O recurso de não escolher um nome para designar um Deus que não pode ser conhecido sem uma margem de ignorância pertence a todas as teognosias que admitem a apófase, seja para superá-la em uma epistemologia teológica, seja para transformá-la no caminho para um além de todo conhecimento.
Embora o Deus inefável constitua o terreno comum de quem reservou espaço para a via das negações no pensamento religioso, há tantas inefabilidades quantas teologias negativas existem.
A negação implica uma busca, caracterizada como uma investigação na qual ocorre a obrigação de rejeitar sucessivamente tudo o que pode ser encontrado e nomeado, negando por fim a própria investigação por envolver a ideia do que é procurado.
As obras alemãs e latinas de Mestre
Eckhart insistem na inefabilidade divina ao declarar que Deus é indicível, que ninguém pode falar Dele e que Ele está além de todo nome ou sem nome.
Não se encontra um nome adequado para Deus, e a tentativa de nomeá-lo resultaria em um rebaixamento de sua divindade.
A inteligência, em um sermão alemão tradicionalmente atribuído a
Eckhart, recusa-se a aceitar um Deus que se deixa designar por um nome, buscando ingressar onde Ele não possui denominação.
A inteligência aspira por algo mais nobre e melhor do que Deus, na medida em que Ele tenha um nome.
O que pode ser designado por um nome não é Deus quando se pensa na divindade.
O repúdio aos nomes divinos atinge o nível máximo, porém, a busca pelo Inominável constitui a procura por um nome, nem que seja para designar Deus pela inefabilidade que o distingue de tudo o que é nomeável.
A indagação sobre a busca do nome de Deus manifesta-se no questionamento feito a Jacó, que desejava a revelação do nome divino.
Ao comentar a passagem do Gênesis,
Eckhart adota uma fórmula do livro dos Juízes que questiona a procura pelo nome, qualificando-o como admirável.
O Mestre aplica operações gramaticais ao texto sagrado para extrair as interpretações possíveis, conforme os métodos hermenêuticos da época.
A primeira leitura estabelece que não se deve buscar o nome por ele ser o Admirable.
Ocorre uma concordância com os textos bíblicos dos
Salmos e de Isaías sobre o nome admirável.
A segunda leitura associa a busca do nome admirável à expressão Aquele que é ou o que é.
Eckhart relaciona a frase ao texto do Êxodo sobre o Deus que é, preferindo manter-se no registro da elevação negativa em vez de preencher o nome com a plenitude do Ser.
A terceira maneira de ler o texto apresenta o paradoxo de um nome que é espantoso por estar acima de todo nome, estabelecendo concordância com a epístola aos Filipenses.
O caráter sublime do nome o torna inefável, exigindo a união de termos contraditórios expressa na fórmula do nome inominável.
Santo
Agostinho apontou esse paradoxo do Inefável como uma aporia, visto que o inefável deixa de sê-lo quando se diz algo ao nomeá-lo dessa forma.
O silêncio é considerado preferível para evitar o combate verbal antes que se tente acalmá-lo pelas palavras.
Mestre
Eckhart afasta-se da verdadeira intenção de santo
Agostinho ao citar a passagem do De doctrina christiana.
O bispo de Hipona pretendia reduzir ao absurdo a inefabilidade de Deus interpretada em sentido absoluto.
Santo
Agostinho renuncia à acepção absoluta do termo inefável para reservar a ele um sentido relativizado, indicando que as palavras humanas não convêm à excelência da natureza divina.
A limitação prudente da apófase direciona a teologia para a via eminentiae, onde as negações afastam as imperfeições do entendimento humano em vez de excluir a noção positiva da natureza divina.
Mestre
Eckhart não rejeitou a utilização da via das negações que encontrou expressão clássica em são
Tomás de Aquino.
O dominicano turingiano aprova e se refere a essa concepção da apófase, mas admite simultaneamente outra acepção da teologia negativa em que a inefabilidade de Deus guarda um sentido absoluto.
