Biblioteca de Nag Hammadi: inglês; Livre des secrets de Jean
Trata-se de um importante trabalho de Gnosticismo mitológico. Usando a estrutura de uma revelação dada pelo Cristo ressuscitado a João, o Filho de Zebedeu. Oferece uma descrição clara e notável da criação, queda e salvação da humanidade; a descrição mitológica se desenvolve em termos similares aos primeiros capítulos do Gênesis. Relatos do primeiros Padres indicam que tinham alguma familiaridade com este trabalho, o que indica que este tratado devia estar circulando antes do final do século II DC.
O tratado oferece respostas a duas questões básicas: Qual a origem do mal? Como se pode escapar deste mundo mau para nossa morada celestial? A cosmogonia, apesar dos detalhes exóticos, busca também respostas as estas questões. A suprema Deidade é definida em termos de conceito abstrato grego de perfeição, uma perfeição que exclui todo antropomorfismo e todo envolvimento no mundo. Desta suprema deidade emana uma série de seres-luminosos, incluindo o Cristo e sophia.
De acordo com o tratado, a queda se dá quando Sophia deseja produzir um ser sem a aprovação do grande Espírito ou seu consorte. Consequentemente, ela produz um Deus-criador monstruoso Yaldabaoth, que ainda possui algum poder-luminoso de sua mãe. Yaldabaoth cria anjos para governar o mundo e ajudar na criação do homem; o homem ele mesmo é moldado depois à imagem do Pai perfeito, que foi espelhado na água. O Homem vem à vida quando Yaldabaoth é enganado para soprar poder-luminoso nele. Assim começa um combate incessante entre os poderes da luz e os poderes da escuridão pela posse das partículas divinas no homem. Os poderes do mal põe o homem em um corpo material para mantê-lo prisioneiro, e também criam a mulher e o desejo sexual para espalhar as partículas da luz e tornar a fuga mais difícil. Finalmente o Cristo é enviado para salvar a humanidade para relembrar às pessoas sua origem celestial. Somente aqueles que possuem este conhecimento e viveram vidas ascéticas podem retornar ao reino da luz; os outros reencarnam-se até alcançar o conhecimento salvador.
O “Livro Secreto de acordo com João” contém uma das narrativas mais clássicas do mito gnóstico (v. ESCRITURA GNÓSTICA CLÁSSICA). Após uma descrição filosófica de deus como a fonte de todo ser, o autor gnóstico segue descrevendo a estrutura do mundo Divino em complexidade gloriosa, afirmando, “o que aconteceu antes do Gênesis 1:1”. Depois deste pesado prelúdio, os eventos da história do Gênesis são recontados de uma perspectiva gnóstica. A história termina com a exortação do salvador gnóstico da raça humana para “despertar” e ser salva.
Além da complexidade e terminologia do preâmbulo à criação relatada no Gênesis, e ao desdobramento ampliado do relato do Gênesis, depreende-se que o criador do mundo material identificado como deus no Gênesis, não é o verdadeiro deus mas Satã (aí denominado Ialdabaoth e Saklas). Além do mais a criação de Adão é bem mais complexa do que no Gênesis: uma criação dupla — primeiro um Adão “animado” feito apenas de alma, embora com partes anatômicas, e segundo uma casca para abrigá-lo.
O relato do Gênesis assim desdobrado de modo mais complexo vai atá o nascimento de Set; depois disso segue a história subsequente da raça humana em termos gerais, dentro do contexto do discurso teológico sobre a atividade do Espírito Santo. Nada é dito da história de Israel, nem sobre Jesus como uma encarnação do Cristo pré-existente. No entanto, Cristo (“o ungido”) é uma figura importante do mito.
Toda esta narrativa do mito gnóstico está encapsulada dentro de uma estória que parece implicar que o conteúdo da obra é um ensinamento pós-ressurreição de Jesus. O que confirma a crença gnóstica que depois de sua ressurreição Jesus permaneceu na terra por 18 meses e ensinou a “verdade plena”. Entretanto em termos do mito gnóstico a identidade do revelador não é Jesus mas Barbelo, o segundo princípio, talvez aqui manifestado como a reflexão da luz.
O autor e lugar da composição são desconhecidos. A data é provavelmente final do século II. A língua da composição é grega. O plano da obra é o seguinte:
Este tratado chegou ao nosso conhecimento depois de quatro recensões, duas mais longas (Códice 11,1 e IV,1) e duas mais curtas (111,1 e BG,2). Aparentemente, trata-se de revelação fictícia de Cristo ressuscitado a João, filho de Zebedeu. Mas, em profundidade, é descrição das origens do mundo, da queda e da salvação do homem, respondendo a duas questões típicas dos gnósticos: 1) Qual é a origem do mal no mundo? 2) Como é que o homem pode escapar desse mal e voltar à pátria celeste?
