Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)
9 “Caminhando na terra e tocando a abóbada celestial”: Porfírio e Metódio
1. Em 253, no mesmo ano em que Orígenes morreu em Cesareia, esgotado pelas torturas e pelo calor fétido do presídio, Plotino, um homem cerca de vinte anos mais moço do que ele, começou a colocar no papel os ensinamentos filosóficos que havia transmitido durante a década anterior em Roma a um tranquilo círculo de estudos de pagãos bem-relacionados, pois Orígenes e Plotino eram compatriotas e ambos eram platônicos, mas em suas atitudes contrastantes perante a sexualidade pode-se ver com muita clareza a separação dos rumos entre o cristianismo e o paganismo na antiguidade recente.
2. Tal como Orígenes, Plotino era atormentado pelo anseio espiritual da graciosa beleza do Senhor, pois um doce toque da plenitude da vida, surpreendentemente sensual em sua meiga e delicada exuberância, inundava com frequência sua alma, aquietando todas as ideias sobre o mero amor físico: esta não é a afirmação de um corpo excitado, mas de uma alma retransformada no que foi na época de sua alegria primeira.
3. Contudo, a diferença entre esses dois homens é igualmente significativa, pois o angustiado sentimento da ameaça de uma contras sensibilidade vivenciado por Orígenes, seu medo de que a capacidade de deleite espiritual da alma fosse sutil e irreparavelmente embrutecida pela experiência das relações físicas, tudo isso estava marcadamente ausente em Plotino.
4. Para este, os abraços físicos dos cônjuges eram um reflexo realmente muito distante daquela união primitiva, mas ele jamais os tratou como um reflexo maculado e distorcido, pois a união mística da alma com o Senhor é a explicação até do amor copulativo, embora os que não chegaram a essa lembrança não compreendam o que se passa dentro deles.
5. Buscando uma imagem com que transmitir a união não premeditada mas sumamente oportuna de cada alma com seu corpo apropriado, num salto instantâneo e irrefletido para a carne, a imagem de um casal apaixonado brotou de sua pena com magnífica despreocupação: tal momento mais se parece com um salto instintivamente correto, com o casal que se movimenta para realizar seu desejo de união sexual, o semelhante está infalivelmente destinado ao semelhante.
6. Assemelhando-se mais a Clemente, em sua atitude perante a sexualidade, do que a Orígenes, Plotino olhava o corpo de uma altura imensa: sua atitude é de tolerância austera e impessoal, e seu regime ascético pessoal incluía a castidade completa, mas ele circulava com desenvoltura entre patronos e discípulos a cuja condição de casados dava pouca atenção, sendo um corpo bem afinado e tão vibrante quanto uma lira bem tocada o seu ideal.
7. Os guias espirituais pagãos da antiguidade recente, bem como seus discípulos, eram capazes de impor a seus corpos restrições que ferem a sensibilidade moderna e que eram julgadas extraordinárias até mesmo por seus contemporâneos, pois atinham-se a elas, e também ao isolamento social que tais restrições lhes impunham, com impressionante coragem.
8. No entanto, as renúncias que tinham maior peso simbólico a seu ver não coincidiam com as que tinham passado a ser mais valorizadas por seus contemporâneos cristãos, pois os sábios pagãos, muitas vezes, eram membros das classes urbanas dominantes do Império, extraíam seus discípulos quase que exclusivamente dessa classe e queriam arrancar seus pupilos da azáfama do foro, e não do leito conjugal.
9. No círculo de Plotino, o toque da terrível beleza do Divino ainda recaía sobre os membros ativos do Senado romano, pois suas famílias já estavam constituídas, e era a vida pública de Roma, e não sua vida sexual, que ficava esvaziada de qualquer sentido para eles com a aproximação do verdadeiro amor de sua alma.
10. Rogaciano fora um membro ativo da aristocracia administrativa de Roma, pois, sob a orientação de Plotino, aprendeu a apagar seu antigo eu público, chegando até a se mudar do palazzo da família para ir alojar-se em casa de amigos sem nenhuma exigência.
