POIMANDRES

Hans JonasReligião Gnóstica

O pensamento e a especulação gnósticos desenvolveram-se fora das fronteiras do mundo helenístico totalmente livres de conexões cristãs, como demonstrado pelos escritos herméticos compostos em grego desde o princípio, que são puramente pagãos e carecem de qualquer referência polêmica ao judaísmo ou ao cristianismo, embora o Poimandres evidencie o conhecimento que seu autor tinha da história bíblica da criação, a qual se havia estendido desde a tradução da Septuaginta e era muito conhecida no mundo grego.

O sistema do Poimandres centra-se em torno da figura divina do Homem Primordial, cujo hundimento na natureza representa o clímax dramático da revelação, um fato emparelhado com a ascensão do alma, cuja descrição dá fim à revelação.

A composição do tratado é clara, sendo sua parte mais extensa (1-26) o relato, redigido em primeira pessoa, de uma experiência visionária e dos ensinamentos aprendidos durante seu transcurso, enquanto os parágrafos conclusivos (27-32) descrevem a consequente atividade missionária do destinatário entre seus companheiros humanos.

O homem é o terceiro na tríade de criações ou emanações divinas sucessivas: Palavra (Logos), Artífice da Mente (Noüs-Demiurgos), Homem (Anthropos).

A entrada do Homem na esfera demiúrgica marca o começo de sua história mundana interior, pois ele absorve e guarda em si mesmo a natureza da Harmonia, isto é, os poderes dos sete Governadores em suas respectivas esferas.

O hundimento do Homem na Natureza inferior é descrito de forma clara e impressionante no relato, no qual a revelação de sua forma divina à Natureza terrena é ao mesmo tempo seu reflexo nos elementos inferiores, e devido a sua própria beleza que assim se lhe aparece desde baixo, é arrastado de forma descendente, constituindo este uso do motivo de Narciso um rasgo original do Poimandres.

A ascensão da alma do conhecedor depois da morte é a maior esperança do verdadeiro gnóstico ou pneumático, e sua descrição no Poimandres não requer uma nova explicação, pois se trata do reverso do descenso astral da alma.

A parte da revelação que precede a geração do Homem (4-11) mostra as seguintes subdivisões: visão direta da primeira fase da cosmogonia, anterior à criação efetiva (4-5); explicação de seu conteúdo levada a cabo por Poimandres (6); reanudação e culminação da visão, acompanhadas de revelação do mundo inteligível em Deus, mundo segundo o qual se forma o sensitivo (7); o parágrafo 8 trata da origem dos elementos da natureza; os parágrafos 9-11 tratam de como o primeiro Deus engendra ao Demiurgo e de como este cria os sete poderes planetários e suas esferas, da posta em movimento deste sistema e, portanto, de sua revolução, e da geração dos animais irracionais a partir dos elementos inferiores da natureza.