ANTONIO ORBE — ANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU
CAPÍTULO IX: O PECADO EM SUA VERTENTE ANGÉLICA E HUMANA
A análise da existência do pecado parte da constatação de que uns anjos transgrediram o preceito de Deus e outros não, sendo um mistério sublime que deve ser cedido a Deus e ao seu Verbo.
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Cita-se Irineu (Adversus haereses II 28,7): “A causa pela qual, sendo todas as coisas feitas por Deus, umas transgrediram e se afastaram da sujeição a Deus; outras, porém, ou antes a maioria, perseveraram e perseveram na sujeição daquele que as fez: e de que natureza são as que transgrediram, e de que natureza as que perseveram, é necessário ceder a Deus e ao seu Verbo”.
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Simão Magno (ou Apeles) objetava que Deus era impotente e débil, pois não pôde fazer com que Adão permanecesse como ele queria, ao que se responde que Deus quis que Adão fosse livre e possuísse seu próprio arbítrio, não uma natureza vinculada e obrigada como a dos brutos.
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Irineu chama ao pecado dos
anjos “apostasia” e “transgressão” (parabasis), enquanto concebe o delito de Adão e dos homens em geral como “desobediência” (parakoe), indicando veladamente a tendência a destacar a malícia do pecado angélico e a ruindade do humano.
O relato da queda em Gênesis apresenta cinco elementos que integram o pecado do anjo (inveja e sedução) e o pecado do homem (desobediência), seguidos da maldição do tentador e do desterro do transgressor.
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Cita-se a Demonstração da Pregação Apostólica (Epid. 16): “O
anjo lhe seduziu (ao homem), celoso e invejoso do homem pelos numerosos dons de que Deus lhe havia cumulado. E ao persuadir-lhe a desobediência ao mandato divino, provocou sua própria ruína ao mesmo tempo que fazia ao homem pecador. O
anjo, convertido assim em chefe e guia do pecado, foi castigado por haver ofendido a Deus, e conseguiu ao mesmo tempo que o homem fosse expulso do paraíso. E porque com seu intento se rebelou e apostatou de Deus, foi chamado em hebreu satã, isto é, apóstata, ainda que também lhe chamam
diabo. Deus amaldiçoou além disso à serpente, que havia sido disfarce do
diabo; maldição que alcançou ao animal mesmo e ao
anjo escondido nele, satã. E ao homem expulsou-o de sua presença e desterrou-o do paraíso, já que o paraíso não admite o pecador.”
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A inveja do
anjo poderia ter ficado oculta, mas a providência de Deus fez que se manifestasse sensivelmente ao exterior, escolhendo como objeto seu o homem, o qual – com sua mesma queda – denunciou a apostasia e os perversos desígnios do mau
anjo.
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Satanás ignorou que, enredando-se no pecado externo do homem por afã de o fazer apóstata de Deus através do único mandamento externo, acabaria por delatar sua interna inveja e apostasia, muito mais grave por ir contra a lei mais elementar de toda criatura: o amor a Deus sobre todas as coisas.
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Cita-se Irineu (V 26,2): “Pois ele (
Satanás) por si mesmo não se atreve desnudamente a blasfemar de seu Senhor. Assim o fez ao princípio quando seduziu o homem por meio da serpente, como se se ocultasse a Deus. Hermosamente disse Justino que antes da vinda do Senhor jamais se atreveu
Satanás a blasfemar de Deus, pois ainda não sabia sua própria condenação. Tudo estava em
parábolas e alegorias (durante o regime do AT). Mas depois de vindo o Senhor aprendeu manifestamente de suas palavras e dos apóstolos que havia sido disposto para ele um fogo eterno, por haver-se apartado de própria iniciativa (kat’ idian gnomen) de Deus, e para todos os que permanecem impenitentes na apostasia.”
O anjo apóstata é denominado por Irineu “príncipe da apostasia”, título que reflete não só sua rebelião pessoal contra o Criador, mas sobretudo seu propósito de arrastar a ela os homens, especialmente Adão e Eva e depois o próprio Jesus.
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A gravidade do pecado do
anjo não está tanto em sua própria apostasia pessoal, mas no fato de que, com sua rebelião, arrastou os homens, convertendo-se em introdutor e causador do pecado e iniciador dele em outros.
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Cita-se Irineu (IV 40,1): “Um, pois, e o mesmo Deus
Pai é… quem prepara o fogo eterno ao
diabo, príncipe da apostasia, e aos
anjos que apostataram com ele (tois synapostasin
auto).”
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A potestade do
anjo mau é a transgressão e a apostasia (potestas autem eius est transgressio et apostasia), e com elas sujeitou o homem, constituindo a antítese da comunhão com Deus e da “sequela Verbi”.
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A energia do
diabo (operatio) é uma força na linha de
2 Tessalonicenses 2:9, que primeiramente o cumula a
Satanás e em seu dia passará ao anticristo, sendo a energia ou força do mal contrária à energia boa.
A filiação diabólica é explicada por Irineu mediante a distinção entre duas maneiras de ser filho: uma segundo a natureza (nascido) e outra segundo o ser feito (adoção por doutrina), sendo que os que se confiam ao diabo e praticam suas obras são chamados “anjos do diabo” e “filhos do maligno”.
