Encarnação

ANTONIO ORBECRISTOLOGIA GNÓSTICA

CAPÍTULO 10: EM TORNO À ENCARNAÇÃO

A análise da encarnação entre os gnósticos revela que o mistério se concentrava não na comunhão pessoal do Logos com a natureza humana, mas na formação milagrosa de um corpo visível (a partir de substância não-material) ou na transformação qualitativa do corpo material (pelo batismo do Jordão), sendo que o anúncio do anjo (Lucas 1,35) era frequentemente aplicado ao batismo de Jesus como verdadeira geração divina.

1. EXEGESE DE LUCAS 1,35

As palavras do anjo a Maria (“O Espírito Santo virá sobre ti e o poder do Altíssimo te fará sombra; por isso o que nascer de ti será chamado santo”) foram objeto de exegeses divergentes entre as escolas gnósticas, sendo que os itálicos as aplicavam à formação do corpo visível de Jesus no seio virginal, enquanto os orientais (e Basilides) as aplicavam ao batismo do Jordão como verdadeira regeneração divina.

2. EXEGESE DE João 1,14

O versículo “E o Verbo se fez carne” (João 1,14) era interpretado polivalentemente pelos gnósticos, podendo referir-se à geração do Logos no seio do Pai (como circunscrição pessoal), à sua subsistência extra Patrem (como primogênito), à sua atuação dinâmica através dos profetas, ou à sua presença substancial em Jesus.

3. AUTOENCARNAÇÃO DO LOGOS

O problema da encarnação, para os gnósticos, não residia na comunhão pessoal do Logos com a natureza humana, mas na adaptação de um corpo visível ao Logos para o Evangelho da saúde, sendo que a formação desse corpo era atribuída ao próprio Hijo como seu autor e responsável.

4. A MODO DE SÍNTESE

A encarnação do Logos, entre os gnósticos, não criava problema desde sua vertente divina (o Unigênito era pessoalmente manifestável em multitudo de formas), mas sim desde a vertente humana: segundo alguns (valentinianos), o corpo e o homem hílico não eram capazes de “saúde” (incorrupção), sendo mister a formação milagrosa de um corpo visível a partir de substância não-visível.