Francisco García Bazán. GNOSIS: la esencia del dualismo. Madrid: Editorial Trotta, 1997.
DEFINIÇÃO DO GNOSTICISMO
O enfoque fenomenológico é considerado o método mais completo para abordar uma definição do gnosticismo, pois permite que o fenômeno se dê em sua pureza fáctica e revele o que é.
Os estudiosos do gnosticismo utilizam um duplo método: a) mediante o exame histórico-crítico, que inclui a maior parte dos investigadores responsáveis pelo estabelecimento de fontes e análises sistemáticas, e b) por meio do estudo comparado que, através da descoberta de analogias, trata de compreender o sentido do fenômeno.
O mero enfoque crítico nunca chegará ao móvel último, ao modo de experiência religiosa peculiar própria dos gnósticos, que tem permitido que convivam o sublime com o grotesco, a aspiração à salvação e a licença.
O método fenomenológico compreende dois momentos fundamentais: o da redução eidética ou epoche, que permite que o fenômeno se dê sem que nada alheio o oculte, e o da intuição eidética, que permite que o fenômeno realize sua função natural de mostrar-se.
A redução eidética consiste em um processo reductor das camadas superficiais e convencionais que ocultam o fato, valendo-se de todos os auxiliares paleográficos, filológicos, literários, geográficos e de história local.
No momento da redução já se encontra imbricado o da compreensão ideal, porque não é possível descobrir com sinceridade o conteúdo de um dado sem que se participe de sua verdade.
O modelo do estudioso do gnosticismo é constituído pela conjunção harmônica em um mesmo sujeito do ofício, ou seja, uma boa formação nas disciplinas histórico-críticas, com uma sensibilidade desperta para o tema de estudo eleito.
O Colóquio de Messina (1966) estabeleceu definições precisas para os termos gnosis, gnosticismo, pregnosticismo, protognosticismo, gnóstico e gnostizante, buscando um consenso cientificamente válido.
Por gnosis deve-se entender todo conhecimento dos mistérios divinos reservado a uma elite, conforme proposto pelo grupo de especialistas formado por G. Widengren, U. Bianchi, H. Jonas, J.
Daniélou, C. Colpe, M. Simon e H. I. Marrou.
O gnosticismo envolve a ideia de sistema e deve ser empregado para os conjuntos doutrinais que floresceram por volta do século II d.C., abarcando elementos como a presença da centelha divina no homem, sua procedência do reino divino, sua queda no mundo e a necessidade de ser despertada por sua contraparte divina.
O pensamento pregnóstico apresenta caracteres que podem ser identificados exteriormente com os sistemas gnósticos, mas estando esses traços integrados em uma concepção global alheia ao gnosticismo.
O termo protognóstico designa todo sistema gnóstico incipiente ou germinal, ou seja, movimentos espirituais dirigidos por uma atitude similar à que impregna os sistemas gnósticos consagrados.
O adjetivo gnóstico pode aplicar-se tanto a concepções vinculadas à gnosis quanto ao gnosticismo, e sua ambiguidade é intransferível, de modo que só o contexto literário pode facilitar seu significado exato.
O termo gnostizante faz referência a traços que possuem analogia com o gnosticismo, mas integrados em um sistema não gnóstico, sendo preferível usar pregnóstico para os casos anteriores aos grandes sistemas do século II e gnostizante para os contemporâneos e posteriores.
O gnosticismo é uma concepção religiosa profunda, um modo de compreensão da relação homem-Deus de tendência mística e enfoque metafísico, que sublinha a nota doutrinal em detrimento dos aspectos ético e ritual.
Desde a época dos primeiros heresiólogos e completando uma tendência já visível nas mais antigas escrituras canônicas, o gnosticismo foi considerado como uma heresia surgida no seio do cristianismo e motivada por uma secularização profunda ao contato com elementos gregos.
Com Harnack, esta consideração se estabilizou em sua célebre definição do gnosticismo como a aguda helenização do cristianismo, sendo o fenômeno gnóstico ainda hoje considerado como um tema pertencente à história da Igreja.
A Religionsgeschichtliche Schule e a fenomenologia da religião fizeram ver que o fenômeno gnóstico escapa dos estreitos limites do cristianismo, sendo possível defini-lo corretamente por relação com este.
