ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 20: A PURIFICAÇÃO DO TEMPLO
A exegese valentiniana da purificação do templo (João 2:13-16) interpreta a subida de Jesus a Jerusalém, o encontro dos vendedores no santuário e a confecção do azote de cordas como símbolos da purificação dos espirituais (a igreja eleita) das contaminações do culto levítico e da transição do regime de justiça (do demiurgo) para o regime de graça (do Pai).
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Marcion eliminava
Lucas 19:29-46 (a cena da purificação), enquanto Justino menciona o episódio inequivocamente, citando as palavras de
Jesus (“Minha casa é casa de oração, e vós a fizestes cova de ladrões”) e o gesto de derrubar as mesas dos banqueiros no templo (naos).
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A II Clemente (14,1) interpreta a purificação como um contraste entre a igreja primeira (espiritual, fundada antes do sol e da lua) e a igreja que se tornou “cova de ladrões”, ensinando que se Deus pagasse imediatamente a paga dos justos, se exercitaria o negócio (emporion) e não a religião.
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Heracleon (discípulo de
Valentino) desenvolveu uma exegese em três partes: 1) a subida de
Jesus a Jerusalém (Hierosolyma); 2) o encontro dos vendedores no templo (hieron); 3) a confecção do azote de cordas para expulsá-los.
1. PARTE PRIMEIRA: “E JESUS SUBIU A JERUSALÉM” (João 2:13)
Heracleon interpreta a subida de Jesus de Cafarnaúm (região hílica, governada pelo régulo-demiurgo) a Jerusalém (Hierosolyma, no plural) como a ascensão do Senhor desde as regiões inferiores (hílicas) até ao lugar psíquico (a cidade terrena que é imagem da Jerusalém celeste).
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A distinção entre Jerusalém (singular, celeste, espiritual, situada na unidade do Pleroma) e Hierosolyma (plural, terrestre, animal, situada na multiplicidade da matéria) é fundamental para Heracleón, pois o plural caracteriza a Jerusalém hebreia (múltipla, imagem terrena da Jerusalém una).
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Uma mesma cidade (Hierosolyma) é trivalente: é psíquica em relação à região hílica (Cafarnaúm), é terrena em relação à Jerusalém superior (espiritual, celeste), e é inferior (vestíbulo) em relação ao templo (santuário, hieron) como a Ogdóada o é em relação ao Pleroma.
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Os moradores natos de Hierosolyma são os filhos do criador (Iahweh), de natureza animal (psíquicos), enquanto os habitantes (ou renatos) da superior Jerusalém (Ogdóada) são os espirituais, e os sacerdotes (moradores do templo) são os que habitam o Pleroma.
2. PARTE SEGUNDA: “E HALLOU NO TEMPLO OS VENDEDORES” (João 2:14)
Heracleón identifica o “hieron” (templo-santuário) de João 2:14 com o “sancta sanctorum” (o lugar onde só o sumo sacerdote podia entrar, conforme Hebreus 9:7), simbolizando os espirituais (os eleitos, a igreja pneumática) que, antes da vinda de Cristo, viviam inconscientes de si e dominados pela Lei de justiça (do demiurgo) em vez de pela Lei de graça (do Pai).
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O templo (naos) judaico evocava em símbolo a sinagoga ou igreja da vocação (klesis, igreja animal), mas Heracleón deliberadamente elimina esta interpretação para afirmar que o Salvador entrou no santíssimo (hieron) para auxiliar os espirituais (os eleitos), não apenas os psíquicos (os chamados).
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Os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados no santuário, representam (segundo Heracleón) aqueles que nada dão gratuitamente (não por graça, chariti) mas tomam por negócio e lucro a entrada dos estranhos no santuário, proporcionando oferendas para o culto de Deus atentos apenas ao proveito próprio e à avareza.
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Os espirituais (de linagem sacerdotal, “sancta sanctorum”) durante o
Antigo Testamento, ignorando a sua dignidade e a lei de graça, comportavam-se como mercadores e cambistas, oferecendo a salvação (a entrada no santuário) a troco de boas obras, segundo o regime de justiça peculiar ao demiurgo, em vez de a oferecer gratuitamente.
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O vestíbulo (pronaos) do templo simboliza a morada dos psíquicos (crentes que se salvam na Ogdóada), onde também se encontram os levitas (a tribo de Levi, à qual pertencia João Batista), que estão bem onde estão (no vestíbulo, em regime psíquico conforme a sua natureza).
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A lei de graça (do
Pai) é gratuita e não se baseia em obras (nem mesmo no martírio), pois os espirituais possuem a graça adquirida em propriedade (idiokteton anothen) desde o nascimento (por ter-lhes descido de cima do matrimónio inefável de Bythos-Charis), enquanto os psíquicos recebem a graça “em uso” (kata chresin) e por isso lhes será quitada.
