3 Hermas a Tertuliano

Peter Brown. The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity; Twentieth Anniversary Edition with a New Introduction (Columbia Classics in Religion)

3 Martírio, profecia e continência: de Hermas a Tertuliano

1. A profecia foi uma realidade na Igreja Primitiva, pois na época de Paulo a presença do Espírito de Deus entre os convertidos pagãos declarara que o retorno de Cristo era iminente, e na ocasião em que Justino escreveu, um século depois, julgou-se que a existência de profetas nas igrejas cristãs provava de maneira concludente que Deus havia abandonado Israel, habitando agora Seu poderoso Espírito o Novo Israel da Igreja, que profetizaria, teria sonhos e visões.

2. A cultura cotidiana das comunidades cristãs, com suas orações, salmos, cânticos, reconciliação de desavenças pessoais e visão de si mesmas num futuro conturbado, desabrochou sob a aura do Espírito Santo, e cada um devia ser diligente na ida à igreja, lugar onde floresce o Espírito, ali ouvindo o que não lhe veio à mente e progredindo nas coisas que o Espírito dá através do profeta que oferece instrução ao povo.

3. A presença ativa do Espírito de um Deus supremo entre eles era um peso esmagador para qualquer grupo humano de carne e osso, em especial para os cristãos, que se consideravam herdeiros do sentimento advindo do judaísmo da majestade e transcendência exclusivas do Deus de Israel, e os cristãos do século II viviam num mundo povoado por espíritos invisíveis mentirosos, tendo claro sentimento do poder da trapaça e do auto-engano ao menos em seus inimigos.

4. Para ter autoridade, a profecia tinha de ser vista como experiência arrebatadora e quase necessariamente espasmódica, que escapasse ao controle consciente do profeta, e aqueles que, como o próprio Paulo, oravam em estranhas línguas angelicais estavam orando no Espírito enquanto sua mente consciente ficava de lado, de modo que nas situações tensas o verdadeiro profeta tinha sua fala mais eficaz ao emitir um imenso grito não premeditado.

5. O Espírito de Deus não era um visitante ocasional da Igreja, estando sempre à disposição dos fiéis como sinal de Sua presença exclusiva no meio deles, mas em cada comunidade alguns cristãos se distinguiam como veículos extraordinariamente fidedignos das mensagens de Deus, e esperava-se que sua vida trouxesse a marca de uma proximidade excepcional do Espírito Santo, sendo a abstinência sexual um desses marcos, que desempenhou papel importante no estabelecimento da autoridade dos profetas em muitas igrejas do século II, como escreveu Atenágoras que se encontrariam muitos dentre nós, homens e mulheres, envelhecendo sem se casar na esperança de viver em comunhão mais estreita com Deus, pois permanecer na virgindade e na condição de eunuco faz com que nos aproximemos de Deus.

6. Um comentário dessa natureza seria instantaneamente compreensível para os judeus e pagãos contemporâneos, pois ambos acreditavam que a abstinência da atividade sexual, e em especial a virgindade, tornavam o corpo humano um veículo mais apropriado para acolher a inspiração divina, já que a possessão era uma experiência íntima e dramaticamente física que implicava uma inundação do corpo por um Espírito divino e estranho, e não chega a surpreender que se julgasse que essa experiência excluía o cálido afluxo de espíritos vitais nesse mesmo corpo, tradicionalmente associado às relações sexuais.

7. Filo de Alexandria apresentou Moisés sob esse prisma, dizendo que depois de seu encontro com Deus no Sinai ele passou a desprezar o sexo por dias sem conta e quase que desde o momento em que, possuído pelo Espírito Santo, iniciou sua obra como profeta, porquanto considerou conveniente conservar-se sempre pronto para receber as mensagens oraculares, e as lendas judaicas posteriores ratificaram essa concepção, pois após quarenta dias passados na presença de Deus Moisés perdeu o interesse nos atos, sua mulher sentiu-se desprezada e, ao tomar conhecimento de que o Espírito do Senhor também invadira a outrem, tudo o que pôde dizer foi tristes das mulheres desses homens.

8. Conquanto isso seja sabido, há muito pouco conhecimento sobre o que a continência significou na vida dos próprios profetas e das congregações a que ministraram a palavra de Deus, e alguns cristãos do século II se consideraram chamados a ser profetas desde o ventre da mãe, conservando assim uma condição permanente de solteiros, e a intensa ênfase no nascimento virginal de Cristo no Evangelho de S. Lucas aponta para uma mentalidade em que a virgindade e o dom da profecia estavam estreitamente ligados, sendo possível referir-se com estima a um homem como eunuco e aparecendo as virgens como profetisas.

