ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
CAPÍTULO 26: A CRUZ
A análise da cruz entre os gnósticos revela que, ao contrário do que alguns críticos supõem, o tema possui profundo arraigamento nas famílias de maior peso doutrinal, ramificando-se em quase todos os campos da economia salvífica, com especial relevo entre valentinianos e setianos.
C. Schmidt afirmou que no Livro de Jehú nenhuma menção há da morte do Salvador em cruz, pois morte e paixão eram consideradas más sequelas do princípio maligno (a matéria) introduzido no mundo, sendo que a morte ignominiosa em cruz não poderia constituir um fator histórico na história religiosa do gênero humano
O
Evangelho segundo Filipe (§ 91) relata que José, o carpinteiro, plantou um jardim (paradeisos) porque havia necessidade de madeira para seu ofício, e que ele é quem fez a cruz (stauros) com as árvores que plantou, e sua semente (
Jesus) estava suspensa no que plantou, sendo a cruz a planta
1. FIGURAS DA CRUZ NO ANTIGO TESTAMENTO
Os gnósticos descobriram figuras e profecias da cruz ao longo do Antigo Testamento, especialmente no “árvore da vida” e no “árvore do conhecimento” do paraíso, na “arca de Noé” e na “serpente de bronze”, que apontavam para o madeiro da cruz.
O
Evangelho da Verdade (18,24ss) afirma que o Salvador foi pregado num lenho e se fez fruto da gnose do
Pai, não sendo causa de perdição para quem dele comeu (como o foi a árvore do conhecimento), mas, ao contrário, origem de alegria por causa da descoberta do Incompreensível e Impensável, o
Pai perfeito
O
Evangelho segundo Filipe (§ 92) declara que o árvore de vida está no meio do paraíso, e o olivo, de onde vem o crisma (chrisma), e que graças a ele (veio) a ressurreição
Os
ofitas de
Orígenes (C. Cels. VI 27) registram a fórmula do que recebe o selo: “Fui ungido com branco crisma (tomado) do árvore da vida” (kexrismai chrismati leuko ek xylou zoes), indicando a relação entre o óleo de misericórdia que flui do árvore da vida no paraíso e o árvore da cruz
O
Evangelho segundo Filipe (§ 125) apresenta a arca (kibotos) de Noé como figura da cruz, afirmando que a divindade inteira não fugirá destes lugares ínfimos para o santo dos santos, mas estará sob as asas da cruz e sob seus braços, e que esta arca será para ela saúde quando o dilúvio das águas os retiver
-
Justino (1 Apol. 60,1-5) afirma que Platão, ao expor a criação no Timeu (36bc) e dizer que Deus deu forma de X no universo, tomou de Moisés a figura da cruz que este fez em bronze e colocou sobre o santo tabernáculo, dizendo ao povo que quem olhasse para aquela figura e nela cresse seria salvo
2. ALGUNS TESTEMUNHOS DO NOVO TESTAMENTO SOBRE A CRUZ
Os valentinianos descobriram nas Escrituras neotestamentárias referências à cruz, interpretando Efésios 3,18 como uma alusão às dimensões da cruz que serve de limite (horos) do Pleroma.
O
valentiniano de
Hipólito (Ref. VI 34,7) afirma que a “anchura” (ti to platos) mencionada em Efésios 3,18 é a cruz (o horos do Pleroma), enquanto a “hondura” é o
Pai dos
eons e a “longitude” é o Pleroma dos
eons
Ptolomeu (
Irineu, I 3,5) cita 1 Coríntios 1,18 (“a palavra da cruz é necedade para os que se perdem, mas para os que se salvam é virtude de Deus”) e afirma que o Salvador significou primeiro a eficácia consolidante ao dizer (
Lucas 14,27;
Mateus 10,38): “O que não leva a sua cruz e me acompanha não pode fazer-se meu discípulo”
O mesmo Ptolomeu (
Irineu, I 3,5) relaciona Gálatas 6,14 (“longe de mim gloriar-me senão na cruz de nosso Senhor
Jesus Cristo”) com a eficácia purgativa e confirmante da cruz
3. “HOROS” E “STAUROS”
Os valentinianos situaram a cruz entre o Pleroma e o Kenoma, na fronteira divisória do divino e do criado, estabelecendo a igualdade entre horos (limite) e stauros (cruz), com duas atividades fundamentais: a de consolidar (he hedrastike) e a de dividir (he merike).
