A Sabedoria eterna, que preexiste à natureza, torna-se a chave da teosofia de
Boehme, pois sua eternidade, concebida segundo um começo (Grund), é infinitamente mais perfeita do que a eternidade da natureza.
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A natureza é dita eterna, mas a eternidade da Sabedoria é infinitamente mais perfeita.
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A eternidade da Sabedoria não é a eternidade absoluta do Ungrund.
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O fundamento (Grund) indica um começo, o primeiro de todos os começos.
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A natureza será fundada em outro começo, dito eterno, mas a eternidade tem graus.
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Deus carrega em si todas as suas obras vindouras, mas não as conhece verdadeiramente, apenas as pressente, pois conhecê-las será conhecer-se a si mesmo na Sabedoria.
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Deus pressente suas obras, mas não as conhece.
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Conhecer suas obras é conhecer-se a si mesmo.
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Deus se conhecerá na Sabedoria, que representa a plenitude de suas obras.
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O Deus que nasce antes da natureza é um Deus que ainda não se conhece.
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Deus se conhecerá na Sabedoria sobre o fundo obscuro da natureza, pois sem sombra a luz não seria percebida, e a Sabedoria será a alma da luz que jorra no seio da natureza.
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A Sabedoria se manifestará destacando-se sobre o fundo tenebroso.
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Não é na claridade do Ungrund, mas na luz, que Deus contempla sua majestade.
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Sem a sombra, a luz não seria percebida nem existiria.
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Não há verdadeira revelação fora da luz.
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Deus não se revela senão em suas obras, e a Sabedoria é ao mesmo tempo a imagem de Deus e o espelho de seus prodígios, sendo que o homem, em sua perfeição última, será o espelho perfeito e a imagem de Deus.
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Deus se manifesta apenas em suas obras.
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A Sabedoria é a imagem de Deus e o espelho de seus prodígios.
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O homem, em sua perfeição, representará a plenitude das obras divinas.
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O homem será o espelho perfeito e, por isso, a imagem de Deus.
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Deus se conhecerá nessa imagem, que é sua própria imagem e a do homem.
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É no espelho da forma humana que Deus se revelará a si mesmo, e todas as energias da natureza tenderão a produzir essa imagem, que se identifica à Sabedoria, causa e realidade última da manifestação.
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As energias da natureza tendem a produzir a forma humana visível.
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A imagem se identifica com a Sabedoria.
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No plano da natureza eterna, os anjos figuram a forma humana, imagem de Deus.
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A imagem, que era virtual, torna-se real com a criação dos anjos.
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A imagem não é uma simples reprodução, mas a visibilidade das coisas e a face de Deus, sendo a realidade profunda das coisas, e é por meio da natureza que essa imagem será produzida e Deus se conhecerá nela.
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A imagem ou espelho é a face das coisas que contemplamos.
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A Sabedoria, imagem de Deus, é a Face de Deus.
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A imagem não dá um simples reflexo, mas a realidade profunda das coisas.
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É graças à natureza que a imagem será produzida.
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A natureza, por excelência, é a alma (Gemith), a sensibilidade divina pela qual Deus se reveste para contemplar sua própria glória, sendo o sensorium de Deus.
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Ao se engajar no ciclo da natureza, Deus se reveste de uma alma.
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A alma eterna de Deus é designada pela palavra Gemith.
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Toda inteligência se exerce pelos sentidos, mesmo no nível mais elevado.
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A alma eterna será o sensorium de Deus.
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A sensibilidade de Deus é análoga aos sentidos espirituais do homem nascido para a verdadeira vida, e o que nasce na natureza primordial é o Homem eterno, modelo da criatura nascida do alto, encarnado na carne celestial de Cristo.
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A sensibilidade divina não é imagem dos sentidos grosseiros.
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A analogia é total entre o homem que contempla e Deus que se conhece.
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O Homem eterno representa a plenitude da manifestação divina.
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O Homem eterno se encarna na carne celestial do Cristo, Homem perfeito.
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Graças à sensibilidade de que se reveste, Deus torna-se capaz de perceber e, ao mesmo tempo, de ser percebido, pois para Deus, perceber e ser percebido é uma só coisa.
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Quando a Deidade pura se funda no coração de Deus (seu Filho), o Espírito nasce, mas sua claridade deve aparecer sob uma aparência luminosa, obra da Sabedoria que não se realizaria sem a natureza.
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O Espírito de Deus não pode se manifestar em sua nudez.
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A claridade do Espírito deve aparecer sob uma aparência luminosa.
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A Sabedoria preside a todas as teofanias.
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A obra da Sabedoria não se realizaria sem a natureza.
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Uma claridade não luminosa não se percebe; é preciso um toque de sombra vindo da natureza para torná-la visível, e a Sabedoria é a visibilidade de Deus, a alma da alma eterna.