9. No entanto, por mais impressionantes que possam ter sido essas figuras virginais, elas constituíram uma exceção, pois era mais frequente os profetas seguirem sua vocação quando anciãos, conhecidos pela comunidade cristã, tendo tido filhos a quem haviam criado como cristãos e mantendo suas famílias e sua riqueza pessoal com a qual sustentavam a Igreja, e ao contrário dos seguidores mais impetuosos de Jesus ou mesmo de S. Paulo, não se haviam transformado em peregrinos cheios de espiritualidade, tampouco eram reclusos com uma imensa tentação de se retirarem para o deserto.

10. Os homens e mulheres deste capítulo permaneceram firmemente arraigados às cidades do Mediterrâneo, e muitos conservaram os preconceitos sociais e sexuais de pessoas idosas que um dia se haviam casado, pois embora tivessem passado a abandonar a atividade sexual e se considerassem relativamente imunes ao desejo sexual, ainda esperavam que os jovens se casassem e reagiam com estardalhaço aos perigos sexuais associados à presença de mulheres nas congregações dos santos.

11. Não acreditavam que a vinda do Espírito Santo livrasse seus corpos repentinamente da atividade sexual e do desejo sexual, como faziam outros cristãos, e escrevendo nos últimos anos do século II, homens como Irineu, em Lyon, e Tertuliano, em Cartago, tenderam antes a achar que o corpo estava passando por uma preparação lenta mas segura para acolher em si o peso aterrador do Espírito de Deus, e Irineu, por exemplo, acreditava firmemente que o estado que ocasionalmente testemunhava nos profetas cristãos era aquele a que chegariam todos os cristãos na ressurreição, quando o Espírito Santo repousaria em segurança na frágil argila do corpo, como teria feito se Adão não houvesse renegado o Senhor.

12. A profecia só era concedida a uns poucos eleitos nessa época porque a pessoa humana fora privada do Espírito Santo pela queda de Adão, achando-se assim exposta à animosidade da morte, e um contemporâneo de Irineu, Melito de Sardis, era citado com grande respeito como um eunuco continente que viveu inteiramente no Espírito Santo, para quem, como para Irineu, a morte era o sinal de uma trágica ruptura da unidade espiritual originária da pessoa humana, pois houve separação do que um dia se ajustou harmoniosamente e o corpo harmonioso cindiu-se em dois, já que o homem foi dividido pela morte.

13. De que modo o frágil corpo mortal poderia tornar-se um continente fidedigno do Espírito do Senhor foi o centro das preocupações de cristãos como Melito e Irineu, e o declínio gradativo da atividade sexual conjugal era uma parte reconhecida desse processo, mas o abandono do coito seguia os ritmos normais da vida, sendo costumeiramente associado à viuvez e à instalação da velhice, e nem todos os fiéis, entretanto, podiam esperar até que envelhecessem.

14. A vocação para a morte violenta foi uma realidade tão palpável para os cristãos do século II quanto a chegada do Espírito Santo, e era de vital importância para os fiéis que um corpo capaz de ser portador do Espírito de Deus nas assembleias cristãs em tempos de paz fosse também capacitado, através de Cristo e de Seu Espírito, a suportar a devastadora possessão negativa associada aos tormentos do destino dos mártires, pois somente a profunda permanência de Cristo e Seu Espírito dentro deles poderia permitir a homens e mulheres resistir à invasão de suas almas e corpos pela dor irresistível da tortura e pelo oprimente medo da morte.

15. Assim, a continência, embora fosse um traço marcante da profecia cristã, era um aspecto secundário, uma preocupação que tendia a se destacar na literatura cristã nas ocasiões em que a perspectiva da morte violenta era menos imediata, e só lentamente, em alguns círculos, é que a profecia e a renúncia sexual passaram a ser vinculadas de maneira inequívoca, como se uma dependesse da outra.

16. A melhor maneira de avaliar a complexidade da situação é examinar o único profeta cristão cuja vida visionária nos é conhecida, Hermas, autor de uma coletânea das visões que teve em Roma por volta de 120 d.C., amplamente divulgadas sob o nome de O pastor, que permitem ver um profeta que, embora abstinente, nunca se afastou muito da vida e dos valores dos chefes de família.

17. Poucas figuras da Igreja Primitiva são tão encantadoras ou francas quanto Hermas, ou, para sermos mais cautelosos, quanto o personagem que Hermas escolheu encarnar ao se dirigir à comunidade romana, e ele tinha poder de convicção por descrever tão transparentemente as tensões de seu próprio coração, sendo um profeta da sinceridade de propósitos numa comunidade urbana sofisticada.