A Escola da História das Religiões, com Bousset à sua frente, apresentou o gnosticismo como uma religião entre as do mundo, abrindo ao fenômeno gnóstico movimentos religiosos como o maniqueísmo e o mandeísmo.
GNOSIS
O gnóstico é o que possui a gnosis, um conhecimento que escapa aos normais análises racionalistas e cujo correlato é o Si-Mesmo: a intimidade infinita ou espiritual da pessoa, que é o verdadeiro e simples.
O Si-Mesmo conhece-se a si mesmo, e esta autognosis é a gnosis, sendo o Si-Mesmo sujeito e objeto de conhecimento porque é uma mesma coisa o que conhece e o conhecido, conhecer e conhecer-se.
O homem, como o enfocam as ciências e como o tende a idealizar a antropologia ingênua do crente comum, pode experimentar-se e conhecer-se, mas este conhecimento nada tem que ver com o conhecimento gnóstico.
A autognosis do Si-Mesmo é extra e suprahumana, um conhecimento supraconsciente que depende de si, que nada tem que ver com o humano e que pertence a outra esfera de ser.
O hiato que existe entre o Si-Mesmo e o homem é infranqueável, e por isso o
pneuma se reconhece, sendo este reconhecer-se um ato autônomo para o qual a razão, o sentimento ou a vontade, como faculdades psíquicas, resultam ineficazes.
A intuição espiritual tem como órgão correspondente o nous em sentido gnoseológico, mas atendendo à perspectiva ontológica chama-se
pneuma, espírito, o divino no homem, e em seu mais pleno sentido, Si-Mesmo, como a única verdadeira existência.
O conhecimento, autoconhecimento ou reconhecimento é salvador, pois conhecer-se é saber-se idêntico, experimentar a identificação entre o conhecido e o cognoscente, sendo esta revelação reconhecimento da própria necessidade de manifestação do
pneuma.
O gnóstico é um eleito a posteriori, pois quando o pneumático fala de sua qualidade superior, fala assim em virtude do caráter inamissível da experiência gnóstica que lhe permite reconhecer-se e, por isso, saber-se e realizar-se na Possibilidade Infinita.
O esoterismo gnóstico não está relacionado com a realidade quantitativa de certos grupos estreitos nem com o zelo de conservar uma doutrina por espírito de soberba, mas sim com a compreensão justa e difícil, com a conservação da experiência metafísica e a transmissão de sua doutrina.
A gnosis própria do gnosticismo resume-se nos caracteres de autoconhecimento do Si-Mesmo como Plenitude e Absoluto, ou conhecimento pneumático revelado, intuitivo, salvador, inamissível e esotérico.
A gnosis tem sido definida corretamente como conhecimento salvador, encerrando em si quanto possa saber-se e dizer-se sobre a realidade, conforme consignado nos próprios documentos gnósticos.
Conforme os Extractos de Theodoto de Clemente Alexandrino, não só o batismo é o que libera, mas também a gnosis, isto é, quem éramos e quem somos; onde estávamos e para onde fomos arrojados; para onde aspiramos e de onde somos resgatados; o que é a geração e o que a regeneração.
O
Evangelho da Verdade afirma que aquele que chegar a conhecer deste modo sabe de onde veio e para onde vai, sabe como o ébrio que saiu da embriaguez, que se voltou para si e que recuperou o que lhe é próprio.
O Salvador, no Livro de Tomás, diz a Tomás que, por ser seu irmão gêmeo e seu verdadeiro amigo, examine e conheça a si mesmo o que é, como é e como deve ser, pois já alcançou o conhecimento e será chamado de o que conhece.
O Hino da Pérola, conservado nos Atos de Tomás, é apontado como o documento gnóstico que revela com maior plasticidade a experiência e o conteúdo da gnosis.
O MITO GNÓSTICO
O gnóstico deve expressar a gnosis, e devido à alta e nova qualidade da experiência espiritual que o inspira, sente-se forçado a lançar mão de quantos elementos lhe possam ser eficazes para manifestar sua insólita percepção religiosa, encerrando dois elementos simultâneos e complementares: o mito e o discurso.
O mito tende a oferecer em um simbolismo apertado um significado que supera quanto o discurso possa dizer, enquanto o discurso tende a esclarecer e determinar, eludindo os erros a que poderia conduzir a interpretação literal do mito.
