No domínio da história das crenças e das ideias religiosas, é difícil senão impossível começar pelo começo, pois o desejo de identificar limites nítidos e limiares precisos se choca com a realidade concreta e complexa da vida social e da transmissão dos saberes.
Os eventos da história das crenças não podem ser datados como se datam reinados e campanhas militares.
Essa dificuldade vale ainda mais para a cabala, cujas origens permanecem obscuras e cujos vestígios antigos são de interpretação difícil e discutível.
A historiografia testemunha essa dificuldade: para Salomon Munk, no século XIX, a cabala teria origem no judaísmo alexandrino do fim da Antiguidade, ele próprio marcado pelo pensamento pitagórico; para Adolphe Franck, ela começa na Pérsia com Zoroastro; para Gershom Scholem, ela nasce de um encontro entre um gnosticismo judeu antigo e o neoplatonismo medieval.
Mais recentemente, Moshé Idel identificou traços de sua existência em escritos gnósticos e herméticos, bem como nos corpus rabínicos do Talmude e do Midrach, concluindo pela sua grande antiguidade — ou ao menos pela grande antiguidade de seus motivos principais. Cf. Moshé Idel, Maimônides e a mística judaica, Le Cerf, Paris, 1991.
Apesar de sua preexistência silenciosa no judaísmo do fim da Antiguidade, a cabala só emerge à luz pública e floresce no final do século XII, em reação às posições do filósofo e autoridade rabínica Maimônides (1138—1204), que sustentava terem os segredos da Torá se perdido e que a metafísica de Aristóteles deveria substituí-los vantajosamente.
Segundo Moshé Idel, foi para provar que a tradição secreta do judaísmo não havia desaparecido totalmente por causa do exílio que os primeiros cabalistas medievais começaram a registrar por escrito elementos do patrimônio esotérico contestado.
Yehoudah Liebes vê em alguns textos órficos os vestígios de uma mística judaica antiga que estaria na origem das elaborações medievais conhecidas como cabala, e em particular do livro do Zohar. Cf. Yehoudah Liebes, “The Kabbalistic Myth of Orpheus”, em Studies in Jewish Myth and Jewish Messianism, State University of New York Press, Albany, 1993.
A simples datação do Livro da Criação — Sefer Ietsirá —, que parece ser a primeira expressão literária da cabala, é uma tarefa árdua que ainda suscita discussões vigorosas.
As polêmicas que eclodem periodicamente nesse campo atestam o caráter hipotético das conclusões alcançadas, e uma hipótese condenada a permanecer hipótese não está longe de fazer figura de mito para eruditos.
Os cabalistas parecem ter minado o caminho que conduz aos primeiros entre eles, apagando os rastros de seus passos.