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A Sabedoria não se identifica com a natureza.
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A Sabedoria personifica o projeto divino que faz nascer a natureza.
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A Sabedoria é a visibilidade de Deus.
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A alma eterna é o modelo de todas as almas humanas e é apresentada em devir, mas é preciso saber a que nível se aplica essa afirmação, pois a Deidade, como Absoluto, é imutável e o Ungrund é uma Eternidade imóvel.
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O Deus de
Boehme é um Deus em devir (in fieri) em certo nível.
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A Deidade de
Boehme, considerada como Absoluto, é imutável.
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O Ungrund, em si mesmo, permanece uma Eternidade imóvel.
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O Ungrund é o repouso que não conhece o movimento.
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A Sabedoria será um símbolo de repouso, manifestando-se segundo um movimento perfeitamente dominado, sendo a alma desse movimento e sua causa ideal, enquanto permanece o perfeito repouso.
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A Sabedoria será a alma do movimento.
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A Sabedoria é a causa ideal do movimento, permanecendo o repouso perfeito.
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O ciclo da natureza é todo o movimento da alma eterna em direção à realização, dividindo-se em duas fases que constituem duas almas: a primeira obscura e a segunda luminosa, sendo esta a alma verdadeira (mens).
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O devir da alma eterna se divide em duas fases.
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A segunda fase, luminosa, é a alma verdadeira, identificada ao Espírito.
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O termo Gemüth pode significar a alma em sua raiz (trevas) ou a alma superior (luz).
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Esta dualidade da alma é fundamental na teosofia de
Boehme.
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A alma humana se apresentará sob esses dois aspectos sucessivos: primeiro tenebrosa, depois, na segunda nascença, cheia de luz, formando um corpo glorioso pela transmutação da alma.
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Nasce-se com uma alma cheia de trevas.
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A segunda nascença (renascer como filhos de Deus) enche a alma de luz.
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A segunda nascença é a transmutação da alma.
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A mesma transmutação ocorre na alma eterna, modelo da alma humana.
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O ciclo da natureza eterna se repete no homem.
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Tanto no plano da natureza eterna quanto no da criatura, a Sabedoria está em obra, presidindo todos os nascimentos espirituais, incluindo o advento de Deus na alma eterna.
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Antes de se manifestar, a Sabedoria está oculta.
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A Sabedoria abre sob as aparências da morte para que nasça a verdadeira vida.
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A Sabedoria personifica a vida eterna.
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O que o teósofo descreve no ciclo primordial da natureza é o jorro da vida eterna na luz, sendo as trevas que a precedem sinônimo de morte, e a manifestação divina começa paradoxalmente pela morte de Deus.
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As trevas que precedem a luz são sinônimo de morte.
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A manifestação divina começa pela morte de Deus.
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É a morte de Cristo projetada para trás neste ciclo primordial.
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Esta morte passa do plano histórico ao de uma eternidade arquetípica.
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A ressurreição de Cristo, símbolo da segunda nascença, situa-se além do tempo ideal, e é nesse além que a Sabedoria aparece, enquanto nos três primeiros graus do ciclo a verdadeira vida está aprisionada na morte.
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A ressurreição de Cristo está além do tempo ideal.
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Nos três primeiros graus do ciclo, a vida está nascendo, mas ainda não jorra.
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Neste tempo primordial, a vida está aprisionada na morte.
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Toda vida é primeiro uma morte, no sentido de que não há verdadeira morte e que toda morte esconde uma vida a nascer, mas a vida só nasce libertando-se da prisão da morte.
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A verdadeira vida não existe sem se libertar.
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A verdadeira vida jorra escapando da prisão da morte.
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As trevas são a aparência da morte, fechando-se em si mesmas.
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A vida é o que se abre.
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A Sabedoria personifica a liberdade e a claridade da verdadeira vida.
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A Sabedoria representa a claridade do Ungrund, oposta à noite do abismo (Abgrund), e a vida é uma planta cujas raízes mergulham em profundezas tenebrosas simbolizadas pelos primeiros graus do ciclo septiforme.
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Os primeiros graus do ciclo septiforme simbolizam as profundezas tenebrosas.
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Eles anunciam, no nível dos arquétipos, a vida da criatura não liberta.
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Eles figuram o abismo que estará em cada um.
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Toda alma é primeiro um abismo tenebroso.
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A vida eterna que jorra na natureza é a dada na segunda nascença.
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A vida aparece segundo qualidades sensíveis (aspereza, amargura, quente, frio) que nascem com os sentidos e constituem essências, matrizes das coisas, sendo estas qualidades fontes e espíritos.
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As qualidades sensíveis preexistem às coisas.
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As qualidades são matrizes das coisas.
