“Terrível Golpe do Nada”, in VIDAL, Daniel (org.). La perle évangélique: traduction française, 1602 [trésor incomparable de la sapience divine]. Tradução: Nicolaus Eschius; Tradução: Richard Beaucousin. Grenoble: J. Millon, 1997.
** 1. Isenções **
A retidão do pensamento, o rigor do argumento e o domínio do conceito elevam o texto a uma injunção de sentido de profundo transtorno, sem êxtases, gemidos ou abandonos.
O texto porta um brilho prateado da pérola já formada, levado até o próprio transpasse do conceito.
Coexistem no texto preces de salvação, devoções ardentes vindas do fundo dos tempos religiosos e orações vacilantes e desejantes.
O espanto do leitor contemporâneo nasce de uma compleição infinitamente delicada — um verbo altaneiro, imperativo, sem complacência, e uma vaga súbita e monótona de prosas carregadas do peso de um mundo instituído.
O que desconcerta o olhar contemporâneo é a mescla de múltiplos registros: entrelaço de preces e vozes destruídas em seu princípio, prostituições de graça, e a surgência de um sujeito insuspeitado, portador de toda a nudez de uma alma devolvida à sua essência.
Há bênçãos dirigidas a Deus, a seu filho inengendrado, à mulher de todas as paixões — e em seguida a ruína do destinador desses benefícios e dessas promessas.
O texto jamais foi escrito, recomposto, reinscrito, desconstruído, inserido, deportado ou interpolado sem ser filtrado por uma instância de vigília e vigilância, à medida do que o próprio texto produziu como risco.
Mino Bergamo, em sua obra sobre a anatomia da alma, desenvolve a tese de uma solução de continuidade entre a conceptualização dos espaços e graus da alma na mística nórdica e na espiritualidade francesa gerada pela obra de São
Francisco de Sales.
A mística renano-flamenga trata do fundo da alma; a espiritualidade salesiana, da ponta do espírito.
Essa mudança de qualificação atestaria uma mutação na representação do lugar onde se atam o desejo da criatura e a receptividade divina.
Na mística renano-flamenga, esse lugar situa-se fora das regiões da alma concebida como matriz de consciência e supõe uma ruptura radical com ela.
Na mística salesiana, o encontro da criatura e de Deus se efetua na extrema ponta do espírito, sob condição de um desconhecimento lógico, sem transbordar as fronteiras da consciência.
Bergamo abre perspectivas inéditas sobre a inteligência da mística francesa no século XVII.
A Pérola Evangélica, tratando do fundo da alma a partir da tradição renano-flamenga, aparece como resposta igualmente radical, identificando aí o próprio sítio do sujeito.
Na leitura da Pérola, o fundo da alma — espaço em todos os pontos essencial, onde se consumam criatura e Deus — não é senão o regime de existência do que se pode nomear foro interior, razão íntima de todas as experiências interiores.
O foro interior é o princípio de retorno da extrema intimidade do sujeito, doravante habitado pelo outro.
A mística porta revelação do sujeito: levantamento do véu que o oprime como pessoa privada, quando ele pode doravante exibir-se como oferta pública.
A Pérola não hesita em dizer o que acontece em Deus com a alma introvertida fora de si — alma paroxismo, alma paradoxo.
Citação traduzida: “introvertida hors de soy” — introvertida para fora de si.
A mística é a instituição do sujeito — mais ainda, a invenção de uma interioridade de tal tensão, vocação e disponibilidade que ela é, de imediato, operação, abertura, saída trabalhando em todo deserto, experiência em seu sentido original de passagem.
A mística é a capacidade de dizer o último dobramento de uma consciência desamparada de seus referenciais de quietude e legitimidade.
A mística não se funda como imperativo de inquietude, nem se deporta para as margens de incertezas que abrigam heterodoxias ou heresias.
A mística só se entende como palavra presa a tal urgência de Deus que fende todo dizer até silenciá-lo, todo verbo até extinguir seu império, toda criatura até produzi-la pura vacância e vacuidade.
