Émilie Zum Brunn (org.). Voici maître Eckhart. Grenoble: J. Millon, 1994.
Glosa do “Pai Nosso” de Gérard Appelmans
A presente tradução francesa de um texto em médio-neerlandês, publicado na revista Ons Geestelijk Erf em 1927, é considerada por uns como pré-eckhartiana e por outros como pós-eckhartiana, e nela o leitor reconhecerá vários temas dos Paralelos, entre eles o de Deus-Ser, cuja transcendência é amada precisamente por ser e permanecer sempre incognoscível.
Georgette Epiney-Burgard — tradutora e anotadora — assina a edição.
A enunciação central do texto é próxima de Hadewijch, Marguerite Porete e Mestre
Eckhart: “o espírito mergulha de seu próprio abismo no abismo divino, e de um alguma coisa (yet) em um nada (niet)” (§ 1).
Humildade e pobreza de espírito implicam abandono da vontade e do intelecto num querer-nada e saber-nada, e desapropriação do temporal para reencontrar o próprio que é o próprio Deus, no agora sempre novo da eternidade.
No parágrafo 3, encontra-se uma expressão que remete à formulação mais audaciosa de
Eckhart — o re-engendramente ou re-geração do
Pai pelo
Filho —, expressão ausente da literatura beguinal, o que sugere a presença de um intermediário entre as beguinas e Ruusbroec, que lhe transmitia elementos de doutrina especificamente eckhartiana.
Georgette Epiney-Burgard salienta que tal expressão não se encontra sob essa forma na literatura beguinal.
Appelmans é apresentado prudentemente como conjectura — não como certeza — nessa cadeia de influências.
Texto introdutório
O século XIII neerlandês, embora ilustrado sobretudo por mulheres inspiradas, possui um texto ainda pouco estudado que atesta a capacidade de homens de elevarem a língua vernácula à altura de uma especulação filosófica unida a uma autêntica experiência espiritual.
Entre as mulheres inspiradas desse período, citam-se Beatrice de Nazareth e Hadewijch de Antuérpia.
O texto em questão foi publicado em 1927.
A Glosa do
Pai Nosso, atribuída ao Irmão “gheraert appelmans”, é conhecida apenas pelo manuscrito 3067-3073 da Biblioteca Real de Bruxelas, e sobre o autor sabe-se somente que levava “uma vida de penitência” numa floresta perto de uma cidade cujo nome foi infelizmente cortado na encadernação do manuscrito, situando-se o texto no final do século XIII ou início do século XIV.
Gérard Appelmans teria recebido formação escolástica e até ensinado, a julgar pelo seu estilo didático, pelo vocabulário técnico e pelos procedimentos que evocam o método da quaestio, além de um excursus que remete à literatura quodlibetal.
Quaestio — método escolástico de debate filosófico-teológico estruturado em questão, resposta e prova: “E eu pergunto se… respondo que não… e o provo.”
O nome de Appelmans não aparece no Chartularium Universitatis Parisiensis, mas pode ter estudado num studium monástico, provavelmente dominicano.
O texto se apresenta como uma exposição do Pater versículo por versículo, até palavra por palavra, concebida como meditação reiterada sobre o Ser de Deus e as relações intra-trinitárias, com aplicação dessa doutrina ao próprio conteúdo do Pater.
Gérard Appelmans designa o
Pai como um ser (een es), uma substância simples (eene luttere substancie), autossuficiente, ao qual nada se pode acrescentar nem retirar, e como “uni-poderoso” (eengheweldich) — adjetivo forjado pelo ermitão para designar o poder de Deus em sua Unidade.
Se o homem pode conhecer Deus pelo intelecto e amá-lo por amor, não pode em caso algum compreendê-lo tal como é em si mesmo, em sua transcendência abissal (grondeloes overbliven) que ultrapassa todos os espíritos criados.
Apenas balbuciando pode o homem tentar circunscrever Deus pelo modo da celebração por metáforas, e Appelmans, na esteira da teologia oriental, apresenta o
Pai como Origem das Pessoas trinitárias, definindo especialmente a relação
Pai-
Filho como geração pelo
Pai e re-geração pelo
Filho.
A geração pelo
Pai corresponde a uma re-nascença (weder-gheboert) do
Filho, que rediz o
Pai, recebendo assim sua qualidade e seu nome de
Filho, ao mesmo tempo que o
Pai recebe seu nome de
Pai.