11. Comendo apenas em dias alternados, sua abstinência rigorosa foi recompensada com a cura de uma aflição dos nobres — a dieta rígida de Rogaciano curou-o de um estado agudo de gota —, pois sua renúncia mais espetacular disse respeito à recusa de uma posição oficial: estando prestes a assumir o cargo de pretor e com os lictores já à porta, recusou-se a sair ou a ter qualquer relação com o cargo.
12. Rogaciano, convém lembrar, foi contemporâneo do autor dos Atos de S. Judas Tomás, pois o cenário que deleitava aqueles que dele se lembravam era o de um cargo público rejeitado no próprio dia de sua posse, e não a renúncia sexual proclamada na noite de núpcias.
13. Vagando por Roma, Rogaciano se transformou num fantasma de seu eu público: não era o que muitos cristãos logo desejariam ver em seus heróis — um ser sexual postado entre a cama e o deserto.
14. Nada mostra com mais clareza a divergência entre as noções pagãs e cristãs de renúncia do que os escritos do discípulo, editor e biógrafo de Plotino, o filósofo Porfírio, pois nascido em Tiro, Porfírio conheceu Orígenes em Cesareia e o reprovou intensamente, e aproximadamente em 270 compôs um ataque devastadoramente erudito contra o cristianismo.
15. Tinha perfeito conhecimento das opções feitas por seus contemporâneos cristãos, e sua rejeição delas foi ainda mais esmagadora na medida em que ele compartilhava com inúmeros cristãos das classes instruídas um conglomerado de noções morais sumamente exigentes, pois os ideais sexuais promovidos no mundo de Porfírio e de seus sucessores pagãos pouco diferiam dos códigos sexuais austeramente disciplinados que Clemente de Alexandria havia defendido para seus sábios cristãos.
16. A vida da família conjugal podia ser marcada por uma luta pela continência, mas isso não significava a rejeição absoluta da atividade sexual, e sim apenas seu controle rigoroso e, com o correr do tempo, seu abandono, pois as alternativas drásticas a esse ideal — as conversões efusivas à virgindade perpétua entre as jovens cristãs — incomodavam Porfírio enormemente.
17. Existem hoje mulheres cristãs, escreveu ele em Contra os cristãos, que desconheceram S. Paulo em sua advertência de que alguns se afastarão da fé proibindo-se o casamento, pois elas haviam esquecido o reconhecimento do Apóstolo de que, no tocante às virgens, não tenho nenhum mandamento do Senhor.
18. Se está claro que a donzela não faz bem em permanecer virgem, ou a pessoa casada em renunciar ao casamento, como é possível que alguns praticam o estado virginal façam tamanho estardalhaço a esse respeito, e afirmem estar repletos do Espírito Santo, perante o mundo inteiro, como aquela que trouxe Jesus ao mundo?, pois era uma rejeição devastadora do ideal mais valioso de Orígenes e seu círculo.
19. De modo geral, Porfírio e seus colegas pagãos davam pouca importância à austeridade sexual, pois não viam nenhum valor simbólico peculiar na renúncia sexual quando praticada por seus pares do sexo masculino, e consideravam decididamente impróprio, se não ímpio, que os jovens em idade de se casar renunciassem a seu dever perante a sociedade e aos deuses que regem a geração, consagrando seus corpos à virgindade perpétua.
20. A imagem do corpo do próprio Porfírio condensava angústias sutilmente diferentes, pois a alimentação, e não a sexualidade, era o tema que lhe causava a mais forte impressão: ele era um vegetariano rigoroso, autor do panfleto intitulado Sobre a Abstinência dos Alimentos Animais.
21. A ingestão de carne animal, para Porfírio, resumia, de maneira muito mais apropriada do que as fogosas paixões do leito, a vulnerabilidade do espírito humano à materialidade saturadora que pesava sobre ele por todos os lados, pois, tal como Orígenes, Porfírio acreditava que um mundo de espíritos invisíveis acessava a pessoa.