** 2. Dissoluções **
** 3. Dobramento: foro interior [1] **
Ao circular pelo texto como em um espaço equívoco de rotas multiplicadas — onde se misturam propedêutica devota e verbo de pura ignição, horas canônicas e orações de vacuidade, ditos de aniquilamento e de completudes, bênçãos marianas e a nudez súbita daquele que se abandona o bastante a seu deus —, sabe-se que ele não é apenas enunciado encostado a outros.
A Pérola Evangélica mantém essa postura de salência por sua capacidade de significar a última reserva da alma — nua e disposta a seu deus, despossessada de todo pensar e competência, aliviada de seus valores — que decide por fim de seu destino.
Esse dobramento da consciência, esse fundo íntimo do espírito, essa retirada ao último jazimento da alma — um quase nada no seio mesmo do nada — é essa essência cumprida de que fala o texto místico, o foro interior que nos solicita hoje.
A Pérola trabalha o próprio conceito de deus até declará-lo, romper o seu encerramento sem limite, levá-lo à paixão e crucificá-lo uma última vez.
A alma é um agenciamento há muito formulado, nomeado e identificado, de sequências e segmentos — via real para Deus, que nela mais facilmente abunda quanto mais ela é a cintilante parcela desse deus, o emblema, a marca já presente.
A Pérola registra o jogo dessas faculdades e sequências e diz a alma em todos os seus estados, fiel aos enunciados anteriores atentos a discernir por quais caminhos Deus procederia em direção à sua criatura.
A Pérola desdobra esse itinerário até seu mais ínfimo horizonte e bruscamente fecha a descenção na alma em torno de um ponto de nenhum alhures e nenhum aqui — esse oco da alma, esse espaço neutro.
A Pérola diz “fundo essencial” onde vêm à fusão o deus e seu testemunho, a criatura e sua deidade oceânica — não ajuntamento de contrários, mas indistinção do outro e do um, batimento indecidível, partilha da meia-noite, intervalo mudo.
Essa pérola: esse espaço suficientemente interior para fazer insolência no centro de um verbo apropriado e imediatamente desertado, e para fundar, nesse deserto, a possibilidade mesma de um retorno.
Na extrema complexidade da estrutura da alma, a Pérola expõe o encaminhamento em direção a Deus — e cada tempo da alma, cada suspiro, cada nota insurgente, é ocasião para Deus e sua criatura de um retiro, uma ausência, uma lamentação, uma noite de total obscuridade ou de uma luz súbita.
Até que tudo, como em cruz, seja por fim cumprido, para quem aceita progredir no caminho de ablação e oferecer-se sem veste interior ao bisturi que abre àquele que se busca há tanto tempo.
O fundo da alma é o princípio essencial, espaço inabitável pois é a morada apenas de Deus — a menos que se venha a ser esse deus.
Nesse ápice, o texto explora todos os graus a transpor, todas as provas a atravessar, todos os caminhos a percorrer para aceder à região sem suspeição, sem categoria discriminante, sem potência — pois nela toda faculdade, todo vetor de forças, toda tensão da alma se apagam.
** 4. Foro interior [2] **
O nada percorre todos os enunciados da Pérola, e o texto não diz senão isso — furtando-se através dos enunciados de lealdade a Roma e a suas instituições de palavra, e pondo-os continuamente em perda.
Ali, onde a criatura toda despossessada se oferece a seu deus como um nada a outro nada — de mesma não validade, de idêntico deserto, de exato repons de uma poética a outra da nudez, como
Tauler o havia encantado —, produz-se um evento transfigurador: a explosão da alma fora da alma.
O fundo íntimo da alma, o foro íntimo — que a mística renana definiu longamente como essência, extrema interioridade do que a consciência conhece de mais profundo e velado —, esse espaço interior faz retorno brusco e violento: reverte-se em si mesmo e, toda reversibilidade cumprida, desdobra-se no espaço aberto e oferecido ao mundo.
Da intimidade mais fechada em sua própria vacância, desapropriada de toda qualidade que define a criatura, a mística opera uma basculação exemplar — o espaço interior, o fundo oculto da alma, surge como categoria social.
O foro interior é esse dobramento da alma devastada que uma intimação de deus leva à alteridade que decide toda paixão social.