Ptolomeu (
Irineu, I 3,5) afirma que o horos possui duas atividades: em quanto consolida e dá firmeza (katho men hedrazei kaisterizei), é e se diz stauros; em quanto divide e delimita (katho de merizei kai diorizei), é horos
O mesmo Ptolomeu (
Irineu, I 2,4) descreve que, mediante este horos, Sophia ficou purificada (kekatharthai), pois uma vez que o horos separou dela a Enthymesis (Achamot) com o pathos congênito, ela adentrou-se no Pleroma enquanto sua Enthymesis com o pathos foi apartada e crucificada pelo horos
O
valentiniano de
Hipólito (Ref. VI 31,6) chama o stauros de “participante” (metocheus) porque participa ainda do Hysterema (Kenoma), e afirma que ele ficou fixo sem inclinar-se nem mover-se (pegen adinados kai ametakinetos) de sorte que nada do Hysterema possa allegar-se aos
eons que estão dentro do Pleroma
A cruz é signo do limite do Pleroma, separa os incrédulos dos crentes como o horos separa o mundo do Pleroma, e por isso, levando
Jesus a cabo as sementes nos ombros, as introduz através do signo no Pleroma
4. A CRUZ ÀS COSTAS (BASTAZEIN)
A exegese valentiniana do logion sobre “tomar a cruz” aplica-o ao próprio Salvador na consumação final, identificando a cruz levada às costas com o corpo de Jesus (consubstancial à Igreja) que introduz as sementes espirituais no Pleroma.
Os Excerpta ex Theodoto (42,1-3) afirmam que a cruz é signo do limite do Pleroma; por isso, levando
Jesus às costas (bastasios) nos ombros as sementes, as introduz – através do signo – no Pleroma; e que
Jesus se diz “ombros da semente”, enquanto Cristo se diz “cabeça (dela)”
O mesmo texto cita
Lucas 14,27 (
Mateus 10,38) com a variante “irmão meu” (adelphos) em vez de “digno de mim” ou “discípulo de mim”: “Quem não levanta (airei) sua cruz e me segue, não é meu irmão (mou adelphos)”
O anônimo
valentiniano explica que os da direita (os eclesiásticos) conheciam a
Jesus e a Cristo quanto aos nomes já antes da parusia, mas o signo (da cruz) não o conheciam quanto à virtude
Hermas (Sim. VIII 10,3; IX 14,5) afirma que o nome do
Filho de Deus é grande e imenso e leva às costas (bastazei) todo o mundo, e que os que de todo coração levam seu nome, Ele os toma como fundamento e com gosto os leva às costas (bastazei)
5. AS SETE PALAVRAS
A exegese gnóstica das palavras de Jesus na cruz é escassa, mas alguns logia receberam interpretações que distinguem entre o Jesus vivente (espiritual) e o Jesus carnal (o corpo crucificado).
O Apocalipse de Pedro (NHC VII 3, p.81,4-82,3) apresenta o Salvador dizendo a Pedro que o que está vendo em cruz, como revela gozo e ri, é o
Jesus vivente, enquanto aquele cujas mãos e pés são cravados é sua imagem carnal (sarkikon), o resgate que desonram, e acrescenta: “Estás vendo quão pouco sabem o que dizem (
Lucas 23,34), pois desonraram o filho de sua (vã) glória em vez de a meu servidor (diakonos)”
Justino gnóstico (
Hipólito, Ref. V 26,31-32), comentando
João 19,26, escreve que o Salvador, havendo abandonado ao madeiro o soma de Edén, subiu ao Bom e falou a Edén: “Mulher, recebes a teu filho” (gynai, apecheis sou ton huion), isto é, ao homem animal e terreno
O
Evangelho segundo Filipe (§ 99) aduz
Mateus 27,46 (“Deus meu, Deus meu, por que, Senhor, me abandonaste?”) com uma leve inserção, acrescentando “Disse estas (palavras) na cruz (stauros)”
Os
valentinianos orientais (Excerpta ex Theodoto 62,3) aplicam
Lucas 23,46 (“
Pai, em tuas mãos deposito meu espírito”) à recomendação da Igreja (primitiae seminum), enquanto os itálicos aplicam o mesmo versículo à entrega da alma (primitiae animalis) ao Demiurgo
6. EFICÁCIA DA CRUZ: PURGATIVA
O horos (cruz) possui uma eficácia purgativa que separa o pathos da pessoa paciente e a cura, como exemplificado na cura da hemorroísa e aplicado paradigmática e cosmicamente à purificação de Sophia (Achamot).