18. Hermas conhecia as inquietações capazes de dividir o coração e alimentava poucas ilusões de que tais inquietações pudessem não ser permanentes em Roma, e a comunidade gozava do apoio financeiro e da proteção de fiéis abastados, sendo a dipsychia, a angustiante duplicidade da alma, o pecado insistente dos ricos patronos, divididos entre a confiança em Deus e a necessidade de preservar suas fortunas familiares e manter contatos com amigos pagãos, e Hermas não era exceção, pois se inquietava constantemente com sua família e estava convencido de que as boas graças de Deus seriam demonstradas no sucesso mundano de seu lar.

19. Antes de se tornar um profeta cristão, Hermas tinha sido um escravo liberto em ascensão, pois seu amo o vendera a uma dama cristã, Rosa, e paciente, pouco dado à indignação e sempre com um sorriso, Hermas, o continente, sabia o que era lutar pelo controle do coração rebelde, e o fato de sua proprietária cristã, ao se banhar no Tibre, ter um dia pedido a Hermas, na época um simples escravo cujos sentimentos sexuais tinham pouca importância, que a ajudasse nua em pelo a sair da água, não tinha exatamente contribuído para aumentar a paz de espírito do profeta, que pensara que seria um homem abençoado se tivesse uma mulher de tal beleza e distinção por esposa.

20. O incidente, do qual mais tarde ele foi relembrado numa visão pela própria Rosa, fora um lembrete das tentações sexuais que ameaçavam macular seu dom profético e atrair sobre ele a ira de Deus, pois a luxúria e os anseios particulares eram impróprios num homem cujo coração deveria tornar-se transparente para o Espírito Santo.

21. Contudo, esse era o defeito dos homens casados que viviam entre as casas de família, e Hermas tomou o cuidado de recomendar aos que, como ele, fossem tentados à luxúria por outra mulher que procurassem nessas ocasiões pensar nos encantos de suas próprias esposas, e ele e sua mulher tencionavam viver na continência como resultado da vocação reiterada para as visões que levara à composição do Pastor, mas a época em que sua mulher seria para ele uma irmã ainda estava por vir.

22. Sua batalha moral mais profunda não fora a superação da tentação sexual, mas consistira antes em conquistar e exortar os outros a conquistarem um precioso estado de simplicidade infantil, de nepioíés, que era a pedra angular de todo um complexo de noções morais que evidentemente tinham grande importância na confederação de lares cristãos que compunham a igreja romana, e Hermas se deteve nela amorosamente.

23. Antes da puberdade a criança era inocente e desfrutava ininterruptamente do precioso dom da retidão do coração e da falta de malícia, pois os anseios e as fantasias sexuais ainda não tinham cindido sua face de seu coração, e o mundo da astúcia adulta, do egoísmo adulto e da hipocrisia adulta, do qual o despertar das sensações sexuais na puberdade era um sintoma premonitório inicial, ainda não se fechara sobre ela, e a criança era capaz de confiar sinceramente e não aprendera a arquitetar o mal em seu coração.

24. Hermas queria que a igreja cristã se compusesse de membros retos e infantis, e um homem de aparência resplandecente, transparente para seus vizinhos e confiante em Deus, era o que ele desejava ardentemente que ele e os outros fossem, pois somente num grupo composto de pessoas assim é que a palavra de Deus desceria dos céus, repleta de autoridade por não ser maculada pelo egoísmo pessoal.

25. Hermas não esperava que muitos de seus leitores fossem pessoas solteiras, eunucos continentes ou virgens, e ao escrever sobre a virgindade tinha em mente a lealdade permanente da Igreja a seu Senhor, e não a castidade de cada fiel, pois a rigor a virgindade era uma questão séria demais para meros seres humanos.

26. Para Hermas, homem de antecedentes judaicos, a virgindade estava menos associada a um estado de integridade física anterior ao casamento do que a um perigoso hiato na vida das moças casadoiras, hiato que começava pela instalação da puberdade da donzela e prosseguia até a abertura do ventre pelo nascimento do primeiro filho, sendo uma imagem que evocava a noção de risco, e não de integridade.

27. Assim, Paulo apresentara a Igreja em Corinto como sendo semelhante à virgem Eva, estremecendo no limiar de mais uma sedução potencial pela serpente astuciosa sob a forma dos inimigos de Paulo, e posteriormente Hegésipo escrevera num lamento que eles costumavam chamar a igreja de virgem, pois ela ainda não fora seduzida, e nem todas as virgens fraquejavam nesses anos volúveis e perigosos da vida de uma moça, pois a boa virgem permanecia fiel a seu noivo e seu marido, que era seu único Senhor.

28. Foi com essas implicações que o termo virgens foi usado pelo profeta do Apocalipse, onde não foi aplicado a indivíduos, mas a conjuntos inteiros de fiéis que não tivessem sido seduzidos a abandonar sua lealdade a Cristo.

