O fragmento preservado, possuindo caráter mais doutrinal do que histórico, expressa por via simbólica uma exegese semelhante à que os
valentinianos aplicavam ao texto de João 2,12.
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Heracleon interpreta a descida a Cafarnaum como o manifesto do começo de uma nova economia.
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Cafarnaum é significada como as partes últimas do mundo, a região material para onde ocorreu a descida.
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Pela impropriedade do lugar material, não se relata que
Jesus tenha feito ou falado algo na cidade.
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A descida do Salvador a Cafarnaum representava o início de uma nova economia espiritual.
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E. Corsini adverte que o evento evoca a doutrina de
Marcion sobre o início de seu
evangelho com a descida de Cristo à Galileia.
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Um simbolismo semelhante é apontado por Heracleon na cura do filho do régulo, ocorrida também na cidade de Cafarnaum.
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O filho do régulo é entendido como quem está situado na parte inferior da Mesotes, em direção ao mar e fronteiriço à matéria.
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O homem que vive nessa região inferior acha-se enfermo, em uma condição desconforme à natureza, na ignorância e em pecados.
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Orígenes transmite esses fragmentos em seus comentários joaninos.
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O
Apócrifo de Tiago menciona o ensinamento sobre a cura da doença para que os homens se tornem reis.
O filho enfermo do régulo em Cafarnaum e o homem ferido da parábola no caminho de Jericó servem à mesma construção alegórica.
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O régulo solicitou a descida de
Jesus a Cafarnaum antes da morte do filho.
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O
milagre do régulo ocorreu quando
Jesus vinha da Judeia para a Galileia.
O régulo solicitou o descenso de
Jesus a Cafarnaum antes que seu filho morresse, alcançando o
milagre na transição da Judeia para a Galileia.
O bom samaritano realizou uma descida de Jerusalém a Jericó para oferecer remédio ao homem que foi malferido.
Ambos os descensos coincidem no simbolismo da toponímia, permitindo que o autor anônimo sírio associasse Cafarnaum à comarca entre Jerusalém e Jericó.
As duas referências geográficas da cidade marítima de Cafarnaum e da região entre Jerusalém e Jericó possuíam o mesmo significado simbólico em determinado período.
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Os locais significavam um topos caracterizado pelas chagas, pela ignorância e pelos pecados.
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A região era descrita como governada por arcontes estranhos ao Deus supremo e opostos à saúde humana.
A semelhança de símbolos não comprova que
Marcion mantinha a parábola do bom samaritano em seu texto evangélico.
O recurso ao testemunho dos maniqueus medievais possui pouco peso para demonstrar a presença da parábola no
evangelho marcionita.
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Bonacursus em Vida dos heréticos relata que os cátaros atribuíam a criação de Adão ao
diabo e explicavam o homem que descia de Jerusalém a Jericó como o espírito de Adão.
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Moneta de Cremona detalha a exegese dos cátaros e valdenses, os quais viam o espírito de Adão descendo da Jerusalém celeste para o mundo, caindo nas mãos de espíritos malignos que o despojaram da luz do sol, da lua e das estrelas.
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Na visão cátara, as pragas representam os pecados, e o estado semimorto indica que a vida carnal era comparável à morte, mas ainda passível de restauração.
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O sacerdote e o levita, identificados como Melquisedeque e Aarão, falharam por descerem pelos mesmos pecados.
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O samaritano representa Cristo, que derramou o óleo da penitência e o vinho do
Espírito Santo, salvando o homem por meio de seu corpo, que é a Igreja.
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Os dois denários dados ao hoteleiro significam o
Evangelho e o Dom do
Espírito Santo entregues aos prepósitos da Igreja.
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Paulo é visto como aquele que supererogou por pregar e viver do trabalho de suas mãos.
As notícias contidas nas Cadenas exegéticas possuem maior relevância para a investigação sobre o texto marcionita.
As expressões sobre a resposta correta em Lucas 10,28 eram apontadas nas Cadenas como argumentos contra os discípulos de Valentim, Basílides e
Marcion.
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Estas palavras respondeu bem vão contra os de Valentim e Basílides e contra os de
Marcion, porque também eles têm em seu
evangelho as expressões indicadas.
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Orígenes é referenciado como a fonte desses fragmentos coletados.
O versículo vinte e oito de Lucas constava no
Evangelho de
Marcion, mas a aceitação desse trecho não significava a incorporação da parábola que lhe era vinculada.
A tentativa de utilizar outros fragmentos da obra de
Orígenes para apoiar a tese da inclusão da parábola no marcionismo carece de fundamento.
Uma notícia de Cirilo de Alexandria indica que o simbolismo dos dois denários como representação dos dois Testamentos foi empregado em controvérsias contra Manes e
Marcion.
O ensinamento de Cirilo de Alexandria define os dois denários como os dois Testamentos provenientes de um Deus único.