Ptolomeu (
Irineu, I 3,3) ensina que a hemorroísa, após sofrer doze anos o fluxo, foi curada pela presença do Salvador ao tocar sua orla, significando o mistério ocorrido entre os
eons e a cura do eon sujeito a pathos (Sophia); a virtude emanada do Salvador (o horos) a sanou e separou dela o pathos
Ptolomeu (
Irineu, I 3,5) afirma que o Salvador significou a eficácia separativa do horos ao dizer (
Mateus 10,34): “Não vim trazer paz, mas espada” (machairan), e que João Batista significou o mesmo ao dizer (
Lucas 3,17): “O joio em sua mão; e purgará a eira, e congregará o trigo em seu próprio celeiro, e a palha a queimará com fogo inextinguível”
Os
setianos (
Hipólito, Ref. V 21,5-6) afirmam que todas as coisas misturadas em confusão são discriminadas; e que uma vez morto o animal, cada um de seus elementos se separa, e isso é o afirmado em
Mateus 10,34: “Não vim trazer paz à terra, mas espada”, isto é, para dividir (diasai) e apartar os elementos misturados, para que cada um vá a sua própria região
O
Evangelho segundo Filipe (§ 125) declara que a arca (Noé) será para ela saúde quando o dilúvio das águas os retiver, indicando a eficácia purgativa da cruz como refúgio contra as águas do juízo
7. EFICÁCIA DA CRUZ: CONFIRMANTE
A cruz (stauros) possui uma eficácia confirmante que consolida (sterizein) o indivíduo, outorgando-lhe unidade de espírito (he notes) e tornando-o discípulo e irmão de Jesus.
Ptolomeu (
Irineu, I 3,5) ensina que o Salvador significou a eficácia confirmativa (ten hedrastiken) ao dizer (
Lucas 14,27;
Marcos 10,21): “O que não leva a sua cruz e me acompanha, não pode fazer-se discípulo meu”, e “levantando sua própria cruz, siga-me”
Os Excerpta ex Theodoto (3,1-2) afirmam que ao vir o Salvador a este mundo, despertou a alma e inflamou a centelha; e depois da ressurreição, ao alentar o Espírito (emphyson to
Pneuma) aos apóstolos, aventava o pó como cinza e o separava (echorizen) enquanto inflamava a centelha e a avivava
Os Atos de João (99, 200,17ss) declaram: “Esta é, pois, a cruz que fixa (ho diataxamenos) todas as coisas, e, depois de separá-las (diaphlas) das da gênese (e corrupção) e inferiores, as coagula (pexas) em um”
Melitão (Peri Pascha § 96) escreve: “O que suspendeu a terra, está suspenso (na cruz). O que fixou os céus, foi fixado (ho pexas tous ouranous pextai). O que consolidou todas as coisas, está retido no madeiro”
As fórmulas rituais de redenção
valentinianas (
Irineu, I 21,3) incluem a resposta do iniciado: “Fui confirmado e redimido (esterigmai kai lelytromai), e redimo minha alma deste século”
8. CONCLUSÃO
A cruz na gnose heterodoxa, longe de ser negligenciada, possui um sentido profundo que se resume na “iluminação” gnóstica, sendo que o horos (cruz cósmica) purifica ao separar as essências contaminadas e o stauros (cruz histórica) confirma ao unir os espirituais na unidade do Pneuma.
A cruz como horos abre perspectivas para o paganismo (com sua estaurologia cósmica) e para o judaísmo (interferindo com a teologia do véu, katapetasma); como stauros, serve de enlace e trânsito para o
pneuma desde o cosmos ao reino de Deus
O tramo horizontal da cruz separa as duas grandes regiões da luz e das trevas, de Deus e do mundo; o tramo vertical – o verdadeiro stauros – assinala a trajetória da “saúde”, permitindo que os espirituais, apropriados ao Corpo místico de
Jesus, se adentrem com Ele através do horos pelo palo vertical no reino do Espírito
O mesmo que no Jordão recebera de cheio “o Espírito do conhecimento do
Pai” torna-se idôneo na cruz sensível para derramá-lo – como primícias dos escolhidos – sobre a Igreja de eleição, constituindo-se mediador da “comunidade de Espírito” simbolizada na cruz divisória do universo
O que é para outros horos (fronteira de separação) resulta para os espirituais dotados de gnose o instrumento que os levanta desde a diáspora à unidade do
Filho com o
Pai, e a eficácia da cruz se resume na “iluminação” (gnosis), que se traduz como redenção, emancipação, transferência, passo de fronteiras e crucifixão