O espaço interior — último abrigo onde se ordena o encontro da criatura desqualificada e de seu deus, razão de seu profundo nada — gira sobre o eixo que constitui essa fusão e, passando para o outro lado de sua forma, funda uma nova razão.
Não mais o advento do último dobramento secreto da alma como espaço de pura exterioridade, nem a insistência de um momento da consciência de onde se engendaria um debate psicológico — mas o que permite a todo outro inventar, rigorosamente falando, um sujeito como abertura nua ao mundo, como essa abertura mesma, essa imensa lacuna pela qual esse mundo entra em germinação.
** 5. Alter ego, sed alter **
A mística da Pérola Evangélica, em seu princípio instituidor, rejeita todos os tergiversamentos do conceito e os gozos da certeza interior — a experiência de que ela fala trata precisamente do desafio de todos os tempos sociais da modernidade.
Na estrutura ou anatomia da alma, nesse espaço interior onde se fomentam as erradicações mais nítidas de toda qualidade e vontade, vem ao seu cumprimento a certeza do sujeito, sua assertiva, sua assunção.
A Pérola é o enunciado que vem depois desse golpe terrível do nada — a criatura desprovida, passada em pobreza, desidentificada, advém como sujeito.
O sujeito se extingue como vetor de valor e deixa límpido o espaço lógico para a invenção do que aqui se nomeia sujeito — pois subtraído a tudo que se funda como mundo, como fórmula do século, como estância de agir e de padecer.
O retrancamento, a ablação e o desconto revelam o sujeito jazendo nesse defeito — ele convém a esse defeito, é sua declinação, sua gramática, sua lei.
Essa lei é esse nada de que magnificamente a Pérola diz a consonância exata com esse nada que é seu deus.
Essa catástrofe, esse retorno, essa inflexão da extrema ponta de uma alma presa à sua própria gênese, é condição do sujeito por fim levado à sua fórmula inicial.
O sujeito da Pérola é essa instância vazia que suporta todo o peso de um nada longamente trabalhado na mística renana — essa experiência essencial que assume todos os desertos da alma, todos os silêncios, todas as cinzas.
** 6. Abstração **
Paul Mommaers propõe, em seus textos sobre a mística abstrata, uma interpretação fundadora — o essencialismo da mística renana e o conceito do fundo da alma implicam que o ser do místico passe todo inteiro no Outro, sem desaparecer enquanto ser humano.
Mommaers evoca o jogo de passagem no Outro em que consiste o aniquilamento no nível essencial, e recorda a frase de Catarina de Gênova: “É preciso que eu viva sem mim mesma.”
Em flamengo, wesen é “essência”, mas também “ser” — donde resulta que a essência da alma é essa experiência última, singular, singularizante, que se realiza como atividade, relação e ser.
Mommaers nota que se trata de atividade humana concreta, ao mesmo tempo que “preponderância absoluta do Outro.”
Se na Pérola, como em todo enunciado místico, trata-se de “viver no Outro e pelo Outro além de seu próprio ser humano”, é a necessidade desse além e sua vocação que definem um espaço decisivo de questionamentos.
O ponto culminante — “quero querer” (iii, 30) — representa um deslocamento maior: a vontade falida, a consciência desarmada por ser despojada de suas próprias condições de exercício, implica sua absorção como vontade de outro destinador, inaugurando a economia nova do sujeito.
Citação traduzida: “tirai-me a mim mesmo” (iii, 30).
Esse outro destinador não é o deus que a mística conjunta à criatura devastada — é essa conjunção mesma, essa íntima nupcialidade onde nem a alma que goza de nada, nem seu deus que goza de si mesmo, podem ser discernidos.
A Pérola designa o ponto de reflexão e retorno onde o que estava submetido à lógica destituinte da busca de Deus se declara o único real de pé após o naufrágio de tudo.
Citação traduzida: “quero querer” significa — nesse ponto lavada de toda intenção e desejo, essa vontade que foi minha não me pertence mais, mas a esse outro que doravante finalmente sou, sujeito de um querer capaz de abraçar o mundo e de o inflamar.