Eckhart preserva o alcance do termo inefável no texto analisado.
A citação truncada de
Agostinho serve para enfatizar o paradoxo da inefabilidade, sem a intenção de renunciar ao conflito verbal.
O teólogo alemão não se intimidou com a aporia assinalada por santo
Agostinho e reconheceu o próprio gosto por expressões paradoxais.
O conflito verbal foi fixado por
Eckhart na definição contraditória do nome inominável.
A quarta leitura proposta por Mestre
Eckhart acentua o caráter objetivo da inefabilidade divina, apontando que é espantoso buscar o nome de quem é inominável.
A investigação não encontra o nome de uma realidade que não pode ser nomeada e cuja natureza consiste em ser escondida.
A ambiguidade do nome inominável permite duas traduções para a fórmula eckhartiana sobre a natureza do ser escondido, dependendo do valor verbal ou substantivo atribuído ao termo esse.
A primeira interpretação traduz a frase como o nome Daquele cuja natureza é a de estar oculto.
A segunda interpretação adota o termo esse como substantivo e traduz a frase como o nome Daquele cuja natureza é o Ser oculto.
O paradoxo encaminha para a doutrina do ser própria de
Eckhart, na qual reside o fundamento da inefabilidade do Deus que é o Ser escondido por natureza.
O exame remete à segunda leitura do texto sagrado, onde o nome admirável recebia o sentido de o que é, identificado com o Deus do Êxodo.
A aproximação com a segunda interpretação permite afirmar que, se Deus pode ser nomeado Ser, é justamente como ser que Ele é um Deus escondido cujo verdadeiro nome escapa.
Mestre
Eckhart afirma explicitamente em outra obra que Deus, sob a razão de ser e de essência, está como que dormindo e latente, escondido em si mesmo.
Deus não pode ser nomeado enquanto Ser.
O impulso apofático de
Eckhart passa a ser guiado pela noção de ser como condição da inefabilidade divina, sem encontrar um limite intransponível para a busca do nome inominável.
O caminho em direção ao Deus desconhecido exige que o sujeito que busca retorne a si mesmo, pois Deus não é exterior a quem procura seu nome sob a razão de ser.
A última modificação da quarta leitura do texto afirma ser espantoso buscar fora o nome de Quem não está no exterior, mas na profundidade íntima.
O Ser oculto permanece inefável enquanto Ser, mas não é estranho a quem o busca.
O acesso ao mistério do nome inominável exige um retorno para si mesmo, configurando uma instase em direção à intimidade do ser, em vez de uma êxtase.
Denys introduz o tema do nome inominável ao abordar as duas vias próprias da teologia.
A Tearquia suressencial pode ser louvada a partir de seus efeitos por ser a Causa de todos os seres aos quais confere a existência, embora permaneça desconhecida em si mesma.
Os autores sagrados exaltam a divindade como não tendo nome e como capaz de ser louvada por todos os nomes.
A exaltação de Deus como inominável ocorre quando as visões místicas mostram a Tearquia repreendendo quem perguntava pelo seu nome.
A resposta divina afasta o interlocutor do conhecimento nominativo ao declarar que o nome é maravilhoso.
Os teólogos celebram Deus como possuidor de nomes múltiplos quando as Escrituras registram as expressões Eu sou Aquele que sou, a Vida, a Luz, Deus e a Verdade.
Outros nomes decorrentes dos efeitos da Causa divina são atribuídos a Deus, tais como Bom, Belo, Sábio, Amado, Deus dos deuses e Senhor dos senhores.
A oposição entre a polinímia e o anonimato corresponde às duas vias contrárias da teologia baseadas nas posições e nas negações.
A via negativa é considerada mais perfeita por visar a natureza inefável e as uniões que prevalecem sobre as distinções ou procissões da Divindade.
Thomas Gallus ampliou a frase de Denys aludindo a que todas as coisas existentes pertencem a Deus causalmente, mas nenhuma delas o define pela propriedade da substância.