Os gnósticos põem em jogo os dois recursos linguísticos próprios do nível doutrinal das religiões, com os quais intentam tanto sugerir uma experiência que escapa à expressão, por meio do simbolismo, quanto manter-se fiéis às exigências da razão, através da linguagem demonstrativa.
As constantes do mito gnóstico, sejam particulares ou gerais, são: a) Divindade Suprema; b) Pleroma; c) queda pleromática; d) demiurgo; e)
pneuma no mundo; f) Salvador; g) dualismo; h) retorno, além do regime emanativo.
DIVINDADE SUPREMA
O Deus gnóstico é uma divindade transcendente cuja transcendência se define por sua total estranheidade e incompreensibilidade a respeito do mundo, estando mais além da existência e da essência, sendo um deus desconhecido.
Toda imagem que o mundo trace de Deus adotará uma forma falsa, e mesmo que o mundo conseguisse levantar-se sobre si mesmo e chegar à sua origem, não encontraria a Deus, mas sim o que é perfeito, graças a esse Deus.
O Deus desconhecido é o Deus que o mundo e sua história ignoraram de plano, natural e teologicamente, e que se faz presente nessa experiência clara e singular que é a gnosis, da qual participou o Salvador.
Os gnósticos lançaram mão da especulação já elaborada e afim que lhes era útil, como a metafísica platônica espiritualista e os símbolos exóticos e crípticos da mistério-sofia da época.
O vocabulário genérico empregado para a Divindade Suprema inclui termos como agennetos, anarkhos, agoretos, anousios, aoratos, aretos, anonomastos, akatonomastos, akataleptos, anennoetos.
PLEROMA
Pleroma é a realidade ou universo saído imediatamente das mãos de Deus, a manifestação da Divindade transcendente que precede toda manifestação visível e perecível, constituindo tanto a plenitude de Deus como o que plenifica ou dá realidade aos seres cambiantes do cosmos.
Deus mora no Pleroma, e sua realidade espiritual é a perfeição e o lugar próprio do Altíssimo, sendo fácil para os gnósticos assimilar em suas especulações cosmológicas o Pleroma ao mundo das ideias de Platão ou ao Nous do platonismo.
O que adquire verdadeiro relevo para o crente é o mundo verdadeiro como modelo de salvação, o universo espiritual que vem completar ou aperfeiçoar o gnóstico uma vez que deixou abrir-se em sua interioridade a luz do Espírito ou a gnosis.
O Pleroma gnóstico adota uma série de notas que o fazem manifestar-se como o paradigma soteriológico, como o
Filho ou o Homem de Deus que se ata ao
Pai e do qual não se separa.
QUEDA PLEROMÁTICA
O gnóstico concebe ontologicamente a realidade como uma totalidade constituída por três planos superpostos: Deus Pai ou Divindade Suprema, Deus Filho ou mundo espiritual e mundo psico-físico ou perecível, percebendo que o cosmos psico-físico não cumpre devidamente sua função de ser um reflexo do cosmos espiritual.
Os seres particulares do mundo, saídos do mundo do Espírito, não cumprem harmonicamente suas funções, gerando os conflitos que reinam por toda parte: excessos de ordem física, desajustes de decisão, desequilíbrio de sentimentos e ausência de sabedoria na ordem anímica.
O mundo constituído e refletido não é o efeito de uma plenitude ou sobre-abundância do cosmos espiritual, mas sim de uma falência, queda ou desmedro dele mesmo, sendo agente e responsável da queda um aspecto do Pleroma que engloba e preside a atividade psíquica do homem fazendo-o crer em um mundo caótico.
DEMIURGO
À cabeça do universo caótico há um ser que o personifica e dirige, o foco que concentra a totalidade das forças do erro que dão sua organização a esse caos estável, sendo a mais alta representação invisível desse cosmos caído o Deus no qual creem os homens desse cosmos.
Este Deus, alçado no pináculo do mundo, não tem devotos espirituais, mas sim súditos psíquicos e carnais, sendo o Príncipe deste mundo, universo de fraude espiritual, que durante séculos usurpou o lugar do verdadeiro Deus, especialmente como o Deus de Israel, o Yahvé bíblico.
