A DIGNIDADE DO CRISTIANISMO — A INDIGNIDADE DOS CRISTÃOS VI

A fé cristã exorta a buscar primeiramente o Reino de Deus e a perfeição divina. Todavia, os sonhos, a utopia e o falso maximalismo são alheios a essa fé. A fé cristã é realista e os santos padres exortaram sempre à sobriedade espiritual. A consciência cristã vê todas as dificuldades que se apresentam no caminho da vida perfeita, mas sabe que ao Reino dos Céus se faz força e os valentes o arrebatam. O cristianismo incita a agir de dentro para fora, e não do exterior para o interior. Nenhum caminho externo e imposto pode proporcionar uma vida perfeita, individual e socialmente; é indispensável um novo nascimento espiritual, interno. Esse novo nascimento procede da liberdade e da caris. Não é possível criar bons cristãos ou uma sociedade cristã perfeita pela força. Impõe-se uma mudança efetiva, real, na alma dos indivíduos e dos povos. O fato de os homens portarem o nome de cristãos não implica ainda que tenham alcançado a vida perfeita. A realização, na vida, da perfeição cristã é uma tarefa difícil e infinita. A negação do cristianismo por causa da imperfeição dos cristãos é, em realidade, uma ignorância e uma incompreensão do pecado original. Aqueles que possuem consciência da queda veem na indignidade dos cristãos uma confirmação, e não uma negação, da dignidade do cristianismo. A religião cristã é a religião da Redenção e da Salvação; ela recorda que o mundo se compraz no mal. Diversas doutrinas pretendem que se pode alcançar a vida perfeita sem uma vitória efetiva sobre o mal, mas o cristianismo não pensa assim; o cristianismo reclama essa vitória, reclama um novo nascimento e um renascimento; o cristianismo é mais radical, exige mais.

Demasiados homens, demasiadas coisas, ostentaram na história, sem merecê-los, emblemas e insígnias cristãos. Nada há mais abjeto que a mentira, a simulação e a hipocrisia. Esse estado de coisas provocou um protesto e uma sublevação. O Estado portava os símbolos e insígnias do cristianismo e intitulava-se cristão sem o ser em realidade. E o mesmo se pode dizer da vida, da ciência, da arte, da economia, do direito e de toda a cultura cristã. Chegava-se até a apoiar-se no cristianismo para justificar a exploração do homem pelo homem, para defender a causa dos ricos e dos poderosos. No mundo cristão vivia o antigo pagão, chamado à edificação da vida cristã, mas no qual ainda alentavam as más paixões. A Igreja exercia nele seu influxo interiormente, mas não podia vencer pela violência seus instintos ancestrais. Esse é um processo interior, recôndito, invisível. O Reino de Deus vem imperceptivelmente. No mundo cristão haviam-se acumulado muita hipocrisia, muita mentira, muitos convencionalismos e muita retórica. Era inevitável uma sublevação. A revolta e o abandono que o cristianismo conheceu não procederam, muitas vezes, senão do desejo sincero de ver o exterior assemelhar-se ao interior. Quando não há cristianismo por dentro, não deve havê-lo por fora. Se o Estado, a sociedade e a cultura não são cristãos interiormente, não se lhes deve dar esse nome. Não se deve simular nem mentir. Esse protesto possuía um lado positivo: o ódio à mentira e o amor à verdade. Mas, a par da sinceridade, do protesto contra a mentira e a hipocrisia, manifesta-se uma nova mentira, uma nova hipocresía.

Partindo do princípio de que os homens e a sociedade não eram cristãos senão por fora, por simulação, chegou-se a afirmar que o cristianismo é uma quimera e uma mentira; o fracasso dos homens foi tido como o fracasso da religião cristã. A hipocrisia cristã foi substituída por uma hipocrisia anticristã. Os adversários do cristianismo consideram-se melhores, mais informados que os cristãos; imaginam ter alcançado uma perfeição maior. Para dizer a verdade, são seres seduzidos pelo mundo, que rejeitam a verdade porque lhes chamam mais a atenção as suas deformações do que a verdade mesma. São inferiores aos cristãos porque perderam o sentimento do pecado. Nietzsche combatia apaixonadamente o cristianismo porque só via cristãos degenerados e exteriores; a fé cristã, nem soube vê-la, nem jamais a compreendeu.

O mundo cristão sofre uma crise que o está sacudindo até o mais profundo de sua essência. O cristianismo exterior, simulado, falsamente retórico, não pode seguir existindo; passou o seu século. Associar na vida os ritos a um paganismo mentiroso torna-se, doravante, impossível. Uma era de realismo efetivo começa; nela descobrem-se realidades primordiais da vida que deixam cair todos os véus exteriores, nas quais a alma humana se encontra frente a frente com os mistérios da vida e da morte. As conveniências, as formas políticas e governamentais perderam todo significado. A alma humana deseja penetrar na profundidade da vida, quer saber tudo o que é útil e essencial, quer viver na verdade e na justiça.

Em nossa época, sob a influência de todas as comoções sentidas, estão nascendo almas que têm sede, antes de tudo, de uma verdade sem véus, não deformada por nada. O homem está cansado de mentiras, de convencionalismos, de todas as formas exteriores e de todos os signos que suplantaram as realidades da vida. A alma humana quer ver a verdade do cristianismo sem a intervenção dessa mentira que os cristãos nele introduziram; a alma humana desejaria associar-se ao próprio Cristo. A indignidade dos cristãos foi causa do esquecimento de Cristo. Por isso, o renascimento cristão será, antes de tudo, um regresso a Cristo, à sua Verdade, livre de toda deformação e de toda adaptação humana. A consciência da invencibilidade do pecado original não deve debilitar no homem a consciência de sua responsabilidade para com a obra de Cristo no mundo e não deve paralisar seu esforço em serviço dessa obra. A realização do cristianismo, da Verdade e dos mandamentos de Cristo parece aos homens, algumas vezes, tarefa esmagadora e desesperada. Mas o próprio cristianismo ensina que não pode ser realizado apenas com as forças humanas. O impossível para o homem é possível para Deus. Aquele que crê em Cristo sabe que não está só, que Cristo está com ele, que está chamado a realizar a Verdade de Cristo na vida, com o próprio Cristo, seu Salvador.