O aniquilamento — essa êxtase pura que Hegel definia como a modalidade mesma do conceito, a conceptualidade vinda à sua forma mais epurada, simples e nua — não está na Pérola em forma de êxtases, mas de pura limpeza da criatura de toda sua mundanidade.
Kierkegaard: para mergulhar até Deus, o eu deve ser transparente a si mesmo — não como reflexividade absoluta, mas como membrana imperceptível, fronteira ilegível, fechamento sem obstáculo.
O eu só é transparente se for essa areia que a Pérola diz ao fim de seu caminho — ou seja, nada.
Citações traduzidas: “morrer a todo outro amor” (i, 50); “perder totalmente sua alma” (i, 41); “morrer a toda deleção” (ii, 1); “limpar nossas almas” (ii, 13); “limpar a face de nossa alma” (i, 28); “abstrair de nós mesmos, desnudarmo-nos” (i, 45); “romper nossa própria natureza” (iii, 70); “não reputar todas as coisas mais que esterco” (ii, 33).
Citação traduzida: “Uma coisa nos é totalmente necessária, que é a abstração das coisas criadas (que) poderiam impedir nosso amoroso acesso a Deus” (iii, 30).
A obrigação de abstração se retoma, se exalta e se multiplica — “desenraizar-se”, “sair de si mesmo” (i, 18), “oferecer a Deus todos os dias várias mortes” (ibid), “ser inteiramente entregue nu de todas as coisas” (ii, 6).
Citação traduzida: “Exterminae-me” diz a alma ainda plena das imagens do mundo (iv, 14).
Citação traduzida: “que nosso fundo seja nu, é preciso que Deus no-lo conceda (…), pois aqui somos como aniquilados, e como despojados de nossa creaturidade” (iii, 4).
Citação traduzida: “Crucificai, sufocai, fazei morrer em mim tudo que o mundo encontra de amável (…) a fim de que assim eu possa padecer inocentemente convosco” (ii, 26).
Aquele que até essa extremidade de uma obra ao nada osa se expandir pode “sair inteiramente de si, sem nenhuma reserva para o futuro” (i, 33), morrendo o puro presente, não sendo senão esse morrer sempre contemporâneo do ato mesmo que o enuncia.
Citação traduzida: “Ser absorvido, perder-se em Deus, transformar-se em Deus” (i, 42); “converter-se dentro de si mesmo 'no nu-conhecimento da alma, que nenhuma criatura jamais pôde alcançar, que é a própria habitação e morada de Deus'” (iii, 16).
A Pérola não cessa de fechar esse argumento e de operar um vai-e-vem constante entre a íntima diluição da criatura em um deus vindo em sua vacância e a assunção do sujeito por isenção de deus levado à sua ausência.
Toda a Pérola é clamor de pobreza — nudez da alma, essência da alma — essa virtude própria à mística de dessasir a alma de suas faculdades, forças e tensões em um transtorno de tal violência que se chega imediatamente ao dizer essencial, que é atribuição imediata da alma ao seu fundo.
Citação traduzida: “Lá, estamos em uma nua e essencial pobreza de espírito” (i, 39).
Citação traduzida: “Resignar-se todo inteiramente como uma pobreza a si mesmo” (i, 51) deve ser entendido como imperativo de toda mística abstrata.
A Pérola diz que a criatura que tem vontade de Deus deve “seguir Deus em sua solidão de pobreza” (ii, 3), assumir Cristo em suas solidões e pobrezas (iii, 1) e por fim vir à “dei-passiva pobreza e liberdade de espírito” (iii, 66).
A alma inquieta e contudo sem lágrima deve “aniquilar toda pesquisa própria” (i, 42), e o homem da mística deve “ser reduzido ao nada, ser tornado mais imóvel que o nada” (i, 43).
Citação traduzida: “humilhar-se, aniquilar-se e vilificar-se em todo tempo” (ii, 12), pois a humildade é o “centro do coração no qual a brasa ardente do amor divino é conservada e coberta” (ibid).
Citação traduzida: “afogar e submergir em sua nileidade” (ii, 30), de tal modo que “a alma se deprime quase a si mesma até dentro do abismo da niléidade” (i, 23).
Citação traduzida: “Assim a alma será transformada em Deus, e Deus nela (…) será feito nada” (iii, 65).