22. Mas eles o faziam da maneira mais sinistra à mesa de jantar, pairando sobre a carne vermelha e palpitante, pois sua presença era menos sentida nas fantasias perturbadoras e parcialmente sexuais que despontavam no coração dos fiéis do que nos soluços estridentes e nos flatos grosseiros daqueles cujos corpos tinham-se tornado permeáveis à matéria no que ela possuía de mais caótico, através de sua dieta displicente.
23. A hagneia, uma noção de pureza ritualística — um reflexo visceral da evitação por meio da qual os devotos se empenhavam em preservar tensas fronteiras entre seus corpos e todas as formas de mistura poluente e anômala —, ainda era uma força com que se podia contar entre os pagãos do final do século III, pois nos meios cristãos o sentimento de pureza recaía com maior peso sobre a condição das pessoas virgens e continentes: uma intensa carga de reverência sagrada cercava o corpo dos homens e mulheres cuja carne não fora corrompida pelas relações sexuais.
24. Com Porfírio, ao contrário, o sentimento de horror sagrado estava na boca, pois ele tornou seu o brado de Empédocles: oxalá sua alma pura houvesse deixado de existir antes que os lábios dessem início ao criminoso ato de comer do alimento pavoroso da carne.
25. Cair vorazmente sobre o prato volumoso e sanguinolento de carne era reencenar a queda da alma pura na matéria, pois adotar uma dieta frugal, da qual toda a carne fosse excluída — mas nunca uma dieta de inanição —, era deter a queda da alma através de um gesto de renúncia perpétua que, à sua maneira, era tão válido quanto a cessação da atividade sexual nos círculos cristãos encratitas.
26. Todavia, a motivação de Porfírio ao se recusar a comer carne era sutilmente diferente do que estava em jogo para os cristãos no gesto da renúncia sexual, pois Porfírio só pensava em termos da alma individual.
27. Ao se abster de carne, sua alma escapava da identificação com a matéria: ele favorecia a fuga de sua mente eterna dos surtos sanguinolentos do corpo, pois ele não achava que sua renúncia pudesse ter quaisquer repercussões sociais imediatas, salvo por um certo distanciamento dos hábitos normais da vida pública.
28. Porfírio não afirmou que sua decisão de se abster de carne fosse impor a um processo social coletivo uma parada assombrosa, tal como, nos círculos cristãos encratitas, se supunha que seria feito pela renúncia ao casamento e à geração de filhos, pois o interesse de Porfírio concentrou-se na queda e no retorno da alma.
29. Ele não tinha a menor inclinação para romper o ciclo de nascimento, copulação e morte que arrastava a sociedade organizada, em seu orgulho cego e arrogante, para a sepultura, pois essas ideias estavam fora de seu horizonte.
30. Para ele, como para a maioria dos filósofos pagãos, a sociedade humana era uma simples fibra do imenso organismo divino do universo, pois nesse universo algumas almas vigilantes poderiam nadar até a costa, saindo do oceano oscilante da matéria, para se unir a seus pares incorpóreos em seu verdadeiro lar, muito além das estrelas.
31. Retornariam a um mundo do espírito em que a inconveniência de possuir um corpo seria esquecida, como se nunca tivesse existido, pois o cosmos como um todo, e com ele a raça humana, continuaria para sempre: enevoado e obscuro para os seres humanos aprisionados na carne, era também sagrado e aprazível em sua imensidão harmoniosa.
32. Nesse cosmos, as almas estavam fadadas a descer incessantemente à matéria, enquanto os deuses do amor gerativo continuassem a tecer as vestes purpúreas de novos corpos humanos no ancestral tear do leito conjugal, pois Porfírio não teria gostado de saber que, na mesma época em que estava escrevendo na Itália, Metódio, um professor cristão em Olimpo e na Lícia, na costa do Egeu, a sudoeste da Turquia, havia composto um diálogo em louvor à virgindade, intitulado O banquete.