O demiurgo não é apenas o ápice da vida psíquica, mas também a força e o impulso dos sujeitos psíquicos mais representativos e opressores, não sendo mais que a consequência da queda do lado malogrado e ilusório de uma sabedoria que está no limite entre o mundo do Espírito e sua imagem.
PNEUMA NO MUNDO
Quando alguém, livre das ataduras inferiores, determina-se totalmente pela verdadeira sabedoria, esse homem intui, fala e age segundo o aspecto real da sabedoria, mirando pneumaticamente e não psíquica e carnalmente, sendo tais homens os menos entre os homens.
Este tal sabe que rigorosamente não é carne nem psique, realidades perecedouras ou mutáveis, mas sim espírito eterno e imutável que reside ou se reflete em uma construção psico-física.
O tremendo, arriscado e humilhante é que o homem esteja preso em um horizonte mundanal baseado nos interesses psico-físicos, que o aprisiona, seduz e perverte, não logrando libertar seu espírito dele.
O gnóstico que se alimenta de uma reta discriminação sabe que o espírito na situação humana que o rodeia está preso no mundo e que se necessita do maior esforço e penetração espiritual para superar tão triste estado.
SALVADOR
Quem busca o caminho da gnosis não se sente só, pois quem verdadeiramente é capaz de reincorporar ou endireitar o cosmos e colocar cada realidade em seu justo lugar é o que conhece verdadeiramente, o gnóstico, e quem dotado de semelhante sabedoria cumpre tal tarefa manifesta múltiplas virtualidades.
O verdadeiro homem de Deus é imutável e firme em suas virtudes, indeclinável no temperamento de seus afetos e sem sombras na luminosidade de sua mensagem, porque a experiência de uma divindade que excede toda possibilidade concreta o torna divinamente desinteressado.
O Salvador é, para o gnóstico, o homem espiritual que adquiriu uma estatura terrestre conforme com sua natureza celeste, sendo assim o intermediário necessário para a redenção dos espíritos caídos.
O gnosticismo cristão considerou que o portador mais qualificado desta experiência do Deus ignorado e, por consequência, de sua mensagem de mansidão e espiritualidade infinita, foi
Jesus de Nazaré.
DUALISMO
O gnóstico, devido à atitude fundamental que o enfrenta com o mundo, tem que ser um dualista, não no sentido de um dualismo de princípios, mas sim de um dualismo que expressa a rejeição de um mundo que em si mesmo se encontra irremissivelmente perdido.
O gnóstico percebe conjuntamente que a índole da estrutura cósmica deve corresponder à natureza espiritual, mas também que o homem, tanto incrédulo quanto religioso, vem sendo presa de suas tendências inferiores carnais e sobretudo psíquicas.
O dualismo do gnóstico é a expressão de uma atitude ao mesmo tempo separadora e unificadora: condena e rejeita um mundo falso para purificar-se dele, porque lhe oculta a verdadeira realidade das coisas, mas simultaneamente reclama o verdadeiro cosmos, que não está separado de Deus e do qual ele faz parte.
É a aspiração unificadora do gnóstico que o faz rejeitar o engano, reconhecer cada objeto segundo seu próprio plano e consistência e, instalado na própria reflexo de realidades mais altas, ansiar com o Salvador aquele móvel último que, além de toda distinção e dualidade, o convoca como verdadeira transcendência ou Deus desconhecido.
RETORNO
O reencontro consigo mesmo, uma vez cumprido, é o Si-Mesmo eterno e imutável, a recuperação da Realidade como um reingresso naquilo de que o homem se afastou, a volta ao ponto de partida verdadeiro, realizado segundo uma dupla perspectiva: individual e coletiva.
O chamado do Salvador será sempre uma exortação a experimentar aquelas etapas fundamentais que ele realizou, ou seja, a seguir o caminho da interiorização, espiritualização ou conversão.
Nas palavras de um destino último equivalente (epistrophe/metanoia; retorno/conversão/arrependimento) advirta-se uma mesma intenção última: no arrependimento privam as notas do sentimento, mas seu móvel é espiritual; na conversão sublinha-se a concordância entre o chamado e a resposta.
O retorno tem um sentido ontológico que o faz aparecer como uma ruptura ou abertura vertical dentro do processo temporal, podendo o gnóstico cumprir este ato fundamental no instante em que seu
pneuma brilhe sem travas.