Reformador

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 5: O REFORMADOR

A posição vertical do corpo humano, interpretada como sinal do destino humano de olhar para o céu em contraste com os animais, serviu aos gnósticos para distinguir entre o espiritual (que vive em retidão) e o terreno (como Caim, curvado para a terra), sendo necessário que um Salvador viesse para endireitar o homem e devolver-lhe a sua primeira posição erguida.

O vocabulário da correção e emenda (diorthosis, diorthotes, katorthosis, epanorthosis), embora raro entre os sectários do século II, possui raízes bíblicas e estoicas, sendo aplicado à missão de Cristo de retificar o que estava torto ou deficiente, especialmente em contraste com a Lei Antiga.

Marcion, ao contrário da ideia de emenda, fazia da novidade do cristianismo a sua palavra de ordem, afirmando que o Evangelho trazia elementos inteiramente desconhecidos e que o verdadeiro Cristo Salvador veio para fundar de golpe uma nova fé, não para corrigir o Antigo Testamento.

Os Atos apócrifos dos apóstolos, cujo fundo último recorda a gnose heterodoxa, empregam os verbos katorthoun, diorthoun e epanorthoun para indicar a emenda do erro (delito) de Adão e Eva, sendo que o verdadeiro “emendador” é Cristo.

Plotino, em sua polêmica contra os gnósticos, critica a noção de “emendatio mundi” (diorthosis tou kosmou), argumentando que o mundo sensível é perfeito e não necessita de correção, ao contrário do que afirmavam os sectários sobre a obra imperfeita do demiurgo.

Os gnósticos, diferentemente dos eclesiásticos, atribuíram ao Salvador a função de “emendador” (diorthotes) não em um sentido judiciário ou punitivo, mas como aquele que purifica, corrige e restaura pela gnose ou pela fé, em todos os estratos da realidade (Pleroma, Ogdóada, Hebdomada, mundo sensível).

Os gnósticos sintetizam com a “emenda” (diorthosis) a obra de Cristo frente à obra informe de Sofia, autora da dispersão e morte do Espírito, sendo que o Salvador é visto como aquele que retifica e endireita o que estava caído e pervertido, inaugurando o reino da unidade de Espírito.