O reconhecimento e a investigação da hermenêutica dual pela qual pode ser descoberta a via oculta constituem o primeiro capítulo metodológico de aproximação ao Cristo oculto — denominado de atualização indireta —, cujo propósito é atualizar na consciência a existência de uma via subjacente nas escrituras por que é possível saber que os textos canônicos cristãos mencionam e esclarecem em boa medida o Cristo preexistente e eterno.
Uma vez posto em marcha o estudo indireto, externo e intelectual da via oculta, é necessário entrar com resolução no segundo capítulo metodológico — designado como de revelação direta.
Por revelação direta entende-se que o objeto de investigação parece estar no interior de si mesmo, pelo que o sujeito e o objeto, o conhecedor e o conhecido, começam por ser uma distinção pouco clara na consciência para depois cristalizar na realidade de ser uma só e mesma coisa.
Paulo, no discurso dirigido aos atenienses no Areópago — conforme narra Lucas nos Atos —, argumenta que o Deus desconhecido mencionado pelos atenienses em uma inscrição diante de um altar se revelou em Cristo vivo, preexistente e eterno, no Senhor verdadeiro que não habita em templos fabricados por mão de homem.
O templo em que o Deus vivo e verdadeiro põe sua morada em cada homem que vem ao mundo é o corpo — a carne psicofísica —, que não foi fabricado por mão de homem, e cujo hóspede sagrado e desconhecido é o Deus vivo, imanente e transcendente a um tempo.
Paulo completa seu discurso sobre o Deus desconhecido afirmando que Deus, ao fazer o mundo, delimitou muito bem o lugar onde podia ser buscado — “para ver se a tateios o buscavam e o encontravam; por mais que não se encontra longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e somos.”
Quando Paulo diz que Deus não se encontra longe, responde dentro da mais pura ortodoxia oculta aos termos do querigma de
Jesus, no qual se afirma que o Reino de Deus está próximo — e Paulo o entende não como proximidade temporal, como muitos interpretaram e ainda interpretam, mas como contigüidade cognoscitiva, segundo se deve entender a via oculta.
Na expressão “nele vivemos, nos movemos e somos” ficam implícitos dois níveis diferentes e sobrepostos do conhecimento do Ser: uma corrente de consciência superficial e manifesta, que cremos ser, e um ser verdadeiro, quieto e profundo, como o leito do rio, oculto pelas águas quando estas correm turbulentas.
O fundo essencial e ignorado da consciência é o Deus desconhecido que só pode ser revelado diretamente — isto é, por uma ação de autobusca interior em que a totalidade do homem deve ficar implicada.