Georg Kühlewind (1924-2006)
Estrutura-Logos é outra tentativa de Kühlewind de descrever sua intuição fundamental - a natureza da palavra - que perpassa como um fio condutor todas as suas obras, inclusive a mais recentemente publicada, O Ser Humano que Fala.
Para Kühlewind, a palavra é a chave que permite decifrar dois enigmas: o enigma do “hieróglifo” do ser humano em sua relação com sua origem espiritual (tema de Tornando-se Consciente do Logos), e o enigma da relação do ser humano com a natureza, sua base física, o ambiente natural. Este é o assunto de Estrutura-Logos.
A principal característica da palavra é sua dualidade, interna e externa. Para a percepção sensorial externa - audição ou visão -, uma palavra aparece em sons ou letras distinguíveis. Esses sons e letras são interpretados como sinais se, como perceptores, apreendemos que possuem um significado - mesmo que não se compreenda imediatamente tal significado. Como seres humanos, temos a capacidade de abraçar esses dois aspectos - sons ou letras e significado - como um só. Essa capacidade é o elemento essencial que permite desenvolver a nossa humanidade.
Em relação à nossa fonte espiritual interna (o primeiro enigma), pode-se considerar a luz de nossa própria autoconsciência como um sinal. Contudo, se a luz de nossa autoconsciência é um “sinal” para nós, então esse sinal deve ter um “locutor”, assim como toda palavra. No entanto, assim que se pergunta sobre o locutor, já se apreendeu intuitivamente que pode haver uma resposta para a nossa pergunta.
Esse ato de questionar é a primeira manifestação da faculdade humana de dar e compreender significado. O significado é o aspecto interior da palavra, seu lado interno. Ao voltar o olhar para aquele que pergunta e tenta responder, contemplamos nosso próprio Eu. De onde se origina esse Eu?
A questão da origem do Eu é o gesto fundamental da reflexão consciente (em alemão, Besinnung). Quem testemunha a presença do olhar de meu próprio Eu? A resposta é: o EU-SOU (o qual é a testemunha eterna) testemunha a presença do olhar de meu próprio Eu. Eu e EU-SOU são fenômenos que podem ser considerados da mesma forma que uma palavra é: como manifestação e significado. A palavra grega logos significa justamente essa dualidade. De fato, considerar a capacidade humana para a reflexão consciente dessa maneira nos conduz à natureza da palavra, ou seja, ao Logos que era no princípio, como escreveu São João Evangelista.
Em relação ao segundo enigma - o mundo dado e sensível da natureza -, essa mesma atividade de reflexão consciente está presente na primeira pergunta, “O que é aquilo?”. Aqui, também, a atividade de questionar é um sinal para a intuição de que “aquilo” tem significado. Sinal exterior e significado interior novamente constituem o que se pode chamar de “palavra”. Assim, o mundo da natureza sensível também deve ser considerado como um texto que consiste em palavras que podem ter um autor, o mesmo Logos que estava “no princípio”.
Epistemologicamente, Kühlewind justifica sua abordagem ao apontar que todo “dado” - ou seja, todo fenômeno sensível e distinguível - é identificado assim que a consciência diz: “aquilo”. Tão logo se diz “aquilo”, significa-se algo. É possível comunicar-se com outros seres humanos ao concordar sobre o que se significa por “aquilo” - uma árvore como madeira, lenha, papel ou planta; uma árvore como a essência específica de uma “espécie”, ou até mesmo uma árvore como uma palavra de conjunção linguística, como um “e” - neste caso, uma árvore é vista como um fenômeno sensível em um processo de vida entre centro e periferia, forças centrais e periféricas, terra e céu.
Kühlewind mostra que, desde que se possa rastrear a evolução da linguagem, as palavras mudaram continuamente seu significado. E mostra, também, que com essa mudança no significado das palavras, a compreensão pela qual as comunidades humanas concordam em como estruturar o “aquilo” dado da natureza também muda de forma semelhante. Pode-se demonstrar que, ao longo da evolução da linguagem, o significado diminuiu continuamente - de um significado que abrangia tudo de “árvore” como uma manifestação de uma força vital, para a concepção moderna de uma árvore como madeira, combustível ou celulose (reduzida a estruturas moleculares e códigos de DNA). A estrutura que se pode encontrar em qualquer período evolutivo de uma linguagem, portanto, espelha precisamente o significado compartilhado pela comunidade humana que vivia naquela época. Tal significado é hoje chamado de “visão predominante” ou “paradigma”.
Neste ponto, surge a questão da origem da linguagem. Que intuição primordial ocorreu na origem de uma “visão compartilhada” ou paradigma da realidade? Essa questão leva à mesma fronteira que o ponto focal da natureza da palavra.
A linguagem é um fenômeno arquetípico da consciência. Um “fenômeno arquetípico” apresenta o significado interior e a manifestação sensível como um só. Se se pode descobrir a maneira pela qual as comunidades humanas estruturam a realidade, dão diferentes significados ao que consideram como “realidade”, então é possível começar a experimentar o mundo do Logos. “Realidade” é o sinal exterior para a compreensão interior compartilhada por uma comunidade humana. Neste sentido, a linguagem pode ser considerada um modelo da realidade.
Compreender a linguagem como um modelo da realidade permite-nos ver as metamorfoses das estruturas linguísticas como um quadro da evolução da consciência. Ao mesmo tempo, essa compreensão da relação entre linguagem e realidade nos permite considerar todos os aspectos da natureza como um todo integrado, como a humanidade antiga o fazia.
A partir dessa percepção, a tarefa da humanidade moderna surge naturalmente: encontrar uma nova maneira de integrar a natureza, não para nosso conforto ou consumo, mas como um texto que tem algo a comunicar e que tem um autor. Se, ao se tentar decifrar este texto, nos sentimos interpelados por ele, um novo sentido de criação poderia aparecer: a criação como o significado de um diálogo entre o princípio e o fim.
Friedemann-Eckart Schwarzkopf, Prefácio do Tradutor de KÜHLEWIND, Georg. The Logos-Structure of the World: Language As Model of Reality. San Mateo: SteinerBooks, Incorporated, 1992