Dentro desse esquema geralmente partilhado, a especulação determinou a origem e a natureza da Alma; entre os Gnósticos, são os
Valentinianos os mais articulados: “A redenção perfeita consiste no próprio conhecimento da inefável Grandeza. Pois, como foi da Ignorância que a Deficiência e a Paixão vieram a ser, é através do Conhecimento que todo o sistema originado da Ignorância se dissolve novamente. Portanto, o conhecimento é a redenção do homem interior; e não é corporal, pois o corpo é corruptível; nem é psíquico, pois mesmo a alma é um produto da Deficiência e como uma hospedaria para o espírito. Espiritual deve portanto ser também a natureza da redenção…” (Ireneu I, 21, 4).
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A Alma origina-se da história pré-cósmica de Sophia — a mais jovem dos Éons no Pleroma divino —, que cai em ignorância e paixão por alguma forma de ultrapassar seus limites; os estágios sucessivos de sua queda e reabilitação parcial geram hipóstases substantivas que refletem a condição mental de cada estágio; mesmo a matéria é assim derivada das emoções de Sophia
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A Alma origina-se do arrependimento de Sophia e de seu “retorno” — epistrophe — em direção à fonte de vida: “de onde toda a Alma do mundo e do Demiurgo tomou sua origem”; o Demiurgo é o filho da Sophia caída, moldado da substância psíquica que havia emanado dela, tornando-se “pai e rei de todas as coisas psíquicas e materiais”
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A relação ontológica de Sophia e Demiurgo é mais bem expressa na afirmação de que “a Sophia é chamada
pneuma, o Demiurgo, alma” (Hippol. VI, 34, 1); a
psyche é, pois, além de seu aspecto antropológico, um princípio cosmogônico e cosmológico — qua modus deficiens do Ser absoluto; o cosmos como tal é o produto primo e eminente do estágio metafísico de defecção no qual o Ser original tornou-se “psíquico”
III
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Outro exemplo de especulação gnóstica sobre a alma é encontrado no Peri Archon de
Orígenes — que, como opositor dos Gnósticos, não foi por isso impedido de partilhar concepções principais com eles; o lugar do Pleroma gnóstico é ocupado pelo mundo dos espíritos pré-existentes — nous-noes — que rodeiam a Divindade como sua criação eterna, sem diferença entre si e unidos a Deus em contemplação e amor.
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O “movimento” entrou nesse reino tranquilo por meio de sua liberdade de vontade — e o movimento só poderia ser afastamento de Deus; é nessa queda que os “espíritos” se transformam em “almas” —
psyche-psychai
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Orígenes gosta de jogar com a conexão etimológica entre
psyche e psychros — frio — para apoiar sua concepção da alma humana como uma condição deteriorada, diminuída, “esfriada” do espírito ou mente original: “A
psyche foi assim chamada por ter esfriado do fervor dos justos e de sua participação no fogo divino, e contudo não perdeu o poder de restaurar-se a essa condição de fervor em que estava no começo” (trad. Butterworth, p. 125)
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A alma signifca um estado e não uma substância:
Orígenes fala do espírito em seu curso descendente “tornando-se alma em maior ou menor grau” (Bu. p. 127); a implicação soteriológica é que “a alma quando salva não permanece mais uma alma” (Bu. p. 122)
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Em seu sistema também é a queda dos espíritos que leva à gênese do mundo; como cristão ortodoxo,
Orígenes era obrigado a considerar Deus mesmo como criador do mundo — não o podia fazer obra não autorizada de alguns dos poderes caídos; mas tampouco o fez escolha inteiramente livre de Deus: a diversidade originou-se na queda das mentes; a criação de um mundo é a resposta da justiça divina ao que os espíritos já fizeram consigo mesmos — “Com base em sua falta”, Deus atribui a cada um seu posto e lugar numa ordem física “comensurável com os movimentos melhores ou piores de cada um” (Bu. pp. 53–54)
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“Agora, sendo o mundo tão multiforme e comportando tão grande diversidade de seres racionais, que outra coisa podemos designar como causa de sua existência senão a diversidade na queda dos que declinam da unidade de modos dissimilares?” (Bu. pp. 76–77);
Orígenes combina engenhosamente o axioma gnóstico de que o mundo é o produto de uma queda com o requisito bíblico de que Deus mesmo é o criador do mundo
IV
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A abertura famosa de Enéadas V, 1 de Plotino apresenta o problema da queda das almas individuais: “O que foi que fez as almas esquecerem seu
Pai Deus e, embora partes de Lá e completamente daquele mundo, tornou-as ignorantes de si mesmas e Dele? A origem do mal para elas foi a audácia — tolma — e o entrar no devir — genesis — e a primeira alteridade e a vontade de pertencer a si mesmas. Regozijando-se em sua autodeterminação — autexousion —, uma vez que haviam vindo à frente, fizeram amplo uso do mover-se por conta própria, tomando a estrada contrária [ou seja, afastando-se de Deus] e caindo a tais extremos de distância que perderam o conhecimento de sua origem de Lá.”