Essa tautologia aparente permite distinguir a Deidade imparticipável da
Trindade, à vida íntima da qual o homem é chamado a participar.
É sobre a relação
Pai-
Filho que Appelmans coloca toda a ênfase: o papel do
Espírito Santo, embora não esquecido, é descrito como conferidor da graça, e é dessa relação que depende toda a relação Deus-homem, pois as criaturas nascem no
Filho por graça e não por natureza.
Como somos filhos e Deus é nosso
Pai, seu nome, recebido do
Filho pelo
Pai, nos pertence por graça, e seremos unidos e santificados nesse nome na medida em que amamos e conhecemos o nome do
Filho do
Pai por natureza, o Verbo.
Nome e reino andam juntos: o reino de Deus está presente quando o
Filho se re-gera e quando nos re-geramos com o
Filho confessando o
Pai no
Filho, e é por uma escuta interior (invernemen) que se recebe o Verbo.
No hoje de Deus recebe-se a luz da luz, segundo uma formulação trinitária implícita, e essa formulação encontra correspondência no primeiro Sermão alemão de
Eckhart — “o agora novo, o agora eterno sempre novo” (In desen nuwen nu; in desen ewigen nuwen nu).
A teoria da iluminação agostiniana não constitui a última palavra da espiritualidade de Appelmans, pois atingir a fonte abissal da Deidade implica passar de um alguma-coisa (yet) criado a um Nada (niet) incriado, e o único caminho é a pobreza espiritual concebida como tríplice abandono.
Primeiro abandono — não-possessividade: onbesittelecheit, palavra forjada por Appelmans.
Segundo abandono — desaparecimento do conhecimento.
Terceiro abandono — submissão da vontade à vontade do
Pai, “conhecida-desconhecida”; o abandono da vontade, ou pobreza em espírito, anda junto com a humildade ontológica, não moral.
Para Appelmans, o estado de união perfeita com o Cristo e de unidade de espírito — segundo 1Co 6, 17 — possui caráter transitório nesta vida terrena, ao contrário do que se encontra em outros místicos.
Essa visão ao mesmo tempo grandiosa e intimamente pessoal da vida espiritual se desdobra no âmbito eclesial da fé e dos sacramentos, e a convicção do ermitão permanece inteira: na terra o homem não é chamado a se desvencilhar de todo ato de piedade exterior, e os verdadeiros imitadores do Cristo sustentam toda a Igreja.
O exemplo da Virgem Maria é invocado: ela não cessou de orar apesar de sua total humildade e pobreza de espírito.
“Se os verdadeiros imitadores do Cristo faltassem — nem que fosse uma única hora de um único dia — toda a nossa carne pereceria por causa de nossos pecados mortais” (IX, 66-71; 79-81).
A Glosa oferece, em sua brevidade, uma teologia e uma espiritualidade inteiras, situando-se num quadro de pensamento delineado no século XIII pelas beguinas — em particular Hadewijch I e II e Marguerite Porete — e pela escola dominicana, cujo vocabulário mais filosófico Appelmans retoma.
Appelmans concebe Deus como Ser ao mesmo tempo autossuficiente, Criador sem que nada de sua substância passe às criaturas, e cognoscível no intelecto que recebe a efluência de sua misericórdia e bondade, conferindo o íntimo pressentimento intelectivo da beatitude celeste — e simultaneamente transcendendo todo ser numa transcendência que permanece inacessível.
No tocante ao papel do intelecto como capacidade de receber Deus,
Alain de Libera demonstrou que em Mestre
Eckhart o intelecto podia às vezes ser identificado ao fundo da alma, o que parece ser igualmente o caso de Gérard Appelmans, ambos insistindo no caráter noético da união chamada “mística”.
A. de Libera — Introdução à mística renana de Alberto Magno a Mestre
Eckhart, Paris, O.E.I.L., 1984, p. 264-271.
Outro tema oferece paralelismos inegáveis entre o pequeno tratado do ermitão e os sermões de
Eckhart: o da re-nascença — re-engendramento, re-geração — do
Filho por seu retorno no
Pai.
Enquanto Appelmans fala apenas da weder-gheboert como confissão do
Pai no
Filho,
Eckhart insiste ademais no engendramento da alma a partir de si mesma, e ambos se encontram ainda na concepção da pobreza de espírito e da humildade ontológica pela qual o homem reconhece que não tem outro ser senão o que Deus lhe confere.
