Abade Stephane. Introduction à l’ésotérisme chrétien I. Paris: Dervy-livres, 1979
A Bíblia, apesar das aparências, é um livro essencialmente hermético. Quem se propõe a lê-la, mesmo com as melhores intenções, corre um grande risco de nada compreender e de se desencorajar rapidamente. Entre outras formas de se obter um maior proveito de tal leitura, pensamos em certos comentários patrísticos que constituem, não uma exegese histórica ou uma crítica textual muito em voga entre nossos contemporâneos racionalistas ou positivistas, mas uma exegese teológica, que ilumina o Antigo Testamento à luz do Novo. Como não se pode tratar de um estudo exaustivo, contentar-se-á em ilustrar esta visão com dois exemplos bastante notáveis:
1) Visão de Ezequiel I, 4-14: Trata-se dos quatro seres vivos que se reencontram no Apocalipse (IV, 6-7): “Cada um tinha quatro faces e cada um tinha quatro asas…”. Eis o comentário de São Gregório (Brev. rom., 25 de abril): “O que se deve entender por face, senão o conhecimento, e por asas, senão o arrebatamento? É, com efeito, pela face que cada um é conhecido, e pelas asas que os corpos se elevam à altura dos pássaros. É por isso que a face se refere à fé, e as asas à contemplação. Pela fé, de fato, somos conhecidos do Deus Todo-Poderoso, como ele mesmo declara de suas ovelhas: 'Eu sou o Bom Pastor, e conheço minhas ovelhas, e minhas ovelhas me conhecem.' E em outro lugar: 'Fui eu quem vos escolheu.' Mas pela contemplação, que nos eleva acima de nós mesmos, somos como que elevados no ar.”
2) Ezequiel XLIV, 1-3: “Em seguida, ele me reconduziu à porta exterior do santuário, voltada para o oriente: ela estava fechada. E ele me disse: 'Esta porta será fechada e não se abrirá; ninguém entrará por esta porta, pois YHVH, o Deus de Israel, entrou por esta porta; ela permanecerá, portanto, fechada. Apenas o príncipe, ele, se assentará para comer diante de YHVH; ele entrará pelo vestíbulo da porta e sairá pelo mesmo caminho'.”
São Jerônimo comenta da seguinte maneira (Brev. Rom.; Officium S. Mariae in Sabbato): “Alguns pensam que esta porta fechada pela qual apenas o Senhor Deus de Israel entrou, e o príncipe para quem ela está fechada, não é outra senão a Virgem Maria que, antes e depois do parto, permaneceu virgem.” E ele vê nisto um argumento para confundir aqueles que pretendem que, após o nascimento do Salvador, Maria teve outros filhos de José.
O episódio do príncipe que entrou pelo vestíbulo e saiu pelo mesmo caminho refere-se mais especificamente ao nascimento virginal, enquanto a proposição anterior se refere mais à Imaculada Conceição, em virtude da qual apenas YHVH penetra pela porta, enquanto o príncipe penetra pelo vestíbulo e sai pelo mesmo caminho. O templo representa, evidentemente, Maria, e a refeição tomada pelo príncipe diante de YHVH figura a concepção virginal do Messias, que não deve ser confundida com a Imaculada Conceição.
Um texto de São Gregório: “Quid ergo mirum, si clausis januis post resurrectionem suam in aeternum jam victurus intravit, qui moriturus veniens, non aperto utero Virginis exivit”.