A causalidade implica uma presença reveladora de Deus em tudo o que produz, sendo inseparável da manifestação do Deus—Bonté.
O nome de Ser designa uma virtude manifestadora e uma procissão produtora de essências em todos os seres, em vez de indicar a Essência suressencial em si mesma.
Deus permanece fora de tudo o que é, segundo sua natureza inacessível, embora seja a Causa dos seres na medida em que se manifesta e se faz participar.
Pode—se afirmar que Deus não é, ou que está além de toda posição ou negação, situado acima da oposição entre o ser e o não—ser.
A conscientização dessa transcendência radical exige a superação de todas as manifestações divinas na existência.
A negação de todos os nomes aplica—se Daquele que é desconhecido e inominável.
O ser também deve ser negado para se atingir o Transcendente anônimo em uma ignorância superior a todo saber, visto que o nome do ser indica a Causa universal em sua primeira manifestação.
Denys considerava que Deus não havia entregado seu nome inominável na revelação do Êxodo, pois nenhum nome convém à natureza divina considerada além de toda procissão externa.
O nome do ser é o nome da Causa de tudo o que existe, figurando em primeiro lugar entre os nomes múltiplos com que as Escrituras honram a Deus em sua economia.
Mestre
Eckhart tinha presente o texto do De Divinis nominibus ao comentar a passagem do Gênesis onde Deus recusa revelar seu nome.
A primeira via da elevação para a natureza indicível foi o único foco de interesse de
Eckhart nesse momento.
Eckhart desconsiderou a questão dos nomes múltiplos para declarar com Denys que o nome situado acima de todo nome é inominável por não poder ser expresso.
O acordo entre os dois teólogos não é total devido à divergência quanto à razão da inefabilidade.
Denys apresenta Deus recusando o conhecimento nominativo para afastar o homem de tal pretensão.
O nome inominável equivale à ausência de nomes aplicáveis a Deus na transcendência absoluta de sua natureza.
O nome além dos nomes não constitui um nome, assim como o conhecimento que transcende os saberes constitui ignorância.
Mestre
Eckhart mantém o nome inominável como um paradoxo fascinante que reforça mediante o uso de citações de santo
Agostinho.
A abordagem apofática de
Eckhart revela uma atitude diferente daquela de Denys.
Eckhart espanta—se com a busca do nome de algo inominável, mas fundamenta a inefabilidade em termos opostos aos de Denys.
Denys explicaria a inefabilidade porque Deus em sua natureza suressencial transcende tudo o que é e o próprio ser.
A apófase de Denys eleva—se até a exclusão do ser para atingir a natureza anônima, enquanto a de Mestre
Eckhart inclui o ser na noção negativa e faz do esse o fundamento da inefabilidade divina.
O comentário de são
Tomás de Aquino ao texto de Denys constitui outra fonte teológica utilizada por
Eckhart em sua exposição.
Mestre
Eckhart considerava o comentário de são Tomás ao tratar do nome inominável em seu trabalho sobre o Gênesis.
A comparação entre os textos evidencia por que o teólogo alemão substituiu a autoridade do capítulo trinta e dois do Gênesis por um texto do livro dos Juízes citado por Denys.
São Tomás cometeu o mesmo erro antes de Mestre
Eckhart ao comentar o trecho de Denys sobre o Inominável.
A referência ao capítulo dois da epístola aos Filipenses em
Eckhart também pode ter sido sugerida pelo comentário de são Tomás.
É possível que Mestre
Eckhart tenha utilizado a Expositio super Dionysium de são Tomás em vez do texto direto de Denys para comentar o Gênesis.
A conclusão de são Tomás ao trecho de Denys sobre o anonimato e a polinímia auxilia na compreensão do sentido de ser oculto em Mestre
Eckhart.
São Tomás afirma que as outras existências são atribuídas a Deus como à sua causa, e nenhuma delas o define porque Ele supera todas as coisas.