Para responder a essas interrogações, o autor relê os primeiros capítulos de Gênesis em perspectiva gnóstica e antijudaica. A estrutura da divindade tem em seu ponto culminante o Ser sem misturas, apresentado segundo fraseologia característica (p. 2,33-3,17):
Como ele é o Espírito invisível, não convém pensá-lo como deus ou de qualquer outro modo, pois ele está além de deus, já que ninguém está acima dele e que ele não é dominado por ninguém, não havendo nele nada de inferior porque o melhor está nele, sendo ele o único absolutamente perfeito porque ele não tem necessidade de nada, já que todo ele é perfeição, não carecendo de nada que pudesse torná-lo mais perfeito. Ele é invariável e absolutamente perfeito na luz: incircunscritível, porque ninguém o precede para circunscrevê-lo; indistinto, porque ninguém o precede para impor-lhe uma distinção; incomensurável, pelo fato de que ninguém o precede para medi-lo; invisível, porque ninguém o vê; eterno, porque sempre existente; inexprimível, porque ninguém pode captá-lo para o expressar; inominável, porque ninguém o precede para nomeá-lo.
É desse ser que derivam as entidades luminosas, que são qualidades personificadas, entre as quais Cristo e Sofia, a Sabedoria. Pode-se constatar que se trata de sistema emanacionista complicado, com base na etimologia dos nomes divinos. No estado atual das pesquisas, grande parte desse simbolismo ainda nos escapa, mas o sistema visa basicamente a ilustrar a derivação divina do homem e sua capacidade de voltar ao mundo transcendente após o seu périplo terrestre.
A origem do mal no mundo é debitada à inconsciência de Sofia, que põe no mundo o monstruoso deus Ialdabaôth (de yâlad, gerar, e sabaoth, forças) sem o consentimento de seu esposo, o Grande Espírito (p. 9,25-10,19):
A Sabedoria, que é Eão, reflete por seu próprio pensamento e pela reflexão do Espírito invisível e da presciência. Ela desejava tornar manifesto aquilo que se parecia com o que ela pensava, sem esperar pela vontade do Espírito — que não estava de acordo — nem por sua concordância e aprovação. Devido ao desacordo da pessoa de seu parceiro, ela não encontra sua anuência (e, enquanto solicitava consentimento), fora da vontade do Espírito e do reconhecimento de seu cônjuge, então operou-se a saída.
Presa da força irresistível que existe nela, seu pensamento não permaneceu improdutivo e (foi então que) apareceu, vindo dela, um produto incompleto e discordante, porque ela o havia criado sem seu cônjuge. Ele não se parecia em nada com o aspecto de sua mãe, sendo de forma diferente.
Quando ela (= Sofia) se deu conta de que o objeto de seu desejo havia tomado a forma disparatada de serpente com boca de leão, com os olhos crepitantes e flamejantes de relâmpagos, então afastou-o para longe dela e dos lugares para que nenhum dos imortais pudesse vê-lo, pois ela o havia criado por ignorância. Ela o cerca então de nuvem luminosa e coloca um trono no meio dessa nuvem, de modo a que ninguém o visse, exceto o Espírito Santo, que chamamos Mãe dos Vivos e que lhe dá o nome de Ialdabaôth.
Ialdabaôth torna-se então o verdadeiro demiurgo criador. E põe-se freneticamente em ação, criando as 365 Forças celestes e, finalmente, também o homem, produzido segundo a imagem do Pai perfeito refletido na água. Mais de nove páginas são consagradas à produção dos Arcontes. O homem nasceu de um acidente: a pedido das Forças, Ialdabaôth sopra um pneuma no corpo psíquico que elas fabricaram (p. 19,15-20,9):
Então, ele soprou sobre o rosto (de Adão) o seu sopro, que é a força de sua mãe, o que ele próprio (= Ialdabaôth) não sabia, pois estava na ignorância. E a força da mãe saiu de Ialdabaôth (e) penetrou no corpo psíquico que eles haviam construído segundo a imagem de (Homem) primordial. E o corpo se moveu, cheio de energia e luz.
No mesmo instante, isso provocou o ciúme do resto das forças, pelo fato de que o homem, que, com efeito, havia saído de todas elas e ao qual elas haviam dado sua força, tinha inteligência bem mais penetrante do que a de seus criadores e bem maior do que a do primeiro arconte. Compreendendo que ele era luminoso, tinha mais ideias que elas e se havia despojado do vício, elas então o raptaram e o jogaram nas partes inferiores da imensa matéria.