No Sermão alemão 44,
Eckhart cita Paulo: “Vivo, não eu, é Deus que vive totalmente em mim” (Gl 2, 20).
Appelmans enuncia: a humildade nos dá “o conhecimento intelectivo e o amor feliz de Deus: se Deus um único instante retirasse de nós o que é seu, seríamos imediatamente conduzidos à tentação da morte eterna” (X, 7-10).
“A conversão reflexiva da alma em si mesma, constitutiva de seu próprio ser, torna-se assim a própria conversão de Deus em Deus.” (A. de Libera, p. 271)
Em
Eckhart a humildade arranca do tempo e do espaço e de tudo que é estranho à luz divina; em Appelmans ela permite a imersão no ser divino, e nos dois casos a finalidade da vida espiritual é reencontrar o próprio (son propre) em Deus.
Eckhart — Sermão 14: “Deus vem ao seu bem próprio. Sê o bem próprio de Deus. Deus será teu bem próprio como é seu bem próprio.” (Pr. 14, DW I, p. 239; Anc. 1, p. 136)
Appelmans — Glosa I, 34, 36: “Deus o
Pai torna-se o próprio de seu próprio em si mesmo, em seu espírito.”
Embora seja impossível comparar a obra imensa de Mestre
Eckhart com este pequeno Comentário do Pater, o ermitão desconhecido encontra o mestre turíngio em pontos essenciais de teologia espiritual, e parece ter sido inspirado pelo pensamento do mestre renano — em particular pelo primeiro sermão alemão, onde se encontra não apenas a ideia do re-engendramento do Verbo confessando o
Pai, mas também um certo número de expressões similares.
L. Reypens e St. Axters contestam ou relativizam essa influência; E. Öhmann, no Bulletin de la Société néophilologique de Helsinki, t. LXX, 1969, p. 351-353, convida a uma análise linguística e estilística das obras comparadas.
A hipótese inversa — de que Appelmans teria fornecido vocabulário a
Eckhart — é aventada por St. Axters no Scholastiek lexicon, p. 26.
Admitida essa hipótese, Gérard Appelmans poderia ser considerado um intermediário entre as beguinas e Jan Ruusbroec, trazendo a este um vocabulário teológico e um pensamento trinitário inspirado no Mestre dominicano.
Glosa do “Pai Nosso”
Jeremias [3,19] enuncia a ordem divina de invocar o
Pai, e é por isso que Nosso Senhor
Jesus Cristo ensina a adorar e a orar ao
Pai no
Pai Nosso [Mt 5, 9].
I. A primeira palavra enuncia-se: PAI. Como compreendemos essa palavra?
O
Pai, na fecundidade de sua natureza e pela fecundidade dessa natureza, diz o Verbo para si mesmo, gerando o
Filho à perfeita semelhança de si mesmo, uma outra Pessoa idêntica à sua própria natureza, e reconhecendo a outra Pessoa como
Filho segundo o modo do
Pai, enquanto a natureza não gera nem é gerada, mas o
Pai, ao gerar, suscita a fecundidade de sua natureza na potência de seu Ser.
A natureza não engendra nem é engendrada — é o
Pai pessoal que age.
Nesse mesmo nascimento o
Pai cria para si mesmo, na onipotência de sua Deidade, dando a todas as criaturas “a vida e o ser” — subsistência e apoio de sua potência paterna e divina a tudo que tem vida e ser segundo o modo das criaturas —, sendo portanto pai de todas as criaturas, sem que nenhuma parcela de sua substância ou natureza pertença aos
anjos, aos homens ou a qualquer criatura.
Aquele que compreende essa palavra adora o
Pai nessa palavra, e adorar o
Pai é, pelo intelecto e pelo amor, confessar íntima e puramente o
Pai na qualidade de sua paternidade divina; quando o
Pai ocupa todo o espaço do espírito inteligente e absorve o ser e a eternidade do espírito e toda a sua potência na Deidade sem fundo de sua Soberania, o espírito mergulha de seu próprio abismo no abismo divino e de um alguma-coisa (yet) em um Nada (niet), e assim Deus o
Pai se torna o próprio do seu próprio em si mesmo, no espírito.
Sl 41, 8 — Abyssus abyssum invocat — é versículo frequentemente citado pelos autores espirituais para designar a grandeza de Deus e a pequenez do homem.