Citação traduzida: “nesse aniquilamento e conhecimento de seu nada (nada da alma), Deus é conhecido e goza de si mesmo” (ii, 19).
A vacuidade total — sem emoção, intimidade nua e absoluta, tornar-se coisa morta e insensível, brûlement até aniquilação — é a fórmula de aniquilamento e a gênese do sujeito.
É preciso esse nada, essa lógica da despesa sem resto, para que “eu” possa dizer-se assim, “eu” — um “eu” tão despossessado de toda paixão de si para ser possuído de toda paixão do outro.
A Pérola Evangélica é um dos textos, herdeiro direto das espiritualidades nórdicas, onde se formula mais nitidamente essa refração da criatura desapropriada em sujeito votado a seu destino de onipotência — pois habitado doravante de todo outro.
Citação final da seção: “A Pérola Evangélica, ou a invenção continuada do sujeito como depositário de alteridade. Sua invasão como maior múltiplo comum.”
** 7. Imagem sem imagem **
A imagem de Deus, que é Deus na alma, é o outro nome da essência de Deus — assim como a criatura se abstrai de todo valor para entrar na ordem do sujeito, a imagem de Deus se abstrai de toda referência para entrar na ordem da essência.
Não há acesso à essência de Deus senão pelo acesso à sua imagem na alma, que é esse deus presente aqui e agora.
Citação traduzida: toma “em teus interiores (…) essa amável imagem sem forma” em que Deus, “segundo sua divina natureza (…) corre e flui sem cessar no abismo divino” (iii, 7).
Citação traduzida: “Mergulha-te nessa nobre e divina imagem (e Deus) te elevará em direção à sua imagem não pintada e sem forma” (ibid).
Oximoro fundador da presença: “imagem não pintada” — como se diria desenho sem traço, como se dizia luz de sombra; “nudez não pintada”, “clareza muito límpida” (iii, 55).
** 8. A razão do sujeito **
O sujeito pode então dizer-se — e a Pérola enuncia a soberania, a liberdade e o jogo do sujeito que, por fim, habita seu deus.
Citação traduzida: “Que vossa divindade se deleite em habitar em mim” (i, 49).
Citação traduzida: “estudar-se a frequentemente entrar e sair na divindade” (i, 48).
Citação traduzida: A alma deve “assaltar” Deus e “feri-lo” até merecer ser “esgotada de seu amor atual” (i, 30).
Citação traduzida: “Por mim entendo como Deus é incompreensível, dado que não posso compreender a mim mesmo” (i, 20) — proposição que está ali apenas para ser invertida: sou o único capaz de deus.
Citação traduzida: Deus “é por ti tão dobrado (…) que parece pôr-se em esquecimento de si mesmo” (ii, 15).
Citação traduzida: “vos escolherei e habitarei em vós, e vós em mim.”
Citação traduzida: “Façamos então uma comutação e troca entre nós: vós cuidais de mim e eu cuidarei de vós” (iv, 13).
No coração do enunciado místico vem, como seu cumprimento, a razão do sujeito — e se a Pérola insiste tanto no imperativo de abstração, no processo de essencialidade, na necessidade do nada, é para alojar no centro desse dispositivo teórico o espaço nu onde se segrega permanentemente a mutação da criatura em seu deus, do sujeito em seu outro.
Esse espaço nu, esse fundo íntimo da alma, esse jazimento último do espírito deve tomar o nome de foro interior — pois aqui deve se tornar ato a figura do sujeito.
O foro interior não é a fronteira da consciência que separa a íntima convicção da submissão a uma regra moral ou ética — ele concerne ao último dobramento do espaço interior onde se realiza a co-presença da criatura e de seu deus, e onde se enuncia a gênese contínua do sujeito como capacidade de alteridade.
Citação traduzida: “Eles têm Deus plenamente em seu poder” (i, 38).
Para que não haja, nesse querer do sujeito, nenhuma ocasião de fechamento sobre um si a todos os títulos desprovido, mas plena abertura à infinita liberdade de todo outro, a Pérola diz esse sujeito como passagem no próprio ato de sua reflexividade.