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As qualidades são fontes e espíritos.
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Para a mentalidade moderna, é paradoxal chamar uma qualidade sensível de espírito.
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As qualidades são imateriais em relação às coisas vindouras.
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Cada qualidade é uma forma de vida específica, e
Boehme diz indiferentemente qualidade ou forma, sendo a forma o aspecto sob o qual a vida aparece segundo uma qualidade sensível predominante.
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A forma é o espelho pelo qual a qualidade se faz conhecer como se fosse uma coisa.
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O espelho é a imagem que a qualidade produz para ser conhecida.
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Todo ser produz sua imagem porque tende a se manifestar.
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Toda existência se realiza na imagem que oferece de si mesma.
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A produção da imagem é a imaginação, e na esfera da alma eterna, Deus imagina os mundos segundo qualidades sensíveis que se multiplicam em imagens ou espelhos, sendo a Sabedoria a imaginação divina.
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Haverá também uma imaginação perversa nas criaturas separadas de Deus.
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O mal também aspira a se revelar.
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Cada grau do ciclo septenário representa uma qualidade ou forma, chamada a se diversificar infinitamente.
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Nas duas fases da manifestação septiforme, todos os espelhos aparecem confundidos em um só; um deles será a Sabedoria (espelho radiante) e o outro a Virgem das trevas (die Jungfrau der Qual), espelho do abismo.
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A Virgem tenebrosa simboliza a vida que está nascendo nas trevas, mas é prisioneira.
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A Virgem das trevas é o espelho do abismo.
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A Sabedoria representa a claridade do Ungrund manifestada em um corpo de luz.
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A Virgem das trevas figura a potência do abismo (Abgrund) e é a Mãe do diabo.
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Para
Boehme, há também uma visibilidade das trevas simbolizada pela Virgem sinistra, e sua aparição é o fundamento da fé, despertando o desejo de luz.
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A criatura vê a Virgem sinistra.
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A aparição da Virgem das trevas é o fundamento da fé.
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Não há verdadeira fé sem a visão do abismo.
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O ciclo septiforme é o ciclo do desejo, no qual a vontade divina se manifesta em vista da criação, e o desejo que nasce oculta totalmente a Sabedoria até que uma peripécia do desejo (modelo da metanoia) a manifeste.
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A Sabedoria anima a vontade divina.
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O desejo precisa de uma peripécia para que a Sabedoria se manifeste.
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A peripécia do desejo é o modelo da conversão da criatura.
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No nascimento do desejo na alma universal, ele é um frenesi oposto ao desejo traduzido por Alegria (Lust) como nome da Sabedoria, sendo que o primeiro desejo da natureza é o modelo de todos os apetites.
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O desejo personificado pela Sabedoria é uma pura complacência, não uma afecção da alma.
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O primeiro desejo da natureza é o modelo de todos os apetites.
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O primeiro desejo é totalmente insaciado, pois só pode se nutrir de si mesmo.
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Quanto mais o desejo redobra, mais se crispa e se espessa.
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A vontade do Ungrund, transcendente à alma, não era afetada por um desejo apetitivo, mas o desejo glutão é opaco e, quando nasce, as trevas aparecem com o desejo na raiz da natureza eterna.
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A vontade do Ungrund era perfeitamente clara.
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O nascimento das trevas é o do desejo na raiz da natureza eterna.
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As trevas se fecham sobre si mesmas, opondo-se à perfeita abertura simbolizada pela Sabedoria.
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As trevas são uma prisão, simbolizada pelo corpo grosseiro.
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O desejo é a sede de existir, e toda existência só pode se criar num corpo, sendo o corpo uma alma endurecida e o desejo figurado, e a primeira forma do desejo é uma potência de contração que gera o arquétipo de todos os corpos.
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A alma humana precisa se encarnar para existir.
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O corpo é alma endurecida, desejo figado.
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O endurecimento está na medida de uma cosmogonia invisível.
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O desejo é prisioneiro de si mesmo e se volta contra si mesmo.
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O desejo se desdobra, e esse desdobramento é uma discórdia universal; por um lado, ele se fecha em si mesmo e, por outro, busca escapar do seu próprio aperto com violência.
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Toda vontade não liberada será, a exemplo de seu desejo, uma vontade dividida.
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O movimento contrário do desejo aparece no segundo grau do ciclo septiforme.
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O desejo luta para escapar de sua própria prisão.
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A sede de liberdade do desejo não é ainda positiva, pois, embora a Sabedoria eterna esteja oculta sob uma noite impenetrável, o desejo permanece tenebroso e a Sabedoria nunca se compromete com as trevas.
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A peripécia se prepara, mas o desejo permanece tenebroso.
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A Sabedoria jamais se compromete com as trevas, embora estas decorram do projeto divino.