Eyghen — “o que pertence a uma espécie, a ela somente e em todo tempo, sem ser contudo sua essência mesma” (F. Brunner,
Eckhart, Paris, Seghers, 1969, p. 176).
Tal é a verdadeira adoração em espírito.
II. A segunda palavra enuncia-se: NOSSO
Criaturas dotadas de intelecto compreendem que o
Pai é nosso porque o
Pai, na fecundidade de sua natureza, diz o Verbo para si mesmo gerando o
Filho à perfeita semelhança de si mesmo, uma outra Pessoa idêntica à sua própria natureza e reconhecendo a outra Pessoa como
Filho por natureza, segundo o modo do
Pai.
Appelmans retoma textualmente o primeiro parágrafo, acrescentando a expressão “
Filho por natureza” para distingui-lo dos filhos por graça.
Desde o começo, o
Filho do
Pai por natureza, engendrado pelo
Pai, confessa-O a si mesmo e confessa o
Pai segundo o modo do
Filho; nessa re-nascença do Verbo eterno, o Verbo eterno recebe do
Pai seu caráter de Pessoa, e quando o
Pai engendra, tudo que o
Pai conhece em sua sabedoria insondável e eterna escoa com o
Filho e é re-engendrado no
Filho que o conhece segundo o modo do
Filho, e assim somos filhos e Ele é nosso
Pai.
III. QUE ESTÁS
Diante dessa palavra, todos os espíritos criados se calam e devem confessar “não sabemos”, pois é o cume do que o intelecto humano pode compreender: conhecer pelo intelecto e amar por amor o fato de que não se pode por um único instante compreender Deus tal como Ele é em si mesmo.
Balbuciando pode-se adivinhar que Deus o
Pai é uma fonte insondável da natureza fecunda de toda a Deidade, refluindo, transbordando, gerando o fruto da natureza fecunda de toda a Deidade — jorro insondável da Santíssima
Trindade, raiz e tronco da onipotência de toda a Deidade, que opera maravilhas nas potências do céu.
IV. QUE ESTÁS NO CÉU
No céu natural visível, com as ordenanças da Sabedoria eterna e soberana, e no céu espiritual do intelecto com o fluxo sem fundo da misericórdia e da bondade divinas, com a imagem da Santíssima
Trindade, com os conselhos fecundos do coração paterno, com o incêndio de amor e de clareza do
Espírito Santo, com a onipotência de toda a Deidade e o fruto admiravelmente fecundo de sua natureza fecunda — Deus está onde quer que haja algo de Deus.
V. SANTIFICADO SEJA O TEU NOME
Como somos todos filhos de Deus por graça e portadores do nome do
Pai, o nome santo por natureza — o
Filho — deve ser santificado em nós, conhecido e amado, para que sejamos unidos e santificados no nome; e para que isso se cumpra em nós, o
Filho nos ensina por essa palavra.
VI. VENHA O TEU REINO
No
Pai não há crescimento nem diminuição, pois Ele é soberanamente Um em si mesmo e não necessita de nada, porque o Reino do
Pai é o
Filho e todos os que o
Pai desde o começo de sua Deidade conhece e ama, filialmente
bem-aventurados no
Filho, reconhecendo filialmente o
Pai no
Filho na re-nascença do
Filho; e para que esse reino venha em nós e seja cumprido como o
Pai, em sua ciência e em seu amor, quis que fosse cumprido em nós por sua graça divina, o
Filho nos ensina a pedi-lo e a orar ao
Pai nessas palavras.
VII. SEJA FEITA A TUA VONTADE ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU
Deus o
Pai abrange tudo, céu de todos os céus, e a vontade do
Pai é seu amor e seu conhecimento e sua operação; para que a vontade do
Pai, que é conhecida e cumprida no céu e em si mesmo, seja cumprida em nós, é necessário ser totalmente (lutterlike) abandonados (ghelaten) a Deus e mortos a tudo que somos e a tudo que nosso intelecto pode conhecer por graça e por natureza, em Deus e nas criaturas, totalmente pobres de vontade, totalmente mergulhados e abandonados na vontade oculta, conhecida-desconhecida do
Pai tal como Ele está no céu.
Lutterlike — totalmente, de modo absoluto.
Ghelaten — abandonados, entregues.