29. Para Hermas, a única virgem digna de consideração em Roma era a própria Igreja, sob cuja égide se reuniam os poderes virginais da alma, e a doce influência desses espíritos virgens em seu coração permitiu que Hermas comunicasse à sua comunidade as humildes virtudes rotineiras apropriadas às pessoas casadas, a falta infantil de afetação, a confiança e a sinceridade, e elas farfalhavam por sua mente ampla como jovens graciosas, dançando pelos verdes prados de uma Arcádia cristã, beijavam e abraçavam o profeta, e Hermas dançava com elas, alegre como um garotinho.

30. Ao cair da tarde, elas despiam suas vestes de linho e as estendiam no chão para se deitar e dormir na companhia dele, enquanto Hermas, o continente, fazia zelosamente suas orações por toda a noite ao lado delas, e Hermas foi um profeta formado à sombra de jovens meninas em flor, pois o toque dos espíritos virginais o ajudava a viver em abstinência com sua mulher, mas não o transformou num pregador da virgindade.

31. O que ele ofereceu, antes, com base em suas visões, foi uma última chance de os cristãos romanos obterem o perdão por seus pecados, que eram os pecados de uma comunidade sofisticada que precisava, não da continência, mas da virtude mais sociável e elementar da sinceridade de propósitos.

32. Nas páginas de Hermas encontramos homens de negócios bem-sucedidos investindo em bens imobiliários, padres competitivos e preocupados com sua posição social, professores autodesignados e rivais profissionais do próprio Hermas na suprema arte da profecia, num vislumbre claro daquilo em que se podia transformar uma comunidade cristã em qualquer grande cidade romana, pois os cristãos urbanos a quem Hermas se dirigiu já eram semelhantes àqueles a quem Tertuliano reagiria com uma censura deliberada em Cartago e em prol de cujas necessidades complexas Clemente de Alexandria escreveria com delicada minúcia já no finzinho do século.

33. Uma geração depois de Hermas, na Ásia Menor Ocidental, e ainda mais tarde em Lyon, a sombra da morte desceu sobre os porta-vozes das igrejas, e menino ainda, Irineu se lembrou do idoso bispo de Esmirna, Policarpo, e quando Policarpo foi executado por volta de 156-157, aos 86 anos de idade, os que registraram seu martírio frisaram a beleza indestrutível de sua carne santa, e na cena terrível em que ele foi submetido à violência da fogueira, o autor do Martírio descreveu apenas o doce perfume que se elevava de sua carne carbonizada, enquanto ele se erguia em meio às chamas, não como carne que ardesse, mas como o pão sendo assado, ou como o ouro e a prata sendo purificados num forno de fundição.

34. Passada uma geração, Irineu escreveu sobre a futura glória de todos os cristãos, postos num mundo recriado por Deus para seu deleite físico como justa recompensa por terem suportado tantos tormentos na terra, e a estranha beleza que se superpusera à horrenda morte de Policarpo era um vislumbre desse futuro, pois o novo corpo, não mais cindido do Espírito Santo, viveria num mundo plenamente material, tão repleto de bondade quanto o aroma inebriante de um campo totalmente em flor.

35. É possível que tenha sido Irineu quem descreveu a morte dos mártires de Lyon em 177-178 d.C., e a escrava Blandina foi torturada com um grupo de companheiros, sendo pendurada num poste com os braços abertos para que em sua agonia seus companheiros vissem com os olhos da carne, na pessoa de sua irmã, Aquele que fora crucificado por eles, e Blandina finalmente morreu após reiterados tormentos, insensível às chifradas de um touro selvagem, arrebatada na comunhão com Cristo.

36. Para Irineu, uma pessoa assim representava nada menos do que a natureza humana em seu aspecto mais sublime, e a mártir Blandina foi a culminação dos longos séculos desde a criação originária de Adão e de sua queda, em que a raça humana se acostumou pouco a pouco a receber e suportar o imenso peso de Deus, e só mesmo um homem muito vulgar teria perguntado nessa ocasião se Blandina se havia preparado para a presença do Espírito Santo praticando a abstinência sexual, e Irineu não era esse homem.

37. Víbia Perpétua era uma jovem casada de uma boa família provinciana, e o dom do Espírito Santo lhe permitiu emergir como porta-voz e líder moral dos mártires da prisão de Cartago em 203 d.C., e suas visões e seu relato dos sentimentos vividos nessa época têm um vigor e uma autoridade pessoal cativantes, pois culta e corajosa, Perpétua recebeu do Espírito Santo a possibilidade de ingressar numa nova e elevada vocação, confiante em que fora concedida à sua igreja uma profusão de graças que permitiria enfrentar as condições sombrias dos tempos modernos.

