Reino dos pequeninos

Logia Jesus — DOS PEQUENINOS É O REINO DOS CÉUS (Mt 11,25; Mt 18,1-6; Lc 18,15-17)

Evangelho de Jesus:

25 Neste tempo, Iéshoua responde e diz: «Eu te celebro, Pai, Adôn do céu e da terra, porque tu escondeste isto dos sábios e dos sagazes, e tu o revelas aos pequenos. 26 Sim, Pai, tal é a vontade de tuas faces. (Chouraqui; Mt 11,25-26)

1 Nesta hora, os adeptos se aproximam de Iéshoua‘ e perguntam: «Quem é então o maior no reino dos céus?» 2 Iéshoua‘ chama uma criancinha [παιδίον — paidion]. Ele a põe entre eles 3 e diz: «Amén, eu vos digo: se vós não retornardes strepho e não vos tornardes [γίνομαι — ginomai] como criancinhas, não entrareis no reino dos céus. 4 Aquele, pois, que se faz pequeno como esta criança é o maior no reino dos céus. 5 Quem acolher em meu nome uma dessas crianças, é a mim que acolhe. 6 Mas quem faz tropeçar [σκανδαλίζω — skandalizo] um destes pequenos [μικρός — mikros] que aderem [πιστεύω — pisteuo] a mim, melhor seria que uma mó de azenha lhe fosse pendurada em seu pescoço e que fosse jogado na profundeza dos mares. (Chouraqui; Mt 18,1-6)

15 Apresentam-lhe também recém-nascidos para que os toque. Os adeptos veem e os repreendem. 16 Mas Iéshoua os chama e diz: «Deixai as criancinhas virem a mim; não as impeçais! Sim, é para seus semelhantes, o reino de Elohíms. 17 Amen, eu vos digo: Quem não acolhe o reino de Elohíms como uma criancinha não entra nele.» (Chouraqui; Lc 18,15-17)

O termo chave deste dito é παιδίον (paidion). Ao advertir que estes não sejam “escandalizados”, o termo interessantemente se converte em μικρός (mikros). O que são os “pequeninos”? O que são os “micros”? O que é deixá-los vir a Jesus? O que é “escândalo”?

Romano Guardini: SER COMO PEQUENINOS

Hipólito (não diretamente referente ao dito, mas afim)

E a respeito desta (natureza) transmitem uma passagem explícita, ocorrendo no Evangelho segundo Tomé, que assim se expressa: “Aquele que me busca, me encontrará nos pequeninos de sete anos de idade; pois lá oculto, Eu devo na idade de 14 anos ser manifestado”. Isto, no entanto, não é (o ensinamento) de Cristo, mas de Hipócrates, que usa estas palavras: “Um pequenino de sete anos é metade de um pai”. E assim é que estes (heréticos), pondo a natureza originária do universo na semente causativa, (e) tendo afirmado o (aforismo) de Hipócrates, que um pequenino de sete anos de idade é metade de um pai, dizem que aos catorze anos, de acordo com Tomé, ele é manifestado. Isto, com eles, é o logos: inefável e místico.

Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 22

René Guénon: APRECIAÇÕES SOBRE O ESOTERISMO ISLÂMICO E O TAOISMO

A «simplicidade», expressão da unificação de todas as potências do ser, caracteriza o retorno ao «estado primordial»; e aqui se vê toda a diferença que separa o conhecimento transcendente do sábio do saber comum e «profano». Essa “simplicidade” é também o que é designado em outro lugar como o estado de “infância” ou de “criança” (em sânscrito bâlya), entendido naturalmente no sentido espiritual, e que, na doutrina hindu, é considerado como uma condição preliminar para a aquisição do conhecimento por excelência. Isso lembra palavras semelhantes encontradas no Evangelho: “Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, não entrará nele” (São Lucas, 18:17). “Enquanto escondeste estas coisas dos sábios e dos prudentes, as revelaste aos simples e aos pequenos” (São Mateus, 11:25).

Jean Canteins

Segundo Canteins, é ao estado de realização alcançado pela metanoia [ e strepho [conversão ou reversão] que se refere Jesus ao declarar que só entrarão no Reino de Deus aqueles que serão como pequeninos; em Mateus, se encontra a chave desta afirmação, ao dizer o meio para se tornar como pequeninos, para adultos, é de se reverter (strepho); o Verbo strophe deve se entender aqui sem seu sentido absoluto, o que implica em uma linguagem codificada entre Jesus e seus discípulos, pois sem um sentido metafórico preciso, a formulação seria incompreensível. Se tornar pequenino, criança, é retornar ao estado inicial sentido da iniciação), pela inversão de um processo natural, por uma sorte de evolução às avessas que solicita mais o microcosmo que o macrocosmo, ou seja cada pessoa individualmente tocada pela mensagem cristã.

Maurice Nicoll

Na versão de Mateus, a parábola da ovelha perdida não aparece no contexto já tão familiar em que os fariseus censuram a conduta de Jesus. O contexto do tema, neste caso, diz respeito a uma criança, a quem não se deve escandalizar. Os discípulos perguntam: ‘Quem é o maior no reino dos céus?’ Jesus chama uma criança, coloca-a no meio deles e diz-lhes (Mt 18,3-6).

Ocorre uma mudança de significado em relação à ideia de pequeno. No início, é empregado o termo grego paidion, que efetivamente significa “criança”. Mas quando Jesus diz: “E quem escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim”, o termo grego muda para mikros, que significa pequeno, minúsculo, como microscópico. Já não se refere às crianças, mas àqueles que começaram a seguir a Cristo e já possuem certa compreensão; melhor dizendo, àqueles que começaram a compreender por meio do que há de pequeno neles. Refere-se àqueles em quem já se iniciou o processo da metanoia.