Assim nossa livre vontade nos é retirada e, na vontade do
Pai, torna-se a vontade do
Pai como está no céu, pois não conhecemos nem amamos nenhuma outra vontade; somos então “uma vida com o Cristo”, um único filho com o
Filho e “um único espírito com Deus”; e aqui embaixo, na terra, isso se produz parcialmente e por instantes, mas depois, quando o corpo ressuscitar e possuir a beatitude com o espírito, possuiremos totalmente o próprio de Deus no
Filho, segundo o modo do
Filho.
VIII. DAI-NOS HOJE O NOSSO PÃO DE CADA DIA
O próprio de Deus o
Pai, pela nobreza de sua toda-perfeição, é dar e perdoar, e da mesma forma nosso próprio, por sua graça divina, é acolher esse dom; não possuímos nada por nós mesmos, mas tudo que temos de Deus foi recebido e possuído pela graça de Deus, e como o dom de Deus é tão nobre, Ele nos ensina a orar intensamente e a suplicar ao
Pai em grande humildade de espírito para nos prepararmos e estarmos prontos a receber o dom de Deus o
Pai.
Há três tipos de dias: o primeiro é temporal e escoa no sentido do tempo — nosso pão cotidiano nesse dia são todas as nossas necessidades; o segundo dia é espiritual, inteligência justa e verdadeira iluminada pela graça divina, da mesma forma que o dia temporal não tem luz sem a graça divina e o olho da Inteligência não pode conhecer a verdade divina sem o socorro da graça divina; o terceiro dia é Deus, que é a perfeição de todos os dias e nosso pão cotidiano — nesse dia está nossa beatitude e Deus é nossa beatitude.
O
Pai diz seu Verbo eternamente no íntimo da alma e a palavra de seu Verbo, pura inteligência, recebe um acolhimento interior no intelecto — esse é nosso pão cotidiano no segundo dia.
A santidade é recebida nas ordenanças de Deus, no santo sacramento, na fé, nas modalidades do dia temporal.
No hoje — um único Deus, um único est, um único espírito, nesse agora sempre novo: “assim, da luz recebemos a luz, com a luz a luz, nessa luz a luz da luminosa luz, no agora eternamente novo do dia eterno: hoje.”
Esse terceiro dia — Deus — é desfrutado como Ele se conhece e se ama e frui de si mesmo na toda-perfeita santidade de seu ser.
O hoje ensina a receber o nobre dom de Deus o
Pai tão puramente como se não tivéssemos nenhuma outra propriedade (eygenschap) que as possuídas para Deus na vontade de Deus, como se esse dia fosse nosso último e Deus fosse em sua hora última pronunciar seu julgamento sobre o corpo e a alma.
Donne-nous — nessa palavra o
Filho ensina tudo que a inteligência humana e a dos
anjos jamais compreendeu ou possuirá: adorando, conhecemos o
Pai intelectivamente, o amamos amorosamente e o confessamos puramente em sua qualidade divina; assim como o
Pai, por sua Palavra, engendra pela fecundidade de sua natureza e dá e confere ao
Filho todo o seu próprio, da mesma forma cria e dá a vida e o ser a todas as criaturas segundo um modo divino.
IX. UMA OUTRA PALAVRA: “PERDOAI-NOS AS NOSSAS DÍVIDAS ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES”
Somente Deus onipotente em sua justiça tem devedores — todos os pecadores lhe são devedores —, e assim ninguém está sem dívida e sem devedores senão Deus somente e os que ele resgatou por seu sangue puro; mas também é verdade que temos devedores, pois o homem por graça e por natureza é um ser dotado de inteligência e discernimento, e se por sua vontade própria se permite alguma falta de discernimento com que aflige seu irmão, torna-se devedor perante Deus e perante seu irmão.
A dívida contraída pela criatura perante a criatura é mínima em comparação à dívida contraída pela criatura perante Deus, e Deus em sua justa justiça não quer nos remitir nossa grande dívida antes que, por nossa livre vontade, tenhamos remitido ao nosso irmão sua pequena dívida pelo amor de Deus; quando perdoamos, somos perdoados, e se não perdoamos, nunca seremos perdoados.
Quem atenta à honra de Deus desonra todas as criaturas, e assim o pecador é devedor de Deus e de todas as criaturas; como o próprio de Deus é perdoar, e como nossa vontade está unida à vontade de Deus, da mesma forma Deus, em sua misericórdia, quer perdoar o pecador, da mesma forma perdoamos ao pecador em união com sua vontade.