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O verdadeiro ensinamento de Plotino é que a “Alma” como tal resultou de uma “queda” primordial ocorrida na evolução interna do Ser em grande escala; para isso se volta ao capítulo 11 de Enn. III, 7, que trata da origem do tempo
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Na exposição plotiniana do tempo: havia uma natureza que era empreendedora — polypragmon — e queria ser dona e governar a si mesma; assim começou a mover-se, e com ela se moveu o tempo, e o movimento era em direção ao sempre ainda por vir; havia na Alma um poder inquieto que sempre queria transferir o que contemplava Lá — no mundo inteligível — para outro medium; assim como a partir da semente quieta a forma substancial —
logos — se desdobra e passa por um suposto muitos, assim também a Alma: ao fazer o mundo sensível em imitação do inteligível, ela primeiro se temporalizou — chronoo —, gerando o tempo como substituto da eternidade; então fez também o cosmos gerado sujeito ao tempo
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O “tempo é a vida da Alma consistindo num movimento que passa de estado de vida a estado de vida”
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Isso é uma mistura de ontologia e drama, isto é, mito; a ontologia articula o que é o tempo em contraponto à eternidade; o mito relata como o tempo secedeu da eternidade: narra ousadia e inquietação, força intranquila, incapacidade de permanecer na totalidade concentrada, desejo de ser autosubsistente e separado
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Assim como em
Orígenes, o “movimento” é o começo de uma deterioração, e o desvio da unidade marca o começo do movimento; em ambos os casos a força motriz é a vontade própria
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Nesse ponto crítico — quando a questão é por que deve haver este mundo inferior fora do Inteligível —, Plotino não pode prescindir da mesma linguagem de apostasia e queda que ele mesmo usa severamente contra os Gnósticos; o princípio inequívoco do poder da plenitude e sua necessária ação exterior, pelo qual o sistema normalmente explica, nível após nível, o surgimento do múltiplo a partir do Um, não mais lhe basta quando se trata da Alma.
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A expressão que a Alma, em seu afastamento voluntário do puro ser, “primeiro se temporalizou” — chronoo — é única em Plotino e provavelmente por ele cunhada para exprimir um pensamento novo; a cunhagem e seu uso reflexivo ressaltam a diferença em relação ao modelo platônico do Timeu: lá, o tempo é criado; aqui, ele é sofrido por aquilo que vai criar, como uma autoalteração de seu próprio ser
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Em Platão o traço conspícuo do movimento temporal é a repetição do eternamente mesmo; em Plotino — o progresso para o sempre outro
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Segundo Plotinus, cada hipóstase existe e é o que é em virtude de relacionar-se com a próxima superior da qual provém — o voltar-se para trás ou para cima — epistrophe — pertence tanto ao subsistir da hipóstase quanto seu egressus descendente — proodos; é peculiar à hipóstase “Alma” — peculiaridade não derivável do princípio geral da metafísica — que, além disso, ela também está dirigida para aquilo que é “inferior” a si mesma
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A teoria da Alma, como a única magnitude verdadeiramente problemática no sistema, traz à luz sua contradição irreconciliada; ao descrever o egressus da Alma a partir do Nous, Plotino se sente constrangido a afastar-se de seu estilo dialético e recorrer a termos psicológicos — e mesmo emocionais — como tolma para fornecer a “motivação” para esse passo particular; a linguagem passa de filosófica a mitológica e, com todo seu desgosto pela “tragicização” gnóstica, aproxima-se perigosamente da mitologização gnóstica