ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 10: EM TORNO À ENCARNAÇÃO
A análise da encarnação entre os gnósticos revela que o mistério se concentrava não na comunhão pessoal do Logos com a natureza humana, mas na formação milagrosa de um corpo visível (a partir de substância não-material) ou na transformação qualitativa do corpo material (pelo batismo do Jordão), sendo que o anúncio do anjo (Lucas 1,35) era frequentemente aplicado ao batismo de Jesus como verdadeira geração divina.
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Irineu (I 6,1) resume a doutrina de Ptolomeu: o Salvador assumiu as primícias daqueles que ia salvar; o elemento espiritual (de Achamot) e o Cristo animal (do demiurgo), revestindo um corpo de substância animal disposto com artifício inefável (aphrheto techne) de maneira que resultasse visível, palpável e passível (patheton); não assumiu elemento algum hílico, por ser a matéria incapaz de salvação
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O
Logos se fez carne (
João 1,14) não apenas ao se fazer homem segundo a presença (kata ten parousian), mas também “no princípio” (
João 1,1s), quando se fez
Filho segundo a circunscrição pessoal (kata perigraphen) e não segundo a essência, e de novo se fez carne ao atuar dinamicamente através dos profetas (
Clemente de Alexandria, ET 19,1-2)
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Hipólito (Ref. VI 36,4) afirma que, segundo os
valentinianos, são três Cristos: o emitido junto com o
Espírito Santo por Nous e Aletheia; o comum (fruto do Pleroma, cônjuge de Sofia externa); e o terceiro (Cristo sensível), engendrado por meio de Maria para emenda de nossa criação
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O
Evangelho segundo Filipe (§ 83) declara que Adão nasceu de duas virgens (do Espírito e da terra virginal), e por isso Cristo nasceu de uma [só] virgem, a fim de corrigir o deslize que havia ocorrido no princípio
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O mesmo
Evangelho (§ 17) afirma: “Uns diziam: ‘Maria concebeu do
Espírito Santo’. Enganam-se. Não sabem o que dizem. Quando uma mulher foi jamais embaraçada por uma mulher?… E o Senhor não teria dito: ‘Meu [
Pai que está] no céu’, como não tivesse [outro] pai (terreno); senão que teria dito simplesmente: [meu pai]”
1. EXEGESE DE LUCAS 1,35
As palavras do anjo a Maria (“O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te fará sombra; por isso o que nascer de ti será chamado santo”) foram objeto de exegeses divergentes entre as escolas gnósticas, sendo que os itálicos as aplicavam à formação do corpo visível de Jesus no seio virginal, enquanto os orientais (e Basilides) as aplicavam ao batismo do Jordão como verdadeira regeneração divina.
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Basilides (
Hipólito, Ref. VII 26,3) afirma que
Lucas 1,35 indica: “O
Espírito Santo virá sobre ti” – a saber, o que desde a filialidade, através do espírito fronteiriço (methorion), veio à Ogdóada e à Hebdomada até Maria – “e a Virtude do Altíssimo te fará sombra” – a saber, a Virtude do discernimento (he dynamis tes kriseos), que desde a cima superior veio, através do demiurgo, até a criação, isto é, até o
Filho (filialidade terceira abandonada no mundo)
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Hipólito (Ref. VI 35,3-5) distingue as duas escolas valentinianas: os itálicos dizem que o corpo de
Jesus era animal (psychikon), e por isso no batismo desceu como pomba o Espírito (
Logos da mãe superior Sophia) e se uniu ao corpo animal; os orientais dizem que o corpo do Salvador era espiritual (pneumatikon), porque o
Espírito Santo (Sophia) se adentrou em Maria e a Virtude do Altíssimo (a arte de fabricar) deu forma ao que foi outorgado a Maria pelo Espírito
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Irineu (I 15,3) expõe a doutrina de Marcos: os eones saíram da Tétrada (Anthropos-Ecclesia,
Logos-Zoe); o lugar do
Logos foi colmado pelo
anjo Gabriel, o de Zoe pelo
Espírito Santo, o de Anthropos pela dynamis do Altíssimo, e o de Ecclesia foi significado pela Virgem; assim vem a ser engendrado (genesiourgeitai), através de Maria (dia tes Marias), o homem da economia (ho kat’oikonomian anthropos)
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Pistis Sophia (c.62) oferece exegese bautismal do
Salmo 84,11-12 relacionando-o a
Lucas 1,35: a graça (charis) é o
Espírito Santo que veio sobre
Jesus quando recebeu o batismo de João; a verdade (aletheia) é a dynamis de Sabaot o bom; a justiça (dikaiosyne) é o espírito da luz que desceu sobre ele no Jordão e aportou os mistérios das alturas; a paz (eirene) é a dynamis de Sabaot que batizou (baptizeo) e conferiu o perdão ao linaje humano
2. EXEGESE DE João 1,14
O versículo “E o Verbo se fez carne” (João 1,14) era interpretado polivalentemente pelos gnósticos, podendo referir-se à geração do Logos no seio do Pai (como circunscrição pessoal), à sua subsistência extra Patrem (como primogênito), à sua atuação dinâmica através dos profetas, ou à sua presença substancial em Jesus.
