Pierre Deghaye — A Doutrina Esotérica de Zinzendorf (1700-1760). Paris: Klincksieck
Proibição espiritual
Theologia publica e Theologia arcana
Os unitaristas de todos os tempos, que reconhecem apenas o Pai como Deus, não são os principais culpados, mas sim os apóstolos tagarelas que não respeitaram o preceito de revelar o Nome apenas aos discípulos.
A pessoa do Pai pertence à teologia arcana, que Zinzendorf distingue cuidadosamente da teologia pública, sendo a teologia do Pāi uma teologia esotérica.
Zinzendorf chega a interditar que os não convertidos recitem o Pai-Nosso, sob pena de blasfêmia, pois é um privilégio adorar o Pai.
A leitura corrente da Bíblia pode ser nociva para certas pessoas, e Zinzendorf lamenta que ela tenha sido impressa em vez de permanecer como um precioso manuscrito.
Zinzendorf recomenda o uso da língua latina para evitar disputas públicas sobre temas delicados, seguindo o exemplo dos Reformadores que traduziram para o latim a prefácio de Lutero à Missa Alemã.
O Espírito e o mundo
O problema do esoterismo coloca-se de duas maneiras: como reflexo de legítima defesa contra assaltos externos e como infortúnio vindo dos próprios apóstolos que falam com demasiada liberdade.
O mundo é fatalmente um mundo de porcos, mesmo que seus filhos não pareçam desonestos nem persigam os Irmãos.
Apóstolos tagarelas transformaram o evangelho dos Irmãos (um arcano) na teologia do mundo, entregando-o aos cães.
Zinzendorf retoma a herança pietista da separação entre filhos de Deus e Satanás, e nunca considera seriamente que todos os membros da sociedade humana possam se tornar filhos de Deus.
* Embora o chamado das Escrituras se dirija a todos, nem todas as almas podem se tornar de apóstolos, pois isso seria contrário à economia instituída por Deus.
Ao universalizar a mensagem, pôs-se fim à catolicidade do mundo cristão, sendo mais importante subtrair a doutrina aos olhos de um mundo que, com sinceridade, gostaria de torná-la sua.
Zinzendorf situa o início da decadência da espiritualidade cristã no momento em que a cruz passou a brilhar sobre a coroa dos reis e imperadores, quando o Espírito se misturou à glória do mundo.
Os mistérios não se ensinam
A dificuldade de manter intacto um depósito espiritual não se deve apenas ao mundo, mas à própria natureza do problema da transmissão de uma mensagem.
A transmissão perfeita de uma mensagem é quase impossível devido à natureza da linguagem, que não retém a realidade inteira quando se fala dela.
Somam-se a isso as negligências materiais e a falta de exatidão com que se fala de algo.
Se já é difícil para as realidades concretas, o problema é maior para as realidades espirituais, pois um mistério não pode ser transmitido a quem não foi já iluminado pelo Espírito.
Uma verdade espiritual não é um esquema abstrato apreendido intelectualmente, pois o conhecimento místico implica uma participação real na verdade.
Existe uma verdade que se aprende e estuda (esquema abstrato) e uma verdade que se possui, que se incorpora a nós como o Verbo divino que se come.
A comunicação da verdade possuída só pode ser recíproca entre eleitos, sendo um enriquecimento mútuo onde cada um tem seu Senhor.
* Não há necessidade de ensinar o próximo, pois se vive no tempo em que se realiza a antiga profecia.
Mistérios e pregação religiosa
O templo das religiões positivas é o lugar onde se ensina, enquanto a Comunhão dos Irmãos é o lugar onde não se ensina, mas se partilham homilias.
Se alguém ignora algo, sua place não é na Comunidade, mas na igreja para ouvir um sermão.
As verdades que se ensinam são verdades fundamentais ou verdades mais sutis que estão na Bíblia e concernem ao domínio da pregação religiosa.
As religiões positivas têm sua fisionomia própria baseada nessas verdades, mas nada entendem dos mistérios.
As homílias, dirigidas aos Irmãos, não demonstram nada, enquanto o sermão no púlpito das religiões fala de um Deus que os ouvintes não têm em si.
* O sermão expõe uma matéria que exige a adesão incondicional da fé simples, sem visar à compreensão real.
Na homília, raciocina-se sem demonstrar, enriquecendo um conhecimento cujo fundamento já foi posto pelo Espírito no coração de cada um.
Graus no conhecimento. Direção espiritual
Existe uma fé simples (que adere às verdades pregadas) e uma fé mais elevada (dos verdadeiros filhos de Deus), sendo que a Confissão de Augsburgo interdita o ensino desta última no templo das religiões.
O maior dos mistérios reservado aos filhos de Deus é o da apocatástase, a restituição universal de todas as coisas no fim do tempo.
Mesmo os despertos (que ouviram o primeiro chamado) não têm Deus e devem ser classificados entre aqueles que ainda dependem da pregação religiosa.
Em Herrnhut, distinguia-se entre os simples despertos e os Irmãos, havendo um período probatório de asilo antes da admissão plena.
Entre os próprios filhos de Deus há graus de conhecimento, sendo que cada um não deve ultrapassar a medida exata que lhe é fixada em seu devir espiritual, sob pena de a verdade ser banalizada.
* Os verdadeiros filhos de Deus participam todos da verdadeira conhecimento, mas de forma progressiva, seja como crianças que mamam leite ou como adultos de fé.
A desigualdade do conhecimento impõe uma direção espiritual no seio da Comunidade, com certas proibições (prohibitive Seelenführung), comparável à atitude de um oficial que retém soldados demasiado temerários.