O consenso interpretativo inicial acerca da literatura apocalíptica costuma ser marcado por uma recepção baseada em ironia fria.
Desinteresse da mentalidade moderna, científica e racionalista em relação às profecias tradicionais fundadas na revelação divina.
Perda de viabilidade do apocalipse bíblico entre cristãos crentes devido à desmitologização da mensagem das Escrituras.
O Livro de Daniel e o Apocalipse de João surgem como exemplos máximos dessa vertente ao exibirem visões bizarras e símbolos exuberantes.
A permanência de elementos do apocalipsismo literal manifesta-se de modo expressivo em diversos grupos fundamentalistas e carismáticos contemporâneos.
O fenômeno interpretativo do apocalipse espalha-se para além dos círculos religiosos menos respeitáveis por meio de disfarces seculares.
Argumentação de J.V. Schall definindo o apocalipse na atualidade como um fenômeno eminentemente científico em vez de religioso.
Presença de profetas da perdição iminente que baseiam suas leituras em revelações científicas obscuras e controversas.
As projeções científicas sobre a expansão populacional, a ameaça atômica, as mudanças atmosféricas e a escassez de recursos fundamentam as previsões de destruição da raça humana e do mundo.
Uso do estilo e da forma da mensagem, além da conclamação à ação, para caracterizar a obra An Inquiry into the Human Prospect, de Robert Heilbroner, como um apocalipse secular.
O panorama investigativo dos últimos decênios direcionou-se para a compreensão do significado teológico do apocalipsismo nos pensamentos judeu e cristão.
A persistência de desacordos sobre questões centrais caminha paralelamente ao crescimento considerável do conhecimento e do interesse pelo tema nas últimas décadas.
O reavivamento do interesse pelo papel do apocalipsismo alcançou a teologia contemporânea com reflexões profundas de grandes pensadores.
Dedicação de teólogos alemães como Ernst Käsemann, Wolfhart Pannenberg, Karl Rahner e Jürgen Moltmann ao significado teológico do apocalipsismo.
Estudo recente do teólogo suíço H. Mottu sobre as implicações teológicas contemporâneas de
Joaquim de Fiore, o principal autor apocalíptico medieval.
Validação do apocalipsismo como uma preocupação séria para o cristianismo atual demonstrada pela existência dessas recuperações críticas.
O foco majoritário das pesquisas recentes fixou-se na teologia apocalíptica e na coerência dos sistemas de pensamento.
A espiritualidade apocalíptica configura-se como uma das áreas menos exploradas pelas investigações, abarcando as maneiras pelas quais o apocalipsismo afeta as ações do crente.
A presente obra propõe-se a contribuir para o conhecimento da espiritualidade apocalíptica nos períodos patrístico e medieval.
O escopo do livro afasta-se do pensamento ou da teologia apocalíptica em si, abdicando de esboços históricos gerais ou da resolução de disputas teóricas.
A busca por detalhes do cenário dos últimos eventos encontra textos mais essenciais em outras fontes fora desta coletânea.
A seleção dos tratados e das cartas justificou-se pela capacidade desses textos em manifestar como as crenças no fim iminente afetavam a vida dos fiéis.
A exortação de visões e ações direcionadas ao público leitor constitui o objetivo primordial das obras selecionadas.
A extensão temporal dos textos abrange quase doze séculos sob a autoria de diversos escritores e circunstâncias variadas.
A introdução geral destina-se ao exame de duas questões amplas e de caráter teórico.
A primeira questão conceitual refere-se ao próprio termo apocalipsismo e aos critérios para julgar quais obras pertencem a essa categoria.
A segunda indagação avalia a utilidade e a abrangência da noção de espiritualidade apocalíptica ao longo dos séculos.
A escassez de trabalhos prévios nessa área reduz as presentes observações a guias para investigações futuras, sem pretensão de conclusões fixas.
O propósito das seleções concentra-se na apresentação das evidências para um público amplo a fim de estimular novos debates.
O entendimento etimológico do apocalipsismo liga-se à palavra grega para revelação, denotando uma mensagem divina sobre o fim iminente do mundo ou de sua forma presente.
A imprecisão terminológica decorre das relações complexas com vocábulos afins como escatologia, profecia, milenarismo, milenarismo quiliástico e messianismo.
A exigência de explicações preliminares sobre o uso dos termos atua como um dever mínimo dos autores, dispensando o acordo universal.
A ausência dessas definições ou a interpretação baseada em ideias preconcebidas geram confusões desnecessárias na literatura.
O apocalipsismo define-se estritamente como uma forma particular de escatologia, espécie de um gênero mais amplo voltado para o fim da história como estrutura de significado.