Os nomes dos existentes convêm a Deus como sua Causa, mas Deus é o Ser inominável quando considerado em si mesmo por estar acima de tudo.
A inefabilidade que convém a Deus por estar segregado de todas as coisas não exclui o ser na visão de são Tomás.
O acréscimo do substantivo Ser ao termo Inominável de Denys funciona como uma correção prudente de são Tomás à apófase dionisiana.
A correção foi introduzida conscientemente porque o texto de Denys permitia interpretações que retiravam o caráter existencial da noção de Deus.
Tomás de Aquino percebia que a ontologia dos escritos areopagitas gerava conclusões contrárias à doutrina do ser que ele defendia.
Na Suma Teológica, são Tomás formula a objeção de que o intelecto criado só conhece os existentes, pois o ser é o primeiro objeto da apreensão.
A objeção baseada em Denys aponta que Deus não é um existente, situando—se acima do inteligível.
A resposta de são Tomás contesta uma ontologia e uma noética que lhe pareciam inaceitáveis.
O Aquinate afirma que falar de Deus como não—existente não significa privação de existência, mas indica que Ele está acima de todo existente por ser seu próprio exister.
Deus não é absolutamente incognoscível, mas excede o conhecimento humano ao permanecer incompreensível.
Las perspectivas de la apófase dionisiana são invertidas por são Tomás ao estabelecer que Deus excede o conhecimento justamente por ser o Exister mesmo ou o Ser puro.
A relação da criatura com o Criador possibilita o conhecimento de Deus pela via da analogia, pois Deus transcende o ser criado na linha existencial.
A analogia não fornece uma intelecção do ser divino como tal, mas estabelece Deus como princípio de inteligibilidade dos seres criados.
O ser é atribuído primeiramente e de modo próprio a Deus, que existe por si mesmo.
O impulso apofático de Denys é conduzido por são Tomás para a via da eminência, direcionando os conhecimentos do ser criado para o Princípio universal.
O intelecto criado só pode conhecer o ser determinado por uma essência através de suas forças naturais.
O ato de exister que atualiza a essência encontra seu limite nessa mesma actualização, onde o ser recebe o nome de um existente determinado.
O ato puro de exister é idêntico à sua essência, permanecendo indeterminável e incapaz de ser nomeado pelo que é.
O nome Quem é possui caráter analógico por não ser unívoco com o ser comum, embora seja o mais próprio por derivar do conceito menos determinado.
São Tomás evita o erro de identificar o Ser de Deus com o ser universal que constitui a base das criaturas.
Deus permanece inefável enquanto seu próprio exister por estar separado dos seres cujo ato de exister é determinado por uma essência.
Mestre
Eckhart localiza a razão pela qual Deus escapa a toda denominação na noção de Ser oculto, após tentar identificar o nome admirável com o Quem é e se deter diante do nome inominável.
O dominicano turingiano seguiu a autoridade de são Tomás ao estabelecer o ser como a razão da inefabilidade divina, afastando—se da apófase dionisiana.
Eckhart expressa em um sermão latino que Deus é inominável para os homens devido à infinidade de todo o ser Nele.
Todo conceito e nome humano importa em algo designado e limitado.
As afirmações eckhartianas alinham—se à mesma escola de são Tomás, mesmo apresentando um tom distinto das expressões doutrinais do tomismo.
O trecho do primeiro comentário sobre o Gênesis que introduz o problema do conhecimento de Deus em
Eckhart depende do texto de Denys comentado por são Tomás.
A perspectiva de
Eckhart diferencia—se da apófase que exclui o ser, situando—se no ponto em que Denys recebeu a correção de são Tomás.
Questiona—se se a inclusão do ser na noção anônima de Deus conduzirá a teologia de
Eckhart para o mesmo caminho traçado pelo Doutor Angélico.
São Tomás estabeleceu a apófase dionisiana como a segunda etapa de um caminho de conhecimento que procede por causalidade, remoção e eminência.
A via remotionis purifica os conceitos ao negar o que limita seu sentido às realidades criadas, permitindo a predicação a respeito do Criador.
