Marvin W. Meyer. Judas: the definitive collection of gospels and legends about the infamous Apostle of Jesus. Pymble, NSW: HarperCollins e-books, 2007.
Capítulo Três — Judas no Diálogo do Salvador
O
Diálogo do Salvador é um texto em que
Jesus e seus discípulos conversam sobre temas variados relacionados à vida da
gnose, conservado como o quinto tractato no Códice III de Nag Hammadi, cujo papiro, embora em mau estado, pode ser parcialmente restaurado com razoável grau de confiança.
O
Diálogo do Salvador foi provavelmente escrito a partir de várias fontes anteriores, identificadas por Helmut Koester e Elaine
Pagels como cinco elementos que moldaram o caráter do texto.
Fonte 1 — um diálogo entre o Mestre
Jesus e seus discípulos, com ditos de
Jesus que evocam partes do
Evangelho de Tomé (páginas 124 e seguintes)
Fonte 2 — parte de uma narrativa de criação (páginas 127 a 131)
Fonte 3 — uma lista de observações de sabedoria com características cosmológicas (páginas 133 a 134)
Fonte 4 — parte de uma visão apocalíptica (páginas 134 a 137)
Fonte 5 — uma introdução sobre
Jesus, chamado de Salvador, acrescentada no início do texto (páginas 120 a 124)
O
Diálogo do Salvador se abre com
Jesus dirigindo-se aos discípulos e conduzindo-os por um percurso de temas que incluem a vida interior, espírito e corpo, luz e trevas, criação e a palavra, fogo e água, o mundo e seus governantes, plenitude e deficiência — temas típicos dos textos gnósticos.
Três discípulos são mencionados pelo nome no
Diálogo do Salvador como interlocutores privilegiados de
Jesus: Maria, Mateus e Judas.
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As páginas em que Judas aparece são: 125, 127, 129, 131, 132, 134, 135 (duas vezes), 138 (quatro vezes), 140, 142, 143, 144, 145, 146 (três vezes), com possível restauração de seu nome na página 128
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Judas interroga o Mestre
Jesus sobre a alma, o espírito e o que existia no princípio
Judas observa: “Todas as coisas são como sinais sobre a terra, e é por isso que vieram a ser desta forma” (página 129)
Judas se prostra e louva
Jesus
Judas indaga sobre terremotos, governantes e vestimentas corporais, bem como sobre viver e morrer, o início do caminho e como orar
Judas declara, referindo-se ao mundo do nascimento e da mortalidade: “As obras do feminino perecerão. Então os governantes invocarão seus reinos, e nós estaremos prontos para eles” (página 145)
Junto com Maria e Mateus, Judas recebe uma visão do céu e da terra, contemplando o que está acima e o que está abaixo
Perto do fim do texto, Judas troca uma série de perguntas com
Jesus sobre como o espírito se revela, como a luz se revela e o que o perdão significa para o mundo e as obras dos seres humanos
Jesus responde: “Quem sabe? Pois é responsabilidade de quem veio a conhecer as obras fazer a vontade do
Pai” (página 146)
Em todos esses momentos, Judas — seja Judas Tomé ou Judas Iscariotes — se mostra um discípulo digno e um bom amigo de seu Mestre,
Jesus
O Diálogo do Salvador
O Salvador Ensina Sobre o Repouso
Jesus abre o diálogo proclamando que chegou o tempo de abandonar o trabalho e repousar, declarando que o caminho de passagem foi aberto para os escolhidos que conheceram o
Pai e creram na verdade.
“Chegou o momento, irmãos e irmãs, de deixarmos nosso trabalho para trás e repousarmos, pois quem repousa repousará para sempre”
A ira é descrita como o poder que estabelece governantes sobre os seres humanos: “A ira estabeleceu governantes sobre eles, pois ninguém escapa à ira”
O caminho aberto por
Jesus é destinado aos escolhidos e solitários — monakhoi em transliteração — que conheceram o
Pai
Oferecendo Louvor ao Pai
A oração de louvor ao
Pai articula os temas centrais do texto: o repouso concedido ao
Filho, o poder invencível do
Pai e a libertação das almas das cadeias corporais.