38. Perpétua não foi uma mulher votada à continência, pois já era mãe de família numa cidadezinha da África do Norte e é possível que fosse senhora e protetora do grupo de cristãos que foi preso com ela, e como mãe de 22 anos, uma matrona plenamente adulta pelos padrões romanos, alegrava-se em amamentar seu filho na prisão antes de ele lhe ser retirado, dizendo que recuperou prontamente a saúde, aliviada que ficou de suas preocupações e angústias acerca da criança, e que sua prisão se transformou subitamente num palácio, de modo que preferia estar ali do que em qualquer outro lugar.

39. Sua entrada no presídio de Cartago foi o ingresso no mundo do Espírito Santo, e ela escreveu que naqueles dias foi batizada e foi inspirada pelo Espírito Santo a não pleitear nenhum outro favor depois da água, mas simplesmente suportar os tormentos da carne, e foram semanas apavorantes, pois nunca tinha estado numa cova tão escura, com a multidão o calor era sufocante, depois veio a extorsão pelos soldados e ela era torturada pelas preocupações com seu bebê, mas Perpétua era agora uma mulher em quem a imensa graça de Deus se depositara.

40. Numa série de grandes visões do outro mundo, Perpétua conduziu seus seguidores, de olhos abertos, para sua morte terrível, e no primeiro grande sonho foi a monstruosa cabeça do puro terror físico que ela pisoteou, abrindo caminho para o doce jardim do Paraíso por uma escadaria de espadas cortantes, e depois sonhou que se fizera homem para lutar com um egípcio imponente, sonho que lhe trouxe profunda consolação.

41. Os pobres miseráveis condenados às feras nem sequer podiam esperar por um antagonista humano, pois o horror surrealista da damnatio ad bestias, da condenação às feras selvagens, estava em se permitir que o humano sucumbisse totalmente ao animal, e um homem sonhou que passava por uma transformação e tinha patas de urso em lugar de mãos, e condenado à morte foi entregue às bestas selvagens, sendo amarrado a um poste de madeira e devorado por um urso, daí o sonho das mãos, pois sempre que um urso hiberna em sua caverna ele põe a pata na boca e suga à guisa de alimentação.

42. O padre Sáturo, companheiro de Perpétua, continuara aterrorizado até o último momento ante a perspectiva de tal morte, mas ao ser atado aos mastros à espera do urso, o animal se recusou a sair da jaula, e sentir por trás do pesadelo sem rosto que a aguardava a forma sólida de um combate com o Demônio, de homem para homem, sob a forma de um atleta humano conhecido das multidões de Cartago, foi uma vitória da vontade de Perpétua, que soube que conquistaria a vitória.

43. Matrona até o fim, com o rosto resplandecente e uma serena altivez, rechaçando o olhar da multidão com o poder de seus olhos, Perpétua chegou a se voltar para pedir uma travessa com que manter presos seus cabelos, que se haviam desmanchado ao primeiro impacto da vaca selvagem que atiçaram contra ela, recusando-se a ser vista com os cabelos soltos ao vento como se fora uma mulher descomposta pelo luto, pois aquele era o dia de sua coragem suprema, o dia de seu triunfo no Senhor, e aquele era seu munus, um espetáculo público.

44. Sua coragem intrépida permitiu-lhe suplantar o clima de comemoração solene em que os cidadãos de Cartago se haviam reunido, no aniversário do herdeiro do trono, para humilhar e aniquilar seus inimigos, com a exuberância jocosa que era um aspecto particularmente aterrador da ordem romana.

45. É possível, mas não certo, que Perpétua tenha participado do ressurgimento da fé na presença permanente do Espírito Santo na Igreja, iniciado com a emergência da Nova Profecia de Montano, que surgira na distante Frígia nas décadas de 150 e 160, incluía manifestações dramáticas da profecia cristã e se tornou um dos primeiros movimentos populares da história da Igreja, mas a Cartago romana ficava muito afastada dos vales elevados da Anatólia ocidental.

46. Na mesma ocasião em que Perpétua sofreu seu martírio na cidade, a autoridade profética afirmada pelos montanistas foi abraçada, por motivos que lhe eram muito próprios, pelo talentoso Tertuliano, dono de magnífica eloqüência, homem de vasta idiossincrasia e um dos mais hábeis oradores de sua época, que sabia exatamente como criar uma plateia para suas concepções reconhecidamente extremadas, apelando para os preconceitos incontroversos e para as ansiedades comuns dos cristãos instruídos.

47. Assim, longe de representarem os extravasamentos taciturnos de um gênio solitário, os escritos de Tertuliano permitem vislumbrar o aglomerado de noções conflitantes sobre a sexualidade, bem como os sentidos passíveis de se ligarem à renúncia a ela, que circulavam nas grandes igrejas latinas do início do século III.