A apófase opera como um meio de transformar a afirmação simples em uma afirmação por eminência.
A transformação do método negativo não exclui o ser de Deus.
A via da eminência pressupõe a relação existencial de analogia que une os seres criados ao ato puro de exister que é Deus.
A transformação tomista da apófase possui caráter existencial e analógico, permitindo falar de Deus como Ser eminente sem fixá—lo em conceitos unívocos ou equívocos.
O exame dos elementos negativos de
Eckhart em diferentes contextos teológicos faz—se necessário antes de responder se ele transformou a apófase no mesmo sentido que são Thomas.
O foco inicial detém—se no traço da apófase eckhartiana que indica o movimento da negação diante da noção de ser.
O texto sobre o nome inominável expõe a marcha da reflexão negativa do dominicano alemão perante o conceito de ser.
A modificação final consiste na interiorização do percurso apofático em direção ao Inefável.
Eckhart convida a buscar o nome inominável Daquele cuja natureza é o ser oculto no interior do próprio homem, por não se tratar de um Deus exterior.
As palavras de santo
Agostinho sobre a habitação da Verdade no homem interior remetem a passagens relativas à intimidade da presença divina na alma.
Agostinho afirma que Deus estava mais interno que seu próprio interior e mais elevado que seu ponto mais alto.
Eckhart associa esses textos agostinianos para tratar de uma presença de Deus no segredo mais íntimo e supremo da alma.
Santo
Agostinho busca a presença da Verdade imutável além da alma mutável, enquanto Mestre
Eckhart direciona a busca para as profundezas íntimas a fim de atingir Deus sob a razão do ser.
O ser é o elemento íntimo ao homem interior na visão de
Eckhart, campo no qual se deve buscar o Deus que permanece oculto por ser Ser.
A transposição dos textos de
Agostinho feita pelo dominicano aproxima—se de trechos de são Tomás sobre a intimidade do ser.
A fusão dessas duas noções de presença íntima levanta questionamentos sobre sua aceitação dentro da doutrina do ser de são Tomás.
A presença íntima de Deus em todas as coisas como Causa primeira exige a relação de analogia entre as criaturas e o Criador na perspectiva tomista.
A relação de analogia permite transformar a apófase em via de eminência para falar da Causa transcendente a partir de seus efeitos.
O tomismo não pressupõe um retorno a si mesmo para a elevação até a incognoscibilidade do Ser Subsistente, pois a especulação não abandona os limites da teologia natural.
A metafísica cristã identifica no interior das substances aristotélicas um ato primeiro que é o ato de exister, mais íntimo a cada coisa do que aquilo que determina seu ser.
O Deus incognoscível em seu Ser por si situa—se fora do campo da especulação que o estabelece por eminência a partir da existência criada, mesmo sendo o Deus da experiência mística.
A ignorância professada pelo metafísico constitui o reconhecimento dos limites do entendimento humano, não possuindo caráter místico.
A busca do Ser oculto nas profundezas da alma empreendida por Mestre
Eckhart sinaliza uma tentativa de transformar a teologia natural de são Tomás em mística.
A tentativa de converter a teologia natural em mística seria contrária ao espírito do tomismo ortodoxo.
Caso o dominicano professasse a mesma doutrina do ser que são Tomás, o raciocínio indicaria que o homem pode se conscientizar da raiz existencial que o une a Deus a partir de seu próprio exister de criatura.
Esse caminho que se direciona do exterior para o superior através do interior pertence à tradição plotiniana cristianizada por santo
Agostinho, não sendo de caráter tomista.
Mestre
Eckhart recorre à autoridade de
Agostinho para transferir a presença íntima da operação existencial do plano metafísico para o plano espiritual e psicológico.
Eckhart busca atingir a região trans—psíquica no segredo da alma onde Deus está sempre presente.
Santo
Agostinho exorta a caminhar em direção à origem da luz da razão no recolhimento interior.