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Clemente de Alexandria (Strom. V 3,16,5) ensina que o Verbo, primeiramente, saiu (do
Pai) autor da demiurgia do mundo, e depois se engendrou a si próprio (theitai kai heauton genna) quando o
Logos se fez carne (
João 1,14) a fim de que fosse também visto (hina kai theathe)
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O
valentiniano Alexandre (
Tertuliano, De carne Christi 16), comentando Romanos 8,3 (“em semelhança de carne de pecado”), negava que Cristo assumiu corpo de carne sujeita a pecado; afirmava que ele assumiu uma carne de substância diferente (não pecadora) para evacuar o pecado na carne
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Tertuliano (De carne Christi 18) apresenta a exegese valentiniana de
João 1,14: “O Verbo se fez carne” – esta voz (
João 1,14) porque a carne seja feita o declara, mas não periclita como se imediatamente outra coisa fosse feita (carne e não o Verbo que era), se da carne se fez o Verbo carne; ora, como a Escritura não diz senão o que foi feito, não e de onde foi feito, sugere que foi feito de outro (ex alio), não de si mesmo (ex semetipso)
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Orígenes (In Io. XX § 85) distingue: antes de se fazer carne, o
Logos era homem (alma); uma coisa é o homem, e outra a carne; o
Logos poderia ter-se feito homem assumindo unicamente a psique (em que consiste a natureza humana), ou ter-se feito só
sarx (carne sem alma)
3. AUTOENCARNAÇÃO DO LOGOS
O problema da encarnação, para os gnósticos, não residia na comunhão pessoal do Logos com a natureza humana, mas na adaptação de um corpo visível ao Logos para o Evangelho da saúde, sendo que a formação desse corpo era atribuída ao próprio Hijo como seu autor e responsável.
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Melitão (Peri Pascha § 96) escreve: “Por estas coisas veio a nós; por estas coisas, sendo incorpóreo (asômatos), corpo (sôma) a partir de formação nossa teceu para si” (ex formatione nostra texuit sibi)
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Hilário de Poitiers (De Trinitate X 18) ensina que o
Filho de Deus, por causa do gênero humano, nasceu da virgem e do
Espírito Santo, sendo ele mesmo seu próprio ministro nesta operação, e com sua virtude (Virtude de Deus) semeou para si os inícios do corpo (corporis sibi initia consevit) e estabeleceu os começos da carne (exordia carnis instituit)
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Os
valentinianos itálicos comparavam a demiurgia do misterioso corpo a uma labor têxtil (sôma hyphainetai), inspirando-se em Platão (Timeu 41D) e em
João 19,23 (a túnica inconsútil tecida desde arriba), resultando um corpo de substância celeste (não material) destinado a viver limpidamente e morrer na cruz
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Tertuliano (De carne Christi 19) argumenta contra os
valentinianos que, se os espirituais (pneumatikoi) negam ter nascido da vontade da carne (ex voluntate carnis) por serem filhos physei de Deus, a fortiori
Jesus, o Unigênito do
Pai, que veio por caminho virginal fora de toda comunhão com o sêmen humano, não nasceu nem da vontade da carne nem da substância da carne (ex substantia carnis)
4. A MODO DE SÍNTESE
A encarnação do Logos, entre os gnósticos, não criava problema desde sua vertente divina (o Unigênito era pessoalmente manifestável em multitudo de formas), mas sim desde a vertente humana: segundo alguns (valentinianos), o corpo e o homem hílico não eram capazes de “saúde” (incorrupção), sendo mister a formação milagrosa de um corpo visível a partir de substância não-visível.
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A comunhão do
Filho unigênito com as espécies humanas não criava problema: onde há synkrasis, perseveram inconfusas as substâncias e qualidades próprias; o problema da absoluta imutabilidade de Deus afetava só ao
Pai, sendo o
Filho (por sua índole pessoal) chamado à parusia sem abandonar o seio de Deus
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A aplicação de
Lucas 1,35 a Nazaré e ao Jordão explica o desconcierto de muitos eclesiásticos: segundo os itálicos, refere-se à formação do corpo visível de
Jesus no seio virginal (a partir de substância não-material); segundo os orientais e Basilides, refere-se ao batismo do Jordão, onde
Jesus recebe o Espírito de Deus e a Virtude do Altíssimo reforma o corpo recebido de Maria para habilitá-lo ao exercício salvífico
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João 1,14 (“o Verbo se fez carne”) é polivalente: onde quer que o Verbo revestiu uma forma finita (em sua própria geração a Patre) ou uma substância ou natureza criada (na Ogdóada, na Hebdomada, no seio virginal), ali se deu uma “encarnação”, entendendo a carne (
sarx) como simples ousia, natureza ou forma circunscrita (kata perigraphen)