A amplitude do conceito de profecia engloba o apocalipsismo, definindo o profeta como uma pessoa inspirada que se crê enviada por seu deus com uma mensagem.
O traço distintivo do apocalipsismo face à escatologia geral reside fundamentalmente no senso de proximidade do fim.
A singularidade do apocalipcista como um tipo específico de profeta decorre tanto da especificação de sua mensagem quanto de seu caráter culto, escrito ou escribal.
O milenarismo refere-se em termos gerais às crenças em uma futura sociedade terrestre de caráter mais perfeito.
A importância dessas expectativas quiliásticas não esgota o conteúdo da mensagem apocalíptica, concentrando-se prioritariamente em seu polo otimista.
A atividade do Cristo que retorna e de outros agentes divinos insere elementos de messianismo no apocalipsismo.
O tamanho dos problemas nominalistas diminuiria caso houvesse um consenso mínimo entre os estudiosos sobre o núcleo do apocalipsismo.
A controvérsia sobre a melhor forma de compreender o conteúdo apocalíptico persiste na pesquisa anglo-saxã, mesmo em obras que não adotam formalmente o gênero de um apocalipse.
A maioria das tentativas de listar os componentes essenciais do apocalipsismo baseou-se nos apocalipses judeus do período entre 200 a.C. e 100 d.C..
A ampliação da definição para abranger as crenças cristãs e judias tardias sobre o fim iminente acentua as dificuldades de uma fórmula única.
A substituição de listas rígidas baseadas apenas em exemplos judeus primitivos por uma estrutura de temas inter-relacionados mostra-se mais adequada para abranger séculos de tradição.
O estágio inicial dessa tarefa metodológica evidencia-se pelas observações preliminares apresentadas pelo autor.
Os interesses centrais do apocalipsismo situam-se na relação entre o tempo e a eternidade, entre a vida humana na história e o plano eterno do reino celestial de Deus.
Revelação de uma mensagem do reino celestial por meio do livro do vidente apocalíptico.
Proclamação de um drama histórico em três atos: provação presente, julgamento iminente e salvação futura.
A inserção implícita ou explícita desse padrão triplo opera dentro de uma visão da estrutura total da história, expressa em vaticínios sobre as eras do mundo ou a sucessão de impérios.
A superação iminente da morte constitui uma certeza fundamental para o pensador apocalíptico.
A presença variável desses temas nos apocalipses judeus do período formativo entre 200 a.C. e 100 d.C. moldou o desenvolvimento do apocalipsismo cristão por séculos.
O apocalipsismo cristão manifestou motivos semelhantes mesmo após o declínio do gênero formal do apocalipse por volta do ano 300 d.C..
Busca por uma visão universal da história concebida como uma estrutura divinamente ordenada.
Pessimismo profundo sobre o presente, interpretado como um tempo de crise, degeneração moral, perseguição dos bons e triunfo dos ímpios.
Otimismo fundado na crença em um julgamento divino iminente para a punição dos maus e a vindicação dos justos.
A concepção da vindicação assumiu formas variadas, frequentemente milenaristas, sem se limitar a esse modelo.
A transcendência da morte permaneceu vinculada às esperanças futuras do apocalipsismo desde as suas origens históricas.
O desdobramento da literatura apocalíptica judia no cristianismo tardio gerou uma dupla descendência expressa em textos apocalípticos e em uma rica literatura visionária sobre o destino da alma após a morte.
A emergência de uma tradição de espiritualidade apocalíptica secular fundamenta-se na permanência desses grandes temas ao longo dos séculos.
Reconhecimento das diferenças de substância e nuance contra a rigidez de isolar uma mentalidade apocalíptica única.
Validação da espiritualidade apocalíptica como uma das vertentes importantes na história da busca cristã por Deus.
A caracterização da literatura apocalíptica como um instrumento de consolação para aqueles que enfrentam crises e perseguições religiosas constitui um lugar-comum.
A ligação entre atitudes apocalípticas e crises profundas — desde a perseguição dos judeus sob Antíoco IV
Epifânio até as guerras modernas — foi descrita por Amos N. Wilder.
Definição da retórica apocalíptica por Amos N. Wilder como a dramatização da hierofania grupal em situações de descontinuidade e caos.
Atribuição de sentido renovado ao processo histórico no momento de maior anomia por meio de uma revelação extática.
A exortação à firmeza na hora da provação baseia-se na promessa de que Deus virá em breve para recompensar os justos e punir os inimigos.
A afirmação de Walter Schmithals corrobora que o apocalipsismo supera a mera reação às estruturas causais da realidade existente.
