PARÁBOLAS EVANGÉLICAS — O FARISEU E O PUBLICANO (Lucas 18:9-14)
Antonio Orbe:
Marcion reteve a parábola para ridicularizar a hipócrita religiosidade judia, e para rechaçar o culto de Jeová. Seu pensamento se conhece através de Tertuliano.
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“E acercando-se certo fariseu, sacerdote, por nome Levi, saiu junto com eles e disse ao Salvador: 'Quem te autorizou a pisar este lugar de purificação e ver os vasos sagrados, sem lavar-te e sem que teus discípulos se tenham banhado os pés? Pisastes não limpo o templo, lugar puro, que ninguém pisa se não quem se banhou e mudou a vestimenta, nem ousa olhar os vasos sagrados'. O Salvador parou com os discípulos e lhe contestou: 'Então tu, que estas no templo, crês ser puro? Disse-lhe ele: Eu estou, pois me lavei no tanque de Davi e subi por uma escada separada da que empreguei para descer, e pus vestimentas limpas e brancas. E só então vim e me atrevi a olhar estes vasos sagrados'. 'Ai de vós cegos que não veis. Te lavaste na água corrente onde se jogam cães e cerdos de noite e de dia. E, ao lavar-te, limpaste o exterior da pele, o que as meretrizes e flautistas perfumam, lavam e adornam para concupiscência dos homens; enquanto por dentro estão como cheios de escorpiões e toda sorte de malícia. Mas no tocante a mim e a meus discípulos, que dizes não nos termos banhado, nos lavamos em águas de Vida Eterna, que procedem de…'” Oxyrh. Pap
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O fariseu era o tipo ideal do judeu, antítese do verdadeiro cristão. Amigos de justiças externas, como seu Deus, e por elas canonizado. Cristo o reprovou, justificando ao injustificável publicano, do ponto de vista hebreu. Poucas
Parábolas ratificavam com tanta evidência para
Marcion o signo do
Evangelho, abertamente contrário ao templo, a seus adoradores natos e a seu deus.
O Comentário ao Diatessaron não permite descobrir as cláusulas de Taciano. Escreve Efrem: “O fariseu que orava, dizia de si coisas verdadeiras; mas por dizê-las com jactância, e o publicano (por sua vez), com humildade, seus pecados, a confissão das faltas deste agradou mais a Deus que a ostentação das esmolas daquele”.
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As linhas de Efrem correm com simplicidade. A eficácia da oração não depende da verdades das próprias ações, boas ou más, expostas diante de Deus, senão do modo de expô-las.
Taciano sabia apoiar a complacência divina no humilde pecador, acudindo à doutrina do Discurso contra os helenos: “Porque de suja a alma é trevas e nada luminoso há nela”.
Tertuliano põe em relevo a modéstia e a humildade necessárias para a oração.
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Em pugna com
Marcion, desenvolvia as teses habituais. Nada escondem as palavras do Salvador ofensivo para o Criador nem para o templo. Cristo ignora outro Deus, e templo, e adoradores, e justiça estranhos aos dos Judeus.
Cipriano segue o mestre Tertuliano, enaltecendo ainda mais o publicano da parábola.
Clemente de Alexandria se contenta em citar sem comentário invertendo a ordem dos membros, com um paralelo com Platão.
Orígenes legou melhores elementos.
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O grande pecado do homem está na ignorância. O fariseu ignorava sua própria congênita enfermidade, a dependência continua de Deus para o bem, o denominador comum dos homens no pecado e na indigência do Criador. O publicano fazia profissão da miséria humana, como própria, e de sua indigência pessoal de um deus misericordioso.
Jean-Claude Larchet: TERAPÊUTICA DAS DOENÇAS ESPIRITUAIS
O orgulho impele o homem a medir-se a si mesmo com seu próximo e, antes de afirmar sua superioridade em relação a ele, a afirmar aquilo que o distingue, a crer-se fundamentalmente diferente. O arquétipo dessa atitude é-nos apresentado no Evangelho pelo exemplo do fariseu que diz: «Não sou como os demais homens (…) nem como esse publicano» (Lc. 18, 11). Pelo orgulho, o homem experimenta a necessidade de comparar-se, de estabelecer hierarquias, antes de concluir por sua superioridade, absoluta ou relativa, neste ou naquele âmbito, ou mesmo em todos aqueles que ele representa para si. Por isso, é especialmente levado a julgar desfavoravelmente seu próximo e a criticar quase sistematicamente sua maneira de pensar e de viver.
Maurice Nicoll: FARISEU E PUBLICANO