BERGAMO, MINO

BERGAMO, Mino; BONNEVAL, Marc. L’anatomie de l’âme: de François de Sales à Fénelon. Grenoble: J. Millon, 1994.

Introdução

  1. A recorrência do termo interior nas publicações religiosas francesas do século XVII revela a força histórica assumida pela problemática da interioridade na cultura espiritual da época.
  2. A literatura espiritual francesa do século XVII constitui uma das expressões mais refinadas da cultura cristã da interioridade, pois organiza grande parte de seu discurso em torno da relação afetiva e constitutiva entre o sujeito e o espaço interior.
  3. A correspondência de Surin apresenta a interioridade como um domínio mais vasto que o mundo sensível, iluminado por Deus e habitado pela presença divina no coração puro, humilde, simples e fiel.
  4. A experiência de Marie Baron, narrada por Surin, configura a interioridade como uma região de solidão, dilatação e afastamento do mundo exterior, na qual a alma se sente banida das coisas criadas e recolhida no amor divino.
  5. O discurso de Surin inverte as categorias espaciais ordinárias ao atribuir ao interior as propriedades normalmente associadas ao exterior, pois o interior deixa de ser limitado, estreito e fechado para tornar-se vasto, ilimitado e aberto.
  6. A vastidão do espaço interior decorre de sua relação com Deus infinito, de modo que o coração pode dilatar-se sem medida porque é habitado pela grandeza divina.
  7. A interioridade em Surin coincide paradoxalmente com uma exterioridade redobrada, pois estar confinado no interior equivale a estar fora do mundo exterior e, ao mesmo tempo, fora de si mesmo pela ação extática do amor divino.
  8. A expressão interior torna-se capaz de produzir a saída de si, pois a entrada no espaço interior coloca o sujeito diante do Outro divino e rompe a identidade fechada sobre si mesma.
  9. A espiritualidade do século XVII nem sempre leva essa inversão espacial ao limite vertiginoso de Surin, mas conserva de modo constante a fascinação pelo mundo interior e o convite à entrada no íntimo de si.
  10. Jean-Pierre Camus associa o trabalho espiritual ao ofício do ourives, pois a matéria preciosa sobre a qual se trabalha é o coração humano, cuja reforma exige atenção delicada e contínua.
  11. O movimento de entrada em si recebe os nomes de introversão ou recolhimento e constitui o primeiro passo do itinerário rumo à perfeição cristã.
  12. A introversão também pode assumir a forma simbólica de um mergulho, como nos poemas de Surin, em que a entrada no interior se aproxima do gesto do nadador lançado à imensidão do oceano.
  13. O verdadeiro interior, segundo Surin, consiste em empregar a atenção, a afeição e a operação acima de si mesmo, a fim de tornar a alma agradável a Deus e desprendê-la das coisas exteriores.
  14. A oposição entre exterior e interior corresponde à oposição entre dispersão nas coisas criadas e aplicação às coisas sobrenaturais, pois o sujeito espiritual deve deslocar seu afeto do mundo exterior para o trabalho interior.
  15. A tradição agostiniana sustenta que Deus não deve ser buscado fora, mas no mais profundo e secreto de si mesmo, de modo que o abandono do exterior significa aproximação da divindade.
  16. Louis Lallemant identifica a paz, o repouso do espírito, a alegria e o contentamento com a vida interior unida a Deus, enquanto atribui ao exterior a inquietação, a pena, o descontentamento e a vulnerabilidade às tentações.
  17. O homem interior do século XVII não designa simplesmente uma região estrutural da alma, mas uma atitude espiritual de introversão, desapego das afeições exteriores e investimento no reino de Deus dentro de si.
  18. A interioridade cristã do século XVII aparece como culminação de uma longa história da interioridade, pois abre o espaço íntimo ao Outro divino e à união extática com Deus.
  19. A conclusão histórica da interioridade cristã coincide com o início de sua dessacralização, pois, no momento em que os grandes espirituais atingem análises profundas do espaço interior, as forças transcendentes começam a abandonar esse domínio.
  20. A felicidade verdadeira é encontrada no espaço interior porque Deus nele reside, e somente quem se retira para esse espaço pode alcançar a verdadeira posse do bem real.
  21. A exaltação do interior não implica que tudo nele seja simplesmente bom, pois a literatura espiritual distingue entre uma oposição geral ao exterior e uma análise mais profunda da ambivalência própria da interioridade.
  22. O espaço interior possui valor duplo, radicalmente positivo e radicalmente negativo, porque nele se descobrem tanto infinitos de graça, virtude e perfeição quanto abismos de malícia, desejos desordenados e apetites corrompidos.
  23. Lallemant convida à introversão ao mesmo tempo que adverte contra os vícios ocultos descobertos no coração humano, fazendo da interioridade um campo de magnificência espiritual e de perigo moral.
  24. Surin também reconhece a face obscura do mundo interior, marcado por corrupção e desordem, sem deixar de afirmar sua grandeza como lugar privilegiado da experiência espiritual.
  25. A ambivalência da interioridade se resolve segundo um eixo de transformação, pois o abismo de pecado encontrado no início da entrada em si pode tornar-se abismo de virtude ao fim do trabalho ascético de purificação.
  26. A imagem do poço lodoso em Lallemant ilustra o processo de purificação da alma, no qual a água inicialmente turva se torna pouco a pouco clara até manifestar a presença de Deus.
  27. A introversão converte-se em exigência de reforma interior, pois a entrada em si deve substituir o reino de Satanás pelo reino de Deus no espaço aberto da alma.
  28. A purificação interior exige vigilância contínua, auto-observação e correção de si, a fim de reconhecer defeitos secretos, vícios escondidos e desordens que precisam ser expulsos.
  29. Jean-Pierre Camus recomenda examinar minuciosamente o que se passa dentro da consciência, iluminando seus recantos ocultos para trazer remédio às feridas escondidas.
  30. Introversão, introspecção e purificação formam três exercícios inseparáveis de um único processo espiritual voltado à perfeição cristã.
  31. A literatura espiritual francesa do século XVII mantém uma relação constitutiva com o espaço interior, de modo que a espiritualidade desse período pode ser compreendida como uma ciência ou cultura da interioridade.
  32. A oposição entre interior e exterior, a delimitação de um mundo interior e sua interpretação resultam de um processo histórico e cultural, não de uma evidência natural ou espontânea da experiência humana.
  33. O acesso do sujeito à interioridade é regulado por dispositivos históricos que podem ser descritos em sua formação, transformação e desaparecimento.
  34. A França espiritual do século XVII funcionou como laboratório cultural de modelos refinados do mundo interior, cuja recuperação permite iluminar instrumentos esquecidos de compreensão da interioridade europeia.