33. Era um pasticho deslavado da grande obra de Platão, pois, em vez de retratar uma reunião de cavalheiros atenienses sexualmente ativos, o banquete de Metódio reunia dez donzelas para celebrar a beleza de sua decisão virginal.
34. Escrevendo a mando de uma misteriosa Dama de Termesso, Metódio, o professor, colocou-se como uma presença discreta, pois Santa Tecla substituía Sócrates; era ela quem evocava o voo da alma de uma donzela rumo ao lar, palpitando de um amor inato pela beleza espiritual.
35. Mas essa beleza eterna já não podia ser encontrada no reino das Ideias; achava-se mais presente na radiosa pureza do estado virginal, pois, sentado ao redor de uma fonte límpida que fluía com a suavidade do óleo espesso, o grupinho era protegido pela sombra da árvore do agnus castus — ou seja, da árvore em cujos ramos as jovens atenienses costumavam dormir para aplacar seus ímpetos sexuais nos períodos de abstinência que lhes eram impostos pelo festival de Tesmoforias.
36. Nesse Banquete pode-se vislumbrar um círculo de estudos mais semelhante ao de Orígenes que ao de Plotino: era uma congregação autocentrada de precursores domésticos dos monges, pois o Banquete de Metódio não despertou entusiasmo nos leitores modernos: o livro é pomposo e sua visão é estreita.
37. Não obstante, é fácil compreender sua importância para os leitores do século III, pois, em primeiro lugar, Metódio conciliou a perspectiva sumamente pessoal de Orígenes com as tradições mais antigas da Ásia Menor.
38. Seguiu o exemplo de Irineu de Lyon, apresentando o processo de salvação em termos do retorno lento e seguro da raça humana ao estado de Adão, pois esse estado fora renovado na pessoa de Cristo e seria integralmente reconquistado pelos santos no momento da Ressurreição.
39. Os horizontes infinitos de Orígenes foram mais estreitamente delimitados por Metódio, mas o sentimento de importância histórica que havia emergido com tanta clareza na última grande obra de Orígenes, Contra Celso, tornou-se mais presente no Banquete de Metódio, pois Cristo restituíra à terra a carne virginal originária de Adão.
40. Ao derrotar o demônio nessa carne, Ele demonstrara que os seres humanos poderiam reconverter-se, nesta vida, no que Adão fora a princípio — um instrumento bem afinado para louvar a Deus, pois a sociedade casada já estabelecida não ruiu diante dessa mensagem, como nos Atos de S. Judas Tomás; teve, antes, a possibilidade de recuar para segundo plano.
41. O casamento era assunto para a multidão anônima dos fiéis, pois permitiu-se que continuasse como uma concessão à fragilidade humana, do mesmo modo que os inválidos eram eximidos da participação no jejum coletivo solene que antecedia as festividades da Páscoa.
42. O processo de reprodução, o estremecimento solene do coito e a ardorosa sede masculina de descendentes — temas que as virgens discutiram, no estilo platônico, com deliberado bom humor e surpreendente minúcia — tinham-se tornado transparentes para a realidade superior que representavam, pois eram sombras passageiras que apontavam para a única união verdadeiramente fecunda, a união entre Cristo e a Igreja.
43. A verdadeira descendência não provinha da união física, mas da pregação do Evangelho, pois as alegrias da paternidade e da maternidade físicas eram um pálido reflexo da vida verdadeiramente fértil das virgens reunidas em torno de seu pai espiritual, um sacerdote discreto e douto.
44. Metódio sentiu nessa evolução uma lenta e segura mudança para melhor na raça humana, pois sua visão da história da humanidade foi a de uma civilização que se ia descartando delicadamente de seus dissabores.
45. Ele apresentou a história humana como a história da domesticação lenta e segura do impulso sexual bruto, pois a humanidade começara pelo incesto animalesco e progredira lentamente para a poligamia.
46. Agora, porém, que a terra estava toda povoada, até a imperturbável continência conjugal — a sophrosyne enaltecida nas boas esposas em tantos epitáfios do mundo grego contemporâneo — tinha cedido lugar à aphtharsia, a estabilidade incorruptível do estado virginal.