O sujeito não é o conceito oriundo de Deus e nele fazendo estada de eternidade — é essa obra de reflexão e retorno que funda a possibilidade de um olhar claro sobre o mundo atravessado.
Citação traduzida: é preciso que da criatura a Deus toda deleição se cumpra sem mediação, como amor muito puro (i, 7), “tranquila e manifesta fruição” (i, 55), em grande simplicidade de alma; no seu primeiro fundo, “a alma está lá, simplificada” e pode “contemplar Deus simplesmente sem obstáculo”, com “um olho simples” (ii, 30).
Citação traduzida: “renovada em um certo 'agora' ou 'instante' eterno” (i, 31).
Citação traduzida: “Entre o tempo e a eternidade, entre a morte e a vida” (i, 22), a alma é esse intervalo habitado de um sujeito de pura liberdade.
Citação traduzida: “liberdade deífica” (i, 5); liberdade louca — ser “totalmente louco a si mesmo” (i, 42); “introversão” (i, 31) e jubilação do sujeito em sua ciência de si, que é nascimento comum do outro.
O sujeito é passagem — em seu deus, no nu-fundo de sua alma, em seu horizonte de estrita nudez — e se engendra dessa lapidação: sujeito como transpassamento, travessia.
Citação traduzida: sujeito “transradiado” (ii, 17), transverberação, trânsito. Sujeito: palavra-de-passe.
Citação traduzida: A alma, “essa porta de Sião” (ii, 39), comunica com a essência de Deus em toda reversibilidade.
Citação traduzida: “Sair de mim é entrar em Deus” (ii, 37); “entrar em mim é dar ocasião ao verbo de se dizer, a Deus de fazer presença.”
Citação traduzida: “Esse Verbo vivo e engendrado dentro de nós” (i, 33) — o sujeito é o verbo, porque é essa passagem radical por onde se desdobra a palavra divina.
Citação traduzida: “largo escoamento e abismo da divina doçura” (ii, 52) — o sujeito é a porta desvairada por onde Deus escoa, e que se abre a todo o real do mundo, entre tempo e eternidade, entre Deus e corpo (ii, 33).
Citação traduzida final: “Quero querer” — postura eminente de soberania e vontade abrindo o sujeito ao talante de todo outro, sempre presente em si mesmo, fazendo irredutível precedência.
** 9. Teceduras **
O livro deve ser lido e cifrado, decifrado e relido, para que se possa roubá-lo ao seu destino — que o assignava a enfrentar o desafio há muito suspeito e devastador da heresia luterana, monstro plural invadindo terras germânicas e flamengas.
Todo texto que exaltasse a necessidade da Igreja e a observância dos atos e palavras de fé foi obstinadamente recomendado a um povo sempre pronto a se deixar seduzir ou a fazer revolta.
As múltiplas edições da Pérola testemunham essa fúria de convencer cristãos invadidos de dúvida e de afirmar uma fé sem fiador.
A Pérola não é término de uma história secular nem novação ex-nihilo — ela exalta os enunciados místicos em um lugar essencialmente não habitado até então, mas a condição expressa de atenuar as diferenças entre os enunciados de que se serve, até apagar as diferenças.
Esse rasamento se faz, porém, pelo alto — quando a Pérola toma emprestado de tal Padre da Igreja e de tal místico de sua época ou ascendência, não é procedimento ilustrativo, menos ainda argumento de autoridade, mas apropriação singular de um fragmento de obra vindo aqui à sua completude.
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** 10. A respiração capital **
Há no texto uma prática de fragmento que se experimenta como estilo de incomparável densidade — não um encaixe onde cada empréstimo viria em complemento de outro, mas o fragmento dado como escrita mesma, em sua insularidade, sua dição, seu teorema.
Quando a Pérola diz a alma essencial, convoca um argumento fundamental da mística renana — mas trata-se, rigorosamente falando, de uma convocação sem apelo: o texto exige silêncio depois de ter formulado essa razão.
A Pérola retorna sem cessar a esse dizer não por escrúpulo de melhor convencer, mas porque esse retorno ao gesto essencial é a marca escritural do ponto de efervescência e de nervosidade do texto.