Mesmo no mundo da matéria mais afastada do mundo espiritual, o homem, radioso da luz do alto, continuará sendo objeto da luta das Forças da luz, desejosas de salvá-lo, e das Forças das trevas, que juraram fazê-lo perder-se. Mas o ciúme destas últimas choca-se com a misericórdia do Pai perfeito. É preciso ler a interpretação gnóstica de Gênesis 2-3 para constatar como o texto bíblico pode ser objeto de um comentário pormenorizado (p. 20,9-22,9):
A bem-aventurada Mãe-Pai, benfeitora e misericordiosa, tomou-se de piedade pela força da mãe, (força) que foi expulsa do primeiro arconte para que pudesse dominar o corpo psíquico e sensível. Então, por meio de seu sopro benfeitor e sua grande misericórdia, enviou uma ajuda a Adão: uma inteligência-luz vinda dele (= o sopro), chamada Vida.
Ei-la que vem em ajuda de toda criatura! Ela tomou para si o seu tormento e a resgatou em sua plenitude, instruindo-a sobre a queda de (sua) deficiência, bem como sobre o caminho da volta, (que é) o caminho por onde ela desceu. E a inteligência-luz estava oculta em Adão (não apenas) para passar despercebida dos arcontes, mas também para (permitir) à inteligência o resgate da deficiência da mãe.
E o homem resplandeceu por causa da partícula de luz que estava nele e seu pensamento era bem mais sublime do que o de todos os seus criadores. A partir do momento em que se inclinaram (para ele), eles perceberam que seu pensamento era sublime. Então, puseram-se de acordo com todo o bando dos arcontes e dos anjos. E pegaram fogo, terra e água, misturaram-nos uns aos outros com os quatro ventos do fogo, amassaram-nos juntos e operaram uma grande fusão.
E eles transformaram Adão em sombra da morte, para proceder a uma remodelagem a partir da terra, da água, do fogo e do sopro, isto é, a partir da matéria, da ignorância da treva, do desejo e de seu espírito disfarçado.
(Eis o laço! Eis) o túmulo da remodelagem do corpo! Eis o que esses bandidos fizeram o homem carregar: o laço do esquecimento! E (é assim que) ele tornou-se homem mortal.
Eis a catábase primordial! Mas eis que a inteligência-luz que estava nele irá despertar seu pensamento!
E os arcontes levaram Adão e o colocaram no paraíso e disseram-lhe: “Come!” (Lentamente). Pois seu alimento é amargo e sua beleza é perversão, sua delícia é engano e suas árvores são iniquidade, seu fruto é veneno incurável e sua promessa é morte. Quanto à árvore da vida, eles a colocaram no meio do paraíso! Eu vou explicar-vos qual é o segredo de sua vida: é o desígnio que eles fomentaram juntos, é a imagem de seu espírito! Sua raiz é amarga e seus ramos são morte; sua sombra é ódio e em sua folhagem está o engano; seu suco é o unguento da perversidade, seu fruto é mortal e sua seiva é a cobiça; ela germina nas trevas. Para aqueles que a provam, o Hades é seu local de estada e a treva é seu local de repouso. Mas aquilo que foi chamado por eles “a árvore do conhecimento do bem e do mal” é a inteligência-luz. (Por meio dela), eles impediram Adão de ver sua plenitude e conhecer a nudez de sua vergonha. Mas eu os incitei a comer!
Assim, as forças lançam Adão no esquecimento de suas origens celestes. E, para garantir maior disseminação e, portanto, enfraquecimento das partículas de luz, elas criam então a mulher, que compromete Adão e o envolve no ciclo das gestações. Essa depreciação da mulher é comum nesses textos, acrescida ainda de desvalorização do Antigo Testamento (p. 23,35-24,29).
Logo que se deu conta de que eles se afastavam de si, Ildabaôth amaldiçoou (sua terra), (acrescentando ainda, a propósito d) a mulher, que seu macho a dominaria, visto que ele (= Aldabaôth) não conhecia o mistério ocorrido por meio do santo decreto. Mas eles (Adão e Eva) temeram censurá-lo e manifestar a seus anjos a ignorância que estava nele. E ele os expulsa do paraíso e os cerca de espessas trevas. E o primeiro ar-conte viu que a virgem se mantinha perto de Adão e que a Inteligência-Luz se havia manifestado nela como vida. E Ial-dabaôth ficou enlouquecido. Mas logo que a pré-noção percebeu (prov.: o que se passava), ela enviou (mensageiros) e eles arrebataram a vida a Eva. O primeiro arconte a enlameou, nela gerando dois filhos, respectivamente Elohim e Iahweh. Elo-him tem face de urso, Iahweh face de gato; um é justo, o outro injusto. Ele estabeleceu Iahweh sobre o fogo e o vento e Elohim sobre a água e a terra. A esses, ele deu o nome de Caim e Abel (como testemunhas) de sua velhacaria. Até hoje, as relações sexuais persistem por causa do primeiro arconte. Ele semeou o desejo genésico naquela que pertence a Adão: através das relações sexuais, suscitou a reprodução da imagem corporal, gerando-os (= os corpos) por seu espírito disfarçado.
