Pierre Deghaye. La Naissance de Dieu ou la Doctrine de Jacob Boehme. Paris: A. Michel, 1985.
A NATUREZA NA “AURORA NASCENTE” (2)
A criação descrita na Gênese é na verdade uma restauração, na qual Deus recria um mundo anteriormente vivo que se tornou um símbolo da Morte, em um plano inferior.
Deus não cria o mundo ex nihilo, mas restaura um mundo que já foi vivo.
A primeira criação foi a dos anjos, indestrutível em seu princípio, mas arruinada na pessoa de Lúcifer.
O corpo glorioso de Lúcifer representava um mundo, e o coro angélico identificado a ele constituía o mundo que sucede o nosso.
O primeiro corpo do nosso mundo é o que restou do corpo de Lúcifer após sua falta, uma morada tenebrosa e sem vida.
A segunda criação no grande mundo (Gênese) é colocada em paralelo com o despertar da vida no embrião humano e com a ressurreição de Cristo, sendo o terceiro o dia da restauração da vida.
É ao terceiro dia que a vida é restituída ao mundo, que o embrião humano desperta e que Cristo ressuscita.
O plano da Gênese é o da nossa natureza, mas a analogia com a ressurreição convida a elevar-se ao nível da vida espiritual.
A contemplação da natureza deve conduzir ao plano do espírito, sendo este o sentido profundo da hermenêutica da Aurora Nascente.
A ressurreição de Cristo é sua segunda nascença, representando uma segunda criação do homem, e os fiéis, nascendo de novo, terão um corpo novo e vivo.
Cristo e os fiéis nascerão uma segunda vez, nascendo para a verdadeira vida.
O corpo do grande mundo passará por outro renovamento no fim dos tempos, uma segunda criação num plano semelhante ao do homem regenerado.
A perspectiva da Aurora Nascente é anagógica: a natureza visível é um espelho do qual se deve elevar ao que ele reflete.
A criação da Gênese é uma restauração de um corpo queimado pelo fogo, onde o local permanece, mas os corpos se sucedem.
O primeiro corpo do nosso mundo é uma morada devastada pelo fogo da cólera, pois Lúcifer, ao avivar o brilho de seu corpo por amor à sua própria beleza, o tornou um fogo destruidor.
O mundo angélico representado por Lúcifer foi destruído pelo fogo, restando apenas um vestígio de trevas e morte.
Deus, em sua misericórdia, vai reintroduzir a luz e reanimar este local.
A vida é a luz, mas a luz não é manifestada desde o início, pois a noite precede o dia apesar do “fiat lux”.
No site do nosso mundo, Deus dispõe primeiramente as qualidades que preexistem aos astros e que se expressarão neles, sendo estas qualidades energias divinas que constituem a realidade primeira.
Os astros são a realidade segunda, símbolos que expressam as qualidades dinâmicas que os engendram.
As qualidades primordiais são os arquétipos dos astros e de toda a realidade que eles engendrarão segundo os quatro elementos.
As qualidades essenciais dos quatro primeiros graus (aspereza, doçura, amargura e calor) são aquelas nas quais a vida vai se gerar.
Após a queda de Lúcifer, Deus cria um firmamento como um muro de separação entre a natureza divina e a natureza decaída, separando as águas superiores das inferiores.
O firmamento é criado no meio da água, separando as águas das águas.
As águas inferiores, ao se reunirem e secarem, produzem a terra.
A qualidade primordial que solidifica a água é o arquétipo que gera Saturno, representando a solidez primeira do muro de separação.
A verdadeira separação é o endurecimento das águas inferiores, separando a água divina (céu dos anjos) de outro céu (nosso firmamento).
A parte sólida do firmamento é o muro de separação, enquanto a parte adoçada será o nosso céu, uma água nova, símbolo de doçura que se objetivará em Júpiter.
Para Boehme, a pedra é água coagulada, e a água superior é o céu dos anjos onde brilha a luz divina.
