Zinzendorf retoma a herança pietista da separação entre filhos de Deus e Satanás, e nunca considera seriamente que todos os membros da sociedade humana possam se tornar filhos de Deus.
Ao universalizar a mensagem, pôs-se fim à catolicidade do mundo cristão, sendo mais importante subtrair a doutrina aos olhos de um mundo que, com sinceridade, gostaria de torná-la sua.
Zinzendorf situa o início da decadência da espiritualidade cristã no momento em que a cruz passou a brilhar sobre a coroa dos reis e imperadores, quando o Espírito se misturou à glória do mundo.
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A dificuldade de manter intacto um depósito espiritual não se deve apenas ao mundo, mas à própria natureza do problema da transmissão de uma mensagem.
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A transmissão perfeita de uma mensagem é quase impossível devido à natureza da linguagem, que não retém a realidade inteira quando se fala dela.
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Somam-se a isso as negligências materiais e a falta de exatidão com que se fala de algo.
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Se já é difícil para as realidades concretas, o problema é maior para as realidades espirituais, pois um mistério não pode ser transmitido a quem não foi já iluminado pelo Espírito.
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Uma verdade espiritual não é um esquema abstrato apreendido intelectualmente, pois o conhecimento místico implica uma participação real na verdade.
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Existe uma verdade que se aprende e estuda (esquema abstrato) e uma verdade que se possui, que se incorpora a nós como o Verbo divino que se come.
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A comunicação da verdade possuída só pode ser recíproca entre eleitos, sendo um enriquecimento mútuo onde cada um tem seu Senhor.
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O templo das religiões positivas é o lugar onde se ensina, enquanto a Comunhão dos Irmãos é o lugar onde não se ensina, mas se partilham homilias.
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Se alguém ignora algo, sua place não é na Comunidade, mas na igreja para ouvir um sermão.
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As verdades que se ensinam são verdades fundamentais ou verdades mais sutis que estão na Bíblia e concernem ao domínio da pregação religiosa.
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As religiões positivas têm sua fisionomia própria baseada nessas verdades, mas nada entendem dos mistérios.
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As homílias, dirigidas aos Irmãos, não demonstram nada, enquanto o sermão no púlpito das religiões fala de um Deus que os ouvintes não têm em si.
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Na homília, raciocina-se sem demonstrar, enriquecendo um conhecimento cujo fundamento já foi posto pelo Espírito no coração de cada um.
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Existe uma fé simples (que adere às verdades pregadas) e uma fé mais elevada (dos verdadeiros filhos de Deus), sendo que a Confissão de Augsburgo interdita o ensino desta última no templo das religiões.
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O maior dos mistérios reservado aos filhos de Deus é o da apocatástase, a restituição universal de todas as coisas no fim do tempo.
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Mesmo os despertos (que ouviram o primeiro chamado) não têm Deus e devem ser classificados entre aqueles que ainda dependem da pregação religiosa.
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Em Herrnhut, distinguia-se entre os simples despertos e os Irmãos, havendo um período probatório de asilo antes da admissão plena.
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Entre os próprios filhos de Deus há graus de conhecimento, sendo que cada um não deve ultrapassar a medida exata que lhe é fixada em seu devir espiritual, sob pena de a verdade ser banalizada.
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A desigualdade do conhecimento impõe uma direção espiritual no seio da Comunidade, com certas proibições (prohibitive Seelenführung), comparável à atitude de um oficial que retém soldados demasiado temerários.