A habitação da Verdade no homem interior supõe uma participação no Verbo, mas a iluminação agostiniana constitui uma condição natural do conhecimento, sem pertencer à ordem da graça.
Conhecer racionalmente em Deus difere de conhecer a Deus em um raptus mentis na obra de santo
Agostinho.
O retorno a si mesmo indicado no De vera religione representa uma tomada de consciência intelectual da Fonte do verdadeiro, não sendo uma via mística.
Mestre
Eckhart não foi o primeiro a interpretar o conselho de retorno como um chamado para o encontro místico com Deus no fundo da alma.
Eckhart caminha com santo
Agostinho para as profundezas da consciência, mas busca a imanência do ipsum esse em vez da presença da Verdade imutável transcendente.
O dominicano aceita com são Tomás que Deus cria o exister ao estar presente nos seres, mas confere um sentido subjetivo a essa relação existencial.
Eckhart busca o Deus oculto imanente no fundo da consciência pessoal, em vez de manter o princípio metafísico de transcendência baseada nos efeitos.
Mestre
Eckhart unificou as duas presenças íntimas — a condição noética de
Agostinho e o princípio metafísico de Tomás — na única presença do Ser oculto na alma.
O amálgama foi realizado por considerar como fim a ser atingido o que os outros dois teólogos definiam como condição de conhecimento ou de existência.
Eckhart afasta—se dos dois teólogos ao reuni—los no plano de uma mística que busca expressar por meio de termos da teologia especulativa.
A busca do nome inominável interioriza—se porque Deus está presente no homem interior como fonte da existência criada, sendo inefável por ser Ser.
-
O texto analisa a declaração do arquitriclino ao esposo sobre a preservação do bom vinho até aquele momento.
O esposo que guardou ou ocultou o bom vinho significa Deus na sexta interpretação proposta por
Eckhart.
O vinho representa o ser, que se mostra bom externamente nas essências criadas distintas, mas só é puro no interior como ser íntimo e efeito ocultado por Deus.
A criatura está fora e Deus está no interior mais íntimo de tudo.
O efeito próprio de Deus é o ser íntimo a todas as coisas.
Santo
Agostinho é evocado para afirmar que apenas Deus penetra na alma.
Deus penetra nas essências de tudo, enquanto a essência criada permanece fora e distinta em relação às outras.
O esposo representa Deus que guarda o bem como latente e escondido, em correspondência ao Deus escondido de Isaías e à treva de Moisés no Sinai.
Mestre
Eckhart inicia a exposição apontando o ser íntimo como um efeito próprio de Deus, de modo semelhante ao procedimento de são Tomás.
O ser íntimo passa a ser identificado linhas depois com o próprio ser de Deus que se mantém oculto nas essências criadas onde confere a existência.
Eckhart confere ao ser um sentido místico ligado ao ser inefável de Deus na profundidade da alma, encoberto pelas determinações da essência.
O mestre trata da operação divina no segredo da alma em um sermão latino fundamentado na epístola aos Filipenses.
A obra boa inicia—se por uma descida de Deus em que Ele se encontra obscurecido e conclui—se na subida para a clareza do Ser puro.
Algo íntimo à alma não recebe elementos corporais por ser dedicado exclusivamente a Deus, conforme santo
Agostinho.
Deus opera a obra boa nesse âmbito.
A descida divina gera um obscurecimento no termo, mas a perfeição realiza—se ao ascender no ser clarificado até a origem, purificado de acréscimos.
A obra boa constitui uma operação reta e não dividida na natureza inferior.
Os dias antigos representam os dias da luz intelectual e da eternidade onde a perfeição se cumpre.
A operação íntima de Deus manifesta—se como desviada ou dividida quando desce em direção à natureza inferior e à limitação do que é.
A obra divina nas criaturas é sem começo por ser realizada na eternidade onde o operar de Deus se identifica com seu exister.
O homem interior situa—se na eternidade e não no tempo ou no espaço.