A doçura, como substância, deve vencer a dureza da pedra, mas isso só é possível se a luz divina nela irradiar.
Deus ergueu um muro de separação entre a luz e as trevas, e permite que a luz penetre nas trevas, sendo essa brecha o modelo da iluminação do crente.
A luz divina penetra na massa sólida da água inferior através da emanação do calor, aquecendo a massa fria e inerte, sendo o ardor do quarto grau que manifesta o “fiat lux”.
O calor primordial produz na água morta o primeiro fremito da vida.
A água solidificada representa o frio da morte, e o calor da vida lhe devolve a untuosidade.
A luz divina, sob a espécie do calor, é primeiramente sentida na amargura, sendo um fogo amargo para a criatura não preparada.
A amargura, que é a dor, manifesta o despertar da vida, e o doce sairá do amargo.
A irrupção da luz nas trevas sob forma de calor manifesta qualidades sensíveis negativas, sendo que, para que a luz irradie qualidades positivas, ela precisa vencer as trevas.
A luz age pelo calor que reaquece o corpo morto do mundo, e é do fogo amargo que nascerá a luz.
O fogo que irrompe na água solidificada é cativo da pedra até o quarto dia.
A amargura é o relâmpago, símbolo da luz que rasga as trevas, expressão da cólera e pai da luz.
As trevas são o muro de separação no qual o relâmpago abrirá uma brecha, e a luz fará derreter o gelo.
Uma vez libertado e nascido o sol, as planetas que constituem a alma do mundo são criados: primeiro Marte, depois Júpiter e, por fim, Saturno na linha ascendente; depois Vênus e Mercúrio na descendente.
A criação do sol é o nascimento da luz; o fogo se liberta e a luz surge como uma entidade distinta.
Marte é o fogo dominado pela luz.
Júpiter é a claridade na chama acima do fogo, o fogo sublime.
Saturno, no limite do mundo sideral, é a solidez positiva, a noção de limite que é própria a todos os corpos, contendo a alma sideral.
Vênus (amor) e Mercúrio (inteligência que se oferece) são criados abaixo do sol, simbolizando o dom da luz.
A criação do corpo novo do nosso mundo se dá com o nascimento da vida nele, havendo analogia entre o primeiro corpo da natureza (um sepulcro) e o nosso corpo terrestre (corpo de morte), e entre o corpo novo do macrocosmo e o corpo novo do homem regenerado.
A analogia entre o nascimento da vida no corpo humano e a dos astros se entende sobre o plano da segunda nascença.
A vida que nasce no ser humano segundo essa similitude é a alma verdadeira, habitada pela luz.
Tudo nasce da água, que é o coração de todas as coisas, mas relativamente ao homem, a água aparece como bile (cólera) e como doçura substancial (amor).
A vida desperta na amargura, que é o gosto da vida que fermenta antes de se manifestar na luz, sendo a vivacidade da bile a efervescência da alma que precede seu verdadeiro nascimento.
O sangue é o receptáculo dos espíritos siderais e as qualidades sensíveis que eles representam são como germes que esperam ser despertados pela amargura.
A amargura é o fogo no ventre do qual a luz vai se gerar, sendo a bile o fogo negro que dá à luz a luz.
Boehme relaciona o fígado ao coração: o fígado secreta a bile, mas é o calor do coração que a aquece, sendo este calor o efeito da luz que vem do alto.
O coração da alma é o centro, o lugar privilegiado do despertar da vida, onde a luz é recebida sob a espécie do calor.
A luz que se comunica pelo coração é recebida como cólera, embora proceda da misericórdia, e vai dar à luz a luz no nosso corpo novo.
O calor age no ciclo da alma humana como na obra química, sendo que a criação do nosso mundo é descrita como um processo que lembra a Grande Obra.
A bile representa as águas inferiores da alma, águas amargas, e a amargura é o fogo que, uma vez liberado, jorrará dessas águas e gerará a luz, sendo o relâmpago o pai da luz.