48. Se a Nova Profecia não tivesse existido, suspeita-se de que Tertuliano teria tido que inventá-la, pois por volta de 205 ele estava convencido de que a disciplina de Deus, o código preciso e inflexível da conduta esperada dos cristãos compenetrados, precisava ser atualizado através de novas instruções diretas, transmitidas aos fiéis por visões e profecias extasiantes, e os mandamentos renovados dos céus sustariam a crescente presunção, a imoralidade e a covardia da maioria dos correligionários cristãos de Tertuliano, e somente os cristãos perpetuamente abertos à palavra do Espírito Santo, como tinham sido Montano e seus seguidores, saberiam viver a vida de maneira a que a sorte conferida a Perpétua pudesse tornar-se também para eles um momento de sumo triunfo.

49. Mas o problema era que o martírio demorava a chegar, pois os cristãos-modelo de Tertuliano eram filósofos reservados e austeros, cultos e relativamente bem posicionados na sociedade cartaginense, e por isso mesmo as autoridades romanas tendiam a ignorá-los, e embora a cela do mártir fosse o verdadeiro deserto a que os cristãos deviam aspirar para falar frente a frente com Deus, Tertuliano e seus leitores foram poupados do destino de Perpétua.

50. Tertuliano teve de buscar em outra parte um critério de profecia verdadeira que se pudesse aplicar aos que ainda não tinham conseguido viver sob a sombra majestosa da morte de um mártir, e sua resposta foi magnífica e persistentemente simples, pois a continência, a suspensão de toda e qualquer atividade sexual futura, atraía o dom do Espírito Santo, conforme escreveu que pela continência se adquiriria um grande estoque de santidade, e economizando na carne seriam capazes de investir no Espírito.

51. Olhai para o corpo foi a fórmula brilhante e enganosamente simples de Tertuliano, pois o corpo era um organismo unificado, e Tertuliano era estoico e, como muitos de seus contemporâneos, ávido leitor da literatura médica, não sendo de modo algum um dualista, e na verdade sua insistência no controle do corpo foi tão rigorosa justamente por ele acreditar que era diretamente através do corpo e de suas sensações que a alma se ajustava à suprema intensidade exigida para que vibrasse com o Espírito de Deus.

52. A alma era um corpo sutil e invisível, mas concreto, depositado no molde do corpo externo, daí o imediatismo arrebatador com que a alma vivenciava o outro mundo, pois no momento da visão o outro mundo a invadia com uma força plena e palpável, como lhe garantiu uma profetisa em certa ocasião, que ela acabara de ver uma alma, que não era coisa vazia e sem espaço, mas na verdade algo que quase se podia alcançar e tocar.

53. Ao despertar de sua primeira visão na prisão de Cartago, Perpétua ainda se sentira mastigando uma substância adocicada que o próprio Cristo lhe dera para comer quando, em sua visão, ela se elevara ao Paraíso, e para os que enfrentavam morte cruel, a visão de alma de Tertuliano explicava o imediatismo extasiante de suas visões, à medida que a pessoa interna era impelida para o conforto seguro e real da presença de Deus, sendo essa uma doutrina apropriada para a época, por mais bizarra que se afigurasse em épocas posteriores.

54. Mas a doutrina tinha seu lado obscuro, pois a vida instintiva do corpo e as fantasias caóticas e aflitivas do coração se faziam sentir na alma com intensidade inatenuada e premente, e o coração era um sismógrafo que vibrava instantaneamente ao mais ínfimo abalo sexual, à mais fugaz imagem sexual, e o desejo sexual crescente registrava a mais diminuta porção de alimento consumida além da norma prescrita.

55. Tertuliano falou em nome da Nova Profecia, defendendo os jejuns prolongados e a continência com inflexível precisão médica, pois o jejum era necessário, caso contrário toda a habitação da pessoa interna ficaria saturada de alimento, e um fluxo de pensamento que anseia por eliminar sua carga de excremento transforma-se em nada além de uma obsessão com o lavatório, não lhe restando outra coisa senão passar daí para as ideias de concupiscência.

56. Essa era a voz de um mestre inimitável da retórica latina, que Jerônimo leria passados dois séculos com deleite e, segundo se teme, exagerado proveito, e com Tertuliano temos a primeira afirmação coerente, redigida para os cristãos instruídos e destinada a desfrutar de um longo futuro no mundo latino, da crença em que a abstinência sexual era a técnica mais eficaz para se chegar à lucidez da alma, conforme o convite a examinar o mundo interno e pensar em como o homem se sente ao se abster da mulher, pois ele tem pensamentos espirituais, se reza ao Senhor fica bem junto do paraíso, se se volta para as Escrituras faz-se inteiramente presente para elas, se entoa um salmo preenche todo o seu ser de júbilo e se exorciza um demônio fá-lo com plena convicção de sua própria força.