Rejeição da ideia de causalidade mecânica: a perdição sob Antíoco
Epifânio não causou o apocalipsismo judeu, assim como a crise da Igreja no século doze não causou as ideias de
Joaquim de Fiore.
O senso de crise presente atua mais propriamente como ocasião ou contexto do que como força motivadora nesses movimentos históricos.
O surgimento de estágios importantes da tradição apocalíptica processou-se fora de situações de descontinuidade grave ou de anomia social generalizada.
A divergência entre as percepções individuais de crise e os julgamentos gerais de uma época ou visões posteriores de historiadores relativiza o peso desse fator.
O apocalipcista define-se melhor como alguém que está à procura da crise e não como quem apenas reage a ela de modo passivo.
A mentalidade apocalíptica constitui uma modalidade de pré-compreensão e não um simples mecanismo de resposta.
A sensibilidade apurada diante das transformações gera nos apocalipcistas a necessidade de uma estrutura religiosa capaz de absorver e conferir sentido às ansiedades da existência.
Essa demanda existencial impulsiona a modelagem da história e das vidas desses indivíduos em formas distintas e reconhecíveis.
A complexidade dos propósitos de difusão das mensagens apocalípticas ultrapassa a categoria exclusiva da consolação.
A preocupação com o sentido e a estrutura da história confere amplas implicações políticas ao apocalipsismo no sentido原da governança do Estado.
A proposta apresentada na obra Visions of the End sugere a divisão do discurso apocalíptico medieval entre os modos a priori e a posteriori, dotados de funções positivas e negativas.
O modo a priori utiliza o drama apocalíptico herdado e suas figuras simbólicas para conferir significado aos eventos correntes.
A aplicação positiva do modo a priori ocorre no suporte às estruturas da sociedade cristã ameaçada, enquanto a aplicação negativa incita a resistência a governantes vistos como agentes do mal.
As etapas primitivas do apocalipsismo assumiram majoritariamente o caráter a priori negativo devido às origens sob dominação estrangeira e perseguição romana.
A conversão do Império Romano ao cristianismo revelou os usos positivos e de sustentação do apocalipsismo, frequentemente negligenciados por observadores.
Continuidade do uso negativo para fomentar revoluções, como nos Taboritas da Boêmia do século quinze, ou para a resistência passiva dos Fraticelli no século catorze.
Emprego frequente para encorajar o apoio à sociedade cristã contra inimigos externos, como o Islã e os mongóis, ou internos, como heréticos e governantes ímpios.
A atribuição da vitória final a Deus não impedia a convocação do fiel para pegar em armas e lutar ao lado da divindade no drama do fim.
As funções a posteriori manifestaram-se após o século quarto por meio de ampliações no cenário tradicional para abrigar reflexões sobre grandes mudanças na sociedade cristã.
A conversão do Império Romano e a ascensão do papado à liderança religiosa universal constituem os dois maiores exemplos do modo a posteriori.
Inexistência de indícios textuais para essas figuras nas Escrituras ou na tradição cristã primitiva.
Criação desses novos papéis como resposta de autores apocalípticos a mudanças que só podiam ser assimiladas via projeção transcendental no fim dos tempos.
A concepção do Império Romano Cristão como força de retenção do Anticristo e do imperador como autoridade divina máxima tornava impensável a ausência deles nos últimos eventos.
A relevância do ofício papal impunha de igual modo a necessidade de atribuição de um papel nos tempos finais.
Os usos a posteriori do apocalipsismo operavam no sentido de apoiar as próprias instituições que passavam pelo processo de apocalitização.
A atribuição do papel de Anticristo ou de seus predecessores a vários imperadores e reis cristãos encontra precedentes na
Bíblia.
O Último Imperador corporificava uma figura messiânica positiva, concebido como guerreiro e flagelo para exercer vingança sangrenta sobre os inimigos e purificar a Igreja.
O papel apocalíptico do papado apresentou maior ambiguidade na Baixa Idade Média.
Disseminação de esperanças quanto ao surgimento de uma série de papas santos, denominados pastores angelici.
Expressão de crença na dignidade do ofício papal associada à crítica aos pontífices correntes que não correspondiam às exigências do cargo.
A identificação de papas contemporâneos malfazejos ou heréticos com o próprio Anticristo amparou-se na noção escriturística do falso mestre assentado no Templo.
O apocalipsismo serviu a uma multiplicidade de propósitos, atuando tanto na crítica quanto na defesa das potências deste mundo.
Os textos apocalípticos convidam o leitor a uma escolha clara entre o bem e o mal, justificando o forte componente moralista dessas obras.
