Ressurreição e vida gloriosa

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 32: RESSURREIÇÃO E VIDA GLORIOSA

A gnose heterodoxa admitiu as notícias sobre a ressurreição e aparições de Jesus com a mesma simplicidade com que deu cabida aos relatos sobre sua paixão e morte, embora os seus prejuízos não fossem contra o milagre ou o mistério, mas sim contra a exegese eclesiástica que a eles se vinculava.

1. RESSUSCITA POR OBRA DO PADRE

Os primeiros discursos de São Pedro nos Atos dos Apóstolos e, em geral, os escritos do Novo Testamento indicam que o Padre ressuscitou a Jesus, fórmula habitual que os eclesiásticos traduziram sem dificuldade como Deus = o Padre.

2. O ESPÍRITO RESSUSCITA A JESUS

Os ofitas de Irineu descrevem que, antes do pathos, o Cristo superior (= Espírito Santo superior) havia-se retirado da humanidade de Jesus voltando ao Pleroma, mas não se esqueceu dele e, ao terceiro dia, enviou-lhe uma virtude (virtus quaedam) que o ressuscitou em corpo animal e espiritual.

3. JESUS RESSUSCITA POR SUA PRÓPRIA VIRTUDE

Santo Inácio de Antioquia, na carta aos de Esmirna, atesta a autoanástase do Salvador ao afirmar que o Senhor sofreu de veras e de veras se ressuscitou a si mesmo (os kai aletos anestesen heauton), e Santo Irineu, na Epideixis, manifesta que o Verbo, vindo a ser pessoalmente o primogênito dos mortos, ressuscitou em si mesmo ao homem abatido e o levantou à destra do Padre.

4. O CORPO REDIVIVO

A ressurreição de Jesus abriu um novo regime de secretas ensinanças, e a mudança de economia, segundo os gnósticos, entrañava uma mudança real na natureza humana do Salvador, especialmente em seu corpo, que até então passível deixou de o ser.

Os ofitas de Irineu distinguem em Jesus crucificado três corpos: o mundiale (carnal, que não ressuscita), o animale (racional) e o spirituale (divino), sendo que o Salvador ressuscitou e atuou com os dois últimos durante os meses de vida gloriosa.

5. VIDA GLORIOSA

Os gnósticos deram suma importância à atividade de Jesus ressuscitado no mundo, não tanto pelos fatos ou milagres (que foram raros ou inexistentes nesta fase), mas pelas palavras e revelações secretas que ele reservou para então, ensinando “desnuda e claramente” o que antes havia anunciado em parábolas.

6. DURAÇÃO DA VIDA GLORIOSA

Os ofitas de Irineu e a Epístula Iacobi Apocrypha consignam a cifra de dezoito meses (ou 550 dias) para a duração da vida gloriosa de Jesus, número que os valentinianos (Ptolomeu) interpretam simbolicamente em relação aos trinta eons do Unigênito.