ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 5: O REFORMADOR
A posição vertical do corpo humano, interpretada como sinal do destino humano de olhar para o céu em contraste com os animais, serviu aos gnósticos para distinguir entre o espiritual (que vive em retidão) e o terreno (como Caim, curvado para a terra), sendo necessário que um Salvador viesse para endireitar o homem e devolver-lhe a sua primeira posição erguida.
Tertuliano, seguindo Satornilo, descreve o homem como tendo sido feito pelos
anjos como uma obra fútil, inválida e instável, que palpitava no chão como um verme até que a centelha de vida do Deus supremo o ergueu e o endireitou.
Clemente de Alexandria, nos Excerpta ex Theodoto, afirma que de Adão nascem três naturezas: a irracional (Caim), a racional e justa (Abel) e a espiritual (Set), sendo que este, por ser espiritual, não pastoreia nem trabalha o campo, mas invoca o nome do Senhor e mira para cima, pois a sua cidadania está nos céus.
Os Atos de Pedro com Simão relatam que o primeiro homem, de cujo linheagem (posto de cabeça para baixo) a imagem é carregada, revelou um tempo a gênese inconsistente, caído em terra como quem atira por terra o seu próprio princípio.
O vocabulário da correção e emenda (diorthosis, diorthotes, katorthosis, epanorthosis), embora raro entre os sectários do século II, possui raízes bíblicas e estoicas, sendo aplicado à missão de Cristo de retificar o que estava torto ou deficiente, especialmente em contraste com a Lei Antiga.
Marcion, ao contrário da ideia de emenda, fazia da novidade do cristianismo a sua palavra de ordem, afirmando que o Evangelho trazia elementos inteiramente desconhecidos e que o verdadeiro Cristo Salvador veio para fundar de golpe uma nova fé, não para corrigir o Antigo Testamento.
Tertuliano acusa
Marcion de ilógico por ter querido justificar sua postura “corrigindo” ou “corrompendo” o precedente, argumentando que a emenda não antecede a culpa e que a heresia, ao emendar os
evangelhos, tanto confirma o
evangelho anterior (que emenda) quanto faz o posterior (que constitui como seu e novo).
Apeles, discípulo de
Marcion, destacou-se por sua doutrina da “emendatio mundi”, segundo a qual o demiurgo (que fabricou o mundo sensível para glória do Deus ingênito) suplicou ao Deus sumo que enviasse seu
Filho Jesus Cristo para a correção do mundo, por ter saído imperfeito ou se estragado.
A notícia de
Orígenes sobre Apeles é considerada muito extraña, pois atribui a Iahweh um conhecimento consciente do Deus ingênito na fabricação do mundo e reconhece a necessidade da vinda do Unigênito para corrigir a deficiência do demiurgo, em aberto contraste com os axiomas do marcionismo.
A “emendatio mundi” de Apeles, no contexto do comentário de
Orígenes à carta a Tito (1,5), tem o significado de corrigir a ignorância do mundo sobre o verdadeiro Deus, conduzindo os homens à plena ciência do
evangelho (a gnose), e não de emendar a obra de Iahweh na ordem demiúrgica.
Celso, ao impugnar a vinda de Deus ao mundo para “emendá-lo”, argumenta que bastaria o poder divino agir sem necessidade de apresentar-se entre os homens, talvez atuando na fantasia humana para lhes quitar a malícia e inspirar a virtude.
Orígenes responde a Celso que a reforma do mundo não é algo novo vinculado ao advento carnal de Cristo, pois desde sempre Deus com seu
Logos reforma as almas santas e dóceis, e que a única emenda impossível é aquela imposta pela força, que atentaria contra a natureza racional e livre do homem.
Os Atos apócrifos dos apóstolos, cujo fundo último recorda a gnose heterodoxa, empregam os verbos katorthoun, diorthoun e epanorthoun para indicar a emenda do erro (delito) de Adão e Eva, sendo que o verdadeiro “emendador” é Cristo.
Os Atos de André apresentam André dizendo a Maximila que o que Eva sofreu ignorantemente, ela retifica mediante a conversão; e que o que padeceu o Intelecto abatido com ela, ele emenda agora com ela, que se reconhece de volta, pois está ordenado que a emenda de cada um remedeie o próprio erro.
Nos Atos de Tomé, o apóstolo invoca o Senhor como “emendador” (epanorthoten) para que as almas feridas pelos demônios se levantem sãs e salvas e voltem a como se achavam antes de serem feridas.
O Testamento de Salomão, por ocasião da queda de Davi, relata a mensagem do
anjo a Natã de que o pecado teve cumprimento por sua incuria, mas por sua diligência será também o remédio (diorthosis), devendo ele ir e lançar em cara ao rei a impiedade cometida.
Plotino, em sua polêmica contra os gnósticos, critica a noção de “emendatio mundi” (diorthosis tou kosmou), argumentando que o mundo sensível é perfeito e não necessita de correção, ao contrário do que afirmavam os sectários sobre a obra imperfeita do demiurgo.
Plotino afirma que o alma (ou demiurgo) não governa o mundo em virtude de um pensamento reflexo nem o corrige para nada, mas, com a mira posta no que é anterior e superior a ela, adorna tudo com admirável poder.