A inefabilidade do Ser divino estende—se para o exister das criaturas na visão de Mestre
Eckhart, gerando uma região unívoca de ser oculto por trás das essências.
O ser não pode ser conhecido nas essências criadas por se apresentar desviado, assim como é incognoscível em Deus pela sua pureza absoluta.
A tentativa de tratar do ser de Deus e do ser das essências criadas simultaneamente resulta em equívoco.
De repente, percebemos que a doutrina do ser de
Eckhart distancia—se daquela elaborada por são Tomás.
O desenvolvimento revela uma ontologia diferente que desafia a manutenção do vocabulário existencial de são Tomás para caracterizar o pensamento do dominicano turingiano.
Eckhart parece ter separado totalmente a essência e a existência nas criaturas, tornando equívoco o sentido de um ato de existir particular destinado a atualizar uma essência distinta.
A diversidade existencial e a riqueza do ser criado defendidas por são Tomás apresentam—se distantes dessa ontologia.
Mestre
Eckhart concebe uma separação rígida entre essência e existência no interior de cada ser criado.
O ser constitui uma esfera fechada no reduto íntimo dos existentes onde nenhum elemento criado pode ingressar.
A verdadeira existência localiza—se no interior na totalidade do ser oculto, enquanto a permanência externa na singularidade não confere o ser verdadeiro.
O ser assume sentido unívoco ou equívoco, indicando que
Eckhart possuía uma concepção diferente sobre a analogia dos entes, embora se reportasse a são Tomás.
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O ser inominável de são Tomás pertence a um Deus transcendente que pode ser abordado pela via da eminência sem cair na equivocidade ou na univocidade.
O ser oculto de Mestre
Eckhart fundamenta a inefabilidade de um Deus cuja natureza consiste em ser sempre e apenas interno e no íntimo.
O ser imanente e secreto determina que o homem só existe verdadeiramente nas suas próprias profundezas.
Os seres criados são inefáveis quanto ao seu verdadeiro ser por estarem no íntimo de modo semelhante a Deus.
A resposta sobre a identidade entre o ser oculto de Deus e o ser secreto das criaturas não se resolve por uma afirmação ou negação simples.
Para o ser criado, ser no sentido próprio significa ser em Deus e no interior secreto de si mesmo na região do ser oculto.
A obra boa que Deus realiza no homem interior abrange tanto a criação pela comunicação do ser quanto a consumação das criaturas na união com Deus.
O começo e o fim identificam—se na operação de Deus que criou tudo em si mesmo na eternidade.
O homem interior sintoniza com Deus na eternidade por não pertencer ao tempo.
O verdadeiro ser das criaturas para
Eckhart resume—se ao seu ser em Deus.
O ser oculto representa uma noção mística do ser aplicável a Deus e ao fundo secreto da criatura.
Eckhart recorre a uma teologia especulativa para desenvolver a doutrina do ser através de posições contraditórias que alternam a negação entre Deus e a criatura.
A coexistência do místico e do dialético na pessoa de Mestre
Eckhart constitui um elemento natural.
A tentativa de optar exclusivamente entre o perfil místico ou o dialético estabelece uma falsa alternativa.
Críticas externas definiam
Eckhart como um espírito abstrato e dialético em detrimento de uma natureza intuitiva.
A intuição mística e a reflexão dialética ligam—se em um espírito voltado para uma realidade metalógica situada além da oposição entre Criador e criatura.
O caráter místico da intuição inicial do ser exigia a expressão por meio da dialética para traduzir a noção no campo de uma doutrina teológica.
A articulação dialética impunha—se para um pensamento religioso baseado na proposição de que o Ser é Deus.
A dialética é empregada sempre que se aborda a relação entre o ser de Deus e os seres criados.
O dominicano retoma a via da apófase interiorizada quando retorna à intuição de apreender indistintamente o Ser—Deus e o ser em Deus no reduto da alma.
A via da remoção não constitui apenas uma operação intelectual de liberação do ser, configurando uma via de abstração e despojamento espiritual.