Bentley Layton; David Brakke. The Gnostic Scriptures. second edition ed. New Haven (Conn.) London: Yale University Press, 2021.
Introdução Geral
O Conteúdo desta Coleção
A obra reúne cinco coleções de escrituras divididas em partes distintas, cada qual precedida de introdução histórica que contextualiza a composição e o teor dos textos, priorizando obras completas e complementando com fragmentos ou resumos de obras perdidas preservadas por escritores da Antiguidade.
As cinco coleções são: escritura gnóstica clássica (Sethiana), escritos de Valentino, obras de seus seguidores, escritura da Escola de São Tomás e uma seleção de outros escritos afins.
Fragmentos e resumos de obras importantes perdidas foram conservados por escritores da Antiguidade.
A Primeira Parte reúne escrituras gnósticas clássicas, lidas por um grupo antigo que se autodenominava “gnósticos” — pessoas aptas ao conhecimento (gnosis) de deus —, transmitidas em sua forma cristã ou cristianizada, sendo esta a forma traduzida na obra.
O termo “gnóstico” aplica-se propriamente aos membros desse grupo específico.
Na erudição moderna, são chamados também de “Setianos”, “Barbeloítas”, “Barbelogmnósticos”, “Ofianos” ou “Ofitas”.
Alguns estudiosos consideram os elementos cristãos estranhos ao texto original.
A Segunda Parte reúne escritos de Valentino (c. 100–c. 175 d.C.), o grande reformador cristão da teologia gnóstica, incluindo o Evangelho da Verdade, cuja atribuição a Valentino é aceita na obra conforme a posição de B. Standaert.
Valentino revisou a tradição gnóstica clássica à luz de outra forma bem distinta de cristianismo, representada na Quarta Parte (Escola de São Tomás).
Valentino adotou conscientemente parte da linguagem do Novo Testamento e imprimiu ao resultado seu próprio gênio retórico.
A Terceira Parte ilustra de forma extensa os diversos gêneros literários produzidos pelos seguidores de Valentino, apresentando obras completas selecionadas — em um caso um longo resumo antigo — para demonstrar a brilhante escolástica valentiniana e o caráter do cristianismo valentiniano.
Uma pesquisa completa da escola valentiniana em seus ramos oriental e ocidental é inviável no formato da obra, pois grande parte das evidências consiste em fragmentos cujo significado exige discussão detalhada do grego original.
As bibliografias selecionadas da Terceira Parte permitem ao leitor interessado aprofundar o estudo da teologia valentiniana.
A Quarta Parte apresenta escrituras cristãs tradicionais do norte da Mesopotâmia, cujo santo patrono era São Tomás (Dídimo Judas Tomás), obras de ampla circulação internacional em várias línguas a partir do século II d.C.
A escritura de Tomás, em si mesma, não exibe influência da seita gnóstica, mas expressa um conceito místico de salvação pelo autoconhecimento, idêntico a um dos principais componentes cristãos no revisionismo de Valentino.
Na discussão moderna, esse componente místico parece ser o que alguns estudiosos entendem por “gnosticismo”, embora não tenha conexão direta com os gnósticos da Primeira Parte.
O Hino da Pérola foi incluído nesta parte por integrar a escritura de Tomás e por sua história e linguagem corresponderem ao mito pressuposto pelo Evangelho Segundo Tomás e pelo Livro de Tomás.
A Quinta Parte ilustra duas outras correntes primitivas que provavelmente influenciaram o jovem Valentino: o sistema de Basilides (conforme o resumo de Santo Ireneu) e os escritos herméticos, filosofia esotérica não cristã que se assemelha ao mito e à imagética gnóstica.
A filosofia cristã de Basilides, ao contrário dos escritos herméticos, difere muito das demais escrituras traduzidas na obra; sua relevância histórica reside em uma conexão muito tênue com Valentino.
Teria sido durante sua formação em Alexandria, por volta de 120 d.C., que Valentino pôde ter encontrado essas duas correntes.
Outros componentes de sua formação — incluindo a exegese do platonista judeu Filon de Alexandria (Philo Judaeus) e aspectos da filosofia platônica média — são referenciados nas bibliografias pertinentes.
As cinco partes articulam-se em uma árvore genealógica hipotética cujo ponto focal é o grande reformador Valentino.
M designa a doutrina da salvação mística pelo autoconhecimento e pelo conhecimento de Jesus, exemplificada pela escritura de Tomás e provavelmente conhecida de Valentino por meio de obras dessa escola.