O filósofo neoplatônico denuncia que os gnósticos, possuidores do conhecimento superior e julgando-se de natureza e linhagem divina, se sentem idôneos para “emendar as coisas daqui” (katorthoun tauta), orientando-as mediante a fé no Deus ignoto para uma moral e uma saúde mais altas.
Plotino compara a ação do demiurgo gnóstico à de um lavrador que, depois de semear e plantar, emenda sempre os prejuízos do inverno com suas chuvas ou dos frios persistentes, ao invés de atuar de uma vez para sempre.
Os gnósticos, diferentemente dos eclesiásticos, atribuíram ao Salvador a função de “emendador” (diorthotes) não em um sentido judiciário ou punitivo, mas como aquele que purifica, corrige e restaura pela gnose ou pela fé, em todos os estratos da realidade (Pleroma, Ogdóada, Hebdomada, mundo sensível).
Simão Mago, segundo
Irineu, ensinou que os
anjos governaram mal o mundo por cobiçarem o principado cada um, e que por isso o Salvador veio para a emenda das coisas (eis epanorthosin), descendo transfigurado.
As Pseudo-Clementinas afirmam que primeiro convém que venha um falso
evangelho por obra de um impostor, e logo, após a destruição do Lugar santo, o verdadeiro
Evangelho, escondidamente, para correção das futuras heresias (eis epanorthosin ton esomenon aireseon).
Basilides, segundo
Clemente de Alexandria, declara que os filhos espirituais foram abandonados no mundo sensível para adornar, imprimir, emendar (diorthosasthai) e conferir perfeição às almas, que por natureza devem permanecer neste âmbito inferior.
O Apócrifo de João descreve o pecado de Sofia (éon) ao não querer unir-se a seu marido, aspirando à comunhão direta com o Deus supremo, e a consequente necessidade de seu marido descer a ela para corrigir seu deslize, sendo que ela permanece na Ennéada até que corrija seu deslize.
Marcos, apresentando-se como “emendador do mestre” (Valentino), sintetizava a missão salvífica do
Filho fora do Pleroma na “emenda do que foi feito” (diorthosis ton prochthenton), descendo para corrigir as coisas criadas a fim de que a unidade dos pleromas, em posse da igualdade (de Espírito), desse como fruto em todos os espirituais a Virtude única procedente de todos os
eons.
Os
valentinianos de
Hipólito denominam o
Filho (fruto comum do Pleroma e esposo da Sabedoria externa) de “emendador das paixões” (diorthoten pathon), pois ele encontrou Sofia presa de quatro paixões (temor, tristeza, angústia e súplica) e as emendou, convertendo o temor em substância animal, a tristeza em material, a aporia em substância dos demônios e a súplica em substância psíquica.
O mesmo anônimo
valentiniano afirma que, assim como o Senhor emendou os erros que tiveram lugar entre os
eons dentro do Pleroma, e emendou também na Ogdóada a Sofia externa, e também emendou na Hebdomada o demiurgo purificando-o de sua ignorância, assim também
Jesus nasceu mediante Maria para emendar as coisas daqui (ina diorthosetaí).
Os Excerpta ex Theodoto (22,6-7) descrevem que, no princípio, os
anjos foram batizados na redenção do Nome que desceu sobre
Jesus na pomba e o redimiu, sendo que também a
Jesus fez falta a redenção para que não fosse retido pela ignorância da penúria, mas progressse através da sabedoria.
O
Evangelho segundo Filipe (§ 83) afirma que, por isso, Cristo nasceu de uma (só) virgem, a fim de emendar o deslize que teve lugar no princípio, numa clara alusão à ideia de ver na obra de Cristo uma emenda do pecado de Adão.
Os gnósticos sintetizam com a “emenda” (diorthosis) a obra de Cristo frente à obra informe de Sofia, autora da dispersão e morte do Espírito, sendo que o Salvador é visto como aquele que retifica e endireita o que estava caído e pervertido, inaugurando o reino da unidade de Espírito.
Os Atos de Pedro (9) transmitem o logion misterioso do Senhor: “Se não fizerdes as coisas da destra como as da sinistra, e as da esquerda como as da direita, e as de cima como as de baixo, e as de trás como as da frente, não conhecereis o reino”, indicando a necessidade de inverter o que foi invertido para devolver as coisas à sua verdadeira perspectiva.
O Testamento do Senhor afirma que este é o Cristo que foi crucificado, por quem as coisas que pertenciam à esquerda evadiram-se para o que pertence à direita, as que estavam abaixo foram feitas como superiores, e as que estavam atrás foram colocadas adiante.
Santo Efrém, comentando
Lucas 1:35, pergunta por que o
anjo não mencionou o nome do
Pai, mas sim o da sua
Dynamis e do
Espírito Santo, e responde que convinha que viesse o arquiteto das obras, restaurasse o edifício caído, e o
Espírito Santo com seu calor santificasse os edifícios manchados.
O Ambrosiáster, ao fazer exegese sobre a curação do cego de nascença (
João 9,1ss), descobre no
milagre de
Jesus (reformador ou emendador do corpo humano) a prova visível de tê-lo ele formado como criador, pois pelo que foi feito se emenda aquilo que caiu.
Clemente de Alexandria, no Protrético, afirma que os homens têm a promessa divina da graça e ouviram a ameaça do castigo, sendo por esses dois meios que o Senhor salva, educando o homem mediante o temor e a graça.