A pobreza em espírito é não ter nada e não ter nada de seu próprio nada; os pobres em espírito possuem todas as coisas em toda propriedade (alre eyghenstlike) e perdoam o mais em toda clareza, pois “o Reino dos céus é deles”, diz o Cristo; e esses são perdoados claramente, pois o
Pai não perdoa a ninguém senão no
Filho e pelo
Filho.
Assim como o
Filho tendeu todas as suas forças para a obediência ao
Pai, carregando nosso fardo, sofrendo a morte amarga do amor por causa de nossa falta, da mesma forma seus verdadeiros discípulos tendem todas as suas forças na mesma obediência ao
Pai, para o honrar, sob nosso fardo, num amor filial idêntico, carregando-o interior e exteriormente em seu amor filial; não é que com seus méritos nos livrem da morte eterna, mas com seus méritos obtêm que sejamos receptivos aos méritos que o
Filho nos adquiriu por seu santo martírio.
Maria foi um sustento da fé enquanto o Cristo sofria o martírio da cruz, e foi um sustento de toda a carne com seus santos méritos.
Os verdadeiros imitadores do Cristo são necessários até o juízo final, e se um único deles faltasse uma única hora de um único dia, toda a nossa carne pereceria por causa de nossos pecados carnais.
Marguerite Porete — O espelho das almas simples aniquiladas, cap. 43, p. 107: “essas almas são a própria Santa Igreja no que ensinam e nutrem toda a Santa Igreja, e não elas, mas a
Trindade toda inteira.”
X. NÃO NOS INDUZAS À TENTAÇÃO
O
Pai não pode induzir à tentação, pela nobreza de sua bondade, e o que o
Filho ensina por essa palavra é uma grande humildade de espírito: que o espírito deixe afundar em tremendo tudo que é em seu próprio nada e confesse o Santíssimo, o Ser eterno, Deus, um est — pois se Deus por um único instante retirasse de nós o que é seu, seríamos imediatamente conduzidos à tentação da morte eterna.
Est — “um ser”, expressão de tradição agostiniana e escolástica para designar o Ser absoluto de Deus; cf. Santo
Agostinho, De Genesi ad litteram V, 16.
XI. MAS LIVRAI-NOS DO MAL
O mal é o que em nós e no espírito se opõe a Deus — toca somente a nós e aos
anjos decaídos e não concerne a Deus em nada —, e o fato de Deus não ser atingido por essa oposição provém da nobreza de sua Deidade; o mal não nos atinge como um acidente (toeval) que nos viria de Deus, mas nos atinge quando o tomamos sobre nós com nossa vontade própria oposta à vontade de Deus, e não podemos nos desfazer dele com nossa própria vontade oposta à vontade de Deus sem a graça de Deus.
É por isso que o
Filho nos ensina a orar em nosso íntimo e a suplicar ao
Pai para que nos livre de tudo que lhe desagrada em nós, e Deus nos ajuda nisso. Amém.
XII.
Questiona-se ainda se um homem pode aqui embaixo chegar a um estágio em que possa ser desapegado do “
Pai Nosso” de toda maneira, e a resposta é não — confirmada pelo exemplo de Maria, que no corpo de sua mãe foi libertada do mal do pecado original e confirmada pelo
Espírito Santo, de tal sorte que não podia contrair nenhum pecado em si, mas não estava desapegada do
Pai Nosso de toda maneira, assim como os Apóstolos.
Na oração de Maria há uma verdadeira humildade do coração e do espírito, de tal sorte que ela não se atribuía todas as maravilhas que Deus havia realizado nela, não mais do que o mais pobre pecador da terra, pois tinha um conhecimento puro do Verbo eterno mais do que qualquer criatura no mundo.
Para que se adore Deus o
Pai e se Lhe ore como seu
Filho conhece e ama o
Pai por sua honra e nossa salvação, que Ele nos ajude nisso por sua misericórdia. Amém.
Saber totalmente e conjeturar (wanen) são coisas diferentes: saber é no céu; conjeturar, na terra.
Wanen — conhecimento imperfeito, do domínio da opinião; weten — ciência perfeita de Deus.
“Este discurso, concebo-o como uma conjetura, e remeto e encerro discurso e conjetura no saber imutável de Deus e na comunhão de toda a sua santa cristandade.”