57. A receita de Tertuliano para uma visão clara foi austera, mas ao mesmo tempo profundamente conservadora, pois ele isolou o corpo com uma precisão médica e o submeteu a uma série de abstinências rigorosas que dariam à alma uma visão clara, mas não permitiu que a prática da continência debilitasse de nenhum modo as estruturas básicas da família, e mesmo quando o dono e a dona da casa viviam na castidade a fim de receber uma orientação clara do Espírito Santo, seu lar conservava sua riqueza e seus escravos, as mulheres deviam obedecer aos homens e as crianças aos mais velhos.

58. A comunidade cristã a que Tertuliano se dirigiu em Cartago pouco diferia da de Roma tal como esta é revelada no Pastor de Hermas, sendo uma confederação de lares de fiéis em que predominavam as pessoas casadas.

59. A visão de Tertuliano sobre a liderança ideal da Igreja foi a de uma gerontocracia imbuída do Espírito Santo, pois os que se sentavam nos bancos reservados ao clero e aos líderes da comunidade eram viúvos e viúvas idosos, que tinham uma longa experiência de vida, e essa experiência incluía a geração e criação de filhos nos anos distantes e ardorosos da mocidade, antes que o anseio sexual rareasse com a aproximação da velhice.

60. O destinatário de sua Exortação à castidade foi um desses viúvos, que não deveria ser um peregrino carismático e não precisava ser advertido contra tentações mais sinistras do que a ânsia de voltar a se casar, e sem nenhum indício de ansiedade, Tertuliano tratou de lhe recomendar que tomasse uma irmã cristã para viver com ele como companheira e cuidar de sua casa, pois os ímpetos sexuais que tinham de ser severamente reprimidos nos jovens dificilmente afligiram, na opinião de Tertuliano, um cavalheiro idoso de inclinações proféticas.

61. Por mais poderosa que fosse sua palavra, o Espírito Santo respeitava as estruturas domésticas sem as quais teria sido impossível ao cristianismo sobreviver numa cidade como Cartago, e o mesmo se deu nas cidadezinhas montanhosas da Ásia Menor, pois uma profetisa de Cotiaion, na Frígia, de nome Nanas, foi descrita como uma mulher de extensas e poderosas orações, destacando-se pelas visitações dos anjos e milagrosa no dom das línguas, mas continuou conhecida como uma mulher casada, respeitada com simplicidade pela vizinhança, e foi seu marido quem cumulou sua lápide simples de versos e mais versos num grego rebuscado, e embora não fosse necessariamente montanista, suspeita-se de que Nanas tenha sido uma profetisa bem ao gosto de Tertuliano.

62. Os textos de Tertuliano resumem uma das correntes da opinião cristã sobre a pessoa humana e sobre os vínculos entre o indivíduo e a sociedade, pois para os cristãos que seguiam sua orientação as restrições normais da sociedade não deveriam ser abaladas pela exaltação do Espírito Santo, e Tertuliano ainda pensava instintivamente em termos de uma hierarquia fixa de grupos etários e de uma igreja agrupada em torno do lar cristão.

63. A sexualidade tinha que ser rigidamente controlada entre os jovens casados e passíveis de se casar, mas a idade logo arrefeceria seu ardor, e era preciso reprimi-la no fim da vida para que o Espírito Santo pudesse inundar sem obstáculos o coração dos viúvos e viúvas, e quanto ao desejo sexual, talvez ele diminuísse nos velhos, mas nunca poderia ser abolido por completo, pois os impulsos sexuais eram um componente irremovível e perigoso da pessoa humana, e os que julgavam que a graça conferida aos cristãos pelo advento do Espírito Santo lhes facultava transcender os perigos associados à atração sexual estavam, na opinião dele, profundamente equivocados.

64. O enraivecido tratado de Tertuliano Sobre o velamento das virgens foi escrito na mesma época de sua Exortação à castidade e deixou claras as profundas divergências existentes nas atitudes cristãs perante a sexualidade e perante os possíveis sentidos que se podiam agrupar em torno do ato da renúncia sexual, pois algumas jovenzinhas da igreja cartaginense haviam resolvido permanecer solteiras, e em decorrência dessa decisão seus correligionários as incentivaram a frequentar a igreja com a cabeça e o rosto descobertos, sendo possível até que o fizessem num lugar de destaque especialmente designado.