47. Foi uma visão de uma humanidade serenamente apaziguada, com sua adolescência efervescente há muito ultrapassada, enfrentando o fim dos tempos com todas as paixões despendidas, pois a culminação da história era visível no grupinho de donzelas consagradas de Metódio, em que as verdes ondas vêm no porto emudecer, longe da oscilação dos mares.
48. Por trás desse idílio mudo pode-se avaliar o poder de uma estrutura de pensamento destinada a ter um longo futuro no mundo de língua grega, pois, vista horizontalmente, por assim dizer, a virgindade representou o lento alvorecer de um milênio espiritual entre os santos.
49. Visto verticalmente, porém, o estado virginal — isto é, o fato concreto de um corpo perpetuamente intocado — se enquadrou numa estrutura singularmente poderosa de mediação, pois Metódio talvez concordasse de bom grado com o antropólogo moderno em que o problema central da religião é restabelecer uma espécie de ponte entre Deus e o Homem, e a mediação nesse sentido é sempre obtida pela introdução de uma terceira categoria, que é anormal em termos das categorias racionais corriqueiras, sendo o terreno intermediário anormal, não-natural, santificado e, tipicamente, o foco de todos os tabus e práticas ritualísticas.
50. Ao criar Adão, Deus unira as esferas antitéticas do espírito incorruptível e do barro decadente da terra, pois apenas mantendo seu corpo intacto, através da renúncia a uma sexualidade normalmente associada com a pessoa física — ou seja, com o barro mortal e corruptível — é que Adão pudera quedar-se no Paraíso, cantando louvores a seu Criador como uma criatura da terra unida numa antífona solene às hostes incorpóreas dos anjos.
51. Portanto, era essencial que Metódio negasse o que julgava ser a sugestão de Orígenes — que a carne humana pudesse um dia evaporar-se por completo na de um ser angelical —, pois em momento algum tinham os seres humanos existido como seres inteiramente angelicais, desprovidos da matéria carnal sólida de Adão e Eva.
52. Essa noção relaxou a elevada tensão do universo de Metódio, pois a carne humana virginal, argila física que poderia ruir a qualquer momento na sexualidade e tinha de permanecer despedaçada na sepultura até ser reformada pelo Criador na ressurreição dos mortos, era o ponto de mediação sumamente tenso entre dois polos irreconciliáveis.
53. Os que houvessem aprendido, mediante um esforço constante da vontade, a manter seu estado anormal, como possuidores de um corpo terreno a que se recusava a expressão sexual comumente associada aos seres terrenos, poderiam ficar entre o céu e a terra, pois serviriam de ponte sobre o imenso fosso que todos os pensadores da antiguidade recente, fossem eles pagãos, judeus ou cristãos, viam entre o mundo superior e o mundo inferior.
54. A virgindade — partênia —, como Tecla lembrou ao grupo, derivava de para to theion: o estado físico da virgindade fazia com que o ser humano ficasse junto do divino, pois na imaginação de Metódio a ponte sobre o abismo entre Deus e o homem passava pelo corpo de suas jovens virgens.
55. É justamente em suas frases mais helênicas que se pode ver, em Metódio, a diferença entre sua concepção da posição dos seres humanos no cosmos e a posição defendida por Plotino e Porfírio, pois, para Plotino, a própria alma desencarnada era o mediador que unia os polos antitéticos do universo.
56. A alma era um ser de júbilo que se estendia desde o Todo-Poderoso até tocar a superfície fria da matéria, pois, como a imponente imagem de Atena que se podia ver junto aos muros de Troia, somente a alma vigorosa é que ligava a terra aos céus, pois, embora seus pés caminhem ainda sobre o solo, ela tocou com a cabeça as alturas celestiais.
57. Com Metódio, é o barro frágil do corpo virginal, e não a alma, que se afirma imponente como Atena, caminhando na terra e tocando a abóbada celestial, pois, para Porfírio, a mente insone de Plotino ficara eternamente postada em segurança acima dos ímpetos de seu corpo; com Metódio, é o próprio corpo virgem que se eleva acima do barro comum do mundo.
