Purificação do Templo

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 20: A PURIFICAÇÃO DO TEMPLO

A exegese valentiniana da purificação do templo (João 2:13-16) interpreta a subida de Jesus a Jerusalém, o encontro dos vendedores no santuário e a confecção do azote de cordas como símbolos da purificação dos espirituais (a igreja eleita) das contaminações do culto levítico e da transição do regime de justiça (do demiurgo) para o regime de graça (do Pai).

1. PARTE PRIMEIRA: “E JESUS SUBIU A JERUSALÉM” (João 2:13)

Heracleon interpreta a subida de Jesus de Cafarnaúm (região hílica, governada pelo régulo-demiurgo) a Jerusalém (Hierosolyma, no plural) como a ascensão do Senhor desde as regiões inferiores (hílicas) até ao lugar psíquico (a cidade terrena que é imagem da Jerusalém celeste).

2. PARTE SEGUNDA: “E HALLOU NO TEMPLO OS VENDEDORES” (João 2:14)

Heracleón identifica o “hieron” (templo-santuário) de João 2:14 com o “sancta sanctorum” (o lugar onde só o sumo sacerdote podia entrar, conforme Hebreus 9:7), simbolizando os espirituais (os eleitos, a igreja pneumática) que, antes da vinda de Cristo, viviam inconscientes de si e dominados pela Lei de justiça (do demiurgo) em vez de pela Lei de graça (do Pai).

3. PARTE TERCEIRA: “E HAVENDO FEITO UM AZOTE DE CORDAS…” (João 2:15)

Heracleón afirma que Jesus fez o azote de cordas (não de pele morta, para não usar substância impura de animal morto) sem o tomar de outro (ouch par’allou labontos), e que o azote (feito de fibras vegetais puras) era imagem da virtude (dynamis) e da energia (energeia) do Espírito Santo, que com o sopro (ekphysontos) expulsa os maus.

4. CONSIDERAÇÃO FINAL

A exegese de Heracleon sobre a purificação do templo contrasta vigorosamente as duas dispensações cultuais (Antigo e Novo Testamento) e revela que a verdadeira purificação afeta não os psíquicos (levitas) mas os espirituais (sacerdotes, os “santos dos santos”), que até à vinda de Cristo viviam inconscientemente sob regime de justiça e ignoravam a lei de graça.