A antítese luz e trevas é traço constante da literatura gnóstica, com uso mais enfático e doutrinalmente importante na chamada vertente iraniana do gnosticismo, que é também um componente do pensamento mandeano.
A primeira Vida estranha é o “Rei da Luz”, cujo mundo é “um mundo de esplendor e de luz sem trevas”, “um mundo de mansidão sem rebelião, um mundo de justiça sem turbulência, um mundo de vida eterna sem decadência e morte, um mundo de bondade sem mal… Um mundo puro sem mistura de mal” (G 10).
A ele se opõe o “mundo das trevas, completamente cheio de maldade,… cheio de fogo devorador… cheio de falsidade e engano… Um mundo de turbulência sem firmeza, um mundo de trevas sem luz… um mundo de morte sem vida eterna, um mundo no qual as coisas boas perecem e os planos fracassam” (G 14).
Mani, que adotou mais completamente a versão iraniana do dualismo, inicia sua doutrina das origens, conforme relatado no Fihrist, fonte árabe, com: “Dois seres estavam no início do mundo, um a Luz, o outro as Trevas.”
A equação “mundo (cosmos) = trevas” é expressa no Corpus Hermeticum pela exortação: “Afastai-vos da luz escura” (C.H. I.28) — combinação paradoxal que enfatiza que até a luz assim chamada neste mundo é, na verdade, trevas.
Do Corpus Hermeticum VI.4: “Pois o cosmos é a plenitude do mal, Deus a plenitude do bem.”
De Exc. Theod. 80.1: “Pois o que nasce da mãe é trazido à morte e ao cosmos; o que renasce de Cristo é transportado para a vida e para o Oitavo.”
De Macróbio (In somn. Scip. I.11): a alma “através de tantas mortes quantas são as esferas que atravessa, desce ao que na terra é chamado de vida.”