O fogo se liberta da água, então a luz se manifesta, e o fogo e a luz aparecem como entidades distintas.
A luz persegue o fogo que se eleva, domina-o e o fixa: é o nascimento de Marte na alma.
Uma vez dominado o fogo, a luz sobe e se estabelece acima do fogo, nascendo Júpiter.
No corpo da alma, Júpiter é o cérebro, onde a verdadeira vida que emana do coração se desabrocha.
O cérebro é o zênite no céu da alma, representando a alma verdadeira e a verdadeira vida, mas não pode ser separado do coração.
O coração é o sol da alma; os astros que brilham no céu da alma recebem sua luz do sol.
Todas as virtudes do coração frutificam no cérebro, sendo a inteligência, cujo assento é o cérebro, a sensibilidade do coração.
O cérebro é o céu do homem segundo seu corpo novo, a morada do sol (o coração).
O céu simbolizado por Júpiter marca o termo do movimento ascendente da luz, sendo a altura que a luz não pode ultrapassar.
A solidez de Saturno materializa o limite fixado à criação, sendo a caixa craniana a abóbada sólida que envolve o cérebro.
O movimento ascendente vai do coração ao cérebro, mas do cérebro a luz desce para irradiar no corpo, e então o homem está perfeitamente renovado.
Quando o ciclo da luz é cumprido, o coração representa a plenitude da alma, sendo o centro e o pleroma.
O movimento descendente, do cérebro ao coração, dá nascimento a Vênus (luz como dom de si, o amor) e a Mercúrio (espírito que se comunica).
Na linha ascendente, a luz realiza sua plena medida ao elevar-se sobre o fogo; na descendente, ela se oferece.
O homem renovado transmite a gnose recebida, e Mercúrio é o espírito do discurso místico que é o canto dos anjos.
Na Aurora Nascente, aplicando o esquema trinitário à natureza, Boehme fala de três pessoas, resultando numa confusão entre a teologia dogmática e uma teologia simbólica baseada na filosofia da natureza.
A estrutura ternária será uma constante na obra de Boehme, com o Espírito de Deus (Ternarius Sanctus) irradiando na natureza.
Mais tarde, Boehme aplicará a noção de pessoa apenas ao Deus manifestado no Cristo.
A distinção das pessoas divinas se faz essencialmente entre o Pai e o Filho.
O Filho é o sol (a luz), e o fogo que gera a luz é o Pai que gera seu Filho.
O Pai e o Filho são um só e mesmo Deus, mas são duas pessoas distintas, pois as trevas não apreendem a luz, e o Filho transcende o Pai como o sol transcende as estrelas que o geraram.
O Pai e o Filho são unidos porque não podem ser um sem o outro, mas nenhuma das duas pessoas apreende a outra.
O Pai que gera a luz é uma Mãe, a natureza vista como uma mulher em trabalho de parto para dar à luz o sol.
O corpo do mundo todo é apropriado ao Pai, e a luz é o Filho e o Espírito.
O Filió é milhares de vezes maior que o Pai, revelando uma inferioridade do Pai traída por sua maternidade.
A lei que rege a natureza humana é aplicada a Deus: Deus nasce do Pai como a alma nasce do corpo.
O arquétipo de todos os corpos é a força saturniana que solidifica a liquidez original, e Deus não pode nascer sem um corpo, sendo Saturno identificado ao Pai tenebroso.
Sem o Pai, o Filho não existiria, mas sem o Filho, o Pai é um vale obscuro, um abismo tenebroso.
O Pai sem o Filho é a Eternidade em si mesma sem a manifestação do Deus de luz, e também o nosso corpo terrestre entenebrecido.
O Pai é nossa natureza sob o aspecto do fogo obscuro que é o ventre onde a luz se gera.