“Ouve-nos,
Pai, como ouviste teu único
Filho e o recebeste para ti. Deste a ele repouso de muitos trabalhos”
“A palavra verdadeira trouxe arrependimento para a vida, e isso veio de ti. Tu és o pensamento e a suprema serenidade dos que são solitários”
“Por meio de teu sacrifício os escolhidos entrarão. Por meio de suas boas obras libertaram suas almas dos membros corporais cegos, para que possam existir para sempre. Amém”
Superando o Poder das Trevas
O Salvador e Seus Discípulos Discutem a Vida Interior
Quem Busca, Quem Revela?
O diálogo entre os discípulos e o Mestre explora a identidade de quem busca, revela, fala, escuta e vê, culminando na questão de Maria sobre a origem das lágrimas e do riso no corpo.
Os discípulos perguntam: “Mestre, quem busca e quem revela?” — ao que o Mestre responde: “Aquele que busca também revela”
Mateus pergunta: “Mestre, quando te escuto e falo, quem é o que fala e quem é o que escuta?” — o Mestre responde: “Aquele que fala também escuta, e aquele que pode ver também revela”
Maria pergunta: “Mestre, enquanto uso um corpo, de onde vêm minhas lágrimas, de onde vem meu riso?”
O Mestre responde: “O corpo chora por causa de suas obras e do que ainda resta por fazer. A mente ri por causa dos frutos do espírito”
“Quem não está nas trevas não poderá ver a luz. O que não tem luz é trevas, e quem não está nas trevas não poderá ver a luz”
“Haverá choro e ranger de dentes sobre o fim de tudo”
A Criação do Mundo
Judas indaga ao Mestre sobre o que existia antes da criação do céu e da terra, e a resposta revela que o que se busca externamente está na verdade dentro do próprio ser, no poder e mistério do espírito.
O Mestre responde: “Havia trevas, água e espírito sobre a água”
“Digo-lhes a verdade: o que buscais e indagais está dentro de vós, e tem o poder e o mistério do espírito, pois vem do espírito”
Mateus então pergunta sobre onde a alma se estabelece e onde habita a mente verdadeira
O Mestre responde: “O fogo do espírito surgiu entre os dois, e assim vieram a existir o espírito e a mente verdadeira dentro deles. Se alguém estabelece a alma nas alturas, essa pessoa será exaltada”
Buscar, Encontrar, Alegrar-se
O Surgimento da Palavra
O Mestre narra como o
Pai estabeleceu o mundo, como a palavra surgiu das águas e foi enviada para que a terra não ficasse em falta, e como Judas, ao ouvir isso, se prostrou e louvou o Mestre.
“Quando o
Pai estabeleceu o mundo, recolheu parte de sua água, e a palavra veio dela. Passou por muitos sofrimentos, mas foi mais exaltada do que o caminho das estrelas ao redor de toda a terra”
“A água reunida acima está além das estrelas, e além da água há um grande fogo que as envolve como uma muralha”
O
Pai disse à palavra: “Vai, envia algo de ti mesmo, para que a terra não fique em falta de geração em geração e de era em era”
A palavra enviou de si fontes de leite, fontes de mel, azeite, vinho, frutos finos, sabores deliciosos e raízes saudáveis
“A luz foi tirada do fogo e dispersa no firmamento acima e abaixo. Tudo depende deles”
Ao ouvir isso, Judas se prostrou, caiu de joelhos e louvou o Mestre
O Salvador e Seus Discípulos Discutem o Lugar da Vida
Como um Terremoto Estremece?
Chegando à Compreensão
Uma série de enunciações paralelas articula que o conhecimento da origem de cada elemento — fogo, água, vento, corpo,
Filho, raiz de todas as coisas — é condição para não ser destruído por eles.
