Maldição

ANTONIO ORBEANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU

CAPÍTULO XI: A MALDIÇÃO

A análise da maldição divina após a queda de Adão parte da constatação de que Deus não amaldiçoou o próprio homem, mas sim a serpente e a terra por causa das obras do homem, conforme o relato bíblico de Gênesis 3:14-19.

Uma antiga tradição dos presbíteros da Ásia, preservada por Irineu, explica que Deus não amaldiçoou Adão, mas transferiu a maldição para a terra, a fim de que ela não perseverasse no homem.

Irineu distingue entre apostasia (diabólica), transgressão (de Adão), maldição e increpação, sendo o castigo proporcionado à medida do pecado: a apostasia diabólica foi castigada com a pena máxima (maldição), enquanto a parábase humana foi castigada com a increpação.

A maldição do diabo apresenta características próprias: ela outorga perseverança ao pecado a maneira de selo, impossibilita a penitência, implica perda total e constitui uma manifestação externa e oficial.

A increpação do homem difere radicalmente da maldição do diabo: ela acaba com a culpa, é compatível com a penitência, e leva ao apreço de Deus.

A maldição da terra é de outro ordem, não sendo uma maldição rigorosa como a da serpente, mas algo equidistante entre a maldição do diabo e a dos condenados.

A MALDIÇÃO DE CAIM

O paradigma do pecado angélico refletiu-se na história de Caim, filho mais velho de Adão, que não chegou a conhecer o bem e o mal, mas conheceu somente o mal, fechando-se a porta para a amizade do céu.

O sacrifício de Abel mereceu a vista de Deus porque era simples e sem divisão entre o externo e o interno, enquanto o sacrifício de Caim não agradou porque ele escondia um coração impuro, cheio de inveja e maldade, separando hipocritamente o exterior do interior.