus a Cafarnaum antes que seu filho morresse, alcançando o
milagre na transição da Judeia para a Galileia.
Heracleon interpreta a Judeia como a região superior ou celeste.
O bom samaritano realizou uma descida de Jerusalém a Jericó para oferecer remédio ao homem que foi malferido.
Ambos os descensos coincidem no simbolismo da toponímia, permitindo que o autor anônimo sírio associasse Cafarnaum à comarca entre Jerusalém e Jericó.
As duas referências geográficas da cidade marítima de Cafarnaum e da região entre Jerusalém e Jericó possuíam o mesmo significado simbólico em determinado período.
Os locais significavam um topos caracterizado pelas chagas, pela ignorância e pelos pecados.
A região era descrita como governada por arcontes estranhos ao Deus supremo e opostos à saúde humana.
A semelhança de símbolos não comprova que
Marcion mantinha a parábola do bom samaritano em seu texto evangélico.
O recurso ao testemunho dos maniqueus medievais possui pouco peso para demonstrar a presença da parábola no
evangelho marcionita.
Bonacursus em Vida dos heréticos relata que os cátaros atribuíam a criação de Adão ao
diabo e explicavam o homem que descia de Jerusalém a Jericó como o espírito de Adão.
Moneta de Cremona detalha a exegese dos cátaros e valdenses, os quais viam o espírito de Adão descendo da Jerusalém celeste para o mundo, caindo nas mãos de espíritos malignos que o despojaram da luz do sol, da lua e das estrelas.
Na visão cátara, as pragas representam os pecados, e o estado semimorto indica que a vida carnal era comparável à morte, mas ainda passível de restauração.
O sacerdote e o levita, identificados como Melquisedeque e Aarão, falharam por descerem pelos mesmos pecados.
O samaritano representa Cristo, que derramou o óleo da penitência e o vinho do
Espírito Santo, salvando o homem por meio de seu corpo, que é a Igreja.
Os dois denários dados ao hoteleiro significam o
Evangelho e o Dom do
Espírito Santo entregues aos prepósitos da Igreja.
Paulo é visto como aquele que supererogou por pregar e viver do trabalho de suas mãos.
As notícias contidas nas Cadenas exegéticas possuem maior relevância para a investigação sobre o texto marcionita.
As expressões sobre a resposta correta em Lucas 10,28 eram apontadas nas Cadenas como argumentos contra os discípulos de Valentino, Basilides e
Marcion.
Estas palavras respondeu bem vão contra os de Valentino e Basilides e contra os de
Marcion, porque também eles têm em seu
evangelho as expressões indicadas.
Orígenes é referenciado como a fonte desses fragmentos coletados.
O versículo vinte e oito de Lucas constava no
Evangelho de
Marcion, mas a aceitação desse trecho não significava a incorporação da parábola que lhe era vinculada.
A tentativa de utilizar outros fragmentos da obra de
Orígenes para apoiar a tese da inclusão da parábola no marcionismo carece de fundamento.
Uma notícia de Cirilo de Alexandria indica que o simbolismo dos dois denários como representação dos dois Testamentos foi empregado em controvérsias contra Manes e
Marcion.
O ensinamento de Cirilo de Alexandria define os dois denários como os dois Testamentos provenientes de um Deus único.
Dois denários, isto é, dois Testamentos: o outorgado mediante a Lei de Moisés e os Profetas, e o dado por meio dos evangelios e as constituições apostólicas.
Ambos os Testamentos levam uma só imagem do supremo e único Rei e imprimem o mesmo caráter nos corações mediante os sagrados oráculos, pois um só Espírito os proferiu.
A crítica é direcionada a Manes e
Marcion por repartirem os Testamentos entre deuses diferentes, esquecendo que Cristo consignou os denários juntos ao chefe da hospedaria.
A existência de um argumento antimarcionita baseado em Lucas 10,35 poderia sugerir de modo indireto que
Marcion conhecia o texto.
