Introdução
Introdução à Natureza e Método da Gnose
A aquisição do conhecimento gnóstico difere fundamentalmente do conhecimento filosófico, sendo recebida em um único ato de compreensão, sem depender de métodos racionais ou argumentação lógica.
A Gnose renuncia a qualquer fundamentação racional por buscar transmitir conhecimento religioso, não sendo, portanto, uma filosofia.
Simão, o gnóstico, afirma que, ao contrário das ciências comuns que exigem aprendizado, nas questões da Gnose o homem possui conhecimento assim que ouve.
Em um documento gnóstico pagão, o Revelador afirma que, ao se mostrar em sua verdadeira forma, tudo se tornou claro imediatamente, de uma só vez.
Nos escritos cristão-gnósticos, uma única frase das escrituras ou de poetas, se bem compreendida, é considerada suficiente para a Gnose.
Distinção entre Gnose, Misticismo e Filosofia
A Gnose busca a cognição propriamente dita e a compreensão de si, do mundo e de Deus, em contraste com a visão mística que busca uma antecipação das condições após a morte.
O fator central da Gnose, o “chamado”, alcança o homem em seu “Eu”, que se sente interpelado e responde, sem se basear no pensamento racional ou em uma experiência que o elimine.
O homem sente que algo que já jaz dentro dele, embora sepultado, o encontra, sendo uma lembrança do antigo, não algo novo.
A Imagem Central do “Ouro na Lama”
A totalidade da Gnose pode ser compreendida pela imagem do “ouro na lama”, que expressa a distinção entre o elemento divino no homem e o mundo que o cerca.
A lama representa o mundo, especialmente o corpo, que com seus desejos sensuais arrasta o homem para baixo e mantém o “Eu” cativo.
A Gnose admoesta frequentemente a libertar-se das “paixões”, como na afirmação sobre o nobre escravo interior a quem se deve a liberdade.
O Corpus Hermeticum descreve a necessidade de rasgar a vestimenta do corpo, chamando-a de tecido da ignorância, fundamento da maldade, cadeia da corrupção, morte viva e cadáver visível.
A Oposição Fundamental entre o Mundo e o Divino
A Gnose sustenta uma hostilidade ao corpo que é parte de uma hostilidade mais abrangente ao mundo, dominado pelo poder do sentido e pelo poder do Destino (Fado).
Para o gnóstico, o mundo inteiro jaz na maldade, dominado pelos sete planetas e pelos doze signos do Zodíaco, que são marcados como o poder do mal que escraviza a humanidade.
Muitos gnósticos acreditam que demônios e a figura do
diabo também governam neste mundo.
A transitoriedade de todas as coisas, a reencarnação, a morte e a separação dos sexos são características que expressam a maldade do mundo, do qual o gnóstico busca transcender.
A Natureza Divina do “Eu” e sua Condição no Mundo
O “Eu” ou o “si mesmo” do homem pertence à esfera de Deus, sendo algo totalmente diferente deste mundo, e é descrito como “ouro” que permanece intacto na lama do mundo.
A Queda e a Necessidade do Chamamento Divino
O “eu” divino do homem veio parar neste mundo maligno por meio de uma queda ou de um ato ilegítimo, não podendo escapar por si mesmo, necessitando de um “chamado” do mundo completamente outro.
O mundo está em estado de desordem, e o “ouro” jaz entorpecido, esquecido de sua pátria, cativo, buscando escapar do Caos amargo sem saber como vencer.
O chamado chega como uma carta que diz: “Levanta-te, sacode o teu sono… Lembra-te de que és filho de um rei”, ao que o adormecido responde: “Diante de sua voz me levantei… do sono… e li. Exatamente como estava escrito em meu coração… Pensei nisto, que era filho de um rei.”
O chamado tem uma função “redentora”, pois o ouro continua sendo ouro na lama e a nobreza anseia por sua natureza, necessitando apenas ser libertada.
O Papel da Comunidade e o Fim dos Tempos
O gnóstico não é chamado como um indivíduo isolado, mas se une a uma comunidade que se reúne em torno de um revelador, e a redenção final só se completa com o fim do mundo.
As diferentes “escolas” gnósticas afirmam que cada uma conhece exatamente o chamado ou o Redentor, enquanto as demais o conhecem apenas em parte.
Os gnósticos se sentem como “faíscas de luz” destinadas a se unirem no reino da luz, entrando juntos no Pleroma (a plenitude) quando o mundo encontrar seu fim, destruído pelo fogo ou tornando-se impotente.