65. Por terem renunciado à atividade sexual, considerava-se que haviam rompido a barreira do som da vergonha sexual em que supostamente se baseava o velamento tradicional das mulheres, e apesar de plenamente adultas, elas se consideravam livres para abandonar o véu que se supunha externalizar a vergonha sexual associada às mulheres que tinham idade suficiente para passar pelo estigma comum do leito conjugal, e longe de ficarem chocados com esse gesto, muitos membros da igreja cartaginense decididamente se regozijaram com ele, pois o estado estranho e anormal de virgens dedicadas, elevadas acima do opróbrio e esplendidamente descobertas, representava um sinal da glória divina num mundo sombrio.

66. A reação de Tertuliano a essa situação revela uma visão da natureza da Igreja Cristã que antecipou claramente o futuro desenvolvimento do cristianismo latino, pois nas outras comunidades cristãs, particularmente na Síria, grandes esperanças eram depositadas no gesto da renúncia sexual, e renunciar à atividade sexual significava algo além de manter os anseios sexuais sob controle através de uma autodisciplina rigorosa, pois a renúncia e o batismo na Igreja decretavam nulo e sem efeito o poder do sexo.

67. Acreditava-se que a posse do Espírito Santo, conferida pelo batismo, elevava homens e mulheres acima do vasto opróbrio da condição humana, e postar-se sem véu em meio aos fiéis era declarar a plenitude da redenção trazida por Cristo, tratando-se de um gesto simbólico limitado à congregação dos fiéis e permitido apenas às mulheres abstinentes, e é possível que não tivesse nenhum efeito apreciável no comportamento cotidiano do cristão e da cristã médios, mas ao menos na igreja a mulher descoberta e continente era uma visão espantosa, pois seu rosto descoberto e seu cabelo solto resumiam a esperança de todos os fiéis, que não portavam véu porque o véu da corrupção lhes fora retirado e não se envergonhavam porque o ato da vergonha fora afastado para longe deles.

68. Tertuliano negou peremptoriamente que os cristãos pudessem alimentar tais esperanças, pois para ele a Igreja era uma congregação austera, e ninguém dentro dela, e muito menos as mulheres, podia ousar afirmar-se excepcional, e a graça, para Tertuliano, vinha apenas das mãos de Deus e era concedida para prostrar por terra a frágil exibição da iniciativa humana.

69. Ingressar na Igreja era debilitar um pouco a força dos poderes demoníacos que regiam o mundo pagão fora de seus muros, mas não equivalia a ficar livre, nem mesmo por um momento altamente convencional, do imenso peso gravitacional da natureza humana, o que significava na prática que nenhum cristão podia se declarar livre das convenções sociais que a fragilidade humana exigia, e uma moça acima do opróbrio sexual era, em termos muito diretos, uma brincadeira da natureza, um terceiro sexo.

70. Tertuliano foi o primeiro, mas de modo algum o último autor latino a criar, com um domínio retórico da argumentação ad hominem, o engenhoso artifício de uma natureza humana constante e imutável, eternamente subjugada às realidades do sexo, e entranhou profundamente a sexualidade no corpo humano, pois a mulieritas, estado da mulher ciente de seus próprios sentimentos sexuais e capaz de inspirar sentimentos sexuais em outrem, era um estado que começava inelutavelmente na puberdade, não sendo possível a uma jovem amadurecida virginificar-se simplesmente deixando a cabeça descoberta na igreja.

71. A convenção social, portanto, era a mesma dentro e fora da igreja, baseando-se numa reação do bom senso compartilhada por pagãos e cristãos à ameaça palpável do desejo sexual entre todos os seres humanos e, mais particularmente, à conhecida capacidade de sedução da mulher, e a misoginia a que Tertuliano recorreu tão insistentemente era, em sua opinião, fundamentada em dados inalteráveis da natureza, pois as mulheres eram sedutoras e o batismo cristão nada fazia para alterar esse fato, e as precauções tomadas para incentivar o pudor nas mulheres do mundo pagão foram apenas maximizadas entre os santos, visando o velamento das mulheres a uma natureza humana comum que nenhum rito batismal drástico podia ter a pretensão de descartar.

72. O Espírito Santo podia conceder ao corpo humano o dom supremo da resignação diante da morte, mas a graça de Deus não retirava de homens e mulheres as fraquezas permanentes associadas à sua natureza sexual, e essa foi uma mensagem clara, escrita num latim admirável, que não seria desperdiçada nas igrejas que depois produziram Cipriano, Ambrósio, Jerônimo e o grande Agostinho, devendo agora deslocar-se para a outra extremidade do mundo cristão, para as províncias orientais do Império Romano, na região entre Antioquia e o norte da Mesopotâmia, a fim de rastrear a emergência, no decorrer do século II, de grupos cristãos baseados em atitudes perante a sexualidade, perante a renúncia a ela e perante a pessoa humana que divergiam significativamente das de Tertuliano e de seus futuros leitores no Ocidente Latino.