ANTONIO ORBE — CRISTOLOGIA GNÓSTICA
A ausência do Cristo superior durante a paixão de Jesus segundo a perspectiva gnóstica e as diferentes soluções antropológicas
O abandono de
Jesus durante a paixão é analisado a partir de duas soluções principais, atribuídas a
Orígenes (abandono real) e aos
valentinianos (abandono de paixões físico-morais), cada uma implicando uma antropologia própria.
A prontidão para o sofrimento afeta o espírito, e o logion de
Jesus sobre o sofrimento se aplica tanto aos discípulos quanto ao próprio
Jesus, gerando três soluções de acordo com a antropologia (Ireneana, Origeniana, Gnóstica).
Segundo os gnósticos, o espírito (= homem espiritual) de Pedro não negou
Jesus, mas a carne (= homem animal) o negou, um pensamento considerado heterodoxo por incentivar a apostasia.
Essa ideia heterodoxa perpetuou-se entre eclesiásticos posteriores, como Hilário e
Ambrósio, sem consciência de sua origem.
A preparação mítica e o desaparecimento do taumaturgo na paixão de Jesus
O Cristo superior, que se manifestara na humanidade de
Jesus durante a vida pública, se ausenta durante a paixão, iniciando-se o momento em que
Jesus fica à mercê de outros.
A paixão de Sofia, o décimo segundo eão, e a apostasia de Judas, décimo segundo apóstolo, prenunciavam o pathos ao fim do décimo segundo mês.
Jesus se deixa levar pelos acontecimentos como se fosse puro homem, apresentando aos não-iluminados a grande parêntese de que a sua hora era a hora dos seus inimigos, enquanto o
diabo não entende o mistério.
A substituição mítica de Jesus por Simão Cireneu na cruz segundo Basilides
O gnóstico Basilides (segundo
Irineu) aborda a cena evangélica do encontro de
Jesus com Simão Cireneu para resolver o escândalo de vê-lo padecer, propondo uma troca de personagens para enganar os judeus.
A mudança de personagens, atestada por vários heresiólogos, também aparece em tradições maniqueias e em Atos apócrifos, onde se ensina que não foi Cristo crucificado, mas outro em seu lugar.
Na fórmula de abjuração maniqueia, anatematiza-se quem diz que Cristo padeceu em apariência e que um estava na cruz enquanto outro, de longe, ria.
Fócio, nos Períodos dos apóstolos, menciona a crença de que não foi Cristo crucificado, mas outro em seu lugar, que ria dos autores da crucificação.
A postura erecta e a sonrisa de Jesus como sinais da sua natureza divina impassível
Jesus, como
Noûs (Intelecto), continha todas as formas e podia revestir a forma que quisesse sem mudar de substância, adotando a de Simão para enganar os judeus e livrar-se da morte.
Mais do que isso, para reforçar o engano, Basilides descreve o Salvador em pé, rindo-se de todos, ao chegar ao Calvário e abandonar a cruz.
A postura erecta (“stantem”) alude à posse não interrompida da divindade, sendo
Jesus “o em-pé” (ho estos), que não pode cair ou ir à cruz, apenas aparentemente.
Nos Actus Petri cum Simone, Simão Mago fala de ser vencido por Pedro, mas que amanhã voará ao Deus, afirmando ser o em-pé que volta ao
Pai.
O Apocalypsis Petri denuncia, com o riso, a postura em pé do
Jesus vivente, intermediário entre seu corpo passível e o Espírito do Salvador.
O tema da risada de
Jesus, repetido duas vezes, é analisado em profundidade.
Clemente de Alexandria distingue o sorriso (meidiasma) dos sábios do rir das prostitutas e dos proxenetas, afirmando que o riso excessivo é sinal de alma negligente.
Em várias tradições (Anunciação, Protoevangelho de Tiago, última ceia), Maria e
Jesus riem ou sorriem em gestos de serena alegria.
O Livro de Tomás, de Nag Hammadi, ameaça os cativos que riem com risadas estúpidas por não entenderem sua corrupção e morte.
Para Clemente, o riso que deu nome a Isaac tinha alcance místico, vaticinando a alegria da redenção.
Segundo a teologia órfica e os
valentinianos (Ptolomeu), das lágrimas de Enthymesis originaram-se os mares, e do seu riso, a luz espiritual; os membros da igreja espiritual procedem do rir superior.
A risada de
Jesus em Basilides manifesta a atitude do Espírito que penetra o mistério através da ignorância que governa o mundo sensível, indicando natureza divina.
O gesto de rir é comparado ao de Eva espiritual no paraíso, que riu dos arcontes, cegou seus olhos e se escondeu na árvore do conhecimento.
A cristologia da substituição e o Logos de Set no sofrimento de Jesus
O gnóstico Apocalypsis Petri e o 2 Logos do magno Set confirmam a doutrina de Basilides sobre a substituição e o riso de
Jesus.
No Apocalypsis Petri, Pedro vê
Jesus ser preso e, ao mesmo tempo, vê outro em pé junto à cruz, sereno e rindo, sendo este o vivente
Jesus, enquanto o crucificado é sua imagem carnal.
No 2 Logos do magno Set, o Salvador afirma que morreu não em força, mas no manifesto, e que ria com alegria ao ouvir a vanglória vazia do cosmocrator.
O Salvador afirma que outro bebeu a hiel e o vinagre, outro foi coroado de espinhos, enquanto ele, no alto, ria da ignorância dos arcontes.
