Sumo Sacerdote

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 28: O SUMO SACERDOTE

A gnose heterodoxa desenvolveu uma doutrina complexa sobre o sacerdócio de Cristo, interpretando o templo de Jerusalém e os seus velos como símbolos das divisões entre o Pleroma, a Ogdóada e o mundo sensível, e identificando o Verbo como o grande Sumo Sacerdote que atravessa os céus.

1. A PESSOA DO SUMO SACERDOTE

Os valentinianos de Hipólito denominavam o Verbo (fruto comum do Pleroma e emitido em solidão por todos os eons em honra do Pai) de “o grande Sumo Sacerdote”, cujo nascimento estava vinculado a uma oferenda eucarística ou eulogia de todos os eons ao Pai.

2. RUMO AO SACERDÓCIO DE CRISTO HOMEM

A “iluminação” de Achamot (Sofia exterior) pelo Salvador celeste, descrita pelos valentinianos itálicos, representa um ato sacerdotal do Filho (enquanto intelecto e gnose pessoal do Padre) que, ao conceder o conhecimento intuitivo de Deus, atrai a própria Sofia ao seu caráter de Arquiereu.

3. VESTIÇÃO SACERDOTAL

Os valentinianos itálicos descreviam a encarnação do Verbo (a “humanação”) como uma singular “vestição” (estola sacra) do Sumo Sacerdote, na qual a substância psíquica (racional) do criador e as propriedades hilicas dos arcontes foram “tecidas” como uma túnica inconsútil para a missão da cruz.

4. MINISTÉRIO SACERDOTAL DE JESUS

O ministério terreno de Jesus, desde a sua apresentação no templo aos quarenta dias até à sua morte na cruz, foi interpretado pelos gnósticos como um exercício contínuo de sumo sacerdócio, no qual a purificação do templo (João 2:13-15) desempenhou um papel simbólico central.

5. RASGA-SE O VÉU DO SANTUÁRIO

O rasgão do véu do templo de Jerusalém (Mateus 27:51; Marcos 15:38) foi interpretado pelos gnósticos não como o fim da aliança antiga, mas como a abertura (momentânea) do “horos” (cruz) que separa o Pleroma do Kenoma, permitindo que os espirituais (os da tribo sacerdotal) entrem no sancta sanctorum.

6. SACERDOTE DOS ANJOS

Ao contrário da teologia asiática (representada por Tertuliano, Irineu e a Epístola dos Apóstolos), que ignorava o sacerdócio de Jesus em prol dos anjos e a “salus angelorum”, os valentinianos ensinaram que os anjos espirituais (satélites do Salvador) são irmãos natos do Salvador e agem em comunhão com ele como sumos sacerdotes para a salvação dos homens espirituais.

7. SACERDÓCIO DO CRISTO ANIMAL

Os valentinianos distinguiram entre o sacerdócio espiritual do Filho (mediação entre o Padre e a igreja dos espirituais) e o sacerdócio animal do Messias (Cristo psíquico), que atua como sumo sacerdote junto do demiurgo para beneficiar os psíquicos e também para assegurar aos espirituais o livre trânsito para o Pleroma.

8. A MEDIAÇÃO DO DEMIURGO

A mediação do demiurgo (e dos seus anjos) é uma mediação de natureza (física e topológica) e não propriamente sacerdotal, pois o criador animal e os seus anjos atuam como instrumentos cegos (inconscientes) ao serviço da Sabedoria do Filho para diseminar os germes espirituais de Sofia no mundo.

9. MEDIAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO EM BASÍLIDES

Basílides desenvolveu uma doutrina na qual o Espírito Santo (pneuma methórion, “espírito fronteiriço”) atua como “diácono” do Filho (Sumo Sacerdote), cumprindo funções de mediação física (secessão, distribuição, apocatástase) que preparam o terreno para o exercício sacerdotal da gnose.

10. CONCLUSÃO

A doutrina gnóstica do sacerdócio sumo de Cristo, embora dispersa e com vocabulário equívoco, revela-se coerente e central na economia salvífica: o Verbo é gerado como Sumo Sacerdote, veste a estola sacra da humanação, exerce o seu ministério iluminador sobre Sofia e sobre a Igreja e, crucificado como “horos-stauros”, rasga o véu do templo celeste para introduzir os espirituais no sancta sanctorum.