O ciclo infernal que constringe a humanidade iria ser rompido pela descida de Cristo, que salva os ascetas que possuem a gnose. Quanto aos outros, conhecerão a reencarnação até o momento em que também possam ser dignos de salvação.
Esse longo texto desenvolve portanto uma teologia da salvação (uma soteriologia): sob a avalanche dos pormenores um pouco folclóricos, como os nomes das entidades emanadas do Pai perfeito, o processo fundamental é o de uma queda irresponsável (não é Adão, mas Sofia que comete o erro) e fatal, pois as forças das trevas passam a tentar afundar o homem em sua ignorância. Mas o texto também promete a salvação por meio de salvador celeste. O homem colabora um pouco com essa salvação adquirindo a gnose e dedicando-se a ascetismo essencialmente sexual e carnal, o que explica a depreciação da mulher.
MEYER, Marvin W. The Nag Hammadi Scriptures: The Revised and Updated Translation of Sacred Gnostic Texts Complete in One Volume. London: HarperCollins Publishers, 2009.
* Descoberto no Códice Gnóstico de Berlim 8502 em 1896 e publicado apenas em 1955, o Livro Secreto — Apócrifo — de João é provavelmente o mais amplamente conhecido de todos os tratados setianos, sobrevivendo em não menos do que quatro manuscritos separados.
===== ADÃO =====
Para o autor deste tratado gnóstico, o Sono profundo de Adão, descrito em Gn 2,21 (veja também Paul Nothomb), explica a incapacidade da alma Adão) recém-criada para se dar conta de si por si mesma, quer dizer, relata a carência de reflexão da alma sobre si mesma, uma reflexão que aporte à consciência a luz de suas próprias percepções. A este sono profundo o denomina o gnóstico, “a embriaguez da obscuridade”.
Para conseguir o despertar de Adão, levou YHWH diante dele não o “osso dos ossos” (a costela = Eva ), com diz Gen 2,23, senão a “reflexão luminosa”. Esta, a reflexão, é a verdadeira “alma da alma”, se se atende ao significado da alegoria, que emprega o vocábulo “osso” = alma, no cântico e vaticínio de Adão (para a alegoria do osso, veja Clemente de Alexandria, Clemente Excertos Teodoto 63, 1ss).
Se diz que a reflexão luminosa correu o véu que estava sobre a inteligência de Adão, e em razão da luz que o aportava, denominou Adão (a Eva, a reflexão), a “mãe de todos os viventes”.
Graças à reflexão luminosa (Eva), descobriu Adão a existência do conhecimento e com ele viu a necessidade de comer o fruto aquela árvore para olhar com êxito ao céu em busca da perfeição.
Mas o autor gnóstico agrega: “Foi a serpente aquela que o ensinou a semeadura do desejo da impureza e a destruição”. Com isto se entende a dupla direção do caminho que foi aberto para Adão. O fruto da árvore, é com efeito, semente para a faculdade de conhecer.
Como obra da reflexão luminosa, o fruto abre o caminho até o perfeito, e como resultado da semeadura da serpente, é desejo da impureza e da destruição, quer dizer, “o desejo de todas as coisas do Cosmos.
Com isto se esclarece que a serpente genesíaca, é um do nomes designados pelo AT ao antimimo, o quinto membro da casa antropológica (vide Evangelho de Tomé - Logion 71). O outro nome usado em ambos testamentos, para o antimimo é, em consequência, o do “Adversário” (o Satanás) idêntico à Serpente antiga. Se se o chama de “Adversário”, é porque a consciência se o representa como seu eu, seu próprio “espírito”, mas não é isto realmente, senão somente um arremedo do Espírito de Deus: um Adversário de Deus erigido na consciência dos homens.
Com o Adão que comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal, pretende descrever o Gênesis ao homem capacitado para exercer sem limites sua faculdade de conhecer, mas o acesso ao conhecimento não é possível se o homem não é impulsionado antes pelo desejo de conhecer. Não há que esquecer que o desejo é a única potência volitiva de que dispõe o homem para se aproximar aos fins do conhecimento.