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Cita-se Irineu (IV 41,1-3): “Segundo a natureza, todos somos filhos de Deus, já que todos temos sido criados por Ele. Mas, segundo o sometimento à doutrina, nem todos são filhos de Deus, senão só os que se confiam a Ele e cumprem sua vontade. Os que não se confiam a Ele e não cumprem sua vontade são filhos e
anjos do
diabo… Todos os quais ao princípio foram criados por um só e mesmo Deus. Mas enquanto se confiam e se submetem a Deus, perseveram e guardam sua doutrina, são filhos de Deus. Quando apostatam e pecam, são adscritos ao
diabo príncipe, quem primeiro se fez então para si e para os demais causa de apostasia.”
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O
diabo não criou nada em absoluto, sendo pessoalmente criatura de Deus como os restantes
anjos, e fez-se para si e para os demais causa de apostasia, de sorte que a Escritura chama justamente “filhos do
diabo” e “
anjos do maligno” aos que perseveram sempre na apostasia.
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O que por nascimento vinha de mãos divinas fez-se por vontade filho do inimigo, e o homem que quer fazer os desejos (epithymias) do
diabo não tem por pai em modo algum a Deus, senão que se faz filho do
diabo, recebendo a forma e sendo feito a imagem do mau pai.
A inveja diabólica, inspirada em Sabedoria 2,24 (“Por inveja do diabo entrou a morte no mundo”), é apontada por Irineu como o pecado interno do anjo, que se fez apóstata da divina lei por invejar o homem.
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Cita-se Irineu (V 24,4): “O
diabo, sendo como é um dos
anjos príncipes da atmosfera, segundo indicou o apóstolo Paulo em sua carta aos Efésios (2,2), por invejar (invidens) o homem, fez-se apóstata da divina lei. Porque a inveja é alheia a Deus.”
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O objeto da inveja diabólica é sempre a vida (divina) do homem, compendiando-se nela os privilégios do plasma, que teriam sua expressão mais adequada na humanidade gloriosa de
Jesus.
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O
anjo invejava no homem uma vida exclusiva nossa, não outorgada a ele, orientada à saúde humana e a uma salvação a que não se sentia ele destinado.
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Cita-se Irineu (V 24,4): “E como sua apostasia ficou provada através do homem, e o homem se converteu em testemunho de seus desígnios, em diante se enfrentou (semetipsum contrarium constituit) mais e mais ao homem, invejando sua vida (invidens vitae eius) e querendo bloqueá-lo em seu domínio apostático.”
A sedução é descrita como o ataque externo do diabo baseado na mentira contra o Verbo de Deus, distraindo a mente da palavra divina para enervar o mandamento e fazer saltar o limite posto pelo Criador à liberdade humana.
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O
diabo abordou o homem quando não conversava com o
Filho de Deus e se abandonava à sensibilidade (Eva), mentindo contra Deus: “Não morrereis em modo algum. Bem sabe Deus que o dia em que comerdes dele (= da árvore proibida) se abrirão vossos olhos e vos fareis como Deus, conhecedores do bem e do mal.”
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A mentira contra o Criador foi o primeiro passo para a sedução, levando a mente à “incredulidade” e desobediência, fazendo com que o homem deixasse de seguir o Verbo de Deus em que se achava sua saúde e sua luz.
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O Verbo de Deus (ou o mandato de
Gênesis 2:16-17) se dirige a Adão, o varão; a mentira da serpente, a Eva, a hembra. O mandato aproveita em conversação com o Senhor, em vida de oração; a tentação faz mella sobre a sensibilidade, em apartamento do Verbo.
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Cita-se Irineu (V 24,3): “O
diabo, porém, como
anjo apóstata que é, só pôde fazer o que fez no princípio: seduzir e arrastar a mente do homem a violar os preceitos de Deus e cegar paulatinamente os corações dos que procuram servir-lhe, para que se esqueçam do verdadeiro Deus e lhe adorem (ou façam caso) a ele.”
A desobediência de Adão é apresentada por Irineu como o anverso tristíssimo do mandamento de Deus, sendo o objeto do mandato pouco importante e o que pesa é a insumissão do homem.
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Cita-se Irineu (IV 39,1): “É bom obedecer a Deus e crer nele e guardar seu preceito; e esta é a vida do homem; assim como não obedecer a Deus é mal; e esta é a sua morte.”
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A incorrupção está em submeter-se a Deus (hypotache de Theou aphtharsia), assim como a glória do ingênito na perseverança da (humana) incorrupção, e a sujeição a Deus é descanso eterno.
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O preceito do Paraíso era um preliminar da encarnação do Verbo; um ato de fé ou de aceitação bastaria para que o Verbo (de mandamento) encarnasse em Adão e fosse incrementando segundo a indefinida virtualidade do homem, dispondo-o à futura encarnação.
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Adão não compreendeu o sesgo pessoal do mandato nem descobriu o Verbo oculto nele. Ao desprezá-lo, desprezou o
Filho em sua imediata divina eficácia, assim como Eva, que deveria ter sido prenhe do Verbo de Deus para dar à luz obediência e vida, concebeu a palavra vinda da serpente e deu à luz a desobediência e a morte.
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Tanto o primeiro como o segundo Adão foram submetidos à tentação do
diabo, mas o protoplasto obedeceu ao
diabo e decaiu da glória de Deus vinculada à obediência, perdendo os bens divinos que possuía no comércio com o Verbo.