PHILOKALIA-THERAPEUTES KENODOXIA

Jean-Claude Larchet — Terapêutica das Doenças Espirituais

Kenodoxia — Vaidade

Correntemente denominada vanglória ou vaidade, é uma paixão particularmente importante e fonte de inúmeras outras doenças da alma (psyche).

Segundo Cassiano, “ela varia muito suas formas e se divide em diferentes espécies” mas se reduz a dois gêneros, que são como dois graus:

A kenodoxia possui um extraordinário poder. Seu caráter sutil, sua capacidade de se revestir de numerosas formas, de se insinuar por toda parte e de atacar o homem por diversos lados, a tornam particularmente difícil de perceber e de combater. Segundo Cassiano, os anciãos descreveram muito bem a natureza desta doença comparando-a com uma cebola: quando se tira uma pele, encontra-se outra, e quanto mais se retira quanto mais se encontra. Segundo Evágrio a maior dificuldade de se desfazer da kenodoxia é que se a vencemos isto se torna razão para seu novo domínio sobre nós. A sua sutileza é tal que pode levar um homem a se mostrar zeloso na ascese, combater certas paixões, e praticar certas virtudes, assim como obter certos carismas. Entretanto toda ascese feita sob o impulso da kenodoxia se torna vã em definitivo, assim como as virtudes praticadas sob sua influência, e aparentes os carismas obtidos por seu estímulo. Vê-se homens alcançar resultados espirituais espantosos enquanto praticam a ascese pela força da kenodoxia, vindo a se desmoronar quando se encontram postos em condições onde esta paixão que os inspirava não encontra mais possibilidade de se exercer.

O prazer tirado da kenodoxia faz o homem mais ligado a ela pela ação de outra paixão, a philautia.

O caráter patológico da kenodoxia, como de outras paixões, vem essencialmente do fato dela se constituir na perversão de uma atitude natural e normal do homem. Esta perversão se dá pelo desvio de seu exercício “segundo a natureza” do homem, conforme sua finalidade essencial, de ser dotado por Deus com a tendência à glória, não humana (“glória segundo a carne”), mas a glória divina, a qual o homem foi destinado a obter pela sua união a Deus.