O tratado de Lactâncio sobre as últimas coisas no sétimo livro de suas Instituições Divinas configura-se tanto como descrição do fim quanto como análise da vida virtuosa.
Pensadores como
Joaquim de Fiore e Savonarola sentiram-se compelidos a anunciar o fim iminente como uma última advertência para que os pecadores abandonassem seus caminhos.
O moralismo por vezes enfadonho dos autores apocalípticos ligava-se à convicção de que os atos finais da história excluiriam zonas cinzentas.
A contrapartida do moralismo expressa-se na ênfase conferida ao valor da paciência e da resistência sob a provação e o sofrimento.
Presença dessa dimensão em todas as seleções, brilhando com nitidez nas cartas do monge Adso e dos Franciscanos Espirituais.
Relato comovente de Ângelo de Clareno sobre os quarenta anos de provações sofridos com seus companheiros como lição de paciência.
A Carta aos Filhos de Carlos II, de Pedro de João Olivi, estrutura-se como uma fuga teológica cuidadosa sobre o tema da resistência.
A confiança do fiel no fim iminente é sustentada por três vias principais em meio à perseguição.
A primeira via consiste na segurança básica decorrente do senso de pertencimento à história e da capacidade de situar o presente no plano eterno de Deus.
A segunda via reside na capacidade de suportar o mal presente pela certeza de que o tempo de sua duração será curto.
A terceira via define a esperança que preenche o fiel de alegria pela certeza de que a vindicação será definitiva, consumando a história e superando a morte.
A necessidade de concordâncias fictícias com origens e fins para dotar de sentido a duração da vida humana foi defendida por Frank Kermode em The Sense of an Ending.
A vinculação da vida individual e coletiva a um início e a um fim atua como um mecanismo para superar o denominado terror da história de Mircea Eliade.
A capacidade do apocalipse de ser desconfirmado sem ser descreditado fundamenta sua sobrevivência sob disfarces na contemporaneidade.
A permanência e a premência das ansiedades humanas aliviadas pelo apocalipsismo impedem que falhas temporárias destruam o seu poder de atração.
A atribuição de um significado particular ao momento presente supera em importância a segurança histórica geral dada pelo apocalipsismo.
O pensamento do apocalipcista qualifica-se como intensamente histórico segundo as palavras de W. Schmithals.
A relação dessa hora com o fim iminente e com a transformação do mundo confere aos crentes a coragem para suportar os breves males enfrentados.
A percepção da iminência variou consideravelmente entre os autores da coletânea.
A presença dessa distinção nos autores antigos atesta-se no texto de
Joaquim de Fiore sobre a figura do dragão de sete cabeças.
O tempo do fim podia ser concebido como curto ou longo, abrangendo tanto a hora da provação quanto o milênio terrestre de vitória posterior.
O traço distintivo do apocalipcista tradicional residia na convicção de que o presente integrava o tempo final em que a história alcançaria seu propósito.
A abertura das cortinas e o início do espetáculo simbolizam o senso de urgência desse pensamento.
A expectativa ardente da vindicação apoiava-se em uma esperança superior a qualquer sofrimento terreno.
A perspectiva sobre a vida humana dada pelo apocalipse estabelece que a morte física não constitui um desastre definitivo segundo John Collins.
A esperança na transcendência da morte entrelaçou aspectos individuais e coletivos de modo indissociável para os autores apocalípticos.
A convocação individual para a decisão na hora crítica fundamentava a recompensa, sem que o apocalipcista caísse no solipsismo.
A transformação do homem e de sua sociedade legou uma das contribuições mais preciosas do apocalipsismo ao pensamento ocidental.
A interpretação da espiritualidade apocalíptica como mera realização de desejos ou projeção de necessidades humanas surge como leitura possível.
As recuperações teológicas contemporâneas de Pannenberg, Moltmann ou Rahner também rejeitam o retorno a predições ingênuas ou padrões históricos ultrapassados.
O acordo em torno da superação dos padrões literais ingênuos do passado recebe a anuência do autor da obra.
A destruição precipitada do apocalipsismo literal corre o risco de impedir a compreensão do significado religioso dessa longa tradição.
O apelo de Paul Ricoeur por uma segunda ingenuidade alcançada via interpretação crítica dos símbolos apresenta-se como caminho promissor.
A expectativa do organizador reside no auxílio que os textos apresentados possam dar para a realização dessa tarefa exegética.
O uso das Escrituras nos tratados e cartas manifesta considerável liberdade na citação dos textos sagrados.
A permanência de um fim além do fim serve de transição para os agradecimentos institucionais e intelectuais do autor.