O texto, vindo à sua fórmula, se coloca em exterioridade absoluta em relação a tudo que o poderia assaltar de questões e dúvida.
** 11. O centro irradiante **
Outros já tinham vindo e dito isso da mesma maneira — enunciado de fora de todo pathos, aliviado de toda emoção, límpido de todo afeto — e a Pérola é de bela herança, mas que se hissa de uma só decisão do verbo ao mais acabado dos enunciados emblemáticos.
Ao longo do Reno, das Flandres e da Espanha, de menor amplitude vinda da Itália ou da França, toda a mística converge na Pérola — golpe de força, golpe de graça.
A Quarta parte é de redação de mão terceira — a cada vibração de história, cada violência de heresia, cada tormento de Igreja e de fé, uma adição, a nova descoberta de uma sequência manuscrita, uma expansão de empréstimos.
A Pérola não cessa de se escrever porque convoca uma espiritualidade toda nova, onde a criatura se desprende tanto mais de seu eu para atingir a seu deus quanto esse rapport funda, no instante mesmo em que se quer, a íntima razão do foro interior.
A estrutura repetitiva e serena da enunciação decide da capacidade do texto de se situar fora de uma história de furor, longe de constituir uma figura militante.
Assim, de uma assemblagem por princípio heteróclita, a Pérola tece uma rede cerrada de argumentos, inteiramente vertida à conta de um conhecimento de Deus que supõe a assunção definitiva do sujeito em sua dupla insolência — solidão vinda de seu perfeito desistimento, soberania essencial a partir do momento em que ao seu deus o sujeito se equivale.
A Pérola diz à sua vez os caminhos a empreender para buscar um deus salvador, e as provas a superar para merecer o encontro inefável — mas isso não se enuncia segundo o modelo convencionado da aprendizagem dos iniciantes, o progresso dos avançados, o êxtase dos perfeitos.
O dito místico aqui atravessa em uma só audácia de sentido e indisciplina o conjunto dos sítios onde toda criatura deve purgar suas paixões e se expandir na luz de seu deus.
Chega-se então a se dispor no centro irradiante desse deus — que imediatamente se sabe ser esse outro mesmo de si —, inventando ao centro do sujeito investido de toda a história que o funda um espaço de pura desligação: espaço do quant-à-soi e de propensão do outro, mundo de troca livre consigo mesmo e com todo outro, dobramento de interioridade — foro interior, essa chance de alteridade.
** 12. O murmúrio inessencial **
Fincados no coração da modernidade europeia em sua renascença plural, equívoca e instável, a Pérola e seu avesso, a mística e sua passagem radical — texto vindo tanto mais depressa à sua tensão quanto sob os tempos anteriores jazía essa alta figura do sujeito capaz de nada.
A Pérola diz o sujeito capaz de íntima liberdade, em um transtorno generalizado das categorias e dos referenciais.
Isso se formula com tanto mais refinamento e acuidade quanto esse dizer se coloca a si mesmo à prova — orações, preces, longos encadeamentos litânicos de devoções e prescrições morais — operando, em torno da palavra essencial, uma cenografia paradoxal.
Desvio de sentido: é preciso, para garantir a credibilidade do dizer místico, assegurar sua ligação sem falha com os rituais discursivos da teologia mais inflamada, ao risco de ver essa palavra se extinguir sob a cinza dos palavras assim dispostos em seus arredores.
Sem dúvida essa rede de preces e devoções, de relatos da Paixão e de glórias marianas, parece vir aqui como sobrecarga de obscuridade — mas onde, nesse emaranhado de signos convencionados e codificados, o falar místico poderia ainda se formular?
Lição de trevas: a Pérola dispõe tudo o que é preciso de obstáculos à sua escuta, de ruídos ao contrário de seu dizer, de razões de obscurecimento contra seu brilho, para que a prova de que ela trata seja ao mesmo tempo a prova atravessada em sua escrita mesma.
Era preciso, obstinadamente submetida às leis de um gênero ao qual ela se furtava porém, que se traçasse, no corpo mesmo dessa retórica, a necessidade de sua ruína.
A Pérola é essa ferida que, desde então, calmamente escoa.