A lógica interpretativa de alguns Padres não autoriza a afirmação categórica sobre a presença do texto no manuscrito de
Marcion.
A ausência de indícios consistentes impede a inclusão da parábola do bom samaritano no conteúdo do
evangelho marcionita.
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O amor espiritual é definido como vinho e bálsamo, usufruído por aqueles que são ungidos.
Aqueles que não são ungidos permanecem em seu mau odor quando estão distantes dos consagrados.
O samaritano não deu ao ferido outra coisa senão vinho e óleo, o que representa a unção.
A unção cura as feridas porque o amor cobre uma multidão de pecados.
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O bom odor do
Pai é relacionado com as expressões do
Evangelho da Verdade e de Inácio de Antioquia.
O samaritano funciona como símbolo do Salvador, enquanto o homem ferido representa a humanidade na perspectiva
valentiniana.
O vinho e o óleo evocam as práticas de unção dos enfermos dentro do ritualismo
valentiniano narrado por
Ireneu.
Os elementos do vinho e do óleo, quando tomados em um sentido mais amplo, passam a simbolizar o ágape e a gnose.
O indivíduo curado e dotado do bom odor comunica essa condição aos homens psíquicos aos quais se aproxima como próximo.
O texto
valentiniano faz uma alusão sutil às figuras do sacerdote e do levita que abandonam o ferido em seu mau odor.
O samaritano interrompe sua marcha para ungir o ferido, concedendo-lhe a saúde e o aroma de Deus.
O autor sugere de modo dissimulado que apenas o homem espiritual é capaz de atingir a saúde perfeita acompanhada do bom odor definitivo.
Os homens psíquicos participam da perfeição contanto que permaneçam na zona de influência ou revestidos pelo homem espiritual.
O testemunho de
Taciano faz menção à parábola, mas apresenta poucas possibilidades para a reconstituição exata do texto.
A obra Ad graecos apresenta trechos que relembram os componentes da narrativa evangélica.
Os capítulos posteriores da obra de
Taciano reforçam a analogia entre os seres demoníacos e os ladrões.
Os demônios não promovem a cura, mas escravizam os homens de forma artificiosa.
Justino é citado por proclamar que os demônios se assemelham aos ladrões que capturam pessoas para devolvê-las mediante resgate em ouro.
G. J. M. Bartelink e Werner Monselewski estudam a temática dos demônios como salteadores na literatura cristã primitiva.
Os fragmentos preservados de
Taciano não demonstram uma inspiração direta ou dependência textual de Lucas 10,30.
O recurso ao conceito de ladrões para qualificar os demônios constitui uma metáfora genérica inspirada nos escritos de Justino.
Cipriano de Cartago faz alusões veladas à parábola, aplicando-a de modo especial à situação dos lapsos que foram feridos pelo
diabo.
A clemência divina encaminha os feridos à Igreja para que recebam a cura, evitando o abandono sob o poder do delito.
O samaritano é identificado como Cristo ou Deus.
A hospedaria representa a Igreja, os salteadores figuram o demônio, e o vinho e o óleo significam a bondadade e a misericórdia divinas.
Os cristãos feridos durante as perseguições não devem ser considerados mortos, mas semimortos no caminho da recuperação.
Não pensemos que estão mortos, mas antes que jazem semimortos aqueles que vemos feridos pela perseguição funesta, pois se estivessem totalmente mortos nunca se tornariam confessores e mártires.
Há neles um princípio que pode prevalecer para a fé por meio da penitência.
Hugo Koch e H. J. Vogt examinam as cartas ciprianas e suas implicações teológicas.
A assistência oferecida pela Igreja seria ineficaz se os lapsos e apóstatas estivessem totalmente destituídos de um princípio de vida.
Cipriano contrapõe sua visão à postura de Novaciano antes do cisma.
A postura de Novaciano considerava os caídos como indivíduos mais mortos do que um cadáver, enquanto
Cipriano os via como gravemente enfermos.
A condição de semimorto justifica a aplicação da medicina da bondade de Deus para avivar os indivíduos no seio da Igreja.