A concepção de Paracelso, que apropria a natureza ao Pai e a sobrenatureza ao Filho, é encontrada no simbolismo da Aurora Nascente.
O spiritus mundi é o Espírito septiforme no nível da alma do nosso mundo, uma modalidade do Verbo criado na qual Deus se torna semelhante à criatura.
O Verbo criado não é Deus em sentido estrito, mas é Deus em relação à realidade que dele emana.
O spiritus mundi é o Deus do nosso mundo, seu Pai, que o cria e forma continuamente, confundindo-se com ele.
O criador e sua criação são um, sendo o demiurgo a imagem da realidade criada, o espelho no qual ela está contida.
Deus produz seu Verbo criado em dois níveis: o do mundo angélico e o do nosso mundo.
É pela noção de Pai celestial que se define o primeiro plano, distinguindo-se do Pai da natureza (que se identifica a ela), sendo que o mundo de cima e o mundo de baixo se correspondem.
O mundo criado é a Palavra proferida, e o astrum (princípio do nosso universo) é esta Palavra, que é como a letra em relação ao espírito.
Na letra, o espírito permanece ativo, e o Verbo proferido se reexprime na criação.
O homem é um Verbo criado que reexpressa o Verbo divino, sendo a natureza um símbolo e o homem o símbolo de todos os símbolos.
A noção-chave na Aurora Nascente é a de um Deus que reveste uma forma criada no corpo do mundo.
A alma do mundo não é Deus, mas é o Espírito deste mundo, apresentada sob um aspecto negativo e dual, representando a dualidade do bem e do mal.
O spiritus mundi é um Deus de dupla face: sob o aspecto do mal, o Deus terrível; sob o aspecto do bem, o Deus misericordioso.
A dualidade do bem e do mal se reflete no duplo aspecto do Verbo criado.
Os mesmos espíritos (qualidades ativas) regem os dois mundos, o de cima e o de baixo.
O ser é um tecido de qualidades sensíveis e o sensorium que as objetiva, não havendo separação entre o sensível e o inteligível em nenhum nível do ser.
As qualidades sensíveis representadas pelos espíritos siderais no mundo de baixo são as mesmas do mundo de cima (Pai celestial), mas lá elas aparecem apenas sob seu aspecto benéfico, em harmonia.
No pleroma divino, cada qualidade não age separadamente; a perfeição do ser está na plenitude harmoniosa do setenário.
No mundo divino, as qualidades se temperam mutuamente, e a consonância é luminosa, enquanto as trevas são fruto de uma natureza dissonante.
A dualidade existe latente no mundo do Pai celestial (como quente e frio, amargura e aspereza), mas as raízes da cólera se encontram particularmente na aspereza e na amargura.
O Pai celestial e o Pai da natureza são cada um à imagem do mundo que lhes é correspondente.
Posteriormente, o Verbo proferido será a natureza em dois planos: o mundo divino da primeira criação (anjos) e o plano do spiritus mundi (Pai da natureza).
O Pai celestial se tornará um Deus oculto, um símbolo de trevas, e apenas o Filho será o Deus de luz.
A natureza, quando cumprida, será o corpo de Deus representado por sua Sabedoria.
Representado por sua Sabedoria, Deus será apenas o Deus de luz e amor, e as trevas serão retiradas.
No nível do Verbo criado (natureza), a luz e as trevas alternarão.
Apenas a Sabedoria escapa a esta dualidade, manifestando a unidade de Deus, que se afirma na plenitude da luz separada das trevas.
A unidade de Deus não é uma totalidade que reúne luz e trevas, mas resulta da separação entre elas.
A separação entre luz e trevas, bem e mal, está na finalidade da economia divina.
Fora da Sabedoria não há Deus manifestado, e fora da natureza não há plena revelação.
Na Aurora Nascente, a filosofia da natureza torna-se uma teologia cósmica, que será posteriormente integrada numa teoria da manifestação divina onde a natureza se definirá por relação a uma verdadeira transcendência.