O Evangelho segundo Filipe não é um evangelho tradicional com a boa-nova sobre a vida e a morte de Jesus, mas uma antologia de aforismos gnósticos cristãos, parábolas, diálogos narrativos e ditos de Jesus com qualidade de poesia gnômica.
Um exemplo da qualidade aforística do texto: “O inverno é o mundo, o verão é o outro reino. É errado orar no inverno”
Os fragmentos, encadeados como uma catequese sacramental, são breves e podem ter sido extraídos de textos maiores que não sobreviveram
O livro é pseudepigraficamente atribuído ao mensageiro Filipe, mencionado pelo nome apenas uma vez, e certamente não tem nenhuma conexão real com Filipe
É Filipe quem informa que José foi o carpinteiro que fez a cruz na qual seu filho Jesus foi pregado — como em outras obras apócrifas
Ao contrário de muitos textos gnósticos, esse livro eclético contém trechos de narrativa gnóstica, mas não desenvolve nenhum mito extenso, e sua força reside na reunião de imagem, mensagem e elaboração metafísica em peças breves e acabadas.
Um exemplo da catequese batismal do texto: “Deus é um tintureiro. Os bons corantes, os corantes verdadeiros, dissolvem-se nas coisas por eles tingidas. Assim também com as coisas que Deus tingiu. Seus corantes são imperecíveis por causa de suas cores. O que Deus mergulha, ele mergulha na água”
Apesar da ordem excêntrica, a obra possui força cumulativa de perspicácia, engenho e incisão aforística
Somente ao final alguns temas são desenvolvidos com maior extensão
O Evangelho segundo Filipe contém uma exegese gnóstica de passagens do Novo Testamento, trata de noções valentinianas sobre vida, morte, ressurreição, carne e espírito, e centra-se nos sacramentos — batismo, crisma, eucaristia, redenção e câmara nupcial.
Adão e Eva eram originalmente uma figura andrógina; os problemas de sexualidade e outras enfermidades surgiram com a ruptura dessa união
Com o auxílio de Cristo, a reunião se realiza na câmara nupcial — precursora da união posterior quando o espírito retorna ao reino celestial
A noção de uma união casta no leito, quando se está revestido da luz protetora do espírito, percorre numerosos poemas do texto: “Os governantes não vos veem, vós que vestis a luz perfeita, e não podem apoderar-se de vós. Vós vos revestistes da luz no mistério da união”
Outros temas do texto abrangem homens livres e virgens, escravos, mulheres maculadas, animais em forma humana, conversão e agricultura, com parábolas sobre a semeadura, a colheita e as estações — como nos evangelhos canônicos —, mas a gnose permanece sempre presente.
Os temas gnósticos recorrentes incluem luz e trevas, nomes das coisas terrestres e celestes, a palavra, a maldade dos arcontes e a inversão de ideias tradicionais sobre a ressurreição e sobre a expressão “meu pai” na oração do Senhor
A heterodoxia típica das reinterpretações gnósticas do cristianismo surpreende frequentemente o leitor, como nas afirmações “Deus é um comedor de homens” ou “Jesus veio para crucificar o mundo”
Provavelmente escrito no século III, em grego e possivelmente na Síria, o Evangelho segundo Filipe existe em tradução copta na biblioteca de Nag Hammadi.