A substituição do grego pelo latim nas igrejas ocidentais e a consequente tradução de
Ireneu para o latim faziam parte de um padrão internacional muito mais amplo, pelo qual as línguas faladas de vários povos passaram a ser usadas em lugar do grego para a transmissão da literatura cristã — como o copta, a língua egípcia nativa (em uso por escritores cristãos desde c. 250 d.C.), e o siríaco, importante dialeto do aramaico centrado em Edessa (Urfa, Turquia) e na Mesopotâmia ocidental (desde antes de 200 d.C.).
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Na periferia do Império, outras línguas nativas foram eventualmente empregadas para o mesmo fim: gótico (desde c. 350), armênio (406), georgiano (c. 425), etíope (c. 500) e núbio antigo (c. 550).
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Não apenas os livros do Antigo e do Novo Testamento foram traduzidos para essas línguas, mas também liturgias, orações e grande parte do restante da literatura cristã, incluindo muitas outras obras de escritura que não viriam a fazer parte do cânon oficial do cristianismo ortodoxo estabelecido.
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Entre essas obras figuravam as escrituras dos gnósticos e
valentinianos, os escritos herméticos, a literatura de Tomás e obras similares ou afins.
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As traduções dessas obras certamente foram feitas para atender à demanda de congregações nativas ou para fins missionários.
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De modo geral, após o século IV d.C. a supressão oficial ou a não publicação da literatura cristã não ortodoxa estendeu-se a todas as regiões e línguas do Império Romano, de modo que, assim como os manuscritos de escritura não ortodoxa em grego desapareceram quase sem deixar vestígios, também desapareceram as traduções dessas mesmas escrituras nas partes do Império que usavam o latim ou línguas regionais.
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A exceção notável a essa regra foi o Egito meridional de língua copta: ali, por razões de clima e padrão de assentamento, manuscritos antigos têm podido sobreviver praticamente para sempre se enterrados no solo seco — a precipitação pluviométrica anual em partes bem habitadas do Egito ao sul do Cairo é próxima de zero.
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Manuscritos de escritura não ortodoxa ocultados ou abandonados no Egito meridional até o momento da supressão oficial ainda continuam sendo descobertos; não menos de dezenove manuscritos não ortodoxos contendo obras em tradução copta foram encontrados e publicados, quase todos contendo uma ou mais obras da seita gnóstica ou da escola de
Valentino, muitos deles bem preservados.
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Todos os dezenove manuscritos e fragmentos publicados são designados coletivamente como “Biblioteca Gnóstica Copta” (ver Tabela 2).
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Copiados junto com obras gnósticas e valentinianas encontram-se outros textos mais ou menos relacionados — literatura de Tomás, escritos herméticos, etc.
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Todos estão no formato de códices — livros reunidos e encadernados como o livro impresso atual, em contraste com os rolos, a forma mais antiga dos livros.
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Os manuscritos publicados encontram-se hoje em famosos museus ou bibliotecas; os mais espetaculares são um conjunto de treze códices antigos descobertos em 1945 por um camponês egípcio perto do sítio da antiga Pbou, na margem leste do
Nilo, em frente à cidade de Nag Hammadi.
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Os chamados Códices de Nag Hammadi foram manufaturados pouco antes de 350 d.C. e enterrados em um pote selado no deserto baixo em algum momento posterior por pessoas desconhecidas.
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A razão do enterramento não é conhecida especificamente; um levantamento arqueológico da região não forneceu contexto com o qual o conjunto possa ser definitivamente associado.
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A variedade de caligrafia, tamanho dos códices, materiais de escrita e até dialetos sugere que vieram de vários lugares ao longo do Vale do
Nilo e foram reunidos — a considerável custo — por uma pessoa ou grupo interessado.
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É principalmente graças aos Códices de Nag Hammadi que as obras traduzidas na coleção podem hoje ser conhecidas.
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As obras em si não foram compostas em copta, e sua data de composição em grego é anterior — em alguns casos consideravelmente anterior — aos manuscritos coptas testemunhos; o fato de os manuscritos terem sido preservados no Egito é em grande parte um acidente de clima e geografia humana, e as obras individuais podem ter sido compostas em qualquer lugar do Império Romano ou suas proximidades, posteriormente transportadas ao Egito e aí traduzidas para o copta.