“Quem não conhece a obra da perfeição não conhece nada”
“Quem não está nas trevas não pode ver a luz”
“Quem não compreende como o fogo surgiu se queimará nele, sem conhecer sua origem”
“Quem não compreende primeiro a água não sabe nada. De que serve ser batizado nela?”
“Quem não compreende como o vento que sopra veio a ser será levado por ele”
“Quem não compreende como o corpo que uma pessoa usa veio a ser perecerá com ele”
“Como alguém que não conhece o
Filho conhecerá o
Pai?”
“Tudo está oculto para quem não conhece a raiz de todas as coisas”
“Quem não conhece a raiz da maldade não é estranho a ela”
“Os que não compreendem como vieram não compreenderão como irão, e não são estranhos a este mundo, que se exaltará e será humilhado”
Judas, Mateus e Maria Têm uma Visão Apocalíptica
O Mestre conduz Judas, Mateus e Maria a uma visão da consumação final do céu e da terra, e Judas, ao contemplar as alturas e o abismo, vê a palavra descer e a interroga sobre o propósito de sua descida.
O Mestre colocou a mão sobre eles para que pudessem ver a consumação final
Judas viu uma região de grande altura e a região do abismo abaixo, com grande fogo e terror
Judas disse a Mateus: “Irmão, quem pode ascender a tal altura ou descer ao abismo abaixo? Pois há grande fogo lá, e grande terror”
Judas viu a palavra descer das alturas e perguntou: “Por que desceste?”
O
Filho da Humanidade respondeu: “Uma semente de um poder estava deficiente e desceu ao abismo da terra. A Majestade se lembrou dela e enviou a palavra. A palavra trouxe a semente à presença da Majestade, para que a primeira palavra não se perdesse”
Os discípulos se maravilharam e aceitaram tudo em
fé, compreendendo que não era mais necessário vigiar o mal
O Mestre disse: “O que é bom será levado para a luz, como um relâmpago visível de
trovão e clarão”
Uma palavra do
Filho da Humanidade ordenou que fossem dados garmentos a dois espíritos que traziam uma única alma, e o pequeno se tornou como o grande, sem distinção entre eles
Maria Pergunta Sobre a Visão
Judas Pergunta Sobre os Governantes do Mundo e as Vestimentas
Maria Profere Palavras de Sabedoria
Os Discípulos Perguntam Sobre Plenitude e Deficiência, Vida e Morte
Maria, Judas e os Outros Discípulos Discutem a Vida Verdadeira com o Mestre
Maria Questiona o Mestre Sobre a Semente de Mostarda, e Judas Pergunta Sobre a Oração
Conclusão
O texto se encerra com o Mestre instruindo os discípulos a se livrarem da ira e do ciúme, a despojarem-se de suas obras e a guardarem seus espíritos e almas do erro, pois quem buscou e encontrou a vida verdadeira viverá para sempre.
Maria pergunta: “Se as obras são destruídas, o que realmente destrói uma obra?” — o Mestre responde: “Quando a destruo, as pessoas vão para seus próprios lugares”
Judas pergunta: “Como o espírito se revela?” — o Mestre responde: “Como a espada se revela?”
Judas pergunta: “Como a luz se revela?” — o Mestre responde: “Ela se revela por si mesma eternamente”
Judas pergunta: “Quem perdoa as obras de quem? As obras perdoam o mundo ou o mundo perdoa as obras?” — o Mestre responde: “Quem sabe? Pois é responsabilidade de quem veio a conhecer as obras fazer a vontade do
Pai”
O Mestre conclui: “Quanto a vós, trabalhai arduamente para vos libertardes da ira e do ciúme, e despojais-vos de vossas obras… Pois digo a vós: quem buscou, tendo encontrado a vida verdadeira, alcançará o repouso e viverá para sempre. Digo a vós — vigiai-vos, para que não conduzais vossos espíritos e vossas almas ao erro”