3. PARTE TERCEIRA: “E HAVENDO FEITO UM AZOTE DE CORDAS…” (João 2:15)
Heracleón afirma que Jesus fez o azote de cordas (não de pele morta, para não usar substância impura de animal morto) sem o tomar de outro (ouch par’allou labontos), e que o azote (feito de fibras vegetais puras) era imagem da virtude (dynamis) e da energia (energeia) do Espírito Santo, que com o sopro (ekphysontos) expulsa os maus.
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O azote estava atado a um leño (mango de madeira), que era figura da cruz (stauros); com este leño (azote e mango) foram destruídos e dissipados (anelosthai kai ephanisthai) os jogadores mercadores e toda a maldade (pasan ten kakian), fazendo
Jesus da igreja (espiritual) não já cova de ladrões, mas casa do seu
Pai.
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O azote (o corpo de
Jesus) foi feito por
Jesus “sem o tomar de outro” (não recebendo a matéria do demiurgo nem de uma mãe impura), indicando que o Salvador é pai do seu próprio corpo (puro, não corruptível, de substância vegetal, não animal), configurando-o ele mesmo e dotando-o de propriedades sensíveis como se essencialmente as tivesse.
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O líno (linho) e a sínfone (sudário) são também imagens da força e da energia do
Espírito Santo (como o azote), porque a indumentária do sumo sacerdote (de linho, não de lã) deve ser de substância pura (vegetal, não animal) para purificar outros sem precisar ele mesmo de purificação.
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A expulsão dos mercadores do santuário (a catharsis dos espirituais) é realizada pela virtude e energia do
Espírito Santo (que aventa os maus) através do corpo de
Jesus (o azote) unido à cruz (o leño), destruindo os critérios de justiça (ignorância) que contaminavam os espirituais e restaurando neles o regime de graça.
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Heracleon aplica o
Salmo 69,10 (“O zelo da tua casa me devora”) aos poderes do mal (as dynameis perversas) expulsos e destruídos pelo Salvador, porque o “zelo” (zelos, inveja) é atributo do demiurgo (Deus zelote de Êxodo 20,5) e não do Salvador, e este zelo (inveja dos poderes malignos pela casa de Deus) devora os próprios poderes quando são expulsos do santuário.
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A eficácia purificadora do azote (corpo de
Jesus) unido ao leño (cruz) prepara os espirituais (o “sancta sanctorum”) para o culto em Espírito e verdade (característico do
Pai) e para entrarem na família sumissacerdotal (como irmãos de
Jesus), abandonando o regime de justiça (venal) e a lei de Moisés.
4. CONSIDERAÇÃO FINAL
A exegese de Heracleon sobre a purificação do templo contrasta vigorosamente as duas dispensações cultuais (Antigo e Novo Testamento) e revela que a verdadeira purificação afeta não os psíquicos (levitas) mas os espirituais (sacerdotes, os “santos dos santos”), que até à vinda de Cristo viviam inconscientemente sob regime de justiça e ignoravam a lei de graça.
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O templo de Deus (ou “sancta sanctorum”) que os poderes do mal invejam e desejam corromper é, para Heracleón e os gnósticos, per se o espírito divino inerente ao mundo (e só muito secundariamente a alma), enquanto para Irineu é a carne do homem chamada à salvação, e para
Orígenes (e os alexandrinos) é a alma.
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O erro básico dos espirituais durante o
Antigo Testamento era comportarem-se como os judeus (psíquicos), oferecendo a salvação a troco de boas obras (culto venal) e ignorando que o culto de Deus não é venal nem acessível a todos a cambio de boas obras, mas que os espirituais são salvos por pura graça (
gnosis) e não por obras.
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O flagelo (azote) feito por
Jesus “sem o tomar de outro” revela o mistério da “autoencarnação” do Salvador: ele não abandona ao demiurgo Iahweh (nem aos seus arcontes) a tarefa de formar o corpo destinado à cruz, mas assume-a pessoalmente, plasmando um
soma não material (de índole racional psíquica) e unindo-o ao leño da cruz (a encarnação orienta-se para a cruz).
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A purificação do santuário (hieron) pelos espirituais, após a ação salvífica de
Jesus, dispõe-os a entrar na própria família sumissacerdotal (feitos “como os
anjos” espirituais) e, na final
synteleia, a entrar com
Jesus não no santuário da Hierosolyma terrestre, mas no santuário viviente (espécie de Cristo total) onde se confundem sacerdócio, lugar e culto de Deus em unidade de Espírito.