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Dois denários, isto é, dois Testamentos: o outorgado mediante a Lei de Moisés e os Profetas, e o dado por meio dos evangelios e as constituições apostólicas.
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Ambos os Testamentos levam uma só imagem do supremo e único Rei e imprimem o mesmo caráter nos corações mediante os sagrados oráculos, pois um só Espírito os proferiu.
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A crítica é direcionada a Manes e
Marcion por repartirem os Testamentos entre deuses diferentes, esquecendo que Cristo consignou os denários juntos ao chefe da hospedaria.
A existência de um argumento antimarcionita baseado em Lucas 10,35 poderia sugerir de modo indireto que
Marcion conhecia o texto.
A lógica interpretativa de alguns Padres não autoriza a afirmação categórica sobre a presença do texto no manuscrito de
Marcion.
A ausência de indícios consistentes impede a inclusão da parábola do bom samaritano no conteúdo do
evangelho marcionita.
O
Evangelho segundo Filipe apresenta reflexões de origem valentiniana sobre os elementos da parábola.
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O amor espiritual é definido como vinho e bálsamo, usufruído por aqueles que são ungidos.
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Aqueles que não são ungidos permanecem em seu mau odor quando estão distantes dos consagrados.
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O samaritano não deu ao ferido outra coisa senão vinho e óleo, o que representa a unção.
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A unção cura as feridas porque o amor cobre uma multidão de pecados.
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O autor do
Evangelho segundo Filipe destaca a eficácia da caridade em cobrir os pecados e curar as chagas do homem.
O samaritano funciona como símbolo do Salvador, enquanto o homem ferido representa a humanidade na perspectiva valentiniana.
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O vinho e o óleo evocam as práticas de unção dos enfermos dentro do ritualismo
valentiniano narrado por Ireneu.
Os elementos do vinho e do óleo, quando tomados em um sentido mais amplo, passam a simbolizar o ágape e a gnose.
O indivíduo curado e dotado do bom odor comunica essa condição aos homens psíquicos aos quais se aproxima como próximo.
O texto
valentiniano faz uma alusão sutil às figuras do sacerdote e do levita que abandonam o ferido em seu mau odor.
O samaritano interrompe sua marcha para ungir o ferido, concedendo-lhe a saúde e o aroma de Deus.
O autor sugere de modo dissimulado que apenas o homem espiritual é capaz de atingir a saúde perfeita acompanhada do bom odor definitivo.
Os homens psíquicos participam da perfeição contanto que permaneçam na zona de influência ou revestidos pelo homem espiritual.
O testemunho de
Taciano faz menção à parábola, mas apresenta poucas possibilidades para a reconstituição exata do texto.
A obra Ad graecos apresenta trechos que relembram os componentes da narrativa evangélica.
Os capítulos posteriores da obra de
Taciano reforçam a analogia entre os seres demoníacos e os ladrões.
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Os demônios não promovem a cura, mas escravizam os homens de forma artificiosa.
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Justino é citado por proclamar que os demônios se assemelham aos ladrões que capturam pessoas para devolvê-las mediante resgate em ouro.
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G. J. M. Bartelink e Werner Monselewski estudam a temática dos demônios como salteadores na literatura cristã primitiva.
Os fragmentos preservados de
Taciano não demonstram uma inspiração direta ou dependência textual de Lucas 10,30.
O recurso ao conceito de ladrões para qualificar os demônios constitui uma metáfora genérica inspirada nos escritos de Justino.
Cipriano de Cartago faz alusões veladas à parábola, aplicando-a de modo especial à situação dos lapsos que foram feridos pelo
diabo.
A clemência divina encaminha os feridos à Igreja para que recebam a cura, evitando o abandono sob o poder do delito.
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O samaritano é identificado como Cristo ou Deus.
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A hospedaria representa a Igreja, os salteadores figuram o demônio, e o vinho e o óleo significam a bondadade e a misericórdia divinas.
Os cristãos feridos durante as perseguições não devem ser considerados mortos, mas semimortos no caminho da recuperação.
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Não pensemos que estão mortos, mas antes que jazem semimortos aqueles que vemos feridos pela perseguição funesta, pois se estivessem totalmente mortos nunca se tornariam confessores e mártires.
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Há neles um princípio que pode prevalecer para a fé por meio da penitência.
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Hugo Koch e H. J. Vogt examinam as cartas ciprianas e suas implicações teológicas.
A assistência oferecida pela Igreja seria ineficaz se os lapsos e apóstatas estivessem totalmente destituídos de um princípio de vida.
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Cipriano contrapõe sua visão à postura de Novaciano antes do cisma.
A postura de Novaciano considerava os caídos como indivíduos mais mortos do que um cadáver, enquanto
Cipriano os via como gravemente enfermos.
A condição de semimorto justifica a aplicação da medicina da bondade de Deus para avivar os indivíduos no seio da Igreja.