58. Em seu estado virginal, o corpo desfrutaria de uma superioridade antes atribuída apenas à mente, pois os corpos das virgens de Metódio pendiam, qual harpas afinadas, do salgueiro fresco e sem frutos, muito acima da voragem das águas da Babilônia.
59. Nesses pequenos indícios, pode-se pressentir mais uma reviravolta da época, pois no século II a sexualidade havia posto de lado a mortalidade, aos olhos de muitos cristãos radicais, colocando-se como sintoma privilegiado da fragilidade dos seres humanos.
60. A partir de Orígenes e Metódio, a ausência de sexualidade na minoria de eleitos forneceu à raça humana novos mediadores, pois as figuras etéreas e tremeluzentes dos daimones, dos heróis e das almas dos sábios, que haviam ligado os céus à terra, erguendo-se acima da raça humana nas regiões intermediárias do universo platônico recente, foram eclipsadas na imaginação cristã pelos corpos dos jovens virgens na terra.
61. Qual lamparinas suaves de puro óleo filtrado num mundo envolto em trevas, eles brilhavam pelas longas vigílias noturnas da infância, da adolescência e da velhice até se iluminar a aurora da vinda de Cristo.
62. Os dias de Metódio estavam contados, pois o sereno guia de almas virgens mudou-se de Olimpo para Patara.
63. Patara era um porto marítimo próximo de Caria, província que ainda ostentava uma área de culto pagão em franca revivescência — o grande templo de Zeus em Panamara —, pois em 312 o imperador pagão Maximiano Daia visitou Caria.
64. Sua divina presença fulgurou pela província, fazendo cessar o banditismo nas montanhas, pois a lei e a ordem voltaram à região.
65. Depois, o imperador deve ter-se deslocado para a costa da Lícia, pois Metódio, o bispo e mentor cristão de damas bem-nascidas, foi executado.
66. Nessa mesma onda final de perseguições, surgiu um personagem em Alexandria que fez exatamente o que fizera Orígenes pouco mais de um século antes: prestou serviço aos confessores nas minas e nas prisões, pois nos tribunais demonstrou grande entusiasmo, estimulando à prontidão os que eram convocados como réus e acolhendo-os, presumivelmente com o beijo da paz, enquanto passavam pelo martírio, e permanecendo com eles até que fossem aperfeiçoados.
67. No entanto, seria impossível imaginar um guia espiritual mais diferente do jovem Orígenes, pois tratava-se de um egípcio de meia-idade que havia crescido num vilarejo faialita.
68. Trajava-se como um camponês, com uma túnica sem mangas como as que cobrem os egípcios, pois tomava o cuidado de lavá-la antes de se postar num lugar de destaque entre os aparteadores cristãos na corte do governador.
69. Apenas a túnica o distinguia como um estrangeiro na cidade, pois na época de Orígenes o imperador Caracala havia expulsado camponeses egípcios semelhantes de Alexandria, e eles ficavam ociosos pela cidade depois de afluírem do interior para o grande festival de Serapis.
70. Agora, o grande festival era o espetáculo oferecido às igrejas do Delta do Nilo pelo julgamento dos mártires cristãos, pois muitos desses visitantes fervorosos de Alexandria eram homens já chamados, ao que parece, mesmo naquela época, de monges, monachoi — solitários.
71. O estranho era Antônio, pois chegara a Alexandria depois de passar cerca de vinte anos num forte arruinado nos confins do deserto, vindo de Arsínoe, do outro lado do Nilo.
72. Deve-se fazer um rápido tour d'horizon no próximo capítulo, a fim de fazer um levantamento da ampla gama de significados que se haviam associado à renúncia sexual nas diversas regiões cristãs, antes que as igrejas das terras povoadas se vissem desafiadas, no curso do século IV, pelos novos horizontes descortinados diante delas pela imensidão do deserto.