A plasis uterina (formação do corpo no ventre materno) é uma continuação da plasis de Adão pelo mesmo Verbo de Deus, que não se envergonha de modelar o homem no seio da mãe com suas mãos incontaminadas, como demonstram os textos de
Jeremias 1:5 (“Antes de te plasmar no seio, te conheci”) e
Jó 10:8 (“Tua mãos me fizeram e me plasmaram”).
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O diálogo De recta in Deum fide (Adamâncio) argumenta que o Verbo de Deus continua plasmando os homens no ventre materno, citando
Jeremias 1:5 e
Salmo 118,73 contra a ideia de que uma virtude divina apenas “engendra” (zoogonein) sem plasmar.
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Metódio de Olimpo (Symposion II 2 § 33; II 6 § 44-45) afirma que Deus prolonga na matriz o trabalho que iniciou modelando o limo de Adão, coagulando a substância informe dos ossos, transformando o suco inicial em emulsão sanguínea e o limo em carne delicada, “elaborando a imagem mais racional de Si próprio, o homem que somos nós, plasmando-a e trabalhando-a como cera na matriz a partir de algumas gotas insignificantes de semente”.
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A diferença entre a plasis de Adão (virginal, de terra virgem) e a plasis dos demais homens (não virginal, de terra trabalhada pelo varão) não significa ausência da mão de Deus: o Verbo modela o corpo a partir da matéria oferecida pelos pais, mas a matéria dos filhos de Adão traz a mancha da transgressão hereditária, enquanto a de Adão e a de Cristo foram virginais.
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A curação do cego de nascença (
João 9:1-7) é interpretada por Irineu como uma repetição visível da plasis de Adão e uma demonstração de que o mesmo Verbo que plasmou o primeiro homem continua plasmando os homens no ventre materno e é o único autor do corpo humano.
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Irineu (Adv. haer. V 15,2) explica que o Senhor não curou o cego por palavra, mas por operação (per operationem), fazendo lodo com saliva e terra, “mostrando a antiga plasmagem (antiquam plasmationem) como foi feita, e manifestando a Mão de Deus (manum Dei) por meio da qual foi plasmado o homem do limo”.
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O
milagre prova que não há outro Deus fora daquele que plasmou o homem e lhe deu o sopro de vida, e que não há outra mão divina além da que desde o princípio até o fim nos forma, adapta à vida, assiste ao seu plasma e o consome à imagem e semelhança de Deus.
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O Verbo que plasmou Adão é o mesmo que curou os olhos do cego; “quem formou a visão é o mesmo que formou todo o homem, servindo à vontade do
Pai” (Adv. haer. V 15,3).
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A analogia entre
Gênesis 2:7 e
João 9:6 prova a identidade do autor da plasis: “O mesmo Senhor que no Gênesis ‘tomou barro da terra e plasmou o homem’, no
Evangelho ‘escutpiu em terra e fez da saliva lodo e lhe pôs lodo nos olhos’”.
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A comparação entre os dois Adão (Irineu, Adv. haer. III 21,10) revela que a matéria virginal (terra virgem para Adão, sangue da Virgem Maria para Cristo) é condição indispensável para que o corpo possa receber a simiente divina (o Espírito) e, no caso de Cristo, a união pessoal com o Verbo, sem a contaminação da simiente do varão e do pecado hereditário.
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Assim como o primeiro Adão foi tomado da terra árida e ainda virgem (pois ainda não tinha chovido e o homem não tinha trabalhado a terra), e foi plasmado pela mão de Deus (o Verbo), assim o segundo Adão, recapitulando em Si a Adão, tomou de Maria (que ainda era virgem) seu ser humano, recebendo uma geração que recapitulava a geração de Adão.
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Se o primeiro Adão tivesse tido por pai um homem e tivesse nascido de semente de varão, haveria razão para dizer que também o segundo Adão havia nascido de José; mas se aquele foi tomado da terra e plasmado pelo Verbo de Deus, convinha que o próprio Verbo, para fazer em Si a recapitulação de Adão, tivesse a mesma semelhante maneira de nascer.
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A terra virgem de Adão foi umedecida pela “simiente do Espírito” (potência divina) e não pela simiente do varão; a Virgem Maria legou seu sangue (terra virginal), sobre o qual desceu o Espírito (simiente do
Pai) e o Verbo (pessoal), levantando o limo virgíneo à dignidade de Unigênito de Deus.
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Conclui-se que a plasis de Adão (virginal, da terra virgem, pela mão de Deus) estabeleceu o paradigma para a encarnação do Verbo: somente uma matéria virginal (não manchada pela simiente masculina e pelo pecado hereditário) poderia receber a simiente do Espírito e a união pessoal com o
Filho, necessárias para a salvação da carne.