ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 18: AS TENTAÇÕES DE JESUS
A luta entre o Salvador e o inimigo estende-se a toda a vida de Jesus, desde a sua viagem do céu à terra até à vitória da ascensão contra a metensomatose, sendo que as tentações que se seguiram ao batismo constituem um episódio central deste drama, interpretado pelos gnósticos como um paradigma para os crentes.
Marcion eliminou as tentações do seu
Evangelho para evitar qualquer enlace entre os dois Testamentos, pois o recurso de
Jesus à Escritura Antiga acusava tudo menos a antítese entre o Salvador e Iahweh.
O Livro de Baruc (de Justino gnóstico) narra que o
anjo Baruc apareceu a
Jesus (pastorzinho de doze anos) e lhe disse: “Todos os profetas anteriores a ti foram corrompidos; procura, pois,
Jesus,
filho do homem, não ser corrompido; mas anuncia este mensagem aos homens”. Naás (a serpente, a concupiscência) quis seduzir também a
Jesus, mas não pôde, porque ele permaneceu fiel a Baruc.
A concupiscência domina a todos os justos do
Antigo Testamento (Moisés e os profetas), que sucumbem à libido como nascidos de impura concupiscência, mas
Jesus (fruto virginal) vive por cima da sedução, alimentando-se da “árvore da vida” (Baruc) e superando toda corrupção e ataque da concupiscência (Naás).
O
Evangelho da Verdade (18,21ss) afirma que “por isso se irritou o erro contra Ele, perseguiu-O, maltratou-O, desfez-O. Cravaram-nO num lenho, e tornou-se fruto do conhecimento (verdadeiro) do
Pai; não causa de perdição para quem comeram dEle”.
1. CENÁRIO E MOTIVO DA TENTAÇÃO
Os valentinianos (Excerpta ex Theodoto 85,1) situam as tentações imediatamente após o batismo (“em seguida, logo após o batismo, é sacudido o Senhor, para nossa ensino”), e escolhem o verbo “saleuetai” (ser sacudido externamente) em vez de “peirazesthai” para excluir toda tentação interna (como as da concupiscência), indicando que as tentações de Jesus seriam externas.
Os Excerpta ex Theodoto (77,3) afirmam que “ao ponto, tão logo o servo de Deus sobe do batismo, se diz também dono dos espíritos impuros”, e (85,1) descrevem duas etapas no deserto: primeiro
Jesus apresenta-se com as feras; depois, após dominá-las e ao seu arconte, é servido pelos
anjos.
O deserto (eremos) é interpretado como “morada de feras”, e
Heracleon (fragmento 20) ensina que o “monte” de
João 4:21 é o
diabo ou o seu mundo (porção de toda a matéria, mundo todo da iniquidade, deserto, morada de feras), adorado pelos homens anteriores à Lei e pelos gentios, enquanto Jerusalém simbolizava o criador (Iahweh), adorado pelos judeus.
As feras do deserto simbolizam todos os elementos hílicos e singularmente os “espíritos de iniquidade” que apresentam batalha aos neófitos pelo
Espírito Santo de Deus em que foram selados;
Jesus viu-se de repente no deserto à mercê do
diabo e seus
anjos para ser tentado (como paradigma) e sair vitorioso.
A doutrina da inabitação dos espíritos imundos no indivíduo (presente em Basilides, Valentino e nos
valentinianos) é pressuposto para entender as tentações: os espíritos malignos, desalojados do corpo e da alma do neófito mediante o batismo (precedido de ascese, oração e jejum), reagem desde fora, tentando externamente aquele que já não podem tentar internamente.
2. OS ANJOS E AS TENTAÇÕES
Os valentinianos (Excerpta ex Theodoto 85,3) afirmam que, após o batismo, é necessário armar-se com as armas do Senhor (Efésios 6:16) para apagar os dardos de fogo do diabo, e descrevem um combate entre o Espírito bom e os espíritos maus análogo ao que medeia entre a água e o fogo material.
O batismo é duplo: o sensível (mediante a água, que apaga o fogo sensível) e o inteligível (mediante o Espírito, que protege contra o fogo inteligível); o Espírito que desde cima é dado (por ser incorpóreo) domina não só os elementos, mas também as virtudes e malignos principados.
A escena das tentações de
Jesus demonstra que o Senhor, batizado em água e em Espírito (não num sopro material leve, mas no poderoso Espírito de Deus), é capaz (enquanto homem) de dominar as feras (os espíritos malignos e o arconte deles), servindo de paradigma do poder outorgado pelo Espírito incorpóreo de Deus contra os espíritos (também incorpóreos) da iniquidade.
O domínio de
Jesus sobre o demónio denuncia onde está a verdadeira realeza: o
diabo promete falsamente “todos os reinos do mundo e a sua glória” (
Mateus 4:8-9;
Lucas 4:5-6) a troco de que
Jesus ceda ao seu querer, mas o “rei verdadeiro” é aquele que adquire domínio sobre as coisas materiais, sobre as paixões (fogo corpóreo) e feras do mundo.
Após dominar as feras e o arconte delas (como quem já é rei verdadeiro),
Jesus foi servido pelos
anjos (
Mateus 4:11;
Marcos 1:13), sendo que estes
anjos (segundo os
valentinianos) são os espíritos malignos que, derrotados, se viram obrigados a servir a
Jesus como escravos (douloi).
O
Evangelho segundo Filipe (§ 106) afirma que “os santos são servidos pelas potências perversas; o
Espírito Santo, efetivamente, as cega para que imaginem servir aos seus homens (perversos, hílicos) quando trabalham pelos santos”.
3. CONCLUSÃO
Os gnósticos dizem muito pouco sobre o episódio das tentações porque, a priori, após a “iluminação” (gnose) o indivíduo (Jesus primeiro que ninguém) entra num regime de serena teoria, acessível apenas a tentações externas (epidérmicas) e protegido pela graça inalienável da gnose.
Heracleon permite identificar o monte a que alude a samaritana (
João 4:20) com o ermo (morada de feras) a que levou o inimigo ao Salvador; símbolos ambos do mundo sensível governado pelo
diabo, e o intento das tentações era atrair
Jesus ao regime em que viviam os pagãos (samaritanos), dando-lhe culto.
Antes de
Jesus, todos haviam cedido às tentações (em parte porque ninguém fora iluminado com a gnose, e sobretudo porque ninguém, fora dEle, merecia – pela sua excecional dignidade de Unigénito de Deus – o domínio absoluto sobre a concupiscência), fenómeno mitificado no Livro de Baruc (Justino gnóstico) com o diálogo entre Baruc e
Jesus (e entre Naás e o Menino).
Os gnósticos distinguem entre as tentações internas (anímicas e carnais, a impulsos da interior concupiscência) – de que fazem indigno
Jesus e o indivíduo “iluminado” – e as tentações externas (perseguições), compatíveis com a iluminação, nas quais o indivíduo iluminado vive em inalterável serenidade e paz de espírito, constituindo-se verdadeiro “rei” de todos os inimigos e espíritos do mal.