O gnóstico harmoniza as duas coisas: o Salvador morre e não morre, e a substituição por Simão explica-se porque ele, vindo do campo (terra), devia voltar à terra, enquanto o Homem celeste permanecia impassível.
A cristologia de Basilides (Clemente e Hipólito) e a morte real de Jesus
O Basilides de Clemente e
Hipólito desconhece o mito da substituição, ensinando que
Jesus,
Filho da Virgem, recebeu no Jordão a virtude e o Espírito, e que, chegada a hora, sobe à cruz para iniciar a apocatástase.
A paixão e morte reais afetaram o
Filho de Deus em sua natureza cósmica, pois do contrário faltaria eficácia à cruz para a apocatástase universal.
Não se deve confessar como
Filho de Deus ao homem posto em cruz, mas àquele que, por invisibilidade, não foi crucificado, distinguindo-se a natureza divina impassível da humana passível.
A separação do Salvador e o abandono de Jesus pelos valentinianos
Os
valentinianos também ensinam uma separação no momento da paixão: o Salvador celeste, que descera sobre
Jesus no Jordão, ausenta-se quando
Jesus é conduzido a Pilatos.
Tertuliano confirma que o Salvador celeste se ausenta de
Jesus como uma pomba que volta ao
Pai, sublinhando a apatheia do divino durante a crucificação.
Os Acta Iohannis e a cruz luminosa como símbolo da impassibilidade do Logos
Os Acta Iohannis apócrifos apresentam uma forte dissociação de personagens, onde o Salvador verdadeiro está livre da cruz, enquanto o crucificado é acessível às massas.
Antes de ser preso,
Jesus canta um hino ao
Pai com os apóstolos em círculo, que respondem “Amén”, numa dança que expressa a harmonia dos céus não turbada pela paixão.
Durante a cruz,
Jesus aparece a João em uma caverna e lhe revela o mistério: para a multidão em Jerusalém está na cruz, mas a João mostra uma cruz firme de luz.
O Senhor afirma que não é o que parece, que não padeceu nada do que dirão dele, e que a cruz de madeira não é a verdadeira cruz, mas o confim (horos) de todas as coisas.
A cruz luminosa é
o Logos, que dá coesão a todas as coisas; nela o
Filho de Deus é crucificado para a saúde do universo, enquanto a cruz de Jerusalém é uma imagem imperfeita.
Jesus se revela a João em três aspectos: Logos (forma pessoal ante o
Pai), Senhor (ante o mundo) e homem (corpo passível ante os homens), sendo este último o crucificado em Jerusalém.
A “sístole” ou contração do Espírito como explicação para a ausência divina
Outra fórmula para a ausência do divino em
Jesus é a “contração” (systole), onde os eflúvios do Espírito que se estenderam a
Jesus no Jordão se recolhem ao céu, abandonando-o.
Os estoicos analisaram a sístole na tristeza (lype), que é uma contração da alma não governada pelo Logos diante de um mal iminente.
A analogia solar (o sol que contrai seus raios ao ocaso) aplicou-se à teologia trinitária, sendo usada por monarquianos e condenada em sínodos.
Dámaso anatematiza quem diz que
o Logos se separou do
Pai por extensão ou contração.
A teologia solar deixou marcas nos
valentinianos, que viam
Jesus como o sol e a igreja dos
anjos como seus satélites, que se contraem e se dilatam em torno do Logos.
No tratado De resurrectione (ad Rheginos), os espirituais são os raios do Salvador, atraídos por Ele como os raios pelo sol, na ressurreição espiritual.
A sístole aplicada a Cristo e a Sofia e sua relação com o clamor na cruz
A sístole do Espírito na paixão de Jesus e a derrota da Morte por dolo
O silêncio e o entorpecimento de Cristo na paixão como tática divina
Exegese de Mateus 27,46 e a interpretação do abandono como separação de Cristo ou de Sofia
O
Evangelho segundo Filipe interpreta o clamor “Dios meu, Dios meu, por que me abandonaste?” como dito por
Jesus na cruz porque ele separou dali o que foi engendrado em Deus, fazendo referência a Eva (Sofia) separada de Adão (Cristo) pelo horos.
Ptolomeu, em
Irineu, aplica o mesmo
salmo ao abandono de Sofia pela luz (Cristo), parada pelo horos em seu impulso.
O
Evangelho de Pedro traz o clamor: “Força minha, ó força, me abandonaste!” (he dynamis mou, he dynamis, katelipsas me), sugerindo que a dynamis foi assumida (anelefethe) ao céu.
Conclusão sobre o abandono de Jesus: entre o mito e a história
O abandono de
Jesus se agudiza no huerto e na cruz, e as soluções se perfilam em duas: o abandono é mítico (
Jesus padeceu como se estivesse separado, sem ausência real) ou o abandono é real (o
Filho de Deus se ausentou do homem
Jesus).
O mito do cambio de personagens entre
Jesus e Simão Cireneu, atribuído a Basilides por
Irineu, é uma fábula para dar relevo sensível à impassibilidade de
Jesus como
Filho de Deus, não devendo ser interpretado literalmente.
Os Acta Iohannis conjugam a história evangélica com a lenda da aparição de
Jesus a João, revelando a crucificação verdadeira no horos celeste, o que permite subir do relato sensível ao mistério da verdade.
A doutrina da sístole (contração) do Espírito é uma solução dinâmica: o Espírito assistia
Jesus de modo manifesto durante a vida pública, mas durante a paixão cessou esse poder, como se tivesse se ausentado, para que
Jesus pudesse morrer como puro homem e entrar no reino do Thanatos.