O versículo 1:26 do Gênesis, que se refere a Deus no plural, gera duas grandes premissas interpretativas — ou Deus é o criador supremo do ecossistema, o que leva a explicar o plural como plurale maiestatis ou como colaboração com Sophia ou um
anjo; ou o deus do Gênesis não é o Deus último, o que leva a explicar o plural como criação solitária pelo intermediário ou pelo
Diabo com a ajuda de seus Arquontes.
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A premissa A — partilhada pelo judaísmo e pelo cristianismo ortodoxo — subdivide-se em: (A1) o plural é um plurale maiestatis sem significado concreto; (A2) o plural significa que Deus colaborou com Sophia ou um
anjo na criação da humanidade
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A premissa B — o deus do Gênesis não é o Deus último — subdivide-se em: (B1) o plural é tacitamente ignorado, pois a humanidade foi criada pelo deus do Gênesis sem auxílio (Marcion, bogomilos e cátaros, entendendo por “humanidade” os corpos físicos de homem e mulher); (B2) o plural indica que o deus do Gênesis criou a humanidade com a ajuda de seus Arquontes (maioria dos gnósticos e dos maniqueus)
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A questão de quem soprou nas narinas de Adão o sopro da vida — Gênesis 2:7 — gera quatro possibilidades lógicas exploradas pelos diferentes grupos dualistas.
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Opção 1: o próprio criador de Adão sopra seu próprio sopro nas narinas de Adão — posição ortodoxa, de Marcion e dos maniqueus
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Opção 2: o criador de Adão sopra o sopro de outro nas narinas de Adão — posição de muitos gnósticos e de um mito bogomilo
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Opção 3: não o criador de Adão, mas outro sopra seu próprio sopro nas narinas de Adão — posição de certos gnósticos e de outro mito bogomilo
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Opção 4: não o criador de Adão sopra nas narinas de Adão um sopro que também não é seu — posição de alguns gnósticos
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A questão da identidade da Serpente em Gênesis 3:1 gera igualmente um esquema de múltipla escolha que produz todas as soluções possíveis do sistema dualista: a Serpente é representante do Deus verdadeiro para muitos dualistas; não é representante do Deus verdadeiro para os ortodoxos, muitos dualistas e todos os pseudodualistas.
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A lógica de qualquer jogo consiste em apresentar à mente um esquema de múltipla escolha, e a mente tende a se fixar numa escolha em vez de aceitar muitas — o que se explica pelo fato de que, na prática, as escolhas incorretas podem ser fatais, além da complexidade da interação social.
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As tendências dualistas antigas faziam parte do processo exploratório da mente, quando a maioria das soluções para o enigma posto pelo surgimento de uma nova religião a partir de religiões e filosofias antigas tinha de ser formulada
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A morfogênese do dualismo pode ser acompanhada passo a passo nos termos do jogo lógico que durou aproximadamente três séculos, antes de o Cristianismo se tornar a religião estatal do Império Romano
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Quando isso ocorreu, as soluções mais distantes foram descartadas e as regras do jogo se tornaram mais rígidas — os gnósticos tinham tido seu tempo; o tabuleiro pertencia inteiramente aos cristãos dominantes, cuja habilidade persuasiva não tinha a ver com lógica, mas com poder
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O sistema do dualismo, porém, estava longe de extinto — o restante do livro analisa algumas de suas manifestações diacrônicas reais ou presumidas até os dias de hoje