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No segundo grau do ciclo,
Boehme simboliza por um aguilhão o desejo que busca escapar de si mesmo, sendo o aguilhão da morte do qual fala o apóstolo.
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A imagem é de um pico que fura furiosamente uma muralha de pedra.
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Esta muralha é o corpo e toda a natureza mortal.
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Será preciso quebrar este corpo, e é a morte que o destruirá.
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A amargura é o veneno que destruirá os corpos perecíveis.
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Dos dois primeiros graus da natureza eterna, um simboliza a vida que se endurece nos corpos antes de se libertar, e o outro a potência de morte (turba) que desintegra os corpos, sendo esta outra antítese da Sabedoria.
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A potência de morte (turba) é uma antítese da Sabedoria.
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A Sabedoria é o símbolo da vida que vence a morte: Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
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O desdobramento do desejo não é uma dualidade abstrata, mas a Discórdia universal, a guerra que reina em toda natureza ainda não liberada.
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Enquanto não se renegarem mutuamente, os dois desejos se enfrentarão.
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Eles se arrastam mutuamente na roda da angústia.
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A roda da angústia é a roda da existência que gira num movimento de perpétuo desvario.
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Enquanto não renovada pela graça de uma segunda nascença, a vida do homem é esse turbilhão.
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A angústia é o temor de Deus, que, segundo a Escritura, é o princípio da Sabedoria, mas aparece negativamente para a criatura não regenerada, para quem o temor de Deus é apenas o medo do inferno.
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A justiça de Deus é apenas sua cólera para a criatura não regenerada.
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O auxiliar dessa justiça, que castiga e acende o fogo de Sodoma e Gomorra, é o diabo.
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O lugar do castigo (penas eternas) é o inferno.
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O gabinete da angústia é o arquétipo do inferno.
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O Deus que se teme se confunde com o diabo, que é o carrasco de Deus.
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A cólera de Deus manifestada é o contrário da alegria (Lust) sinônima de amor, e a angústia (Angst, relacionada a Enge) é o contrário da liberdade, sendo um extremo resserramento.
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O inferno estará em cada um, na raiz da alma, pois todos nascem no inferno, e o inferno está na raiz da alma eterna, modelo das almas humanas; a manifestação divina começa no inferno.
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O fogo é primeiro um fogo frio que transforma a água em gelo, depois o calor que é o princípio de toda fermentação.
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O gelo é o corpo no qual a água se toma, mas não é seu verdadeiro corpo.
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O verdadeiro corpo da água será o cristal.
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A Sabedoria será o mar de cristal do Apocalipse, ou antes, o espírito dessa água fixada num corpo que se esparge (corpo de luz).
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O gelo, símbolo de um primeiro corpo que é apenas uma prisão (como a pedra), corresponde à solidificação de uma água original no primeiro grau da natureza eterna.
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Na pedra, um fogo adormecido não se acende; é um fogo sufocado e aprisionado que precisa ser liberado.
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O fogo que o homem faz jorrar friccionando duas pedras escapa da pedra.
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O fogo cativo da pedra é um fogo negro, que não projeta chama.
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O mesmo fogo está na raiz da alma e ruge no fundo da alma eterna.
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A alma extremamente resserrada pelo fogo que gela é o arquétipo da materialidade dos corpos, enquanto a alma segundo sua força explosiva (fogo quente) representa o espírito que recusa o corpo.
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O espírito que não se encarna torna-se um demônio.
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Os anjos têm um corpo e a Sabedoria está em sua carne celestial.
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Os anjos decaídos perderam o corpo precioso (a verdadeira forma humana) e não têm nosso corpo terrestre.
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Os demônios não têm corpo; o dragão das trevas é um espírito sem corpo.
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Quando o fogo é frio, representa o gelo do espírito num corpo do qual ele terá que se libertar; quando é ardente mas sem chama que ilumine, é a violência devastadora do furacão.
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O espírito é representado de maneira negativa na primeira fase da manifestação divina: ou endurece a matéria, ou a faz explodir, e a noção de espírito se diversifica extremamente, assim como a de corpo.
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O fogo é o desejo da alma e seu tormento.
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O fogo primordial, como o desejo, é apenas contradição (fogo frio e fogo quente, como o da febre).
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A contradição é universal quando a vida ainda não está liberada.
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A contradição só será resolvida quando o desejo se negar sob suas duas formas opostas.
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O desejo da alma eterna, assim dividido, prefigura o que se chamará de vontade própria da criatura, que se manifesta segundo dois aspectos contrários: apego ao corpo perecível e desespero da alma que se crê prometida ao inferno.
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A peripécia do desejo é primeiro sua extinção, e a transmutação do desejo realiza-se por uma ruptura absoluta entre duas formas de vontade, sendo a primeira abolida.