A tensão dos sexos é removida no fim, quando os gnósticos entram no Pleroma e se unem aos
anjos masculinos, alcançando a unificação do masculino e do feminino.
Os Cinco Pontos Cardeais da Doutrina Gnóstica
A essência da Gnose resume-se em cinco pontos principais que definem o antagonismo cósmico, a natureza divina do “eu”, sua queda, o resgate por um chamado e o retorno final.
Existe um antagonismo irreconciliável entre este mundo e o Deus incompreensível ao pensamento, a “causa primordial”.
O “si mesmo”, o “Eu” do gnóstico, seu “espírito” ou alma, é inalteravelmente divino.
Este “Eu”, no entanto, caiu neste mundo, foi aprisionado e anestesiado por ele, não podendo libertar-se por si mesmo.
Apenas um “chamado” divino do mundo da luz solta as amarras do cativeiro.
Mas apenas no fim do mundo o elemento divino no homem retorna ao seu lar.
As Questões Fundamentais Respondidas pela Gnose
A Gnose promete responder a um conjunto de perguntas existenciais sobre a origem, a situação presente e o destino final do ser humano.
Os Dois Ramos Principais da Especulação Gnóstica
Existem dois ramos principais de sistemas gnósticos para explicar a origem do cativeiro do elemento divino: um que parte de dois princípios primordiais opostos e outro que parte de um princípio único do qual uma parte cai.
No ramo “Iraniano”, luz e trevas, bem e mal, Deus e matéria são opostos desde o início, com as trevas sendo o elemento agressivo que engole uma figura de luz que desce voluntariamente.
H. Jonas chama este ramo de “Iraniano”, presente no Poimandres, no Maniqueísmo e em parte no Mandeísmo.
No outro ramo, parte-se de um princípio divino único do qual uma parte se separa e cai, sendo o motivo dessa queda considerado o pecado primordial pela Gnose em questão.
Desse ser caído deriva-se o Demiurgo (frequentemente chamado Ialdabaote), criador e senhor deste mundo, identificado com o Deus Criador do
Antigo Testamento e senhor do destino.
O Redentor e o Conceito do “Redentor Redimido”
Muitos sistemas gnósticos apresentam uma figura do mundo da luz, o Redentor, que desperta o elemento divino no homem; em alguns casos, este Redentor também precisa ser redimido por compartilhar da mesma natureza daqueles que redime.
O Redentor é uma personificação do próprio chamado, como Manda d'Hai no Mandeísmo, que significa “conhecimento da vida”.
No domínio cristão,
Jesus Cristo tem o papel decisivo, mas o sofrimento na cruz é apenas aparente (Docetismo), pois a vida divina deve ter se retirado antes da morte, como quando
Jesus permite que Simão de Cirene seja crucificado em seu lugar.
A obra redentora de
Jesus consiste em proclamar o
Pai desconhecido e agir como um modelo, separando o elemento divino nos homens para que possam ascender ao Deus supremo.
Na ideia do “Redentor redimido”, Deus busca a si mesmo, como na afirmação: “Eu e tu somos um, tu estás diante de mim, eu estou depois de ti… a única potência, dividida acima e abaixo, gerando a si mesma, multiplicando-se, buscando a si mesma, encontrando-se, sua própria mãe, seu próprio pai.”
Sacramentos, Ética e Literatura Gnóstica
Os sacramentos são considerados estritamente supérfluos para a Gnose, embora tenham sido adotados e transformados; a ética gnóstica varia do ascetismo ao libertinismo, e sua literatura é vasta e diversificada.
Sobre alguns gnósticos, afirma-se expressamente que a redenção perfeita é o conhecimento da grandeza inefável, e que é através do conhecimento que o homem interior é redimido.
A ética gnóstica é indiferente às leis, pois os gnósticos se consideram “salvos por natureza”, e sua regra de conduta flui do que vem do verdadeiro Deus supremo, sendo a fé e o amor os únicos vínculos internos.
Carpócrates afirma que “Fé e amor redimem”, e que as noções de “meu e teu” foram introduzidas através da lei.
A literatura gnóstica consiste principalmente de revelações atribuídas a figuras salvadoras, como
evangelhos secretos de
Jesus (frequentemente após a ressurreição), Atos dos Apóstolos (especialmente de Tomé) e utiliza-se de escritos gregos e bárbaros, como Homero, por meio de reinterpretações violentas.
Tomé diz ao Salvador: “As palavras que nos dizes são para o mundo ridículas e desprezíveis.”